POV - Mariah
Mais um dia normal.
Esperei as crianças saírem para arrumar suas camas. Duque foi o único que não havia saído ainda. Me dirigi até seu quarto após subir as escadas e bati na porta. Esperei, entretanto, sem respostas. Novamente, bati a porta, ainda sem sinais de sua presença. Cansada, peguei a chave-mestra e abri sua porta.
Ao abri-la, notei a cama já arrumada e a janela aberta. Já havia se tornado quase um costume. Estava impecável, como sempre. Melhor deixar isso pra lá. Marchei até o quarto principal, onde havia algumas camas por fazer e as organizei. Em seguida, recolhi as roupas e as preparei para lavar.
Arrumei a mesa, preparada para o almoço já que a empregada está de folga hoje. Depois de todas as minhas tarefas cumpridas, finalmente pude sentar na biblioteca, jogando-me numa poltrona acolchoada e apoiando meus pés sobre uma banqueta almofadada em vermelho. Peguei o livro sobre história que havia começado e o abri.
Tudo estava tão pacífico. Estava.
De repente, meu peito começou a arder, como se estivesse queimando. Meu livro caiu aberto no chão. Em seguida, desabei no piso, me contorcendo de agonia. Vi um brilho avermelhado refletindo por toda a sala através das janelas. Mal tive tempo de observar corretamente o que ocorria, mas as pontadas no meu peito ficaram cada vez mais fortes, até que eu ouvi um estrondo, como uma bomba explodindo.
Com meus ouvidos quase surdos sobre tal barulho, eu só penso que preciso sobreviver. As crianças precisam de mim. Sem mim, elas vão ser maltratadas nas ruas. James mal sabe se cuidar sozinho e Lilia precisa de alguém para desabafar sobre suas complicações adolescentes.
O que eles serão sem mim?
Eu preciso sobreviver.
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POV Paul
Isso é o fim do mundo. O que foi aquela voz? O que é a “Fissura”? O que são essas estruturas que surgiram tão de repente? Por que eu sobrevivi? E não só eu, como Milo também. Alguém mais está vivo? E se James não estiver? Eu preciso agir rápido.
Olhei para um Milo ainda em choque. Mesmo abismado, o importante era não demonstrar. O cutuquei e disse:
- Vamos. Não podemos ficar aqui o tempo todo
- Você só pode estar brincando! Pessoas morreram aqui! A g-gente tem que fazer alguma coisa! Ligar pras autoridades ou sei lá o quê!
- Não é a primeira vez que vejo pessoas morrerem, Milo. E que autoridades chamaríamos? Se só nós dois sobrevivemos numa sala de quarenta pessoas, quais são as probabilidades de terem policiais ou bombeiros vivos?
- E custa tentar?!
Suspirei e disse - Vai em frente - Enquanto caminhava para alguns dos corpos. Enquanto checava os sinais vitais dos meus colegas e o esperava, ouvi Milo amaldiçoar seu telefone repetidas vezes, até que ele gritou - Não tem sinal! Estamos sem sinal! - Em seguida, ele jogou seu celular sobre uma mesa e tentou se acalmar.
- Não vai adiantar nada jogá-lo na mesa. Sabe, ele não tem sentimentos e nem sentidos para serem feridos
- Cala a boca! Por que você é assim?! Por que você tá tão calmo?!
- Já te disse. Vi algumas pessoas morrerem na minha frente antes. Não confunda com indiferença, mas trate isso como uma adaptação
Comecei a checar alguns materiais dos meus colegas. Não sabia o que estava por vir, então peguei algumas lancheiras e ordenei Milo:
- Como você não quer sair daqui, pelo menos me ajude
- Não era você que queria sair rapidamente?!
- Eu disse para não ficarmos aqui por muito tempo, só isso. Agora, por favor, procure uma sacola na sala
- Pra quê? Vai vomitar ou algo assim?
- É pra coletar comida, idiota
- Faz sentido. Como se alguém como você fosse empático ao ponto de querer vomitar de nojo por nossos colegas ou coisa do tipo
- Quê? Nem teve nexo o que você disse! Só procura a sacola logo, precisamos levar uma boa quantia de comida
Alguns minutos se passaram até Milo vir com uma grande sacola de pano. Peguei o máximo de comida que pude nas lancheiras dos meus falecidos colegas e coloquei dentro. Agora, tínhamos um bom estoque momentâneo. Puxei a sacola e comecei a sair, dizendo - Vamos, Milo - Sem escolhas, me seguiu.
