
Acho que esse é um dos capitulos mais travessos que escrevi, ta certo que não tem nada explicito mas ainda sim fiquei bem relutante em escrever, mas no final resolvi escrever o que meu coração quis e ficou maravilhoso.
Alexandre caminhava pelos corredores do quartel sob os olhares pesados de soldados e valquírias. Era inevitável os sussurros o chamando de fraude ecoavam pelas paredes de pedra. Escoltado de perto por Marcos e Laura, ele observava a situação com cansaço.
Ao chegarem à porta da sala da Vice-Comandante, Marcos deu um tapinha no ombro do amigo.
— Meus pêsames a você, Alê.
Laura revirou os olhos, abrindo a porta e assumindo uma postura profissional.
— Trouxemos ele, como pediu, Sans.
Sanstone estava sentada atrás da mesa. Seus dedos entrelaçados formavam uma ponte próxima ao rosto, os olhos vermelhos gélidos e indecifráveis.
— Ótimo. Fiquem aqui para e-
— Senhorita, não podemos ficar — interrompeu Laura, balançando a cabeça. — Alguém precisa cuidar para que as tropas não enlouqueçam nessa crise. Marcos não consegue comandar as valquírias sozinho, e nem eu os soldados.
— Verdade — concordou Marcos, já recuando para o corredor. — Mas conhecendo vocês dois, tudo vai ficar bem. Alê, só toma cuidado.
A porta se fechou, deixando um silêncio denso na sala. Alexandre puxou uma cadeira e sentou-se, encarando a garota.
— General Sanstone, o que isso significa?
Ela ergueu o queixo, a voz mantendo um tom perigosamente calmo.
— Justiça. Tanto você quanto meu pai não merecem os cargos que ocupam. Então, tomei uma decisão: amanhã realizaremos uma votação. Os soldados e valquírias vão escolher quem desejam como Comandante Supremo. O perdedor ficará como vice. De acordo?
Alexandre franziu a testa.
— Por que está fazendo isso, Sans? Precisamos resolver os problemas deste exército, não agravá-los! Se você jogar lenha na fogueira, as valquírias vão ficar ainda mais fora de controle.
— E daí? Não vejo como isso me afeta.
— Não sabe como te afeta? — Alexandre elevou um pouco a voz, apoiando as mãos nos joelhos. — Você sabe o que vai acontecer se essa briga interna se expandir? Teremos mortes, Sans. E quem será responsabilizada por isso será você!
— E? — rebateu ela, indiferente.
Ouvir aquele "E" apático fez algo estalar na mente de Alexandre. Ele recostou-se na cadeira, balançando a cabeça em decepção.
— Nossa... pelo jeito “ela” tinha razão. Você é igualzinha ao seu pai.
O efeito foi imediato. Sanstone arregalou os olhos. Ela descruzou os braços e bateu na mesa com tanta força que a madeira maciça rachou sob sua luva.
— Não me compare àquela aberração! Eu jamais seria um ser desprezível como ele!
Alexandre não recuou. Continuou a observá-la, virando o rosto devagar.
— Não tem como não comparar. Você está se tornando um carrasco, sequer se importando com as vidas. Seu pai se tornou uma lenda porque causou um massacre. Quer trilhar o mesmo caminho de sangue? Vá em frente. Mas eu não farei parte disso.
Ele se levantou e marchou até a saída. Ao girar a maçaneta, a porta foi empurrada contra ele pelo lado de fora. Laura e Marcos bloqueavam a passagem.
Com um sorriso engraçado, Laura empurrou Alexandre de volta para dentro.
— Nananinanão! Vocês dois não se reconciliaram. Não vamos deixar ninguém passar.
Sanstone ergueu uma sobrancelha.
— Deixem-no passar. Não temos mais nada para falar.
Do outro lado, Marcos soltou uma gargalhada abafada.
— Haha, até parece! Do jeito bravo que você gritou? Nem preciso pensar muito para saber que isso é mentira.
Sanstone levantou-se com uma aura assassina.
— Deixem ele passar agora, ou terei que derrubá-los à força!
— Não, vocês não podem! — retrucou Laura, com o nariz empinado e as mãos na cintura do outro lado. — Enquanto não tiverem uma conversa digna, não sairão daí!
Percebendo que a teimosia não os levaria a lugar nenhum, Alexandre suspirou e voltou a se sentar na poltrona.
