
No centro do Coliseu, Sanstone e Muralha trocavam olhares afiados como navalhas. Da arquibancada, Alexandre observava a tensão estática, ponderando em silêncio:
As duas estão se medindo. Parece que a Sanstone está dividida sobre como abordar essa luta... Espero que ela saia inteira dessa.
Quebrando o silêncio, Muralha avançou. Seus punhos enormes balançavam enquanto ela corria de forma bípede, cada passo pesado fazendo o chão de terra tremer violentamente.
Sanstone começou a perder o equilíbrio com os abalos sísmicos gerados pela hipopótamo. Pensando rápido, a Vice-Comandante tomou impulso e saltou num mortal para frente, com a intenção de passar por cima do colosso.
Porém, com uma agilidade que desafiava seu tamanho, a hipopótamo girou o corpo no ar como se fosse leve como uma pluma.
Que rápida! — Sanstone arregalou os olhos ao pousar.
Muralha abriu um sorriso sádico e desferiu um soco devastador bem no rosto da garota. O impacto lançou Sanstone como uma boneca de pano contra a parede do coliseu.
Num piscar de olhos, Lilith ergueu uma barreira translúcida sobre as paredes para proteger a estrutura e o público.
— Tsk, ficar segurando essas paredes é um saco. — resmungou a Primeira-Ministra, bufando enquanto seu cabelo assumia um tom de azul mais claro. Leonardo e o Ceifador lançaram um olhar rápido para ela, mas logo voltaram a atenção para a arena.
Sanstone cuspiu uma poça de sangue ao escorregar pela barreira invisível, caindo agachada. A hipopótamo gargalhou, voltando a correr pesadamente para criar novos tremores e desestabilizar a adversária.
Droga... esse salto alto está me atrapalhando contra esses tremores, pensou Sanstone, trincando os dentes.
— Não me subestime! — bradou Sanstone.
Em vez de fugir, ela socou o próprio chão, abrindo uma cratera e criando um contra-tremor que anulou o abalo de Muralha, fazendo a gigante tropeçar e interromper sua corrida.
Aproveitando a brecha, Sanstone usou seus saltos para se impulsionar para frente como um tiro de canhão. Ela chocou o próprio corpo e o escudo diretamente contra o estômago desprotegido da fera.
— Te peguei! — declarou Sanstone.
Mas Muralha apenas sorriu de canto antes de se desequilibrar por completo.
— Hehe... você é quem não devia me subestimar, garotinha.
A gigante agarrou Sanstone com os dois braços maciços. Usando o próprio peso da queda, Muralha girou no ar e despencou de costas para o chão, esmagando a Vice-Comandante sob seu estômago colossal.
Um estalo oco e perturbador ecoou do peito de Sanstone, seguido por uma dor excruciante.
D-droga... algo dentro de mim se quebrou…
Enquanto Sanstone tentava puxar o ar que havia fugido de seus pulmões, Muralha ergueu o punho para esmagar a cabeça da garota.
— É o seu fim, humana!
Porém, os olhos de Sanstone acenderam com um brilho escarlate puro, como fogo vivo. Ignorando a dor de seus ossos fraturados, ela cravou os dois cotovelos no chão. Com uma explosão de pura força física, ela impulsionou o próprio corpo para cima, empurrando a montanha de carne de Muralha para trás e erguendo-se no processo.
Nas arquibancadas vips, os lordes ficaram intrigados.
— Interessante esta luta... — murmurou Salocin, sua voz espectral ecoando gravemente sob o capuz.
— Isso sim que é um embate de força bruta! Tô gostando dessa garota! — riu Leonardo, genuinamente surpreso.
Já de pé, Sanstone bateu a bota no chão, e a vibração fez seu escudo caído saltar perfeitamente de volta para sua mão. Sem perder o ritmo, ela disparou contra a hipopótamo que ainda se levantava. Com um salto preciso, Sanstone desceu o escudo, usando as pontas ornamentais para tentar empalar a gigante.
Muralha bloqueou o ataque e sorriu:
— Seus movimentos não são fortes o suficiente.
