Em um enorme campo de batalha, duas nações se enfrentavam: o passado e o futuro. Neste campo, havia dois líderes — um de cada lado; ambos eram chamados de Heróis.
No céu, a Lua estava de volta.
No chão, um desses heróis batalhava valentemente — e seu longo cabelo prateado dançava pelo vento junto de sua espada suja com o sangue dos irmãos de um passado distante.
Depois do que aconteceu ontem, Dahen retornou para sua casa. Draven e Isolde me disseram para não odiá-lo e que, mesmo depois de tudo aquilo, ele tinha seus motivos para agir da forma que agiu.
Eu não sei ao certo o que eles queriam dizer com isso — talvez seja apenas em respeito ao patriarca da família —, mas não é como se eu realmente o odiasse de toda forma. Seja como for, aquele episódio me fez passar a olhar para Selene de outra forma. Acredito haver mais por trás dela do que sua tolice jovial dá a entender…
Logo, o tempo voltou a passar e a normalidade retornou. Minha relação com Selene, como esperado, mudou bastante desde então. Eu diria até que ela passou a me tratar mais como um ‘irmão mais novo’ do que somente o seu ‘pequeno mestre’…
De minha parte, passei a acompanhá-la mais no dia a dia e tentar descobrir mais sobre seu passado — algo definitivamente aconteceu com ela e sua irmã antes de trabalharem aqui, e eu quero saber o quê. De toda forma, percebi o quão equivocado e insensível fui em relação a ela, mesmo que somente em pensamentos. Claro, Selene continua sendo um pouco desastrada, mas só agora percebo o quanto ela se esforça para cumprir suas tarefas. Outra característica interessante dela é sua relação com Virian: embora ela seja rígida às vezes, é perceptível o carinho que ela sente por sua irmã mais nova; o mesmo vale para Selene.
Entretanto, algo inédito aconteceu hoje. Desde que renasci neste mundo, nunca saí dos arredores dessa casa; no entanto, hoje Selene me convidou para acompanhá-la até a vila sob nosso domínio para comprar algumas coisas — aparentemente, haverá um jantar importante em casa hoje.
As terras dessa família — a casa “Sol de Domingo” — constituem um pequeno domínio rural na região, junto de uma pequena vila habitada pelos trabalhadores. Admito estar empolgado para finalmente conhecer os arredores e ver gente nova, mesmo ainda soando absurdo saber que minha nova ‘família’ governa uma vila inteira. Os dias de preguiça realmente estão acabando…
Dada a hora, encontrei-me numa charrete com Selene do meu lado e Virian a conduzindo. Me senti como se estivesse indo a uma excursão escolar exclusiva. Durante a viagem, ocupei-me em observar a linda paisagem ao meu redor e organizar minha mente sobre os eventos recentes e me preparar para o que viria a seguir.
Observando a geografia, de fato estamos no leste do continente: montanhas, florestas exuberantes e estradas de pedra, o interior do interior da capital. Outra coisa que notei recentemente é a forma como nossa casa funciona. Não sou especialista em etiqueta ou costumes da nobreza, mas sempre achei estranho como nossa casa não é tão cheia.
Por exemplo, acredito que eu deveria ter tido alguma espécie de babá ou tutora especial para mim, mas sempre foram apenas Lyra, as irmãs e Isolde cuidando de mim. Até mesmo para conduzir essa charrete é Virian — que na teoria é apenas uma criada comum. Será que meus pais estão explorando essas mulheres?!
Ou será que minha família está… falida?
Assustado, logo percebo que enfim chegamos à vila.
Casas de madeira, de blocos, ruas de barro, ruas de ladrilho — uma clássica vila no estilo europeu localizada no interior de um país pequeno. Carroças passam com as pessoas em cima, mercadores vendendo seus produtos e crianças brincando. Até me sinto um pouco nostálgico, mesmo tendo vivido minha vida inteira na cidade grande; a falta do som constante dos carros e outras poluições sonoras é a melhor parte, definitivamente.
Observar os artesãos e ferreiros trabalhando me deixa inspirado. Imagino aventureiros passando pelo lugar para se abastecerem e partirem em novas jornadas quando os vejo trabalhando. Os guardas patrulhando as ruas, as casas bonitas, as casas feias — um ecossistema completo, nascido além do meu conhecimento.