— Bem, se eles querem que conversemos, então vamos conversar, Sans. Por favor, comece.
Sanstone olhou para ele, incrédula.
— Não acredito que você vai aceitar isso. Eles claramente estão tramando para nos deixar trancados juntos.
— E daí? Acredito que, no momento, eles são os mais conscientes deste quartel.
Sanstone estreitou os olhos.
— Hmmm? Está me chamando de burra, Comandante? Sabia que isso dá punição militar?
A voz debochada de Marcos atravessou a madeira da porta:
— Nossa, Sans, você está muito chata! O Alê quer conversar de boa e você fica fazendo teatro. Ele é a pessoa mais confiável que você tem nesse lugar e fica virando a cara? Em nenhum momento ele te tratou como inferior!
— Calado, criatura ridícula! Você é considerado pior que um verme! — rosnou ela.
Alexandre ergueu o dedo indicador, interrompendo-a.
— Desrespeitar o guarda-costas do Comandante é uma infração, Senhorita Stone.
Sanstone bateu a mão no peito, autoritária.
— Sabia que desrespeitar um oficial superior é crime?
Alexandre permaneceu em silêncio. Apenas ficou olhando para ela, esperando que o cérebro tático de Sanstone processasse o que acabara de dizer. Segundos depois, ela ergueu as sobrancelhas e se jogou de volta na cadeira.
— Droga.
— Uau, o Alexandre é bom de manipulação! Conseguiu fazer a General cair na própria armadilha direitinho! — comentou Laura, rindo do lado de fora.
Alexandre perdeu a pose de durão e olhou para a porta, exasperado.
— Poxa, Laura! Eu só estou tentando ajudar a Sans, não joga lenha na fogueira!
Um sorriso sutil quebrou a máscara de gelo de Sanstone.
— Está bem, vocês estão perdoados. É inacreditável como vocês conseguem ser tão atrapalhados a ponto de precisarem de mim.
— Você não perde o orgulho nunca, né? — provocou Marcos. — Bem, agora que está tudo resolvido-
A expressão de Sanstone esfriou novamente.
— E quem disse que está tudo resolvido só com algumas piadas? Eu ainda duvido da lealdade do Comandante. O perdão foi só para vocês dois.
Alexandre cruzou os braços.
— E qual seria a sua dúvida? O fato de eu estar fora do quartel à noite?
— Exatamente! — Ela cruzou as pernas, imponente. — Onde você foi que nem mesmo a sua Vice-Comandante poderia saber?
— Não posso dizer. E não, não tem nada a ver com a Primeira-Ministra.
— E como vou saber? Como posso confiar apenas na sua palavra?
— Porque você confiou antes e tudo deu certo — rebateu Alexandre, calmo. — Graças à minha investigação secreta, conseguimos melhorar a situação do ataque no quartel.
O silêncio reinou na sala, até que Marcos concordou:
— É verdade.
Laura deu um tapa na nuca do namorado, repreendendo-o baixinho, antes de falar:
— Vamos lá, Alexandre. Conte para nós.
Alexandre fechou os olhos.
— Não posso. As paredes deste quartel têm muitos ouvidos. Falar tudo agora só traria problemas.
Do lado de fora, Marcos notou vários recrutas se aglomerando no corredor para ouvir a fofoca, Sans ao perceber isso deu um grito alto para afugentar os recrutas :
— Para aqueles que continuarem ouvindo assuntos sensiveis sem serem convidados, serão gentilmente levados a guilhotina em nome dos Stones como criminosos.
Ao dizer isso o corredor fica vazio e Marcos comenta :
— Hum... interessante. Isso é bem útil. Sans, por que você não faz isso com as valquírias quando elas me atormentam?
— Se fosse fácil assim, eu já teria feito, Marcos. Não podemos controlar a vontade das pessoas... nem mesmo a ditadura deste reino consegue — respondeu ela.
— Tem razão, por anos a ditadura prevaleceu... — completou Laura. Um silêncio constrangedor se formou. Laura percebeu a gafe. — C-Claro que até hoje, né... Desculpem.
Aproveitando a distração, Alexandre pesou suas opções em seus pensamentos.
-"Se eu falar para a Sans que estou usando a prima dela como espiã contra o Leônidas, ela nunca vai confiar em mim. Ainda mais sendo a Valentina. Isso só vai me dar dor de cabeça."
