
A sala mergulhou em um silêncio absoluto, pesado e calculista, até que Sanstone decidiu quebrá-lo, sua voz cortando o ar como uma lâmina fria:
— Comandante, está pensando na mesma coisa que eu.
Alexandre, recostado na cadeira, suspirou antes de começar a expor sua linha de raciocínio:
— Quando estávamos no exame, a prova oral tinha algumas perguntas capciosas, que não continham respostas necessariamente erradas. Por exemplo, uma delas questionava qual a nossa "opinião" em relação ao governo atual. Eu achei isso muito estranho, mas não me intimidei e respondi o óbvio. Contudo... eu sentia olhares. Pessoas que desviavam o rosto propositalmente e que estavam estrategicamente localizadas nas extremidades da sala.
Sanstone, acomodando-se melhor na cadeira, cruzou as pernas com elegância e completou:
— Olheiros. Eu percebi isso também.
Laura e Marcos estavam sentados no sofá. Enquanto ela tentava acompanhar o raciocínio rápido dos dois líderes, Marcos parecia visivelmente perdido, alternando o olhar entre um e outro como quem assiste a uma partida de tênis.
Alexandre continuou sua narrativa:
— Além disso, quando entrei na sala do coliseu, senti uma presença, como se já houvesse alguém lá nos observando. Não sei explicar, era apenas uma sensação estranha na nuca.
Marcos arregalou os olhos, interrompendo:
— Verdade! Eu também senti algo esquisito, um arrepio na espinha!
Sanstone assentiu silenciosamente. Laura, então, levantou a mão timidamente:
— Sério? Porque, para mim, a sensação era de uma força arcana.
Alexandre girou a cadeira para encará-la. Ao lado dele, Sanstone ergueu uma sobrancelha, intrigada. Laura prosseguiu:
— Se não me engano, a área onde ficamos antes do coliseu estava saturada com uma energia muito forte que eu não conseguia identificar. Resolvi me manter calma porque acreditei que fosse uma medida de segurança do governo.
Sanstone virou-se para Alexandre, a expressão grave:
— Porque é do governo. Comandante, eu acredito que estamos sendo vigiados pelas altas esferas até agora. Somente a Primeira-Ministra e o Líder Supremo possuem tal magnitude mágica.
Alexandre jogou o corpo para trás na cadeira, levando dois dedos à têmpora em um gesto de exaustão irônica:
— Legal. Como se já não bastasse essa organização criminosa maluca, temos a suspeita de que fomos criados e estamos sendo testados pelo próprio governo do Grande Líder.
Sanstone completou a ironia, a voz seca:
— E qual a novidade? Essa é a "democracia" a qual o Líder Supremo tanto se refere.
Alexandre tirou a mão da cabeça, a expressão endurecendo com determinação.
— Não precisamos nos preocupar com o governo agora, ele é o menor de nossos problemas. O foco principal é manter a ordem e a confiança do povo no exército. Marcos, você cumpriu a ordem que lhe dei?
Marcos estufou o peito, respondendo com convicção:
— Sim, senhor! Avisei os soldados para iniciarem as patrulhas noturnas e informei que o exército real cessou a assistência.
— Ótimo — disse Alexandre. — Com isso, mantemos a população segura e os soldados em alerta máximo.
Sanstone interrompeu, levantando-se:
— Comandante, seria de seu interesse me acompanhar até a cena do crime onde encontramos os encapuzados? Acredito que, com um olhar mais atento, podemos encontrar pistas sobre quem comanda essa organização.
Alexandre concordou imediatamente. Ele ordenou que Marcos ficasse no comando do QG, fazendo a guarda, enquanto ele, Sanstone e Laura partiam para a investigação.
(A casa abandonada - De noite)
Ao entrarem no local, Alexandre, Sanstone e Laura foram recebidos pelo cheiro de mofo e madeira velha. Alexandre notou a porta caída e agachou-se para examinar os destroços.
— Foi uma entrada relativamente fácil — murmurou ele. — Apenas o trinco estava segurando a porta.
Sanstone, de braços cruzados, observava o local com frieza.