Ao pisar no lado dos corredores, comecei a caminhar em direção às escadas. Milo seguia apreensivo, enquanto eu observava tudo ao redor. Além de mais alguns corpos que nos fizeram ficar ainda mais incômodos, eu vi algo que me fez parar. Ordenei para Milo ficar imóvel com um aceno de meu braço esquerdo. Antes que ele pudesse falar algo, apontei para um corredor estreito e quase impossível de se ver de onde meu colega estava, mas, descendo alguns degraus, o vi ficar pálido e nitidamente com nojo.
Além de um rastro de sangue, havia um corpo dilacerado de uma das alunas do primeiro ano do ensino médio. Diferente de todos os outros corpos, ela morreu de forma tão vil e cruel que parecia animalesco. Contudo, ao olhar atrás do que sobrou de seu cadáver, haviam marcas de garras e grandes pegadas pelo chão.
Aquilo era, definitivamente, um péssimo sinal.
E se corrermos? Pode tanto ser eficaz quanto fatal. Vale a pena arriscar tanto assim? O que quer que tenha feito isso, faria conosco sem pestanejar. Não era humano, com certeza, mas, tenho uma ideia.
Me virei para Milo e disse cochichando:
- Você sabe se na sala do diretor ainda tem aquelas espadas no brasão de Rayca?
- Até onde eu sei, sim. Quando fui mandado lá semana passada, ainda estava lá. Por quê?
- Se o que matou a menina vier pra cima da gente, é bom estarmos preparados
Sinalizei para irmos quase agachados, evitando ao máximo qualquer sinalização de nossa ilustre presença. Desde que o regime dos imperadores se instaurou em Rayca, duas espadas cruzadas em “X” foram implementadas em seu brasão, obrigatórios em qualquer instituição de ensino, militar ou pública.
Por nossa sorte, as espadas não eram desenhadas no brasão, mas, sim, colocadas por cima. Fico feliz que, pelo menos, uma das estúpidas leis dos imperadores vão ser em prol de algo genuinamente útil. Estávamos quase lá, com a porta já sendo visível entre os corredores agora silenciosos.
As luzes estavam apagadas, quase como se não funcionassem mais. Finalmente, chegamos. Abri a porta lentamente só para me deparar aos poucos com a visão do diretor aparentemente sem vida no chão, ao lado de sua cadeira de couro. Realmente, as espadas ainda estavam aqui.
Com cuidado, retirei uma de cada vez, entregando uma delas para Milo e sussurrando:
- Vamos utilizar isso apenas em situações de risco, ouviu?
- O mesmo vale pra você, Paul
Prontos para o que quer que viesse, saímos para o corredor após checarmos os sinais vitais do falecido diretor. Voltamos a quase engatinhar enquanto o frio permeava a escola. Afrouxei um pouco minha gravata para que respirasse com mais tranquilidade, afinal, não teria mais nada aqui que me obrigasse a andar com as roupas seguindo as normas da instituição.
Recomendei para Milo fazer o mesmo. Não é como se atrapalhasse tanto, mas quanto mais conforto tivermos, melhor. Estamos próximos da porta principal. Até tinha cogitado tentar as portas dos fundos, mas seria impossível passar pelo único corredor que dá acesso à cantina e consequentemente à porta dos fundos.
Antes de seguirmos, o parei e disse:
- No ‘já’, vamos correr para a porta, ok?
- Beleza…!
- Então, se prepara. Três, dois, um… Já!
Milo e eu disparamos em alta velocidade. Ele partiu primeiro e eu, ainda segurando a sacola, fui logo atrás. Milo correu pela porta entreaberta, apenas empurrando seu corpo para abri-la completamente para mim. Me aproximando, notei os sinais claros de arrombamento, como se o que quer que tivesse invadido aqui tivesse vindo à força.
Não sei como não ouvimos seus barulhos. Provavelmente, dilacerou o corpo da jovem já morta ou teve a sorte de ter sua presença oculta graças aos gritos quase incessantes e eternos de todos nessa escola. Era minha vez de cruzar a divisória que me separava do edifício ao jardim do mesmo. Apoiei meus ombros e empurrei, jogando a sacola à frente e segurando a espada em minha mão direita.
Ao passar pela porta, notei Milo olhando em direção à uma árvore, estático e pálido. Suas mãos pingavam suor enquanto o mesmo armava o que parecia ser uma pose de batalha.
Eu sei o que isso significa. Prontamente coloquei a sacola no chão e observei na direção da árvore e vi claramente o que parecia ser uma criatura esquelética de pele acinzentada. Olhos amarelos como o sol, refletindo o fogo de uma alma em perpétua perdição.
Antes mesmo que pudesse notar, eu estava paralisado. Não tinha feito a sinapse necessária para ter total ciência do meu estado, mas de uma coisa eu tenho certeza: Aquilo não estava só como decoração, ele estava preparado para matar. Tentando me livrar do transe, apertei forte a empunhadura da espada.