Sanstone voltou a fuzilá-lo com o olhar.
— Então, Alexandre. Me diga: por que você está saindo sozinho à noite?
Ele suspirou. Decidiu revelar metade da verdade.
— Bem... eu estava me encontrando com um espião.
Os três ficaram surpresos.
— Eu precisava de ajuda nas investigações — continuou ele. — Se eu procurasse alguém do nosso exército, o inimigo infiltrado saberia. Tive que recrutar alguém de fora, alguém extremamente habilidoso. Esses encontros noturnos serviram apenas para tentar descobrir quem é o traidor deste reino.
Sanstone abriu um pouco mais os olhos. Um peso incômodo se formou em seu estômago.
-"Droga. Se isso for verdade, então ele não estava se encontrando com a Lilith... Isso faz sentido. Afinal, a Primeira-Ministra o fez sofrer na arena por ele ter ido tirar satisfação naquele dia. Maldito seja você, Alexandre. Por que tem que ser tão honesto?"
— Eu também não podia confiar esse trabalho à Laura — finalizou Alexandre —, porque ela não conseguiu cumprir a missão de proteger o quartel antes. Afinal de contas, eu consigo ver daqui que o seu diário não está mais na prateleira, Sans.
Sanstone vasculhou a própria estante com os olhos. O espaço estava vazio.
Laura engasgou do outro lado da porta, morta de vergonha.
Sanstone lançou um olhar gélido para a madeira da porta.
— Está querendo me dizer, Laura, que além de todas as suas falhas, você ainda deixou o inimigo roubar o meu diário?!
Quando a Vice-Comandante fez menção de levantar para arrancar a porta das dobradiças, Alexandre interveio:
— Sans, não se preocupe. Eu sabia que o espião faria isso. Eu mesmo me encarreguei de pegar o seu diário e escondê-lo num lugar seguro. O que estava na prateleira era uma cópia com informações falsas.
O choque foi geral. Sanstone congelou no lugar e voltou a sentar-se devagar.
— Minha verdadeira intenção era confundir o inimigo — explicou ele. — Quando conversávamos outro dia, percebi os olhares de um espião. Usei o momento em que todos dormiam para armar o plano. Eu já tinha um diário falso meu, mas para o seu, tive que escrever um segredo bem absurdo para que o inimigo achasse que tinha encontrado ouro.
Ele virou o rosto para a porta.
— Marcos, graças ao seu desempenho na arena, consegui analisar o Jacó. Pelo que vi, ele não é um ser sanguinário ou um assassino por escolha. É um estrategista.
Em seguida, Alexandre voltou seus olhos afiados para Sanstone.
— Por outro lado, eu não esperava que a Herdeira do Clã Stone se comportasse de forma tão... infantil e claro sanguinária. Eu tinha grandes expectativas sobre você, Sans. Mas ser obrigado a agir como o marido que tem que dar satisfação de cada passo para evitar os seus chiliques? Isso, para mim, é uma ofensa e olha que nem temos nada apenas somos colegas de trabalho.
Sanstone entreabriu os lábios, sentindo o golpe.
— Eu vou te perdoar porque você não cometeu nenhum crime militar real — concluiu ele, levantando-se. — Mas fica o aviso: se quiser me atrapalhar com ciúmes, resolveremos isso no Coliseu. Se quiser me matar lá, vá em frente. Mas eu darei o melhor de mim por este reino e pelas pessoas que vivem nele. Sem joguinhos.
Alexandre abriu a porta e passou por Marcos e Laura sem dizer mais nada. Sanstone permaneceu na sala, olhando para as próprias mãos, o rosto queimando de vergonha.
Enquanto Alexandre caminhava para a cidade, Las Platas estava na superfície, dentro da casa do Comandante. Ela procurou alguns trapos antigos no armário e encontrou roupas simples de camponesa. Vestiu-se, murmurou um encantamento para tornar sua espada invisível e aplicou a magia de ocultação em si mesma antes de sair.
Apenas quando chegou a um beco vazio, desativou a invisibilidade, fingindo ser apenas uma moradora local.
-"Certo, isso deve bastar. Com meu disfarce não chamarei atenção. Vou aproveitar a escuridão."