— Comandante, eu arrombei esta porta com uma investida e não houve resistência alguma. Mas o que me incomodou foi o que encontrei no chão…
Alexandre seguiu o olhar dela. O assoalho de madeira logo na entrada estava crivado de pequenos furos ordenados, limitados apenas àquela área específica.
— Eles fizeram essa armadilha para prender alguém que usa salto — explicou Sanstone. — E adivinhe quem é a única oficial que usa uma armadura com botas de salto neste exército?
Alexandre observou a precisão dos buracos. Sanstone descalçou uma de suas botas e a entregou a ele. Alexandre encaixou o salto em um dos orifícios; o ajuste foi assustadoramente perfeito.
— O encaixe é exato — constatou ele, devolvendo a bota, mas antes deu uma leve olhada para os pés de sanstone. — Isso é muito suspeito. Foi feito sob medida.
Enquanto calçava a bota novamente, Sanstone apontou para o mezanino acima.
— Quando meu salto prendeu e eu caí, surgiram dois encapuzados atacando exatamente na posição em que eu estava vulnerável. Por sorte, consegui me defender, mas a organização deste grupo é impecável. Eles tinham informações privilegiadas.
Alexandre franziu o cenho, visualizando a cena. Caminhou até o andar superior, observando as portas abertas no corredor. Sanstone o seguiu.
— Ambas as portas, da direita e da esquerda, estavam fechadas — relatou ela. — Quando Marcos investiu na porta do meio de forma imbecil e ingênua, as laterais se abriram instantaneamente, revelando lanceiros e besteiros.
Alexandre interrompeu, analisando a tática:
— Enquanto a porta do meio estava barricada para atrair a atenção... É uma típica estratégia de cerco: "Bigorna e Martelo". Quando o inimigo foca no centro, você ataca pelos flancos com elemento surpresa. A única forma de alguém executar isso com tamanha precisão é tendo treinamento militar.
Sanstone completou, o olhar sombrio:
— Ou sendo alguém que ainda está no exército.
Alexandre virou-se para Laura, sério.
— Laura, sei que o Clã Poison mantém seus segredos a sete chaves, mas a situação exige transparência. Poderia me dizer quais são as reais habilidades de sua linhagem?
Laura colocou o dedo no queixo, pensativa, antes de explicar:
— Bem, meu clã sempre focou em técnicas de envenenamento e na resistência a eles. Nós também estudamos profundamente as afinidades arcanas e desenvolvemos uma magia que aplica toxinas em qualquer coisa que toque nosso corpo ou aura. Como somos imunes, não somos afetados. Os venenos variam de paralisantes simples até os mais letais, embora estes últimos não sejam usados desde a Grande Guerra.
Alexandre arregalou levemente os olhos, interrompendo-a:
— Calma. Você disse que seu corpo é imune a veneno?
Sanstone ergueu uma sobrancelha, captando onde ele queria chegar, enquanto Laura respondia com naturalidade:
— Sim, senhor. Meu corpo processa qualquer toxina como se fosse água.
Alexandre ficou em silêncio por um instante, a mente trabalhando rápido. Sem dizer mais nada, fez um sinal para que voltassem ao QG.
(NO QG)
Alexandre e Sanstone despediram-se de Laura, que seguiu para o alojamento. Antes que Sanstone pudesse se retirar, Alexandre a chamou:
— Sans, preciso de uma palavra com você. Na minha sala. Agora.
Sanstone trancou a porta e sentou-se, cruzando as pernas e mantendo a postura rígida. Alexandre sentou-se à frente dela, tentando manter um tom leve:
— Obrigado por ter aceitado meu convite, Sans.
Ela o cortou, impaciente:
— Comandante, você não me chamou para cordialidades. Diga logo por que desconfia de Laura.
Alexandre ficou sério, recostando-se na cadeira.
— Você é rápida, como imaginei. Sans, você percebeu que a história não condiz com os fatos, certo?
Sanstone suspirou, desviando o olhar por um segundo.
— Sei que parece estranho, Comandante. Mas Laura foi sequestrada. Eu estava lá quando um dos bandidos tentou matá-la.