Sanstone forçou a arma contra ela com tudo que tinha, mas a hipopótamo continuava sorrindo, sustentando o monólogo com desdém:
— Boa tentativa.
Com um balanço de braço, Muralha desferiu outro soco no rosto de Sanstone, arremessando-a novamente contra a barreira protegida por Lilith. Sanstone caiu agachada, a respiração pesada.
Meu corpo tá pesado... sinto minhas costelas ardendo como brasa. Tenho certeza de que estão fraturadas, mas por alguma razão ainda consigo me mover perfeitamente.
Muralha se ergueu por completo, limpando a poeira, e falou em alto e bom tom:
— Fui tola em achar que você seria muito forte. Acho que nem preciso me preocupar em defender seus ataques. São todos patéticos.
Sanstone, com a franja cobrindo os olhos, cerrou os dentes.
Droga... essa montanha de carne não sofre nenhum dano de impacto. O que estou fazendo de errado?
Lentamente, ela se levantou, cuspindo outra gota de sangue para o lado. A expressão de Muralha ficou mais séria ao ouvir a voz gélida e indiferente da oponente:
— Eu ainda não caí, gorducha. Já que está tão cheia de si, por que não vem me matar de uma vez e para de latir?
As duas voltaram a correr, colidindo no centro da arena.
Longe dali, na escuridão das celas do coliseu, Laura abriu os olhos abruptamente. Ela correu até Marcos, que jazia imóvel no chão de pedra, e o abraçou com lágrimas escorrendo pelo rosto.
— Querido, por favor, acorda! Você é mais forte que isso, por favor…
Ela pressionou o ouvido contra o peito dele e suspirou.
Está vivo, graças aos deuses. Preciso descobrir onde o veneno está alojado.
Laura fechou os olhos e envolveu Marcos. Uma aura roxa, idêntica à do seu veneno paralisante, emanou dela, conectando-se ao fluxo de mana do Capitão. Ao abrir os olhos, sua expressão era de pura perplexidade.
Espere... o corpo dele não tem veneno nenhum? Parece que foi drenado.
O som de passos pesados ecoou do outro lado das grades. Laura ergueu a cabeça, o olhar afiado.
— Já devia imaginar que você estaria aqui, Leônidas.
O gigante de cabelos prateados parou de frente para a cela, a voz calma e monótona.
— Você é muito explosiva, garota. Deveria saber que lutas de coliseu não devem ter intervenção externa, iss—
— SILÊNCIO! — berrou Laura, apertando Marcos em seus braços. As lágrimas voltaram a cair, mas sua voz rasgava de agressividade. — O que você sabe sobre perder alguém que ama?! Eu não dou a mínima para patentes, exércitos ou regras! A vida de alguém é o que importa, ainda mais a da pessoa que eu amo! Nada no mundo te devolve isso!
Leônidas a observou em silêncio absoluto. Lentamente, ele deu um passo para a esquerda e fez uma reverência leve. Das sombras do corredor, Lilith emergiu, caminhando com as mãos na cintura.
Laura arregalou os olhos.
— M-majestade?
A garota de cabelos azuis cruzou os braços abaixo dos seios, fazendo bico.
— Nossa, mas você me humilhou lá em cima, garota. Sabe o que eu deveria fazer com tipinhas insolentes como você?
Laura abaixou a cabeça, derrotada.
— V-você não entende, majestade. Mas se quiser me matar, vá em frente.
Lilith ergueu uma sobrancelha, incrédula.
— "Pode me matar, Princesa Lilith, eu não me importo", — imitou Lilith com uma voz fina e dramática, antes de bater a palma da mão na própria testa. — Garota, você é mais burra do que eu imaginava! Em vez de agradecer por eu não ter matado você e essa montanha de músculos, está pedindo pra morrer? Pare de drama!
Laura piscou, atordoada.
— C-como assim, majestade? Está poupando a gente? Por quê?
Lilith virou o rosto com uma expressão emburrada.