Não deve ser fácil cuidar disso tudo. Agora entendo o cansaço constante de Draven.
— Vamos até o mercado, tudo bem, Ithy? — Selene pergunta para mim.
Acenei com a cabeça e segurei a mão dela. Virian disse precisar ir a outros lugares também, logo, nos separamos.
Selene passou, então, a descrever os lugares por onde passávamos e apresentá-los para mim. Claro, ela não sabe que eu já compreendo os conceitos de sociedade e economia, mas decido entrar no personagem e fingir fascínio. Admito que ela até que fica fofa desse jeito.
Adentrando um pouco mais o centro da vila, sou surpreendido por uma construção outrora familiar: algo semelhante a uma capela. Selene explica o que é e me convida a entrar. Lá dentro, vejo pinturas nas paredes que mostram cenas familiares — talvez somente para mim.
Esse lugar — ou templo, caso queira chamar — é uma chamada ‘casa de prece’, algo similar às capelas de verdade na Terra; porém, aqui são dedicadas aos deuses desse mundo, no caso dessa, ao deus Lythros.
Admito ter tido medo de lidar com esse assunto desde que percebi onde renasci: os deuses de Mundia, um panteão formado pelos seres que deram forma a este mundo e seus habitantes. A primeira coisa que me preocupa é o por trás da existência deles — eu claramente os inventei, ou pelo menos é o que penso.
Se os deuses desse mundo forem de fatos reais, isso faz de mim um deus também por tê-los criado? Ou será que existe algo mais poderoso por trás disso? Isso é algo que preciso descobrir logo.
De toda forma, entrar nesse lugar e olhar essas pinturas e as pessoas ajoelhadas no chão me fez relembrar quando encontrei um dos meus livros numa livraria pela primeira vez. Um sentimento bizarro e, ao mesmo tempo, catártico. Embora todos aqui se sintam como “filhos” se conectando com seu “pai”, eu me sinto mais como um avô observando seus filhos e seus netos. Assustador, para ser sincero…
Olhando para Selene, que estava do meu lado, vejo que sua expressão estava serena, como se ela estivesse em transe. Ela deve ser uma devota ao deus Lythros. Seja como for, admito que essa situação é um pouco desconfortável, tendo em vista o conhecimento que somente eu tenho; irei explicar: Lythros é um caso especial dentro do panteão — ele é o único mortal que ascendeu à divindade. Ele se tornou o deus da ordem e da justiça após absorver a divindade de Lunaris, a deusa da lua e da magia, que fora morta pelo Rei Demônio durante a Grande Guerra. Por conta das circunstâncias e do forte amor entre ambos, Lythros se tornou um deus e criou uma lança do tamanho de um prédio e a arremessou contra o inimigo.
Uma história linda e épica, claro, porém um pouco patética quando se considera que Lunaris foi na verdade baseada numa garota de quem eu gostava durante o Ensino Médio e que Lythros, quando humano, era baseado em mim — o clássico nerd desastrado, porém brilhante. Essa foi uma das primeiras histórias que eu escrevi na vida.
Desculpe, pessoal, vocês estão venerando uma versão idealizada de mim mesmo…
Mesmo assim, lembrar disso agora é irônico. Como será que essa garota — a tal musa do meu jovem eu — está agora? Eu nem me lembro mais o seu nome. Tantas pessoas que já passaram pela minha vida e que agora continuam a viver… Será que, se eu tivesse vivido um pouco mais, as coisas teriam mudado? Quem sabe, a esse ponto, eu já pudesse estar casado? E mesmo assim, quatro anos se passaram nesse mundo e eu mal percebi.
Bem, o que me resta agora é realizar as coisas que ignorei na minha vida passada. Quase como um reflexo, acabei apertando a mão de Selene forte demais enquanto refletia, interrompendo os sussurros que ela estava fazendo até então.
— Ah, desculpe, Ithy. Vamos continuar… — ela disse, limpando rapidamente uma lágrima que estava no canto do seu olho.
Com as compras feitas, é hora de voltar para casa. Observar a vila agora sob a hora de ouro (aquele período do fim da tarde quando a luz do sol parece emanar uma luz dourada) faz dela ainda mais bela. Admito que, nessas condições, até Selene parece majestosa.
— O que achou do passeio, Ithy? — ela pergunta, enquanto me ajuda a subir na charrete.