— Laura é imune a venenos — retrucou Alexandre, incisivo. — Essa conta não fecha. Como ela foi "apagada" por uma injeção no pescoço e acordou depois? Se ela é imune, deveria ter resistido.
— Uma pancada? — sugeriu Sanstone, embora sua voz não carregasse muita convicção. — Você sabe que um golpe certo na carótida derruba qualquer um.
Alexandre a encarou com desconfiança.
— Sans, não deixe que seus sentimentos obscureçam seu julgamento. Laura é nossa maior pista. Se o sequestro foi forjado, ele tem uma finalidade.
Sanstone inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— Certo, digamos que eu concorde com essa teoria sobre a Laura. Você sabe que tem outro oficial que não vai aceitar isso nem por decreto. E ele vai nos dar problemas.
Um leve sorriso convencido surgiu nos lábios dela ao mencionar Marcos. Alexandre olhou para baixo, resignado.
— Tem razão. É um beco sem saída. Mas, se for necessário, precisaremos tomar cuidado com nossos subordinados. Isso vale para mim também. Marcos deve ter dado dor de cabeça para você na missão.
Sanstone revirou os olhos.
— "Trabalho" é pouco. Aquele cabeça-oca não sabe o mínimo de estratégia. Tive que me arriscar para salvar a pele dele.
— Vou providenciar uma punição adequada — prometeu Alexandre. — Mas, Sans, preciso da sua ajuda.
Ao notar a preocupação genuína na voz dele, Sanstone suavizou a expressão. Alexandre baixou o tom de voz:
— Sans, vou conduzir uma investigação paralela sozinho. Preciso que você me dê cobertura e tempo para eu interrogar novamente todos da cena do crime.
— Por que, Comandante? — perguntou ela, calma.
Alexandre olhou para a porta com desconfiança, depois voltou o olhar para ela. Sanstone entendeu o recado: paredes têm ouvidos.
— Entendido, Comandante — disse ela.
Sanstone levantou-se e, num movimento súbito, saltou em direção à porta, abrindo-a violentamente. No corredor, vislumbrou um vulto correndo para a esquerda, segurando algo que parecia um chicote.
— Parada aí! — gritou ela, disparando em perseguição.
Alexandre levantou-se suspirando, mas logo correu atrás dela.
Sanstone perseguia o vulto para fora do QG, em direção à prefeitura. A figura era rápida, movendo-se com a destreza de um militar treinado, guiando-a para um beco escuro. Sanstone apertou o passo, alcançando o fugitivo em uma rua estreita. Ela saltou, agarrando-o por trás.
— Te peguei!
Ela rolou no chão com o alvo, imobilizando-o. Era um encapuzado. Quando ia arrancar o capuz, seu instinto gritou. Sanstone rolou para a esquerda frações de segundo antes de uma flecha cravar-se onde sua cabeça estava.
— Droga! Ela esquivou! Rapazes!! — gritou o encapuzado no chão.
Ao som de um assobio, mais homens surgiram das sombras, armados com lanças, cercando Sanstone, que estava de pé, mas sem seu escudo.
"Local aberto, cercada e com um besteiro posicionado no alto. Situação complicada. Preciso ganhar tempo até uma patrulha chegar," calculou ela.
Sanstone bateu palmas lentamente, a expressão indecifrável fazendo os encapuzados recuarem um passo.
— Bravo, bravo. Vocês são bem organizados. Conseguiram me atrair para a armadilha. Devo admitir que a estratégia, apesar de suja, é bem convencional.
O encapuzado com a besta, no telhado, falou com um tom levemente trêmulo:
— Obrigado, General Sans. Você é famosa no submundo, mas digamos que irritou pessoas poderosas…
Enquanto ele falava, a mente de Sanstone trabalhava a mil. "Ótimo, continue falando. Preciso de uma arma e de uma rota para o besteiro. Ele é o líder; os outros são apenas pesos mortos."
O encapuzado continuou, ganhando confiança:
— ...Agora elas a querem morta. Mas, fazer o que não leve para o lado pessoal. Você é uma garota muito bonita e desejada. O chefe disse que sua rendição pacífica e calma comigo até as docas, poderemos poupar sua vida.
