POV - Jacques
Despertei.
Que droga. Estávamos ensaiando nossa graduação do ensino militar e agora, todos ao meu redor estão mortos. Só ouvi gritos desde que ajoelhei por uma dor insuportável em meu peito juntamente a um forte brilho no mesmo. De repente, me viro e todos estão sem vida. Eu preciso sair daqui. Preciso achar alguma janela. Esse auditório fechado está me deixando mais claustrofóbico do que nunca.
Recompus minha força e tentei me levantar para seguir em frente. Seja lá o que houve, eu preciso descobrir. Marchando com minhas botas militares e com o uniforme um pouco sujo de sangue graças às fatalidades ao meu redor, segui em frente. Estava também com meu sabre imperial, com o brasão gravado na empunhadura dourada, equipada numa bela bainha de couro. Tudo isso graças ao ensaio da formatura.
Não é como se fôssemos nos rebelar contra nossos professores por portarmos uma lâmina, mas a ideia de ser afiada não me deixava tão cômodo. Por mais que agora, pouco importasse, ainda era uma ideia que me desagradava. Os gritos haviam cessado quando levantei. Parecia um ataque inimigo, mas, se fosse, ouviria barulhos de helicóptero e multidões, tiroteios e bombardeios, jornalistas e repórteres, tudo isso aqui próximo.
Mesmo com o auditório tendo revestimento à prova de som, se eu pude ouvir os gritos de fora do salão, ouviria uma multidão lá fora. Por precaução, peguei o coldre de meu professor juntamente de sua pistola automática e o amarrei na minha cintura. Ainda estava horrorizado com tudo o que havia ocorrido, mas desde que entrei aqui, fui treinado a tratar a morte como algo comum.
Precisava chegar em casa. Meus irmãos poderiam estar vivos. Pelo menos, esse pensamento iria me confortar até lá.
Saí do auditório calmamente, com os pés colocados cuidadosamente a cada passo no chão de tábuas de madeira. Ser silencioso em qualquer situação foi uma das melhores lições que pude aprender por aqui. Rapidamente, dei de cara com a escadaria que levava até o hall principal do colégio. Notando alguns rastros de sangue, tentei ignorar e seguir meu caminho.
Focando na região central do edifício, pus os pés nos degraus repletos da escuridão. A luz havia parado de funcionar, pelo visto. Ao pisar, senti que havia tocado algo líquido. Do pouco que pude ver, havia uma cor predominante: Vermelho. O cheiro metálico era nítido: Sangue.
Pisei o segundo degrau e o sangue prosseguia. Quanto mais degraus eu descia, mais sangue havia. Eu não vi nenhum corpo pela porta além dos rastros, mas achei que era normal devido ao que ocorreu com meus colegas. Entretanto, nenhum deles soltou tanto sangue pela boca como o que eu vi na escadaria. Isso era um mar vermelho.
Enquanto descia cautelosamente, ouvia nitidamente alguns grunhidos. Eram barulhos de dentes mastigando algo, junto do que parecia ser carne.
É algum sobrevivente? Não, as chances são baixas… Além disso, tem essa correnteza de sangue comigo. Mesmo assim, não posso descartar a possibilidade.
Fui descendo calmamente até chegar no piso do hall. Olhei aos lados e segui em direção ao que parecia ser o emissor do som. Desembainhei a lâmina, preparado para o que quer que fosse. Enquanto me aproximava, o barulho parou.
Será que me ouviu? O que devo fazer? Devo perguntar o nome? Devo dar ordens para ficar imóvel? Droga…
Segui o que minha intuição mandava:
- Q-Quem quer que você seja, saia com as mãos para cima e se ajoelhe! Agora!
Mesmo entoando a voz com mais grossura, nenhum sinal de vida saiu de lá, exceto por alguns pontos brilhantes surgindo em meio à escuridão que se seguia pelo corredor de onde vinham os grunhidos. Eles estavam numa altura de onde ficariam olhos humanos, até que as vi ficando cada vez mais altas junto de um berro desumano.
Uma criatura de pelos lilás com olhos brancos e brilhantes surgia. Sua cabeça era imensa, possuindo o que parecia ser uma juba com pelagem violeta. Em suas mãos, o que pareciam ser entranhas cheias de mordidas. Não vomitei pela adrenalina, mas o nojo que senti, é indescritível.
Ela me observava e tentava avançar. Tentei me manter calmo e concentrado e quando vi sua mão sendo jogada em minha direção como um chicote, aparei o golpe com o sabre, utilizando a parte não laminada para jogar sua mão para longe utilizando o efeito de ação e reação.
Minha cabeça tentava se encher com baboseiras e preocupações, mas eu, com muito esforço, ignorei. Respirei profundamente e desferi um golpe em formato diagonal pela barriga da fera demoníaca, que urrava de dor. Pelo menos, minha arma possuía capacidade de corte para perfurar sua carne.
