Eu ia fazer o quê mesmo...?
Por que eu estou segurando a caneta apontada para aquele homem ali no meio?
Eu abaixo meu braço e coloco a caneta de volta no bolso.
— Por que parou?
Calma, isso foi a caneta?
— Aham.
Como assim, por que eu parei? Não tinha nenhum motivo para eu ter feito aquilo.
— Ué, você ia me atirar até aquele cara.
Mas por que eu faria isso?
— Ele que causou esse problema todo.
Ah, é mesmo.
Enquanto eu conversava com a “caneta”, percebi que a situação piorava a cada minuto que passava.
— Tá calado por quê, Hikai?
— Por nada.
— Hm.
— Você não quer resolver o problema?
Eu quero, mas...
— Aí, Hikai. Me entrega uma pedra aí—
No fim da frase, ele hesitou. Mas peguei a pedra de qualquer jeito e entreguei a ele.
— ...o que eu ia fazer com essa pedra?
— Você esqueceu também?
— É a oitava vez desde que cheguei aqui que esqueço algo que eu ia fazer. Isso deve ser coisa da aptidão daquele Fearer, certeza.
— Por que diz isso?
— É a primeira vez que isso acontece comigo. E, coincidentemente, em todas elas, eu estava olhando para ele.
...realmente é estranho.
Enquanto eu tentava pensar em algo, a caneta que eu tinha guardado no bolso começou a flutuar do meu lado. Eu pensei que o poder tivesse desativado...
— Ficar parado não vai mudar nada, Hikari.
Eu sei, mas... o que a gente faz?
— Atacar ele.
...
*Por que você faria isso—
Ah, realmente é algo estranho.
— Você pode fazer o que quiser aí, mas eu vou até ele.
Espera um pouco!
A caneta, que parecia ter começado a ir na direção do homem, parou no meio do caminho. Reizan ficou encarando a caneta com uma expressão de curiosidade meio estranha.
Você não vai conseguir fazer nada contra ele.
— Eu sei, mas consigo pegar ele de surpresa.
— Se você vai hesitar tanto, acho que não tenho escolha a não ser tentar fazer tudo por conta própria. Mas vou esperar para ver se você pensa em algo.
— Reizan-san, aquele homem é que causou esse acidente todo, certo?
— Acho que foi, sim. Por quê?
— Por que ele está fazendo isso?
— Eu não tenho certeza. Ele não veste nenhum pedaço de roupa ou acessório específico que me faça ter certeza, mas acho que ele é de um grupo de Fearers terroristas.
— Q-Quê? Isso existe?
É um problema bem grande.
— Pois é, né. Vamos lá bater nele.
Só espera eu pensar mais um pouco, por favor.
— Existe, mas eles não eram tão ativos até pouco tempo. Eu não vou dar muitos detalhes, mas eles sempre fazem coisas assim, e fazem porque acham que estão fazendo a coisa certa.
— É loucura...
— Sim, por isso que a gente—
— De novo isso. Do que estávamos falando?
— Sobre a organização terrorista de Fearers.
— Ah, sim. Mas, então, Hikai. Eu tenho quase certeza de que o poder dele tem a ver com essa sensação de “corte” estranha.
— Você tem alguma teoria do que é?
— Nenhuma. Mas, se isso continuar, muito mais pessoas vão se ferir do que eu gostaria.
Caneta, está aí ainda?
— Estou sim. Eu tava ouvindo a conversa de vocês aí.
Você tem alguma ideia do que pode ser?
— Não, e nem quero pensar nisso. Meu objetivo e propósito é impedir aquele cara.
Posso só tentar algo antes?
— ...
— Reizan-san, tenta arremessar essa caneta até aquele homem.
— Tá.
Reizan segurou a caneta que estava flutuando no ar e então começou a mover os braços para arremessá-la. Como esperado, ele parou no meio do movimento. Mesmo sem tê-la arremessado, a pressão do ar que foi criada era realmente forte.
O forte vento em direção ao homem conseguiu alcançá-lo, fazendo com que ele nos percebesse.
Naquele momento, ele parou de rir e se virou para o nosso lado. O rosto dele era estranhamente sério, e o olhar, perturbador. Por mais que tenha ficado nos encarando, o homem não começou a falar em nenhum momento.
— Ele nos percebeu, Reizan-san.
— Dizer o óbvio é tudo que sabe?
— Pois é.
— Ele está nos olhando de uma forma bem estranha. O que fazemos?
— Sei lá, cara. Você que deu a ideia de eu arremessar a caneta em alguém que estava quieto.
— Eu já sei o que fazer. Me acompanha.
Vai com calma—
— Reizan-san, segue a caneta comigo aí.