A caminho das docas, o disfarce funcionou bem até demais. Homens e soldados de folga a secavam com os olhos. Valentina ignorava, mas a repulsa crescia.
- "Nossa, esses idiotas não param de me encarar. É inacreditável como só pensam com a cabeça de baixo. Enfim, preciso focar."
Logo, um grupo de homens bloqueou seu caminho.
— Oi, gracinha. O que faz a essa hora da noite por aqui? Parece perdida. Deixa que esses cavalheiros te ajudem.
Las Platas não parou de andar, a voz firme e cortante.
— Não preciso de ajuda. Conheço muito bem cada rua deste buraco.
O líder do bando alcançou-a, colocando a mão grosseiramente em seu ombro.
— Tem certeza? Eu e meus colegas conhecemos muitos atalhos. Até sabemos uns segredos lá nas docas.
A mente tática de Valentina girou. Ela sorriu de forma sedutora, tirando a mão do homem de seu ombro com delicadeza.
— Sério? Olha... você despertou meu interesse. O que acham de me levarem até as docas e me mostrarem esse lugar bem escondidinho? Prometo que, se chegarmos lá, darei uma recompensa à altura dos... cavalheiros.
Os homens se entreolharam, empolgados. Valentina notou que um deles usava o uniforme do regime de Alexandre.
Durante a caminhada, um dos homens tentou passar a mão em sua cintura, mas ela se esquivou de forma sutil.
— Nananinanão! A hora vai chegar. Tratem de esperar. Vai ser melhor quando chegarmos lá.
O líder a guiou por uma passagem subterrânea, imunda e molhada, que passava por baixo do nível do oceano e dava acesso direto a uma área de contrabando nas docas, longe das patrulhas.
— Bem, chegamos! — disse o homem, sorrindo maliciosamente. — Agora, que tal nos dar aquela recompensa, garota?
Las Platas estalou os nós dos dedos.
— Claro. Aqui está a recompensa de vocês.
Minutos depois, os cinco homens estavam amontoados no chão, nocauteados e com os rostos inchados. Valentina ajeitou a blusa, suspirando.
— Até parece que uma dama como eu se rebaixaria a isso. Desculpe Mestre, mas tive que recorrer à violência diplomática.
Ela vasculhou o local. No fundo de um barril enferrujado que servia de lixeira, encontrou um pequeno pergaminho enrolado, selado de forma suspeita. Ao abri-lo, seus olhos se arregalaram.
- "Tenho que levar isso para o Alexandre. Mas preciso fazer parecer que isso aqui foi só uma briga de bêbados."
Ela espalhou garrafas de rum vazias ao redor dos corpos. Ao olhar para o túnel de saída alagado, hesitou.
-"Como vou sair daqui sem molhar o pergaminho? Ah, claro."
Ela fez o símbolo de "I" com os dedos em direção ao papel.
— Proteção!
Uma barreira mágica envolveu o documento. Ela mergulhou na água, mas, para evitar a patrulha das docas, nadou por muito mais tempo, emergindo apenas na parte Sul da cidade.
Caminhando pelos becos, notou que suas roupas encharcadas deixavam um rastro óbvio de água nas pedras.
- "Droga, essa poça vai me dedurar."
Ela agachou-se, transferiu o feitiço de proteção do pergaminho para o próprio corpo e correu a toda velocidade até a casa de Alexandre. Chegando lá, viu uma patrulha se aproximando.
- "Ótimo, mais guardas. Os pingos de água no meu cabelo estão bagunçando minha invisibilidade. Preciso de uma distração."
Valentina tirou rapidamente as roupas molhadas, ficando apenas com suas roupas íntimas secas. Escremeu as peças úmidas com força, deixando a água bater ruidosamente no chão de pedra alertando os guardas da frente da casa que foram verificar, e jogou as roupas no telhado, perto de uma janela. Em seguida, contornou a casa, abriu a porta da frente silenciosamente e trancou-se no quarto.
Os soldados que ouviram o barulho e foram checar falaram ao visualizar a cena.
— Nossa, é só mais uma daquelas crianças vândalas que jogam trapos nos telhados. Dessa vez encharcaram a roupa. Não sabem que isso atrapalha a ronda? — reclamou um deles, indo embora.
Dentro do quarto escuro, Valentina sentou-se na beirada da cama. O rosto dela esquentou.
