Duas semanas se passaram em um piscar de olhos. Nesse tempo, não aconteceu muita coisa relacionada aos Fearers no geral. O Reizan também sumiu, e não tive mais nenhuma notícia dele.
Na escola, aquela garota, Mayuki, continuou indo para o mesmo lugar no intervalo, mas nunca trocamos mais uma palavra sequer. Na verdade, foi até mais confortável do que quando ela tentava conversar comigo.
O Yuu também não conversou muito comigo, mas, às vezes, ele me perguntava alguma coisa sobre a aula.
No fim, minha rotina continuou praticamente a mesma.
— Ô, Hikari-kun, cê fez a questão 4?
Levantei a cabeça da mesa e olhei para o lado. Era o Yuu.
— Quê?
— A quatro, da página 26.
Ah... essa.
Peguei meu caderno, procurei pela questão e mostrei a resposta pra ele.
— Valeu.
— Mhm.
Espero ter conseguido falar que nem gente normal.
Naquele barulho todo na sala de aula, o ventilador conseguia abafar um pouco dos sons. Era melhor do que escutar as conversas dos outros.
Era só o segundo período e já estavam tão animados às oito da manhã. Desagradável demais...
Nesse tempo, eu também tentei me acostumar mais com minha aptidão, mas ainda não acho que consigo dizer, com confiança, que consigo usá-la bem.
— Triiiim.
Vou só abaixar a cabeça na mesa e cochilar até o intervalo. Esse professor geralmente não implica muito com isso.
Que friozinho bom...
E então, o sino tocou novamente. Como sempre, fui ao "meu lugar", mas a Mayuki já estava lá. Vou só ignorar e me sentar aqui mesmo.
— Você sempre fica sozinho aqui, né?
— ...
— Sabe, às vezes é bom ter com quem conversar, mesmo que seja pouco.
Eu não quero sua 'piedade'...
— Hm.
— Eu sei que você gosta de paz, mas uma conversa normal não vai te matar, sabe?
Você fala isso porque não tem dificuldade com esse tipo de coisa.
— Mhm.
— Você estava indo em direção ao acidente aquele dia, não estava? O que você foi fazer lá?
— Curiosidade, só.
— Não se machucou, né?
— Não.
Aliás, eu devia perguntar do tornozelo dela...
— E-E, aliás, o que aconteceu com seu tornozelo? Você não parecia machucada na escola um dia depois do acidente.
Ela arregalou um pouco os olhos e, enquanto parecia meio surpresa, também parecia estar tentando falar algo, mas não conseguia.
— Foi só… superficial.
— Hm. Entendi.
Ainda é meio estranho, pra ser sincero.
— Mas, sério mesmo. Você podia conversar um pouco mais. Eu não me importo de conversar um pouco se você tiver alguma dúvida ou algo do tipo.
...
É questão de não querer.
Não sei como estava minha expressão naquele momento. Imagino que não consegui manter uma expressão normal. Me virei pro lado e tentei falar normalmente.
— Tá.
Eu praticamente nem conheço ela. Não sei se estou irritado ou não. Tudo que eu quero agora é que esse momento acabe.
...
Ela não falou mais nada depois da minha resposta. Depois das aulas, cheguei em casa mais rápido do que o normal e só peguei um copo de café depois de cumprimentar meu pai.
É meio estranho sempre chegar em casa com meu pai na sala, e vai saber em que canto minha mãe em que canto da casa ela tá.
Acho que ela me evita desde aquela coisa. Não é uma memória satisfatória.
Me lembro daquele dia como se fosse hoje.
Cerca de dois anos atrás.
— Oi, pai, mãe. Cheguei.
— Bom dia.
— Onde a mãe tá?
— Ela está fora por enquanto. Se quiser esperar por ela, eu recomendaria esperar no seu quarto.
— Vai demorar?
— Talvez.
Após escutar essas palavras, fui pro meu quarto jogar um pouco.
Alguns minutos se passaram, e a porta abriu. Mas consegui escutar a porta bater quando foi fechada.
— Não dá, Yasashi.
— O que aconteceu?
Acho que vou ir lá cumprimentar el—
— O Hikari é praticamente inútil. Do que adianta ele estudar, mas não falar com ninguém? Desde que aquele amigo dele se mudou, ele não parece nem uma pessoa de verdade.
Quê...?
— Se acalma. Você sabe que não é verdade.
— O QUE ELE VAI FAZER QUANDO CRESCER, YASASHI?
— Dá um tempo pra ele—
— Não, não dá! A gente já esperou tempo demais. Aquele garoto vai se formar e nunca vai achar nada pra fazer!
— Ei—
Voltei à minha cama e deitei.
Enquanto ela saía andando pra área da casa, sem escutar meu pai, o mundo já estava se isolando da minha mente. Lágrimas caíam no meu travesseiro, enquanto as palavras dela continuavam ricocheteando na minha cabeça.
...
Eu... Eu só queria—
No presente.
Esse clima estranho dentro de casa nunca acaba. Vou pro meu quarto logo. É melhor do que relembrar isso.
Acho que isso foi um bom incentivo pra ligar o videogame. Vou ficar jogando até mais tarde, talvez... Amanhã é sábado, mesmo.
Espera, será que, se eu der vida pro meu controle, ele joga sozinho...?
Peguei um controle, conectei os cabos pra ligá-lo e deixei ele na cadeira do lado da minha cama. Com o controle que eu segurava, fui até a tela inicial do jogo.
Funcione, funcione...
Quando coloquei na tela multijogador, aquelas ondulações apareceram no controle do lado.
Será que ele joga comigo?
— Oi.
Selecionei a tela de personagens e, assim que o controle pareceu estar funcionando—
A energia caiu.
Isso é sério?
A ondulação ao redor do controle também desapareceu.
Quê? Por que desativou?
Um bom tempo passou, e nenhum sinal de a energia voltar.
Acho que vou olhar lá fora. Isso é bem estranho. Pode ter sido um apagão na cidade toda, mas não tenho certeza.
Fui até a porta de casa e a abri pra sair.
...
Que merda é essa?
Por que o Reizan tá voando na frente da minha casa...?