— Cale-se. Não é que eu queira ser boazinha, mas você pertence a um clã fundamental para o reino. Não posso simplesmente apagar a única herdeira deles. Além do mais, eu não sou tão má assim, esse garoto merece uma chance.
Um alívio imenso inundou Laura. Ela sorriu e se ajoelhou rapidamente.
— Senhorita Lilith, muito obrigada! A sua bondade é algo que guardarei no fundo do meu coração!
Lilith deu um sorrisinho vitorioso, mas logo sua expressão ficou afiada.
— Tá bem, tá bem. Mas antes de eu ir embora, quero uma resposta sua. E eu quero a verdade.
A tensão voltou a gelar a masmorra. Laura ficou de pé, atenta.
— O que seria?
— Quero que você me diga qual é a exata relação entre o Alexandre e a Sanstone.
Laura abriu os olhos, totalmente pega de surpresa.
— C-como assim, senhorita? Eles pertencem à mesma patente militar, são profissionai—
Antes que Laura pudesse inventar uma desculpa, Uma redoma vermelha translúcida e sufocante envolveu o corpo inconsciente de Marcos. A Primeira-Ministra manteve os braços cruzados, sem mover um músculo.
— Você consegue confirmar isso com certeza absoluta? Se for mentira, a vida do seu amado noivo acaba aqui e agora. Saiba que possuo um feitiço exclusivo que lê os batimentos da verdade... chamado Controle Mental.
O sorriso doce e letal de Lilith fez Laura suar. Sem saída e temendo por Marcos, ela confessou:
— Está bem, senhorita Lilith! A Sanstone e o Alexandre são... amigos íntimos!
No mesmo instante, Lilith arregalou os olhos. A barreira ao redor de Marcos desapareceu como fumaça. A garota levou as duas mãos para baixo e começou a bater o pé no chão repetidas vezes, num ataque de birra furioso.
— Aquele idiota!! Como ele ousa ter outra melhor "amiga"?! Ele não podia fazer isso! Ele é só meu! Meu!!
Laura tentava processar a cena bizarra de uma das governantes mais temidas do mundo agindo como uma criança traída, enquanto Leônidas assistia a tudo com sua costumeira indiferença glacial.
Lilith parou de bater o pé e apontou o dedo na cara de Laura.
— Olha aqui, você tem certeza absoluta de que ele fez isso?!
— S-sim, Majestade. O Alexandre e a Sanstone são tão próximos que geralmente se trancam na sala dele pra conversar sozinhos por horas... — respondeu Laura, tentando não piorar a situação.
Lilith estufou as bochechas, vermelha de raiva.
— Ele fica conversando com outras pessoas sem tempo pra mim?! Que impertinência!
Laura, movida por uma curiosidade perigosa, levantou a mão timidamente.
— Com licença, senhorita Lilith... mas por acaso a senhorita está apaixonada pelo Comandante Alexandre?
Lilith soltou uma risada nasalada e cruzou os braços, jogando o cabelo.
— Apaixonada? Até parece! Apaixonada é coisa de garotas fúteis de contos de fadas que acham que o príncipe encantado vai chegar num cavalo. Eu sou uma governante muito crescida e madura, sei bem que essas coisas não existem! O príncipe só existe de verdade quando acontece um beijo com uma garota... e aí ela gera um filho instantaneamente! so acho que o comandante devia conversar mais comigo, aquele escroto!
Laura inclinou a cabeça, piscando os olhos, totalmente confusa com a biologia da Primeira-Ministra.
— Como assim gerar um filho? Um beijo não ger—
Antes que Laura pudesse revelar uma verdade sobre isso, Leônidas, discretamente nas sombras, fez um gesto frenético com a mão, cortando o próprio pescoço em um sinal de "NÃO FALA ISSO".
Lilith percebeu a movimentação pelo canto do olho e disparou:
— Ei! Quem te deu permissão para se mover, carrasco? Saiba o seu lugar!
Leônidas suspirou, abaixando a cabeça.
— Peço perdão, senhorita.