Voltando ao normal aos poucos, avancei lentamente, até que Milo virou seu rosto para mim e sua expressão assustada se tornou horrorizada. Seus olhos cresceram e seu suor pingava com mais rapidez. Notei o que se assemelhava à uma sombra acima de meu corpo e me virei. Havia outro. Diretamente da porta, vi um rastro de sangue, o qual havia escorrido de um cadáver dilacerado que a mesma carregava.
Seus dentes sujos e podres, ensanguentados e asquerosos emitiam um odor quase demoníaco. Me deparando com toda a situação, mal podia pensar, somente gritar:
- Milo, corre!
A criatura urrava para mim e largava sua vítima, a arremessando para longe e preparando um golpe com suas garras desproporcionalmente alongadas. Eu nunca tive nenhuma experiência com lutas, mas eu precisava improvisar. Balancei a espada de lado em direção ao torso da mesma, esperando que ela cortasse. Ledo engano.
Por ser uma espada meramente decorativa num brasão exageradamente patriótico, ela não havia sido afiada. Ela balançou ao entrar em contato com a besta, que seguia com seu golpe. Tentei pular para trás, porém, ainda fui acertado. Cortes leves haviam rasgado meu uniforme e uma dor lancinante percorria meu corpo. Por pouco, evitei um golpe letal.
Olhava para trás na esperança de Milo ainda estar lá, mesmo que eu o tenha mandado ir embora. Surpreendentemente, o vi avançando até a criatura. Um misto de felicidade e tristeza percorria meu corpo, pois não o queria morto, mas vê-lo ainda determinado a lutar, me fazia sentir uma mínima esperança.
Ao invés de simplesmente tentar golpear a criatura pelos lados, o vi avançando como se carregasse uma lança, utilizando da ponta da espada enquanto a criatura avançava com um pulo e gritos estridentes. Milo devolvia os berros e impulsionava a espada como um espeto, furando a criatura sem ressentimentos.
Seu cadáver deslizava pela lâmina e Milo, segurando um peso muito maior agora, girava a espada em direção àquela árvore da qual a fera se escondia, a batendo repetidas vezes até seus movimentos cessarem. Vi o sangue respingado em suas roupas e rosto com um misto de sossego e adrenalina.
Se a espada não possui um fio de corte, ela ainda pode perfurar pela ponta, igualmente à de Milo. Eu consigo fazer isso.
Me preparei, copiando a pose de Milo, que agora me olhava e gritava:
- Não morra, Paul! Eu vou ajudar!
Contudo, preparando para iniciar sua corrida até mim, parou de repente, imóvel e desnorteado.
Droga, não posso me preocupar. Se eu tentar compreender, vamos perder tempo e ficarmos vulneráveis. Eu preciso resolver isso primeiro.
Apontei minha lâmina como uma lança e avancei. Dessa vez, diferentemente de sua semelhante, ela veio correndo. Notei sua pose aberta e apontei a espada não para seu estômago, nem para seu peito; mas, sim, para seu pescoço. Preparando para me acertar com duas garras mortais, eu berrei e urrei, perfurando a criatura maldita no pescoço, a matando quase instantaneamente.
Após vê-la tombar, ouvi, junto de sua queda, um barulho de metal. Junto da queda, a empunhadura bateu no chão e seguindo o movimento do cadáver da qual estava presa, a lâmina havia quebrado em dois. Não que eu precisasse de uma arma agora, mas nunca se sabe quando seria útil.
Ainda notei Milo paralisado e, me aproximando do mesmo e limpando o sangue respingado em meu rosto, ouvi a mesma voz calma e imponente ecoando por todos os lugares.
Vejo que já conseguiu derrotar uma das bestas, rapaz.
Me surpreendi de sua velocidade em realizar tal fato antes mesmo de lhes explicar corretamente.
Vocês não deixam a desejar, de verdade.
Acho que não necessito esconder mais nada de vocês.
Vejo o horror estampado em seus rostos e, sinceramente, não o compreendo.
Vocês estão fazendo parte de uma grande transição. Uma transição de eras.
Contudo, Nós, resolvemos ser caridosos. A seleção foi dos melhores seres inferiores que pudemos encontrar. O simples fato de estamos lhes dando acesso ao caminho da Fratura já é um presente e tanto.
Todavia, Eu e Eles resolvemos fazer algo! Percebemos o quão divertido isso é para todos nós!
Então, como Eu havia prometido, um de vocês, seres inferiores, terá direito a um desejo como recompensa por seus esforços e sobrevivência.
Basta Me encontrar no outro Plano.
Vocês já devem ter compreendido, de fato.
Os Deuses decretaram que está na hora de entrarmos em uma nova era.
Está na hora de começar tudo de novo.