Sanstone sentiu o estômago revirar de nojo, mas manteve a postura altiva, cruzando os braços.
— Me render para que você, um verme inútil que mal consegue olhar nos meus olhos, possa me usar? Não, obrigada. Tenho planos para meu corpo, e eles definitivamente não incluem ir para a cama com lixo.
O homem ergueu as mãos, irônico.
— Que pena. Bem, quando eu acertar uma flecha envenenada em você, vou me certificar de usá-la enquanto seu corpo estiver paralisado e quente.
A repulsa dela se transformou-se em fúria fria. Enquanto o encapuzado recarregava a besta, Sanstone correu para a direita, visando o lanceiro mais próximo, que tremia visivelmente. Com um olhar assassino, ela fez o homem vacilar e cair de medo. Sanstone tomou a lança dele num movimento fluido, girou e empalou o segundo atacante que avançava.
"Estranho... eles têm medo de sangue," notou ela ao ver o outro recuar.
Chutando o covarde no chão. Nesse momento, a patrulha chegou pelos dois lados da rua, fechando o cerco, percebendo que o encapuzado que perseguira inicialmente tentava fugir para o beco. Ela arremessou a lança com precisão, perfurando a perna dele e imobilizando-o.
Porém, no telhado, o besteiro aproveitou a distração. Ele disparou.
Sanstone não viu a flecha. Mas sentiu o impacto — não do projétil, mas de um corpo chocando-se contra o dela. Alexandre a empurrou para longe.
A flecha sibilou e atingiu ele de raspão na perna, rasgando a farda e a pele. Alexandre grunhiu, caindo.
Simultaneamente, uma flecha da patrulha atingiu o ombro do besteiro, que largou a arma.
Sanstone correu até Alexandre, o pânico trincando sua máscara de gelo.
— Alexandre!!! Acorda, por favor!!
O besteiro, ferido, caminhou até a beirada do telhado, rindo loucamente:
— Hahaha! Vocês são mesmo recrutas! Não imaginei que seria tão fácil assassinar o "grande" Comandante. Minha vingança está completa!
Sanstone gritou para os soldados:
— Rápido!! Ele vai pular! Impeçam-no!
O homem lançou-se no vazio, atingindo as pedras da rua com um baque surdo antes que qualquer soldado pudesse alcançá-lo.
Um médico correu para socorrer Alexandre, mas Sanstone o afastou. Com uma facilidade assustadora, ela ergueu o Comandante nos braços.
— Eu vou levá-lo. Conheço alguém especialista nisso. Por favor, fique firme.
Alexandre resmungava de dor, os dentes cerrados para não gritar. Sanstone corria em direção ao QG, gritando ordens por cima do ombro:
— PRENDAM TODOS!!!
Os soldados, aterrorizados pela fúria da General, renderam os remanescentes rapidamente. Quando os capuzes foram removidos, expressões de choque tomaram conta da tropa.
(NA ENFERMARIA DO QG)
A tensão na enfermaria era palpável. Laura estava debruçada sobre a perna de Alexandre, enquanto Sanstone e Marcos observavam. Laura extraiu um pouco de sangue do ferimento e, para horror dos presentes, provou uma gota.
— Este veneno... é de classe alta. Vou precisar de muito sangue.
Sanstone, ao lado da cama, parecia desolada. Era uma visão tão incomum ver a inabalável General naquele estado, Marcos tomou a frente:
— Doutores, por favor, cuidem dos outros feridos lá fora. A Sargenta e a Vice-Comandante cuidam do Comandante.
Os médicos, confusos mas intimidados, deixaram os três sozinhos.
Laura preparava uma bolsa de transfusão, olhando de soslaio para a amiga.
— Você o ama, não é, Sans?
Sanstone enxugou uma lágrima traiçoeira, respondendo nervosamente e tentando manter sua face fria:
— C-Claro que não. Eu só estou preocupada com a hierarquia. Alexandre é nosso Comandante Supremo.
Laura revirou os olhos, sorrindo enquanto preparava a agulha.
— Sei, sei... Continue rejeitando o sentimento e isso vai te consumir.
Sanstone ignorou a provocação. Seus olhos estavam fixos em Alexandre, pálido e inconsciente.