— Que saco. Hoje em dia só estou cercada de imprestáveis... — resmungou Lilith, coçando a cabeça e voltando a resmungar sozinha. — Aquele garoto tem sorte de eu não transformá-lo numa poça de gosma. Depois vou ter uma conversa bem franca com ele. A única melhor amiga que ele tem permissão para ter sou eu! Sanstone é só uma amiga normal dele!
Sem mais avisos, Lilith desapareceu no ar.
O silêncio reinou até Leônidas se pronunciar, sua voz voltando ao tom imponente:
— Não se preocupe. Você e o garoto da lança estarão seguros. Eu garanto isso.
Laura estreitou os olhos.
— Por quê? Você nunca foi disso, sempre foi o executor cego das ordens dela. Aposto que só não nos matou agora porque ela mandou.
Leônidas fechou os olhos, um suspiro profundo escapando de seus lábios.
— Pense o que quiser. Tenho assuntos mais importantes. E, por favor, não tentem sair dessa cela. Lilith foi clara: se eu vir vocês tentando fugir, não haverá segunda chance.
Com um deslocamento súbito de ar que bagunçou os cabelos de Laura, Leônidas sumiu nas sombras. A Sargenta sentou-se novamente, abraçando Marcos enquanto aguardava seu despertar.
Nas profundezas da estrutura do coliseu, Jacó caminhava a passos calculados, seguido por Jade.
— Jade, o que mais você descobriu? Alguma informação útil que possamos usar?
A lagarta humanoide coçou a cabeça, hesitante.
— Mano, eu tenho uma teoria, mas ainda estou tentando confirmar os detalhes. Envolve o garoto que você quase matou agora há pouco.
— O Marcos II? Se for sobre a morte do pai dele, eu já sei que ele morreu em combate. E daí? — Jacó estalou a língua, impaciente.
— A questão é que eu acho que encontrei o assassino dele. E foi um humano.
Jacó parou de andar. Ele abriu os olhos amarelos com surpresa, mas rapidamente recuperou a compostura gélida.
— Quem seria esse humano?
— Foi o antigo vice-comandante do Leônidas, senhor. Ele apunhalou o aliado pelas costas. Ainda não descobri a motivação exata.
Um sorriso de desprezo repuxou o focinho do crocodilo.
— Lixos…
— Perdão, o que disse, mano?
— Esses humanos conseguem ser mais podres do que eu imaginava. Chega a ser poético de tão ridículo. Investigue isso a fundo agora que a garotinha mimada do rei deles não está mais pelos corredores.
Jade hesitou, a respiração pesada.
— M-mas eu estou envenenada... meus passos estão ficando lent—
— Jade, nós não temos tempo! — cortou Jacó, elevando a voz, algo raro para ele. — Ou você descobre isso agora, ou minha paciência vai acabar.
— M-mas o Rei Leonardo não precisa sabe—
— O Rei é um tolo cego! Igualzinho ao pai dele! — retrucou Jacó, com veneno na voz. — Para mim, líderes assim são patéticos. Mas a bagunça que está acontecendo agora é ridícula, e essa informação pode ser um excelente bônus estratégico. Vá!
Jade fez uma reverência apressada e virou-se para sair. Antes que ela sumisse, Jacó jogou um pequeno frasco de vidro contendo um líquido esmeralda. Ela pegou no ar.
— É meu último antídoto. Trate de trazer mais um do estoque para mim depois. Eu não sou imune a venenos, mas é vantajoso que nossos inimigos continuem acreditando que sou.
Jade sorriu agradecida e dissolveu-se nas sombras rumo ao Quartel General humano. Jacó ajeitou a gola da roupa e caminhou de volta às arquibancadas para apreciar o banho de sangue.
Na arena, Sanstone e Muralha estavam num impasse de força bruta. As mãos das duas estavam entrelaçadas, cada uma tentando sobrepujar a outra. Sanstone sentia as botas arrastando na terra, perdendo terreno.
— Nossa, mas que falta de força! — zombou a hipopótamo, empurrando. — Você se considera a mulher mais forte desse exército de vocês? Parece que todas são só enfeite!