— Foi divertido! — respondo, disfarçando a vergonha.
— Que bom! — ela responde, rindo.
Virian estava guardando as compras. Percebi que ela também estava sorrindo. Ah… essa sim é verdadeiramente majestosa, independentemente da hora do dia. Agora, cruzando pela estrada, aproveito os últimos momentos do passeio junto com minhas fiéis companheiras. Até que as coisas não são tão ruins. Ou foi o que pensei.
O sol acabou indo embora mais cedo que o esperado. Logo, a escuridão tomou conta dos nossos arredores e sons estranhos começaram a surgir. Percebi que Selene e Virian pareciam tensas. Será que ainda falta muito para chegar em casa? O caminho não parecia tão longo de manhã…
Ao passar por cima de algo que parecia uma pedra, a charrete estremeceu e uma de suas rodas escapou. Que maravilha…
Virian desceu e pegou a única fonte de luz que tínhamos, uma lamparina pendurada no topo da charrete, e a utilizou para iluminar o culpado pelo nosso pequeno acidente. Para nossa surpresa, não era uma pedra, e sim, os restos mortais de uma criatura que eu nunca vi antes.
Virian e Selene se prontificaram imediatamente. Estamos em perigo.
— Selene, fique ao lado do mestre! — Virian grita, enquanto pega algo de sua bolsa: a mesma adaga que ela segurava quando Dahen gritava com Selene.
Selene me cobre com seus braços enquanto resmunga algo para si:
— Ainda não consertaram a maldita barreira…?
Todo território consideravelmente desenvolvido nesse continente é protegido por barreiras mágicas que afastam os monstros e feras perigosas. Ter uma barreira com defeito definitivamente é problema, ainda mais considerando nossa situação atual.
Sons de algo se movendo e grunhidos ferais começam a circular nossa posição. Virian os segue com sua arma, mas, se fossem muitos, ela não daria conta. Selene aparentemente não sabe lutar e acredito que nenhuma das duas sabe magia. Espera… seria esse o meu momento de brilhar? O clímax que esperei esse tempo todo?!
De repente, a fera ataca!
Algo parecido com um tigre, porém maior e mais ameaçador, vai para cima de Virian como uma lança. Parecia ter mais deles atrás, esperando suas respectivas vezes de atacar e se deliciarem com nossa carne; entretanto, mal sabem eles quem está aqui.
— Ithy?! Não! — Selene me agarra com força, cobrindo-me com seus braços como um escudo humano ao perceber minhas intenções.
— Tá tudo bem, eu posso ajudar! — tento escapar de seus braços surpreendentemente fortes, falhando.
Porém, ao vermos que Virian sofreu um ataque, o susto em Selene afrouxou seus braços por um instante e, enfim, consegui uma brecha para escapar. Agora, com Virian de joelhos no chão, era eu contra a fera. Isso não será difícil.
— Kil sa'kan'ri'an dalinan'ke pro ri'an na si'kan'al, solan kan'alalan'ke si'i Maldoryni na Talyn. Incendiar!
Uma magia simples de fogo; primeiro, recito o encantamento e imagino dentro de mim uma chama se acendendo. Um dos fundamentos da magia é a imaginação e visualização. Curiosamente, mesmo sendo a primeira vez que lanço uma magia nesse mundo, o processo é estranhamente natural para mim; isso deve ser suficiente para espantar a fera e seus amigos, porém…
— GROAAARGHKRRR!!!
Minha magia não teve o efeito esperado. A faísca foi mais forte do que planejei, incendiando toda a pele da fera: um meio-termo entre somente espantar e vaporizar instantaneamente o inimigo. Agonizando no chão enquanto tem sua pele fritada e seus nervos lentamente evaporados, acabei trazendo um fim mais que agoniante para o ser na minha frente. Ao menos, as outras feras à espreita fugiram imediatamente.
Enquanto observava a criatura queimar e o seu cheiro se levantar, percebi que meu nariz sangrava. Era a primeira vez que eu via tanto sangue nessa vida — talvez até em ambas as vidas; acabei me assustando. Virian se levantou, ainda machucada, e me olhou com olhos assustados enquanto não sabia se deveria ou não se aproximar de mim. Selene também logo apareceu, me abraçando imediatamente enquanto dizia alguma coisa junto com Virian; entretanto, eu não conseguia ouvi-las…
Logo, perdi a consciência.