Projetei outra postura de ataque e desferi um corte na região do antebraço direito da besta enquanto ainda estava sofrendo a reação de minha defesa. Mesmo tendo um metro a mais que eu e sendo mais amedrontador, sabia que, se o fizesse sangrar mais e mantivesse minha calma, seria possível de matar. O demônio pulou para trás antes que eu o cortasse novamente.
O mesmo ficou me rondando, mas nunca parei minha postura de ataque. Esperei mais um ataque e ele veio. Era mais forte do que eu podia imaginar. Mesmo bloqueando rapidamente com minha espada, fui arrastado para longe, dando de costas com uma pilastra.
Sentia como se minhas costelas tivessem se despedaçado por completo. Amaldiçoei a fera enquanto a vi sorrindo e avançando. Não tinha tempo de me levantar, muito menos de golpeá-lo com minha espada. Como a opção mais rápida a ser tomada, abri o coldre e puxei a pistola, a destravando e disparando três vezes contra a criatura.
Queria evitar fazer muito barulho, mas que se dane agora. A vi parando sua arrancada no primeiro tiro, no segundo a vi cambalear e no terceiro a vi cair. Ainda se mexia, então, me levantei com bastante dor, puxei meu sabre e, lançando minha espada para cima, a desci como uma guilhotina, arrancando sua cabeça fora antes que pudesse demonstrar qualquer sentimento ou sinal de arrependimento.
Quase no mesmo instante, vi outra criatura do mesmo tipo vindo do outro corredor. Provavelmente atraída pelo grande barulho causado, me estremeci. Com minhas costas dessa maneira, eu iria me machucar ainda mais tentando cortá-la. Tomei a mesma decisão quando a vi avançar.
Puxei a arma de fogo e disparei quatro vezes, respectivamente: Uma no estômago, duas no peito e a última na testa, a derrubando quase instantaneamente. Ela ainda parecia viva, o que não me surpreendia tanto, afinal, se a sua semelhante havia sobrevivido à dois cortes e três disparos, aguentar quatro tiros não era nada.
Quando a percebi tentando se levantar com seu braço esquerdo, disparei uma quinta vez, dessa vez, no ombro esquerdo, a fazendo perder o equilíbrio que sua mão havia posto no chão e a derrubando, a fazendo gritar de dor com certa raiva misturada. Fui me aproximando com minha lâmina em mãos. Ao ver que havia ficado de barriga para cima e com olhos levemente marejados, tentei ignorar meus sentidos emotivos e humanos e a perfurei no coração, fazendo-a cessar todos os seus movimentos segundos depois do golpe.
Ao olhar para seu rosto após a morte, notei que, na bala alojada em sua testa, havia um brilho. Me aproximei e, ainda com um pouco de nojo, mexi na ferida até retirar o que parecia ser uma pequena bolinha branca brilhante, emitindo um leve brilho roxo. Peguei-a com meu dedo indicador e dedão, tentando não criar tanta força ao redor da esfera para inspecioná-la, mas em segundos, ela se quebrou, quase explodindo em minha mão.
Notei que, a partir dos meus dedos que a seguravam, uma momentânea aura roxa cobria meu corpo e sentia a dor nas minhas costas diminuindo juntamente a um pequeno aumento no meu corpo, desde a grossura da minha mão até meus músculos. Era como se eu tivesse crescido um centímetro nos meus músculos e de altura, alguns milímetros.
Curioso, fui até a outra criatura e, com o sabre, abri sua testa, achando a mesma bola e a quebrando com a mão, recebendo os mesmos efeitos. Senti minha dor praticamente sumindo e meu corpo levemente maior e mais forte. Rapidamente, uma pontada surgiu de dentro do meu peito e notei aquele mesmo brilho novamente, só que, dessa vez, criando o que pareciam ser “raízes” pela região do meu tórax.
Mesmo que pouco, me sentia mais revigorado e poderoso. Olhando em direção à porta, notei alguém a abrindo. Preparei a pistola até ver o que parecia ser uma figura de outro planeta. Sua pele era branca leitosa, com cabelos loiros dourados e longos. Seus olhos eram tão azuis quanto o céu e suas roupas eram como se fossem túnicas gregas brancas. Rapidamente, ela estendeu sua mão até mim, como se me conhecesse e disse:
- Senhor Jacques Miller, que prazer em vê-lo!
- Quem é você… Ou melhor, o que é você?
- Presumo que você tenha ouvido alguma voz falando sobre a “Fissura”, certo?
- Voz? Fissura? Do que você tá falan-
- Acho que você estava inconsciente…
- O que tá acontecendo?!
- Vocês, seres inferiores, falam demais…
- Ora, seu…!
Me preparei para avançar, até que sua doce e calma voz disse:
- Ei, Jacques… Relaxe! Eu não vim com a intenção de te ferir! Longe disso…
- O quê…?
- Eu vim te oferecer… Uma proposta!