Sanstone travou os músculos, tentando afastar as mãos gigantes de perto de seu rosto.
— E quem você pensa que é para falar assim? Achando que nós mulheres somos só rostinhos bonitos? Nós temos força e—
— Ah, não. De novo esse papo vitimista? — interrompeu Muralha, revirando os olhos. — Sabia que falar bonito não te deixa mais forte, garota? O que manda aqui são as ações! Quando eu era pequena, meu pai teve muitas esposas. A minha mãe foi só mais uma das coitadas que caíram na lábia dele.
À medida que Muralha falava, seus músculos pareciam inchar, sua pressão aumentando exponencialmente.
— Minha mãe foi usada. Eu também fui. Mas sabe o que é engraçado? Eu só me tornei essa potência destrutiva porque um homem me mostrou o caminho da força!
Sanstone retrucou com escárnio:
— Q-que fofa essa sua história de superação. Tá querendo um prêmio?
Muralha fechou o aperto, e Sanstone sentiu os ossos dos dedos começarem a estalar.
— Sabe de uma coisa? Eu tenho pena de você, baixinha. Sua força física é considerável, mas você não foca nela, foca nessa língua afiada. Se falasse menos e treinasse mais, talvez... só talvez…
A hipopótamo aplicou uma pressão esmagadora. Os ossos das mãos de Sanstone cederam com estalos úmidos.
— GRRRR! DROGA! — gritou a Vice-Comandante, a dor lancinante cegando sua visão.
— ...Talvez você fosse uma guerreira de verdade, e não só a sombra de um Vice! — rugiu Muralha.
Com um puxão brutal, Muralha ergueu Sanstone do chão e, segurando-a pelos braços, desferiu uma cabeçada colossal. O impacto soou como um trovão. Sanstone foi arremessada contra o chão com tanta violência que abriu uma cratera oval, destruindo completamente a área central do coliseu.
Muralha caminhou até o buraco e ergueu Sanstone pela cabeça, como um troféu.
— Nossa, você ainda está viva! Isso é fantástico, dá pra eu brincar mais um pouquinho.
O sangue escorria pela testa de Sanstone, sua visão estava tingida de vermelho e embaçada.
Minha visão tá escurecendo... meu corpo tá quente e pesado. É como se, pela primeira vez na minha vida, a minha armadura estivesse pesando…
Muralha virou a garota para as arquibancadas, exibindo sua derrota.
— Vejam, irmãos! Olhem como esses humanos são patéticos! Eu estou espancando a guerreira mais forte deles, e eles só sabem esconder os rostos de vergonha!
Enquanto a arquibancada das bestas rugia em delírio (com exceção de Jacó, que observava sério), os humanos e demônios permaneciam em silêncio absoluto. Sanstone, com dificuldade, abriu os olhos e olhou para a área de seu time.
Alexandre a observava. Seu rosto não tinha pânico, nem tristeza. Era uma máscara de pura frieza calculista. Ao lado dele, Leônidas exibia a exata mesma expressão gélida. Até Lilith, em seu trono, bocejava.
— Até quando vai continuar brincando com a comida? Temos outras lutas hoje, sabe? — reclamou a Primeira-Ministra.
Muralha piscou, incrédula com a falta de empatia.
— Vocês não podem estar falando sério! Eu estou massacrando a Vice-Comandante de vocês! A filha da lenda! Como podem simplesmente não se importar?!
Lilith deu de ombros, o tédio evidente.
— E daí? Vocês todos são só peças num tabuleiro de xadrez. Se uma quebra, a gente joga fora.
Balançando pela cabeça, Sanstone interpretou aqueles olhares vazios de Alexandre e de seu pai. Ela entendeu o que precisava ser feito. Não havia espaço para hesitação ou moralidade.
Usando suas mãos quebradas, Sanstone agarrou o pulso de Muralha, cravando os dedos com uma força desesperada que fez a gigante grunhir de dor e soltá-la.
