POV Tony
Hoje, tem tudo para ser o melhor dia da minha vida!
Acordei cedo e fui tomar um banho. Logo depois, mandei uma mensagem de “bom dia” para minha namorada, ou melhor, futura noiva!
As flores estavam na água, a aliança já estava embrulhada, tudo perfeito!
Fora que, hoje, eu provavelmente vou receber uma promoção!
Cheguei cedo no trabalho e coloquei as flores e a caixinha da aliança no meu armário e o tranquei, evitando que ela visse. Ajustei a gravata no espelho do toalete do prédio empresarial, penteei o cabelo e ajeitei a barba junto do óculos. A reunião era em alguns minutos.
Dito e feito. Meu chefe me chamou, fechou a porta e começamos a conversar:
- Fico imensamente grato de podermos estar conversando assim, Tony
- Digo o mesmo, chefe!
- Bem, o seu desempenho na empresa vem sendo… Espetacular
- Obrigado, senhor!
- E como nós temos medo de perdê-lo para alguma outra empresa, eu e toda a diretoria resolvemos, oficialmente, lhe propor uma nova vaga na administração da empresa
A reunião havia acabado pouco tempo depois.
Eu consegui. Eu consegui! A vaga é minha! Eu fui promovido!
Rapidamente, olhei o horário: 08:59.
Em trinta e um minutos, ela entraria no trabalho. Havia explicado ao chefe no final da reunião e ele me liberou por esse tempinho. Peguei as coisas e fui a pé. Estava nervoso e com vergonha. Algumas senhorinhas olhando com corações nas pupilas, jovens moças comentando enquanto passavam por mim que elas “não esperariam nada menos de seus futuros maridos”.
Isso era um sinal de que eu estava indo bem! Droga, eu tô suando frio!
O emprego dela estava bem na minha frente. Entrei no prédio e comentei com a atendente. Ela me apoiou e disse que me ajudaria a me esconder nos fundos para que Anna não notasse minha presença. Comecei a tremer de nervosismo e respirei fundo, visando me acalmar.
Abri a câmera frontal do celular para ver como eu estava e me ajeitei um pouco. Rapidamente, ouvi um barulho de carro parando na frente do prédio.
Era ela! Ela saiu do táxi! Ela entrou no prédio… É agora!
Esperei ela cumprimentar a atendente que atuou muito bem, por sinal. Uma exímia mestra das artes cênicas! Quando ela se dirigiu até o elevador, me aproximei atrás dela em silêncio e comecei a dizer:
- Anna…
Ela se virou ao notar minha voz, com um rosto surpreso. Estava escondendo o buquê e a caixinha das alianças nas minhas costas, mas minha tremedeira logo entregaria. Entretanto, apesar dos pesares, continuei:
- Nós namoramos desde o ensino médio, meu amor! Eu nunca me senti tão apaixonado na minha vida e tenho certeza que você será a pessoa certa nessa nossa caminhada juntos! Quero que nossa união nos leve ao Céu! Por isso, Anna, meu amor…
Me ajoelhei, puxei o buquê e a caixinha, a abrindo e questionando com nervosismo:
- Você quer casar comigo?
Notei suas lágrimas escorrendo de emoção e ela dizendo emocionada enquanto pegava o buquê e me abraçava:
- Sim, Tony! Sim, sim! Mil vezes, sim! Eu te amo!
Nos beijamos. Eu estava me sentindo a melhor pessoa do mundo. Até que tudo aconteceu. Ela parou o beijo e caiu na minha frente. Ela apertava a região do peito. Fiquei preocupado e me aproximei, mas o próximo a cair fui eu com uma pontada no peito. Foi o pior dia da minha vida.
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Estava na rua. Perdido. Sozinho
Fui o único sobrevivente do prédio até onde eu sei. Vi minha noiva morrer nos meus braços, sem palavras bonitas ou uma última declaração de amor, apenas uma sublime frase da qual me lembrarei eternamente. Ambos estávamos em agonia, mas a minha será uma agonia eterna. Comecei a caminhar sem rumo, desolado. Ouvi vozes ecoando coisas sem sentido para mim até então.
Eu estava com fome. Muita fome. Ainda tinha um pouco de ética para não invadir um restaurante ou estabelecimento. O lugar mais próximo onde eu me senti minimamente confortável para ficar e comer, foi uma escola aqui próxima. Fui caminhando até lá, me deparando com um letreiro escrito “Escola Prisma”. Entretanto, quanto mais me aproximava, mais gritos eu ouvia.
Fiquei assustado, mas a fome e o cansaço falaram mais alto. Ainda era um sinal de vida naquele lugar. Num lixo próximo, havia algo furando a sacola. Puxei e se revelou um cano de ferro enferrujado e pontiagudo. Serviria por enquanto. Comecei a me aproximar de maneira tensa.
Queria recuar enquanto os gritos aumentavam, mas relembrava o que Anna havia me dito ao seus últimos suspiros. Finalmente, frente a frente com a porta de entrada. Um lado dentro de mim queria fugir, mas o outro queria ajudar. Sempre fui assim.
