Retornei de meu transe. Mal sabia o que havia ocorrido, mas eu estava começando a compreender.
Deuses? Outro “Plano”? Desejo? O que ele precisava explicar? O que é esse tipo de núcleo no meu peito? O que é o “caminho da Fratura”? Não posso ficar pensando nisso demais. Ainda tenho que achar o James.
Agora, sem espada, sujo de sangue e com a mente cheia, eu precisava fazer algo. Olhei para Milo após meu transe e lhe disse:
- Milo, se quiser ir na frente, vou aparecer logo depois
- Tá maluco, cara? Se nos separarmos, vamos morrer!
- Foi mal, mas eu preciso fazer uma coisa antes de sair daqui de vez
- É o garotinho, não é?
- Como você sabe?
- Já te vi entrando e saindo com ele algumas vezes. Ele estuda no outro prédio?
- Sim
- Eu vou com você. Não posso deixar um cara andar desarmado por aí sozinho
- Heh, valeu
Milo estendeu a mão, pedindo algum toque de amigos. Eu cedi e o cumprimentei de volta. Talvez ele não fosse o cara ruim que eu havia presenciado.
Peguei a sacola cheia de comida e seguimos em direção ao prédio ao lado, tomando cuidado a cada passo. Enquanto caminhávamos, Milo, olhando para frente, dizia:
- Ouviu aquela voz, não é?
- Você também?
- Sim. O que diabos está acontecendo?! Deuses? Desejo? Fratura? E ainda por cima, de vez em quando, vejo o que parece ser algo brilhando no meu peito!
Não sou o único, então. Talvez, tenha algo a ver com o que a voz comentou. Desde que ele citou sobre a “Fissura”, tenho tentado compreender. Não só por essa rachadura no céu, mas ele ainda disse sobre “caminho da Fratura”. São palavras com significados semelhantes. Tendo em vista o formato que isso segue pelo meu peito, criando como se fossem “raízes” ou “rachaduras”, pode existir alguma relação. Não vou falar nada, por enquanto, até ter certeza.
Assenti com a cabeça e respondi:
- Eu também vejo essa luz no meu corpo
- E o que são aquelas “coisas”?!
- Você diz as criaturas?
- Sim!
- Provavelmente são as bestas que a voz citou
Milo parava de falar e demonstrava um rosto pensativo. Antes que pudesse dizer suas conclusões ou quaisquer teorias, havíamos chegado no prédio do ensino fundamental. Era nítido o que aconteceu mesmo sem entrarmos no prédio. Milo sinalizou, indicando que entraria primeiro.
Se pondo em uma postura defensiva, abria a porta calmamente. Pelo pouco que conseguia ver de seu rosto, estava estampado o terror. Podia dizer o que ele viu, mesmo sem ter visto. Segui logo atrás apenas para me deparar com crianças mortas, com uma poça de sangue esvaindo de suas pequenas bocas.
Seus peitos inchados e rostos chorosos eram nítidos, mas, infelizmente, minha preocupação maior era com James. Caminhando pelos corredores inundados em um mar carmesim, me perguntava se havia alguma espada num brasão. Comentei com Milo, que instantaneamente respondeu dizendo que a única sala de diretor de todo o espaço era no nosso prédio.
Disse que iria procurar momentaneamente algo para utilizar como arma improvisada, mesmo sem sinal algum de alguma criatura. Entrei em uma sala só para observar uma cena digna de um filme de terror. Era quase como uma pintura. Era irreal. Eu não podia me deixar abalar.
Não sei do que esse mundo é capaz, o que foi a voz, o que são as estruturas. Eu preciso manter o foco. Notei uma cortina nas janelas e ali mesmo puxei a cadeira de professor, pouco suja do líquido ferroso avermelhado. A coloquei abaixo do vidro e subi, retirando o bastão de aço que suportava a cortina. Ele era grande, provavelmente com um metro, mas funcionaria bem.
Depois, rasguei pedaços da cortina retirada e enrolei ao redor dos meus leves ferimentos. Meu maior medo era ficar doente, mas ainda não havia sinais. Preocupação em excesso faz mal, principalmente num mundo como esse. Antes de sair, peguei mais um pouco de comida das mochilas infantis que pude achar e coloquei na sacola. Quanto mais, melhor para nós.
Prestes a sair, ouvi um grito. Era Milo. Ele parecia conversar desesperadamente, vociferando e gaguejando a cada berro. Puxei a sacola, agora mais pesada e corri em direção à porta. Empunhando o bastão de aço, prontamente me posicionei apenas para me deparar com o que eu menos queria.
Era James. Vivo e de pé, ou melhor, flutuando.
Seu jeito estava descaradamente diferente, além do que parecia ser uma auréola em sua cabeça. Milo gritava meu nome e eu prontamente corri até o final do corredor berrando:
- James!!
James, ou o que parecia ser ele, devolveu o olhar com olhos serenos e passivos. Parecia não se importar com minha presença nem um pouco. Era assustador.
Milo olhava para mim e tentava sinalizar algo enquanto eu era julgado pela presença assustadora e amedrontadora de James. Após alguns segundos que pareceram uma eternidade, ele disse com uma voz masculina e bem colocada, ecoando pelo corredor:
- A que devo a minha atenção, Paul Siamen?
Como? Como ele sabe meu sobrenome? Nem na escola eu tenho ele registrado. Como? Só a “mãe” sabe! Quem é esse?!
- Não me diga que está assustado, senhor Siamen. Já ouvi isso de seu amigo
- O q-que você… O que você fez com o James?!
- Se refere ao receptáculo infantil do qual encarnei?
O que ele tá falando?! Por que ele está no corpo do James?!
Em segundos, me enfureci e uma onda melancólica passava por todo o meu corpo.
- Sinceramente, senhor Siamen. Não fique lamentando ou alimentando essa raiva aparente. O seu “James”, como o chamam, está bem
- Como ele está bem se ele não está falando comigo?! Ele não está aqui!
- Bem, de fato, sua alma não está no comando
- Então, deixe ele ficar no comando! Devolva o James!
Apontei meu bastão em seu rosto, que devolveu com uma risada e rosto sarcástico:
- Para! Assim, você me faz chorar! Hahahaha! Vocês, de fato, são muito engraça-
Me cansei. Golpeei seu rosto. Evitei aplicar muita força para não ferir o corpo de James, mas o joguei longe no pátio principal próximo. Milo gritou meu nome, mas não me importava. Eu queria acabar com essa “coisa” que havia possuído o corpo de James. Eu não sei o que é, mas quando eu souber, não vão sobrar rastros.
Rapidamente, o corpo se levantou com a mão na bochecha esquerda e cuspindo um dente. Seu semblante havia mudado drasticamente. Ele era sério e imponente:
- Você sabe com o que acabou de se meter, Siamen?
- Pouco me importo com o quê! Se você ficar postergando essa conversa para não libertar o James, eu vou te forçar a libertar!
- Sujeitinho arrogante…
- Cale a boca!
- Vocês têm sorte, garotos, que o receptáculo ainda não está perfeitamente adaptado
- Do que você tá falando?! Eu já tô cansado desse papo de “Fissura”, “caminho da Fratura”, “Deuses”, “desejo”!
- Olha, você disse algo que me descreve!
- Que alg-
Espera. Espera. Espera. Ele é um “Deus”?!
Me recompus e perguntei seriamente:
- Você… É um “Deus”?
- Na mosca, pirralho