"Esse veneno é poderoso. Se não tivéssemos a Laura, ele estaria morto."
Laura conectou um tubo para drenar o sangue envenenado.
— Está drenando o sangue dele? — perguntou Sanstone, alarmada.
— Preciso tirar o veneno que já circulou — explicou Laura, preparando outra agulha. — É uma toxina de ação rápida. Como foi um raspão, não é fatal, mas precisamos limpar o sistema e repor com sangue limpo. Droga... preciso de um doador forte. Marcos ia ser minha cobaia, mas aquele idiota saiu. Vou chamá-lo.
Sanstone segurou o braço de Laura com firmeza.
— Me fura. Use meu sangue para salvar Alexandre. Por favor.
Laura sorriu, satisfeita. Após retirar o sangue, laura rapidamente fez o procedimento com tranquilidade, conectando o braço de Sanstone ao de Alexandre.
— Com isso ele deve ficar estável. Agora preciso ver os outros feridos. Só cuidado para não machucá-lo enquanto eu estiver fora, viu?
Laura saiu com um risinho provocativo. Sanstone, num acesso de raiva envergonhada, arremessou uma cadeira contra a parede ao lado da porta por onde Laura passará.
— Na próxima vez eu não vou errar! — rosnou ela.
Voltando a atenção para Alexandre, ao lado da cama a expressão suavizando. Alexandre começou a recobrar a consciência, piscando lentamente.
— O-onde estou? Sans... estamos mortos?
Sanstone riu, um som aliviado e raro.
— Não, seu bobo. Estamos vivos. Não me assuste assim novamente.
Alexandre tentou se mover e percebeu a paralisia parcial.
— Entendo... fui atingido por uma flecha envenenada, não é?
— Foi. E por que você se jogou na frente? Você é o Comandante, eu sou apenas a Vice. Marcos poderia me substituir, mas você... você é insubstituível.
Alexandre tossiu, sorrindo fracamente.
— Relaxa, Sans. Você me substituiria com facilidade. A verdade é que você não é substituível.
Mesmo sabendo que ele se referia à força do Clã Stone, ela sentiu o rosto esquentar. Comovida pelo sacrifício, ela permitiu-se um sorriso travesso.
— Você é tão fofo... Obrigada pelo elogio. Agora, cale a boca e descanse.
Alexandre corou. De repente, a porta se abriu. Laura e Marcos entraram, arrastando um dos encapuzados capturados. Sanstone recompôs sua máscara de frieza instantaneamente e Alexandre sua postura normal.
— O que houve para entrarem assim? Pedi para prenderem os prisioneiros nas celas.
Marcos respondeu, a voz carregada de incredulidade:
— Acho que vocês vão ficar bem surpresos com isso.
Ele arrancou o capuz da figura amarrada. Um silêncio chocado tomou a sala.
— Não é possível... — sussurrou Sanstone. — Uma Valquíria?
A garota, com o uniforme do exército sob a capa, encarou-os com ódio.
— Sim, exatamente! Eu não suportava mais isso!
— Como assim? Se explique! O que diabos é isso?! — exigiu Alexandre, tentando se erguer.
A Valquíria cuspiu no chão.
— Até parece que vou falar. Prefiro morrer como uma Valquíria a trair a causa!
— Tá legal, então que morra — disse Marcos, sacando a adaga.
— NÃO! — gritaram Laura e Sanstone em uníssono.
— Não é para matá-la, seu imbecil! — repreendeu Sanstone. Ela assumiu seu tom de comando: — Capitão, leve-a para a sala de tortura. Vamos cuidar disso depois. O resto do grupo desses traidores será enviado para as celas comuns. Vão estreá-las hoje.
Marcos bateu continência e puxou a traidora com brutalidade. A garota reclamou da falta de cavalheirismo, mas Marcos a ignorou, arrastando-a para fora junto com Laura.
— Pelo jeito, a situação é mais crítica do que imaginei — murmurou Alexandre.
Sanstone apertou a mão dele, que ainda estava conectada à sua pela transfusão.
— Traidores dentro do exército.
