
O rapaz caminhou com seu sapato de cor vermelha e preta até ficar perto de Amon. Seus olhos azuis o observavam com muito cuidado, enquanto esperava alguma ordem do superior.
— Muito bem! Vejo que tem bastante coragem, cabelos brancos. Diga para nós, qual é o seu nome? E por qual motivo está aqui? — Amon perguntou, falando de forma bastante lenta.
O jovem deu um leve suspiro e virou seu rosto para a multidão, fazendo com que seu cabelo balançasse de um lado para o outro, até repousar sobre metade da própria cara.
— Meu nome é Îukarana Silva. E estou aqui… — Ele para, pensa por um tempo, sua testa se franze, seus dentes rangem e seus punhos se fecham — Para me tornar o Sentinela mais forte do país e então matar todos os traidores de nossa pátria!!!
Ele falou em tom bastante alto e forte, enquanto segurava sua camisa regata branca com chamas nas bordas inferiores.
Amon arqueou uma de suas sobrancelhas, a multidão começou a comentar sobre a fala de Îukarana.
— Do que esse maluco está falando? — questionou Arthur, colocando as duas mãos na cintura.
— Também não sei! — respondeu Fernanda.
Amon estalou os dedos, fazendo um som tão forte que fez todos ficarem em silêncio.
— Poderia ser um pouco mais claro com suas declarações, Îukarana? — Amon indagou.
O rapaz se virou para Amon, apontou seu dedo indicador para ele, então rangeu os dentes novamente.
— O nosso país está do jeito que está porque os nossos líderes são umas putinhas dos estrangeiros de merda que sempre fodem nossa gente. Então decidi que eu mesmo vou mudar nossa nação! — Ele falou, com a voz grossa e olhos fixos nos olhos de Amon. — Vou me tornar o mais forte Sentinela do Brasil e depois vou exterminar cada político liberal e progressista dessa nação! Todos os líderes que se ajoelham para ONGs, governos europeus e americanos, vão morrer!!
Arthur arqueou uma das sobrancelhas. Passou uma das mãos sobre o próprio cabelo e tomou um suspiro lento e pesado.
— O que está pensando, Arthur? — André o questiona.
— Esse Zé ruela aí parece ser bem estranho. Esses papinhos tortos dele aí. Não sei não em.
— É melhor a gente ficar de olho nele. Muita coisa interessante pode sair desse cara aí — pontuou Fernanda.
A multidão se descontrolou, alguns começaram a xingar o rapaz, outros davam risadas.
— Îukarana! Acho que isso é o suficiente. Vou gostar de saber mais sobre você, lá dentro, na sala de aula. Caso consiga passar nesse teste — falou Amon, apontando seu dedo para o castelo e dando dois passos para o lado, permitindo a passagem do garoto.
Ele então deu um sorriso de canto de boca e caminhou, passando ao lado de Amon, sem o encarar.
Îukarana parou perto da barreira negra. Tão perto que se ele desse mais um passo, com certeza atingiria-a.
A observou por alguns segundos, então levou uma das mãos até ela, de forma lenta, cheia de cuidados. A respiração do garoto parecia ficar cada vez mais pesada. Seria uma enorme vergonha ser reprovado depois de fazer aquele mini discurso.
Porém, a humilhação não seria algo que o universo o daria, já que quando sua mão relou na barreira, ele não sentira nada.
Um suspiro de alívio fora dado no mesmo instante. Então, sem perder mais tempo, Îukarana virou seu olhar para Amon e disse:
— Irei te esperar lá, Amon.
"Pior que, pensando bem. Essa porra desse velho vai ser nosso professor? Vagabundo nem se apresentou direito, esperar o que dessa porra, né?", pensou Arthur.
Toda a multidão observava com muita atenção, e ao ver Îukarana ultrapassando a barreira, começaram a bater palma.
— O primeiro já foi, quem será o próximo? — perguntou Júlia.
Vindo da primeira parte da multidão, um homem parecia estufar o peito e caminhar na direção de Amon. Seu cabelo liso e esverdeado balançava de um lado para o outro a cada passo dado.
Suas mãos estavam suando muito, todos conseguiam perceber, já que o garoto ficava passando-as em sua camiseta preta longa.
— Vamos lá, diga-nos quem você é — disse Amon.
Por um tempo o garoto ficou em silêncio, mas com muita calma ele começou a falar.
— Eu me… chamo — disse ele, gaguejando, mas ainda assim mantendo uma voz alta. — Kaike! Tenho 18 anos! Vim do Mato Grosso do Sul. Tenho o sonho de ser um "Sentinela" para ajudar os mais fracos! Para ajudar a minha família…
A fala de Kaike ecoou por todos os lados, mas não arrancou nenhuma emoção de ninguém, a não ser de Arthur.
— Que lindo, cara! — Arthur falava, passando a mão no rosto, parecendo chorar muito.
Júlia se aproximou dele, deu um soco na costela dele.
— Para de caçoar do menino!! — falou ela, com a voz alta, enquanto franzia a testa.
— Ai! Ai! Ai!! Desculpa Jú!
— Desculpa nada!! Não pode ficar zoando! No mínimo ele está lá tentando, diferente de você que está apenas olhando e não foi lá primeiro.
— Pior que é… — Arthur falou, abaixando a cabeça.
Amon assentiu com a cabeça, enquanto soltava um leve sorriso.
— Se é só isso que você nos tem a dizer, por favor vá logo fazer o teste!
E assim ele foi. Kaike estava diante da barreira, diferente de Îukarana, ele não esperou, levou as duas mãos na barreira, mas diferente do que ocorreu com o primeiro participante do teste, as mãos de Kaike pareciam tocar em um enorme muro.
Os olhos do garoto se arregalaram, suas pupilas diminuíram e seu corpo ficou imóvel. Os dentes do garoto começaram a se chocar um com o outro.
— Não… Não pode ser… Eu realmente tenho que passar nesse teste! Senhor Amon, pode me dar uma segunda chance, por favor? — Kaike falou, com a voz alta, enquanto virava seu rosto para o professor, que apenas o olhava sem emanar nenhuma reação.
Amon balançou sua cabeça de um lado para o outro, não disse mais nada. Porém, aquilo fora suficiente para Kaike entender. O mesmo agora sem ter o que fazer, pressionou seu corpo para frente, achando que se talvez usasse um pouco mais de força, quem sabe pudesse passar, mas ainda assim, para ele, parecia estar empurrando um muro enorme, que não se mexia de forma alguma.