CAPÍTULO 09: BONANÇA SEM CRÉDITO
No dia seguinte, durante o segundo intervalo, o grupo se reuniu no pátio para definir os demais tópicos para a Feira de Literatura. Havia uma discórdia implícita, nem mesmo mediação era possível, o silêncio sórdido beirava a tensão que se criava e reinventava cada vez pior.
Era uma terça-feira nublada, o país tropical acompanhava as nuances sociais mutuamente; Miguel era fluente no quesito charme e aos poucos, conseguiu quebrar parte da barreira dos conceitos pré-formados pelos boatos. Estes sendo os quais Lucian ainda não sabia a origem e de que se tratavam.
Tudo foi muito repentino, jogado do estado de luto ao outro lado do planeta, de uma breve conciliação estruturada ao silêncio gritante sequenciado de um quê não dito. Era um péssimo adivinho, jamais saberia por conta própria o que exatamente fez para ser deixado de lado sem um aviso prévio.
Mas uma coisa que todos concordavam em teoria, naquele grupo, era a questão da condição humana. De certo, um quê tão sóbrio de se estudar e ainda apresentar ao mundo a sua própria lástima. Quem em sã consciência tendia a querer entender a si próprio e aos outros, considerando que há sandice e tudo de ruim nesse meio repetitivo secular?
Marina foi quem cedeu primeiro naquela roda, ela era do mesmo ano, de outra turma, com Diego. Ela segurava um caderninho croquis, rabiscando algo, dispersa, balbuciava e consequentemente chamava a atenção do grupo para si. O olhar tênue daquela tensão atmosférica fez ela tamborilar e piscar grosseiramente.
— Então, precisamos de um tema, gente — seguiu rabiscando com mais pressa.
— Pessoal, a feira está aí — diz, estalando os dedos com um sorriso de quem sabe incendiar algo privado. — Precisamos de um tema que não seja só um título no cartaz, mas que dói para pensar. Algo que faça o público sair daqui se questionando.
E a fagulha havia tomado forma, todos reunidos em fusão de algo maior, haviam sido convocados com aquela voz de entoação certeira de Kael. Como um chamado para uma guerra da qual seu líder garantia que venceriam. Tinha seus méritos ser reconhecido por muitos.
Um jovem de expressão ácida e covardemente cínica, estava em pé, completamente caricato de intenção.
— Tudo dói para pensar quando você não toma um analgésico, Kael — começou, pairando ambas as mãos na mesa redonda do pátio, encarando breve o rosto de Lucian que transmutava. — 'A Angústia da Existência' e fim de papo. Clichê, mas vende.
Apesar do susto, Lucian ainda observava a dualidade, Carlos era uma versão mais hostil e menos gentil de Kael. Ele era afiado como uma lâmina que ficava cega muito rápido, e os olhares entre ele contra Kael eram igualmente tensos, algo ali era estranho. Mais uma amizade estranha de seu colega.
— Muito vago, Carlos. — Começou Pedro, outro amigo, mas não PH. — Precisamos de um escopo teórico — exclamou ajustando o óculos e falando mais para o caderno em sua mão do que para o grupo — 'As Manifestações do Trágico na Sociedade Pós-Industrial'.
Silvia que estava só observando, riu sem som, mas sua tentativa de conter foi repudiada por Pedro que entregou um olhar meia lua preciso e de escárnio. Revirando os olhos, ela olhou para Marina, por cima do caderninho, que estava desenhando flores nos cantos da ata, com anotações bagunçadas e disformes.
— Ou só 'A Condição Humana', isso basta — tentou, Marina, sem levantar os olhos, sob um fio de voz que todos pararam para ouvi-la. — É grande o bastante para caber a angústia do Carlos, o trágico do Pedro... e tudo mais. — Ela finalmente olha para Kael, com um pequeno sorriso. — É um mapa. Cada um pode traçar seu próprio caminho dentro dele.
O silêncio se estende, sem tensão dessa vez, o tema é amplo, mas perfeito, todos sentem isso. Enquanto contemplavam a vastidão de correntes e lentes em um conceito pequeno, o sinal para as DEOs ressoava. Cada um seguiu rumo para seu próprio canto, Kael foi para a sala do clube de culinária.
Pedro e Carlos seguiram Camila que era o silêncio equivalente de Lucian, ela tinha aqueles olhos de quem não confiava, de quem consumia tudo sem filtrar a informação. Silvia e Marina permaneceram mais um tempo com ele em um silêncio desconfortável.
— Ah, Lucian — Silvia disse, quase se arrependendo — sou voluntária da bibliotecária, bem, na biblioteca. Então, é, bem, assim — seguiu com mais alguns conectivos sem sentido —, cuidado com os livros no chão e aproveite o café, sou eu quem faço pra ela.
Disse depressa, puxando Marina pelo antebraço e saindo com mais pressa ainda. Estava sozinho, e se inscrever nas mesmas DEOs que Kael não garantia muita coisa. Apesar de escolher ambas as classes teóricas disponíveis, eram só o mínimo necessário, duas DEOs, e ainda as mesmas dele.
O período corria enquanto se refugiava na biblioteca, mesmo com a declaração estranha de Silvia ser voluntária, não havia a visto ainda por lá. Talvez fosse proposital isso também, talvez os espinhos de Lucian, estivessem filtrando demais Kael, tornando-o um mero feixe de luz.
Precisava se afastar depois que isso terminasse, não poderia continuar ofuscando um raio de sol, isso era um pecado. Não iria assumir com recalque, mas estava gradualmente cessando a ocupação charmosa e angelical de seu colega, com a sua austeridade rígida de outro lugar.
Quando as DEOs de cada um do grupo do dia chegaram ao fim, se reencontraram no caminho para fora da escola, e Kael com um sorriso mágico se aconchegava em sua eloquência, concluindo com beleza natural o seu ponto de vista. Algo ainda faltava naquela situação toda.
— É isso. 'A Condição Humana'. Sem restrições. Cada um pega a faceta que mais queima dentro de si — arrastando um olhar vitorioso para os outros membros do grupo, varreu-os novamente, estratégico. — Mas um projeto grande precisa de alicerces fortes. Como vamos dividir?
Estavam na saída, enfim, e Carlos sorria ácido quando sugeriu:
— Que tal irmos ao parque municipal? Daí podemos continuar planejando e debatendo as coisas do projeto.
Um silêncio risonho iniciou e foi cortado bruscamente por Lucian que negou; ele não diria o porquê, e nem pretendia revelar, quando Kael tomou a fronte entre todos que se erguiam em hostilidade premeditada. O pedante esquisito se acha grande coisa para não ter que ir a uma praça. Era implícito, mas sentia em seu âmago essa afirmação na mente deles.
— Fique tranquilo, Lucian — Kael tomou a atenção de todos que trocaram a expressão rapidamente. — Eu te envio as nossas resoluções mais tarde. Não se preocupe com as poucas coisas.
Ficou subentendido que Lucian precisava resolver alguns problemas e não poderia acompanhá-los, graças ao seu benfeitor. Agradeceu-o mentalmente como uma reza metódica e robótica, mas sincera. Despediram-se sem mais problemas e conceitos formados nas entrelinhas sociais.
Ansiava aquela liberdade, a experiência de ser natural, o azul dourado e pungente daquele céu, o canto dos pássaros selvagens. A folha que cai e voa para diferentes lugares, a estrela que é cadente, o andarilho que também soube ser malandro nas grandes fases da vida. Mas não era nada além de filho, membro da família Moldoveanu.
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Espero que essa semana passada tenha sido boa e desejo-lhe que a próxima seja melhor, até logo ☀️