— Acho que essa conversa vai ser divertida.
A frase do Poseidon daquele outro mundo permaneceu ecoando pelo salão.
Ninguém sabia exatamente como reagir.
O Poseidon daquela realidade continuava de pé, encarando sua própria variante através do espelho mágico. Seu rosto permanecia sério, mas seus olhos demonstravam uma mistura de irritação e incredulidade.
Boitatá, por outro lado, decidiu quebrar o silêncio.
— Certo...
Ele cruzou os braços.
— Já que você apareceu através de outro universo e aparentemente conhece todos nós, poderia começar dizendo por que está entrando em contato?
O Poseidon do outro mundo sorriu.
— Ah, finalmente uma pergunta inteligente.
Boitatá arqueou uma sobrancelha.
— Eu estava sendo educado.
— Eu sei.
O Poseidon riu.
— Mas tem uma coisa que você entendeu errado.
Ele apontou para si mesmo.
— Eu não sou um deus.
O salão ficou em silêncio.
— Sou um Guardião.
Anúbis estreitou os olhos.
— Guardião?
— Exatamente.
O outro Poseidon apoiou os braços atrás da cabeça.
— E, pelo que estou vendo, vocês deveriam ser Guardiões também.
A expressão de Anúbis mudou imediatamente.
— O que exatamente quer dizer com isso?
O Poseidon alternativo sorriu de canto.
— Perguntem aos seus próprios líderes de panteão.
— Eles sabem muito mais do que imaginam.
Poseidon levantou-se.
A cadeira arrastou-se contra o chão.
— Chega de enigmas.
Sua voz tornou-se grave.
— Você atravessa uma barreira entre universos, aparece diante de nós, insulta minha aparência e agora diz que deveríamos ser alguma coisa que nem sequer conhecemos?
Ele caminhou até o espelho.
— Diga logo o motivo desse contato.
O outro Poseidon colocou uma das mãos sobre o peito.
— Nossa...
— Que autoridade.
Ele aproximou o rosto da projeção.
— O tempo realmente fez muito mal para essa minha variante.
Alguns dos presentes desviaram o olhar.
Poseidon cerrou os dentes.
— Diga o motivo.
— Ou vai conhecer a fúria dos oceanos.
O Poseidon alternativo abriu um sorriso.
— Aí está!
— Essa frase eu conheço.
Ele começou a rir.
— Mas me diga uma coisa...
Seu sorriso tornou-se provocador.
— A Thalassa desse mundo tem orgulho de você?
Poseidon congelou.
O sorriso do outro aumentou.
— Porque, sinceramente...
— Olhando para você agora, começo a entender por que algumas versões de nós preferiram abandonar certos títulos.
Poseidon deu um passo à frente.
— Cuidado.
— Você pode ter poder...
— Mas continua sendo apenas um homem.
O Poseidon alternativo apontou para ele.
— Exatamente!
Ele riu.
— Um homem com um pouco mais de poder do que um mortal comum.
A expressão de Poseidon endureceu.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Sei o suficiente.
— E é justamente por isso que estou tentando evitar que você descubra certas coisas da pior maneira.
Antes que a discussão aumentasse...
— Chega!
A voz de Amaterasu ecoou pelo salão.
Todos ficaram em silêncio.
Ela encarou primeiro o Poseidon de seu mundo.
Depois a versão alternativa.
— Não nos reunimos para discutir qual Poseidon é mais poderoso.
O outro Poseidon levantou as mãos.
— Finalmente alguém sensato.
Amaterasu respirou profundamente.
— Você nos procurou.
— Então explique por quê.
Por alguns segundos, o sorriso do Poseidon desapareceu.
Ele olhou para todos os presentes.
— Não fui eu quem queria falar com vocês.
Amaterasu franziu a testa.
— O quê?
— Eu apenas abri o caminho.
Ele se afastou.
— A pessoa que realmente queria conversar está esperando.
Uma segunda figura aproximou-se da transmissão.
A silhueta surgiu lentamente no espelho.
Um homem de cabelos negros e expressão séria.
Seus olhos não demonstravam ironia.
Nem arrogância.
Havia apenas uma calma profunda.
Uma calma quase desconfortável.
Ele parou ao lado de Poseidon.