— Isso é bem ridículo.
— Só aceita.
Enquanto andávamos em uma velocidade meio alta, seguindo a caneta, o homem se virou completamente em nossa direção e parecia muito confuso.
— POR QUE ESTÃO VINDO ATÉ MIM?!
Ele gritou e, logo em seguida, Reizan o respondeu.
— Relaxa, a gente só vai dar uma olhada.
Ele parecia não ter percebido a caneta flutuando, o que era uma coisa boa.
Toda vez que um objeto está vivo, minha marca coça. É meio irritante, mas eu devo ficar acostumado.
— Por que você está no meio da rua nessa confusão toda?
...
O homem ficou calado de novo. Não porque parecia ter hesitado, mas porque parecia simplesmente se recusar a responder. A cada passo que dávamos, ele ficava visivelmente mais irritado.
— Distrai ele.
Que?
— Só distrai ele.
Tá, então.
— O que aconteceu aqui? Você estava na confusão desde o começo?
— Não vou te responder.
Ele é um problema.
— É sério, como isso aconteceu?
Enquanto eu tentava distraí-lo, pude ver a caneta dar uma meia-volta pelos escombros, chegando atrás dele.
O que você vai faz—
A caneta, que estava atrás do homem, começou a ir em direção a ele.
Reizan, calado até então, percebeu minha tentativa de distrair o homem e tentou me ajudar, eu acho.
— Você tá machucado aí?
— Não irei responder.
Até isso?
A caneta o acertou bem no braço e, por mais que o braço não tivesse sido realmente machucado, ele pareceu preocupado com o que o atingiu.
— Seu—
Ele finalmente falou algo diferente de “Não irei responder” e estava cada vez mais irritado.
— O QUE VOCÊ FEZ?!
Você acertou ele direito?
— Não tem muito o que uma caneta como eu fazer.
Tenta chamar a atenção para você agora, por favor.
— Certo.
Me abaixei e peguei uma pedra de tamanho médio, que estava perdida no meio dos escombros. Não é seguro, mas não tenho escolha.
Funciona, vai...
— Reizan-san, tenta fazer alguma coisa, mas não o machuque.
Enquanto segurava a pedra, fixei minha visão no homem que estava furioso diante de nós.
— Beleza, mas o que você espera que eu faça? Eu já não ia acertar alguém por nada. Não precisa me avisar.
Finalmente, senti uma energia vindo da pedra.
Temos que conseguir parar—
...
De novo essa sensação. É bem como o Reizan falou mesmo. Eu não consigo pensar direito quando tem relação com esse cara.
— Eu já posso ir?
Ir onde?
— Acertar ele.
Espera—
Diferente da caneta, a pedra não esperou ou tentou me ouvir. Assim que terminei meu pensamento, ela foi voando em direção à perna dele.
— O qu—
Quando a pedra acertou a perna dele, e a caneta presa ao braço dele também, ele entrou em desespero.
— P-Pare!! Como você consegue me atacar?! NÃO ERA PRA NINGUÉM CONSEGUIR ENQUANTO EU TIVES—
Tivemos muita sorte de que ele tivesse baixado a guarda. No momento em que começou a gritar, ficou totalmente indefeso e parecia nem prestar mais atenção aos arredores.
Em um piscar de olhos, quando Reizan pareceu ter entendido alguma coisa e arregalou os olhos, ele sumiu de onde estava e apareceu atrás do homem, nocauteando-o.
— Caraca...
Relaxei e, pela primeira vez, consegui contribuir em algo. E, dessa vez, consegui tanto ativar quanto desativar meu poder por vontade própria.
Dessa vez... eu fui até que útil.
— Esse foi bem problemático.
Ele ficou olhando para o homem desacordado por um tempo.
— Mas é isso. Daqui a pouco, o trânsito volta ao normal sem precisarmos fazer mais nada. Não podemos parecer que fomos os culpados pela resolução, ou podemos atrair atenção desnecessária.
— Ah, tá.
— Tivemos sorte que ele se descuidou e que a fumaça provavelmente tampou a visão de todos aqui. Volta pra sua casa e faz qualquer coisa. Não temos mais nada para fazer aqui.
— Mas o que era a aptidão dele?
Reizan ficou em silêncio por alguns segundos.
— Não é relevante agora. Vamos logo. Estamos perdendo tempo.
E assim, o acidente deve ter sido resolvido.
Enquanto saíamos da cena do acidente, finalmente pude ouvir o som de ambulâncias e bombeiros chegando ao local.
Aquele Fearer provavelmente estava influenciando nisso.
Será que meus pais conseguiram voltar para casa em segurança?