CAPÍTULO 07: LITURGIA DESPRETENSIOSA
Aquela era uma austeridade do seu comum cotidiano na Romênia, a manhã em jejum foi breve pela firmeza ritualística, a família Moldoveanu estava pronta para conhecer o novo lugar. Juntos, foram conduzidos para a praça central, se deparando com uma construção enorme, antiga e de um padrão memorável.
Os vitrais soavam renomados, mesmo do lado de fora, os mínimos detalhes das cúpulas eram gravados com elegância em um azul puro e de um dourado sublime, a estrutura beirava as caiadas brancas com uma fachada de pedra, e as portas estavam abertas.
A iconostase era um contraste belo contra o salão vazio de móveis, com pingos ajoelhados, as pessoas presentes marcavam presença tão cedo quanto a família visitante. O espaço se abria em cores e símbolos, as pinturas realistas em credo, da porta real saia o padre, provavelmente estava pronto para realizar a proskomedia.
A liturgia estava para começar a qualquer instante, o cheiro de incenso o envolveu primeiro, depois veio o som grave do coro, que parecia vibrar nos ossos mais do que nos ouvidos. Diante dos ícones, todos faziam o sinal da cruz com lentidão, beijavam as imagens, acendiam velas.
Ele repetiu o gesto, ainda com a sensação de que era observado por aqueles olhos pintados que nunca piscavam. Sentia tudo começar muito rápido, seu despreparo era notável, a linguagem carregada de uma aura desconhecida com uma essência da qual já havia presenciado.
O incenso pairava pesado no ar, como se o teto estivesse suspenso por fumaça. O coro entoava em vozes graves, repetitivas, que pareciam mais antigas do que ele mesmo. Lucian não entendia cada palavra, mas sentia que algo, invisível, atravessava o espaço. Quando o padre ergueu o cálice dourado, a multidão silenciou: era como se o mundo inteiro coubesse naquele gesto.
Em seguida, cantaram os salmos. Depois, o padre saiu em procissão com o livro do Evangelho. O povo se inclinou, alguns tocaram no chão. Mais tarde, a grande entrada: dois acólitos levaram velas, e atrás deles o padre trazia o pão e o vinho cobertos por véus bordados. Tudo era lento, solene, como se cada movimento fosse um idioma próprio.
Tudo parecia menos ordenado, mas mais vivo: cada vela acesa, cada beijo nos ícones era uma conversa particular com Deus. Lucian percebeu que ali não havia espaço para distrações: o espaço inteiro era um sussurro de eternidade. Apesar da comunhão que guardava em seu coração, sua mente ainda era perturbada por pequenos feixes de luz, daquele raio de sol.
Aproximava-se do fim da eucaristia, sentia pelo menos que estava chegando a esse ponto, o ambiente não parecia ter um quê daquele garoto de forma literal, mas simbolicamente, estava em tudo. Havia virado conceito e se instaurado nas minúsculas causas, sem precisar de contexto para ser convocado.
Seus pais pareciam contentes, mesmo não sabendo falar uma palavra sequer em português, pareciam estar menos melancólicos com a mudança repentina. E com o luto.
Aquele funeral foi desumano e dissonante da verdade daquela família, eles deveriam ter ficado por mais tempo e dado a Mihai o que ele merecia, um funeral adequado, mesmo que por três dias ao invés de uma semana, mas um pouco mais do que só três horas seria melhor do que isso.
Sabia que a culpa ruminava os corpos e mentes deles, foram tão decididos em delegar à migração o favor de fortalecer laços com os parceiros econômicos, devido à perda.
No entanto, quem lidava com o luto reafirmando parceria? Pouco sabia sobre o mundo adulto, mas tinha direito de pensar sobre tudo aquilo, afinal, estava sendo diretamente afetado.
Estava preso em um luto, em um continente totalmente diferente, onde o calor parece querer consumir tudo ao seu redor, a vida era uma experiência diversa em cada pessoa daquele país.
Não era rígida, restrita e plenamente virtuosa, cada um tinha seus valores, e sem contradição alguma, pois de alguma forma, tudo se complementava da forma mais maliciosa e clemente possível.
Não que em seu país, não existisse pessoas que vivessem a própria vida do modo que bem quisessem, mas o respeito à formalidade, à família e à tradição ainda era bem fiel ao estilo de vida comum. Seu avô, naquela noite, havia dito coisas controversas, mas agora, vivenciando o que havia considerado baboseira, entendia-o melhor do que nunca.
Se ele estivesse ali, o que seria improvável, pois não estaria naquele país se ele estivesse vivo; manifestaria suas últimas questões com a pessoa que o fez questionar as coisas ao seu redor.
Sua liberdade o afetava, porém, não pelo o que ele achava, Miguel pensava que era causado por ele ir contra ao que Lucian acreditava, mas longe disso; nunca havia visto alguém ser virtuoso e ainda ter sua total liberdade.
Aquele apelido, como Deus, talvez ele flertasse com essa possibilidade, de ser livre e virtuoso, ser divino. Mas com nome de anjo, seguindo ainda aquela via como pretende da anarquia, fazia dele o beijo de Judas. Um anjo caído. Ele era o rebelde com causa mais justificada e benevolente que havia conhecido.
Entretanto, ainda precisava tomar cuidado ao voar, se voasse muito perto do sol, suas asas poderiam derreter; e apesar de já estar sendo queimado por este, também era portador da luz. Precisava, com urgência, incendiá-lo de volta, ensiná-lo que ele não era o único que sabia abalar o sistema do outro.
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Espero que tenham uma boa semana, até o próximo domingo ☀️