— Meu nome é Loki.
Ninguém respirou.
— Filho de Odin.
Ele fez uma breve reverência.
— Príncipe de Asgard.
Uma pausa.
— E Guardião do Fogo.
— IMPOSSÍVEL!
Ísis levantou-se abruptamente.
Sua voz ecoou pelo salão.
— Loki?
Ela apontou para o espelho.
— Guardião?
— Isso é impossível!
Boitatá também se levantou.
— Ísis tem razão.
— A origem de Loki é conhecida por todos os panteões.
— Ele é descendente dos gigantes de gelo.
— Um dos Yotuns.
O Loki alternativo permaneceu completamente imóvel.
— Eu conheço essa história.
Sua voz era tranquila.
— Porque ela também existe no meu mundo.
Ísis franziu a testa.
— Então como você pode ser um Guardião?
Loki respondeu:
— Porque nascer de determinada linhagem não determina aquilo que você escolhe ser.
Silêncio.
Ele continuou.
— Minha origem explica de onde vim.
— Não determina para onde vou.
Poseidon cruzou os braços.
— Ele é assim mesmo.
— Fala como se estivesse escrevendo um livro.
Loki sequer olhou para ele.
— Algumas pessoas precisam de piadas para suportar verdades que não conseguem compreender.
Poseidon abriu um sorriso.
— Viu?
— É exatamente por isso que somos amigos.
Amaterasu permaneceu séria.
— Ainda não entendo.
— Se você realmente é Loki...
— E se sua natureza é tão diferente...
— Então por que deveríamos acreditar em você?
Loki encarou a deusa através do espelho.
— Não deveriam.
A resposta surpreendeu todos.
— Confiança não é algo que se exige.
— É algo que se constrói.
Ele caminhou lentamente.
— Nós não atravessamos dimensões para pedir que vocês acreditem em nós.
— Viemos alertá-los.
Sua expressão ficou ainda mais séria.
— Existe algo maior do que qualquer panteão.
— Maior do que os próprios universos.
— Maior do que as linhas do tempo que vocês conhecem.
O salão permaneceu imóvel.
— Algo está interferindo nelas.
— Mundos estão se aproximando.
— Realidades estão colidindo.
— Linhas temporais estão desaparecendo.
Loki baixou os olhos.
— E quando uma linha do tempo desaparece...
— Tudo aquilo que existia nela deixa de existir.
Mari perguntou:
— Pessoas?
— Pessoas.
— Deuses?
— Deuses.
— Mundos?
— Mundos inteiros.
Ele ergueu os olhos novamente.
— E, quando o processo alcançar determinado ponto...
— A própria separação entre as realidades deixará de existir.
Anúbis apertou os punhos.
— Então o que está causando isso?
Loki ficou em silêncio.
Poseidon respondeu:
— Essa é a parte complicada.
Ele apontou para o Loki de sua realidade.
— O problema tem um nome conhecido por vocês.
Todos compreenderam imediatamente.
Loki.
O deus da mentira.
O causador da discórdia.
O homem que havia convencido os deuses a abandonar a humanidade.
Amaterasu estreitou os olhos.
— O Loki deste universo.
O Loki alternativo assentiu.
— Sim.
— Mas antes que tirem conclusões...
Ele fez uma pausa.
— Não confundam as duas versões de mim.
— Eu não sou ele.
— E ele não sou eu.
Poseidon interrompeu:
— E essa é provavelmente a parte mais importante.
Ele olhou para os deuses.
— No nosso mundo, Loki é um dos principais responsáveis por manter a paz.
Ísis permaneceu incrédula.
— Loki...
— Mantendo a paz?
Poseidon sorriu.
— Eu sei.
— Parece piada.
Loki lançou-lhe um olhar.
— Você terminou?
— Ainda não.
Poseidon voltou-se para Amaterasu.
— A verdade é que estamos tentando impedir algo que pode destruir muito mais do que apenas nossos mundos.
Amaterasu permaneceu pensativa.
— Então por que vocês precisam de nós?
Loki respondeu:
— Porque os Guardiões não conseguem fazer tudo sozinhos.
Ele respirou profundamente.
— E porque, apesar de vocês terem abandonado esse título...
— Ainda carregam aquilo que um dia fez de vocês Guardiões.