Sanstone caiu de pé, recuando com um salto ágil. Muralha massageou o pulso, sorrindo torto.
— Decidiu brincar a sério, baixinha? Bom, acho que o aquecimento acabou.
Sanstone cuspiu o sangue acumulado na boca e limpou o queixo com as costas da mão fraturada. Ela olhou para os próprios dedos tortos.
— Tem razão. Chega de brincar. Acho que eu passei tempo demais no jardim de infância fingindo ser uma heroína boazinha.
— Que bom que você finalmente entendeu o seu lugar. Vou te mostrar um vislumbre do verdadeiro terror!
A carne de Muralha começou a se expandir grotescamente. Sua altura dobrou. Asas coriáceas rasgaram suas costas, o focinho de hipopótamo alongou-se num bico draconiano e uma cauda espinhosa chicoteou a terra. As patas tornaram-se garras de dragão. A besta colossal olhou para baixo, a voz agora um eco gutural.
— Então, nanica... agora você acha que consegue me derrotar?
Sanstone não respondeu com palavras. Ela calmamente apertou os punhos. Estalos altos ecoaram enquanto ela colocava os próprios ossos quebrados dos dedos de volta no lugar, puramente na força de vontade e ignorando a dor. Ela ergueu o rosto, a aura assassina transbordando.
— Sim. Eu consigo.
Muralha arregalou os olhos draconianos ao ver a garota consertar fraturas expostas como se fosse nada. Sacudindo a cabeça para afastar o choque, a criatura dracônica avançou, cada passo destruindo o coliseu.
— É O SEU FIM, HUMANA!
Sanstone afastou as pernas. Num estalo supersônico, ela saltou em direção à Muralha, que abriu as garras para esmagá-la no ar.
No instante do impacto, o corpo de Sanstone explodiu em chamas intensas. A luz ofuscou os olhos do dragão, fazendo Muralha errar o golpe.
Em vez de colidir contra o peito da fera, Sanstone usou a propulsão do fogo para despencar e pousar na frente da barriga colossal do monstro. Sem perder tempo, armou o braço direito para trás, concentrando seu punho.
Com foco e frieza, Sanstone desferiu um soco ascendente. O punho afundou na grossa pele draconiana de Muralha, criando uma onda de choque que ecoou por dentro da criatura, estilhaçando a maioria de seus órgãos internos.
O monstro cuspiu muito sangue. Sua forma começou a regredir violentamente, encolhendo até voltar ao tamanho original, caindo sentada na terra, totalmente paralisada e em choque.
Antes que Muralha pudesse puxar ar para os pulmões, Sanstone já estava sobre ela. A garota agarrou o pescoço da fera com a mão esquerda. Com a direita, ela desferiu um golpe em formato de garra que perfurou o peito da hipopótamo, atravessando carne e osso.
Quando Sanstone puxou a mão de volta, ela segurava o coração ainda pulsante de Muralha, exibindo-o para toda a arquibancada das bestas.
O sangue jorrava do peito aberto de Muralha, que estendeu a mão trêmula, gaguejando suas últimas palavras:
— P-perdão... me d-desculpe…
Sanstone apertou o coração na mão e olhou diretamente para o camarote.
— Rei Leonardo! O que diz a lei do seu reino? Ela deve ser poupada?!
A arquibancada das bestas estava mergulhada em um silêncio sepulcral. De longe, o jovem Conor caiu de joelhos, as lágrimas rasgando seu rosto.
— M-meu rei... por favor, não deixe nossa irmã morrer! Senhor!!
Leonardo levantou-se, a juba eriçada, e decretou com fúria implacável:
— Execute-a! Perdedores não têm espaço no meu reino!
Conor estendeu as mãos para a arena, soluçando em desespero:
— P-por favor, senhora Sanstone! Não faça isso! Eu imploro!
Sem desviar o olhar do Rei, Sanstone fechou o punho. O coração de Muralha explodiu em um banho de sangue e pedaços de músculo na frente de milhares de espectadores. Muralha olhou para conor e piscou antes de ser jogada no chão como lixo, Sanstone limpou o rosto ensanguentado.