O silêncio reinou por alguns minutos enquanto o sangue fluía. De repente, a porta se abriu com estrondo. Laura entrou correndo, pálida e ofegante. Em direção aos dois e arrancou as agulhas, estancando o sangue com magia e mãos trêmulas.
— Me desculpa! Me desculpa! Isso não vai acontecer de novo!
Sanstone sentiu o mundo girar. Ela estava levemente pálida.
— Laura... — tentou dizer Sanstone, a voz falhando.
— Por favor, General, fica comigo! — implorou Laura, segurando o rosto da amiga. — Você não deve partir amiga, senão meu pai é quem vai me partir em dois!
Alexandre, sentindo-se melhor, interveio:
— Laura, relaxa. A Sanstone é muito mais resistente do que você imagina. Ela aguenta.
Laura suspirou, aliviada, ajudando Sanstone. Alexandre, já com um pouco de cor no rosto, ditou as ordens:
— Escutem. Ainda preciso de uma ou duas horas para me recuperar totalmente, mas a mente já está ativa. Preciso que vocês façam aquela Valquíria falar.
Sanstone levantou-se, apoiando-se na mesa para disfarçar a tontura.
— Claro, Comandante. Ela vai falar. Vamos, Laura.
Quando as duas saíram, Alexandre recostou-se no travesseiro, preocupado.
— Espero que essas duas não façam a Valquíria perder a vontade de viver...
(Na Sala de Tortura)
A Valquíria traidora estava amarrada em uma cadeira no centro da sala fria e úmida. Laura entrou saltitando, um sorriso maníaco no rosto, enquanto Sanstone fechava a porta devagar.
— Sans, Sans! Por favor, me deixa me divertir com a prisioneira? — pediu Laura, os olhos brilhando. — Estou morrendo de vontade de ouvir os gritos dela!
A empolgação sádica de Laura fez a prisioneira engolir em seco. Sanstone suspirou, encostando-se na parede de braços cruzados.
— Paciência, Laura. Você terá sua vez.
A prisioneira gaguejou:
— C-Como assim "sua vez"? Está querendo dizer que vai me deixar com essa louca?
Laura começou a andar em círculos ao redor da cadeira, passando a mão pelo cabelo da garota. Sanstone falou, a voz gélida:
— Se você não contar nada, é bem capaz que eu também entre na brincadeira.
— Por favor... — sussurrou Laura no ouvido da traidora. — Finja-se de difícil. Isso vai me dar tanto prazer no meu trabalho.
Sanstone desencostou da parede, caminhou até a garota e segurou seu queixo com força, obrigando-a a encará-la.
— Olhe aqui, garota. Eu não me importo se você vai falar ou não, porque uma hora você vai quebrar. Mas, se quiser facilitar as coisas para você e evitar que a Laura transforme seu corpo em arte abstrata, a hora é agora.
A garota reuniu toda a coragem que lhe restava e cuspiu no rosto de Sanstone.
Laura soltou um gritinho de alegria genuína.
Sanstone não piscou. Calmamente, soltou o queixo da garota e limpou o rosto com as costas da mão, sem demonstrar emoção.
— Laura. O chicote.
Os olhos da prisioneira se arregalaram.
— E-Espere! Não! Eu falo... O chicote de ferro não!
Laura já empunhava a arma, o metal brilhando sob a luz fraca.
— Onde você deseja que eu estreie o Chicote, General?
Sanstone virou-se de costas, caminhando em direção à saída.
— A boca, Laura.
— NÃO! — gritou a garota.
Antes que ela pudesse implorar mais, Laura desferiu o golpe. O estalo foi seco e brutal. O chicote rasgou o lábio da garota, o sangue jorrando. Ela gritou de dor, as lágrimas misturando-se ao vermelho.
Laura sorriu, em êxtase.
— Ah, que carinha mais linda! Você combina muito de vermelho, querida. Hahaha!
Após a risada ecoar pelas paredes de pedra, Sanstone virou-se novamente. Seus olhos vermelhos brilhavam na penumbra, frios e impiedosos.
— Muito bem, garota. Agora quero saber tudo. Ou mandarei redecorar esta sala inteira com o seu sangue.