A frase atingiu todos.
Poseidon olhou para o chão.
Anúbis permaneceu em silêncio.
Boitatá estreitou os olhos.
Tsukuyomi observava atentamente.
Então Poseidon voltou a sorrir.
— Bom...
— Eu já fiz minha parte.
Amaterasu olhou para ele.
— Está indo embora?
— Sim.
— Por quê?
— Porque ficar aqui seria responsabilidade demais.
Ele deu uma risada.
— E eu já tenho problemas suficientes na minha dimensão.
Antes de desaparecer da transmissão, olhou novamente para Amaterasu.
— Ah!
— Quase esqueci.
Ele sorriu.
— Você é realmente bonita.
Amaterasu piscou.
Poseidon apontou para ela.
— Não importa a dimensão.
— Isso parece ser uma constante universal.
Kitsune levou a mão à boca para esconder o sorriso.
Amaterasu apenas suspirou.
— Poseidon...
— Certo, certo.
Ele levantou as mãos.
Então seu semblante mudou.
Pela primeira vez desde que aparecera...
Ele estava completamente sério.
— Quando o mundo de vocês começar a cair aos pedaços...
— Quando as linhas do tempo começarem a desaparecer...
— Não venham pedir ajuda.
Poseidon olhou diretamente para sua variante.
— Principalmente você.
O Poseidon daquela realidade permaneceu imóvel.
— Por quê?
O outro respondeu:
— Porque talvez já seja tarde demais.
A transmissão começou a falhar.
— E quando isso acontecer...
A imagem começou a desaparecer.
— Não culpem nosso mundo por não conseguir salvá-los.
A última coisa que todos ouviram foi:
— Nós avisamos.
A comunicação foi encerrada.
O espelho voltou ao normal.
Silêncio.
Ninguém falou durante vários segundos.
Ísis foi a primeira.
— O que...
— exatamente...
— é um Guardião?
Poseidon permaneceu olhando para o espelho.
— Essa era a natureza dos deuses.
Todos voltaram-se para ele.
— Séculos atrás.
— Antes de nossos panteões se tornarem aquilo que são hoje.
Ele respirou profundamente.
— Nós não éramos apenas deuses.
— Éramos Guardiões.
Boitatá assentiu lentamente.
— Alguns ainda existem.
Todos olharam para ele.
— Em meu mundo, ainda existem seres chamados Guardiões.
— Mas...
Ele cruzou os braços.
— Comparados àqueles dois...
— São quase insignificantes.
Tsukuyomi finalmente falou.
— Então o que fazemos agora?
Ninguém respondeu imediatamente.
Ele continuou:
— Recebemos um alerta de duas pessoas de outro universo.
— Segundo eles, o Loki desta realidade está no centro de um problema que pode atingir todas as linhas do tempo.
— Mas existe um problema.
Ele olhou para todos.
— O pacto.
Amaterasu baixou os olhos.
— Nenhum deus deveria interferir nos assuntos dos mortais.
— Exatamente.
Tsukuyomi olhou para a irmã.
— Então...
— Como impediremos Loki sem quebrarmos o pacto?
Amaterasu ficou em silêncio.
Durante alguns segundos, ninguém sabia o que dizer.
Então ela levantou lentamente o olhar.
— Chamem Hefesto.
Hachiman franziu a testa.
— Agora?
— Agora.
Amaterasu caminhou até a janela.
O sol brilhava intensamente sobre Takamagahara.
— Se os Guardiões realmente existiram...
— E se ainda carregamos parte desse poder...
Ela fechou os punhos.
— Precisamos descobrir como recuperar aquilo que abandonamos.
Poseidon levantou-se.
— E como faremos isso sem quebrar o pacto?
Amaterasu virou-se para ele.
Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.
— Esse...
— será o nosso plano.
Muito distante dali, no interior de uma forja escondida entre montanhas divinas...
Uma chama azulada acendeu-se sozinha.
Hefesto, que trabalhava silenciosamente havia dias, ergueu os olhos.
Diante dele...
Uma antiga arma esquecida começava a despertar.
E, gravado sobre sua lâmina, havia um símbolo que nenhum deus daquela geração ousava mais pronunciar.
O símbolo dos Guardiões.
Continua...