— Está feito, majestade.
— MANA!!!! — berrou Conor, os olhos revirados de dor. — VOCÊ É UM MONSTRO!
Leonardo virou-se para o garoto, rugindo:
— BASTA! Engula esse choro, ou se continuar agindo como um fraco, você será o próximo a ser executado por mim!
Conor silenciou, tremendo e chorando baixo. Lilith riu maliciosamente em seu trono.
— Olha só... para quem reclamou tanto dos meus soldados chorando mais cedo, vejo que os seus também não aguentam a pressão. Coitadinhos.
Leonardo rosnou para ela:
— Conor ainda é muito jovem, por isso se comporta como uma criança estúpida. Você devia entender perfeitamente, já que é da mesma categoria.
No centro da arena, Sanstone fez uma reverência irônica para o Rei das Bestas e começou a caminhar de volta para sua equipe.
Jacó, assistindo a tudo de camarote, estava de braços cruzados, a expressão fechada e analítica. Leônidas observava o retorno da filha com aprovação silenciosa.
Alexandre, porém, estava enojado.
— Leônidas... ela não é assim. Por que ela fez uma carnificina dessas?
— Sanstone está amadurecendo, garoto. Ela finalmente aprendeu que a piedade só deve ser concedida àqueles que merecem continuar respirando — respondeu o gigante, indiferente.
Alexandre se levantou, a repulsa evidente em seu rosto. Ele começou a descer as escadas, passando reto por Leônidas.
— Amadurecer? Isso para mim se chama tirania. Toda vida merece uma segunda chance se pedir perdão.
Ao chegar na base da escada, ele cruzou caminho com Sanstone, que retornava coberta de sangue. Alexandre não diminuiu o passo, passando direto por ela sem fazer contato visual.
Sanstone parou, incrédula e ofendida.
— Eu quase morri lá dentro lutando por nós, e é assim que sou recebida?!
Sem olhar para trás, Alexandre continuou caminhando em direção ao centro da arena.
— Eu não dialogo com assassinos que matam por esporte.
O comentário a atingiu como um soco. Ela fez menção de correr atrás dele, mas Alexandre desapareceu. Quando Sanstone chegou à arquibancada, viu o Comandante já posicionado na arena, frente a frente com o Ceifador.
Ela notou um detalhe perturbador: os olhos de Alexandre estavam completamente vazios, desprovidos de esperança ou brilho. Já os olhos do Ceifador queimavam em um roxo infernal sob o chapéu esfarrapado.
Nas arquibancadas, Conor gritou, a voz rouca de ódio:
— MATE ESSA MERDA DE HUMANO! Se aquela vadia imbecil matou nossa irmã, torture ele, Ceifador! Mostre por que você é o comandante e o vice do reino dos demônios!
Jacó abriu um sorriso ladino, os olhos focados em Alexandre.
O que você vai fazer contra um monstro desses, Alexandre? Estou ansioso para ver suas verdadeiras técnicas, já que mostrei como danço.
Enquanto um grupo de dez goblins arrastava o cadáver gigantesco de Muralha para fora da arena, o Ceifador ergueu a mão esquerda. Uma fumaça etérea e esbranquiçada saiu do corpo morto e foi sugada diretamente para a palma do demônio. A aura dele expandiu, tornando-se esmagadora.
Sanstone arregalou os olhos.
— Parece que você caiu na armadilha deles, filha — comentou Leônidas, sentando-se novamente. — Aquele monstro tem a habilidade de absorver as almas dos recém-mortos para aumentar o próprio poder. E você acabou de dar a ele um banquete de luxo: a alma de uma guerreira que superava os próprios limites.
Recusando-se a dar o braço a torcer para o pai, Sanstone engoliu seco e sentou-se na beirada do banco. Seus olhos não desgrudavam de Alexandre, enquanto o Ceifador exalava um poder sombrio, os olhos do Rei Salocin no camarote brilhavam intensamente em sincronia com seu campeão.