Que se dane.
Chutei a porta e apontei o cano para o que quer que fosse, mas notei somente uma fila de crianças chorosas, prontas para o abate. Em choque, fui me virando até onde a fila indiana levava e ouvi coisas horríveis:
- Não, você não. Muito fraco, pouco potencial… Nem você, morra como os outros… Que Rachadura pequenina! Merece a morte por tal desacato à uma autoridade como eu!
Me aproximei cautelosamente e notei a figura de vestes azuis, quase como roupas celestiais bordadas nas mangas e extremidades em brando. Seu cabelo castanho e longo preso, pele branca e olhos azulados. Entretanto, algo que eu vi me chamou ainda mais atenção: Cristais servindo como espetos humanos.
Não sei de onde eles vinham, mas, depois do que aconteceu, isso parecia mais “normal” do que deveria. A figura sinalizou com a mão para a fila parar e virou seu rosto até mim. Seus olhos brilharam em roxo momentaneamente e ele sorriu. Com um riso, me disse:
- Você… Você! Eu preferia que fosse um dos pequenos, mas você…! Caramba! Que futuro lindo você tem!
- Li-Liberte as crianças! Agora!
- Ora, ainda por cima, é corajoso! Que belo achado! Há! Gostei da sua determinação!
- Seu monstro…! Você é um demônio!
- Não, não! Eu sou um Semideus! Não me chame por tal nome hediondo! Me dá ojeriza
- Vá! A-Agora!
Ele veio se aproximando de mim e, sem escolha, o ameacei com o cano. Ele riu de mim e afastou minha arma improvisada com facilidade. Colocando a mão em meu ombro e cochichando na minha orelha, me disse:
- Se você não aceitar o meu acordo daqui um mês, todas elas vão morrer. Lembre-se, isso é uma ordem vinda dos céus… Hahahaha!
- Do que você tá falando…?
- Ora, ora… Vai saber agora!
Apertando meu ombro, senti uma energia estranha pelo meu corpo e minha mente compreendeu tudo de maneira rápida. Ali mesmo, apaguei. Acordei umas horas depois com o que pareciam ser ordens nítidas na minha frente. Era um papel de teor azulado com escritas em tinta negra. Parecem ter sido feitas com tinta e pena.
Era uma língua da qual eu não pude compreender, mas, ao tocar, vi um brilho no meu peito, como uma esfera luminosa, criando extensões, como largos fios, até as minhas mãos e rapidamente senti uma voz: A minha própria voz ecoando em minha mente.
[Acordo sagrado - Paytan, o Lorde das Gemas]
[De acordo com as regras aqui estabelecidas, a Parte A do acordo, Paytan, o Lorde das Gemas, possuirá um acordo de possessão e sucessão parcial de seus poderes de cargo de Semideus e do Caminho dos Minerais à Parte B do acordo, Tony Liecht Dowermann.
O acordo não só sucederá um sexto (⅙) do Hao da Parte A à Parte B, como também transferirá, até a morte da Parte B ou até que o acordo seja rescindido, as seguintes técnicas da Parte A:
Cristais Fulminantes
Gemas Perfurantes
Quartzo Perseguidor
Diamante da Redenção
Loucura do Minerador
As Jóias do Lorde
Totalizando seis (6) técnicas vindas da Parte A, Paytan, o Lorde das Gemas à Parte B, Tony Liecht Dowermann.
A Parte B, ao aceitar o contrato, estará suscetível a possessões imprevistas e aleatórias, vindas da vontade maior da Parte A.
Ambas as partes estarão de acordo com o principal objetivo: O “desejo” da “Fissura”.
Em caso de rescindir o acordo, terá uma última negociação entre ambas as partes de maneira formal para propor uma nova proposta caso seja da vontade de alguma das partes.
O acordo terá um prazo de resposta de um (1) mês a partir do dia de hoje.]
Juntamente a isso, minha própria voz ecoou em minha mente coisas das quais nunca tinha ouvido falar: Deuses, Semideuses, Hao, “Plano Divino”, “desejo”, Rachadura, sobre os Caminhos, Totens Espirituais, etc… Comecei a compreender aos poucos. Enquanto isso, duas crianças vieram até mim com um copo de suco e um lanche escolar. Eram gêmeos. Agradeci imensamente enquanto tentava fazer minha dor de cabeça passar.
Independente do que aconteça, eu tenho que viver. Essas foram as minhas ordens. Talvez, cuidar das crianças não seja tão ruim. Ainda tinha muitas coisas para pensar, mas, por hoje, vou tentar não pensar em nada e viver um pouco do meu luto. Me levantei e respirei fundo. Assim como Anna havia me dito, eu preciso cumprir. “Viva a sua vida, meu amor. Faça o que for melhor, mas mantenha sempre sua ética e sua bondade, do jeitinho que eu me apaixonei por você”.
Peguei meu pingente com sua foto, o apertei e disse para mim mesmo em voz alta:
- Eu nunca vou mudar o homem pelo qual você se apaixonou, Anna. Eu prometo