- "Essa é a cama dele, né? E eu vou poder dormir aqui essa noite..."
Ela balançou a cabeça freneticamente, espantando os pensamentos. Cancelou o feitiço de proteção e procurou uma toalha para se secar.
Foi quando ouviu a fechadura da porta da frente girar.
No susto, ativou a invisibilidade em si mesma.
Alexandre entrou na casa e gritou para os guardas lá fora:
— Podem voltar pro quartel! Eu vou dormir na minha casa hoje. Se a Vice-Comandante quiser algo, que me procure amanhã.
Assim que a porta fechou, o Comandante olhou para a mesa da sala.
— Valentina? Sei que você está aí.
Invisível, ela prendeu a respiração.
— Meu porta-retratos não estava nessa posição. Pode aparecer.
— N-Não posso tirar minha invisibilidade — respondeu ela, a voz saindo envergonhada do nada.
Alexandre franziu a testa, genuinamente confuso.
— Mas por que não? Você não confia em mim?
— N-Não é bem assim…
— Então tira a invisibilidade. — Ele cruzou os braços e sentou-se numa cadeira.
— É que... se você olhar para o seu quarto, v-vai entender o problema…
Alexandre levantou-se e espionou o quarto. Viu a armadura feminina de mais cedo jogada no chão. O rosto dele ficou rubro instantaneamente.
— Ah... Entendo.
Aproveitando o constrangimento dele, Valentina recuperou a confiança e decidiu provocar:
— Quer que eu tire a invisibilidade agora, Mestre?
— Você vai fazer uma piada a essas horas?! S-Se vista, por favor!
— Por quê? Sabia que eu posso te dar o que você quiser? — sussurrou a voz invisível bem perto do ouvido dele.
A provocação foi brutalmente interrompida por batidas fortes na porta da frente.
— Alê? Sou eu, a Sanstone. Eu acho que fui muito rude com você. Podemos conversar?
O pânico se instaurou. Las Platas arregalou os olhos invisíveis e correu em silêncio para se trancar dentro do guarda-roupa junto com suas peças de armadura.
Alexandre tentou manter a voz normal.
— S-Só um minuto, Sans! É que eu estava tomando um banho…
Sanstone respondeu, o tom surpreendentemente suave:
— Então... eu posso entrar e esperar?
Alexandre suou frio. Ele caminhou apressado até o banheiro, mas antes sussurrou na direção do quarto :
— Vai pra debaixo da cama.
Ainda invisível, Valentina rastejou para debaixo do móvel de madeira e aproveitou o tempo para começar a vestir suas peças de armadura.
Alexandre trancou-se no banheiro e gritou:
— Pode entrar, Sans! Fique na sala por enquanto, eu estou me lavando!
Sanstone abriu a porta e sentou-se à mesa, brincando distraidamente com o porta-retratos.
— Espero não ter vindo num momento ruim. Mas eu precisava muito falar com você.
Alexandre ligou a torneira da banheira, espalhando água pelo próprio rosto para fingir o banho.
— N-Não tem problema.
— Olha, eu queria pedir desculpas pela minha atitude. Sei que só causei problemas e dividi o exército, mas é que eu-
— Tá tudo bem, Sans! — gritou ele através da porta. — Eu entendo que você é um pouco explosiva às vezes. Por isso somos parceiros de comando, não é? Nós nos equilibramos.
Sanstone tocou o próprio peito, a expressão vulnerável.
— É que eu não consigo imaginar você se vendendo para a Primeira-Ministra. Eu fiquei com medo…
Debaixo da cama, Las Platas estreitou os olhos ao terminar de se vestir.
- "Aha! Então quer dizer que ela acha que ele é um vendido? Será que o Mestre está me enganando também?"
Mas Alexandre respondeu com sinceridade:
— Na verdade, Sans, a Lilith é mais uma criança solitária do que uma governante manipuladora. Todos a temem, mas quando fui contra ela, Lilith não me matou. Acho que ela só queria alguém que não tivesse medo de contrariá-la.
O rosto de Sanstone se iluminou por um segundo, antes de ela recompor a máscara de indiferença.
— Oh... É mesmo? Quer dizer, eu entendo.
Debaixo da cama, Valentina relaxou.
- "Ainda bem. Ele não é um fantoche da realeza. Mas a minha prima... está muito animada. Ela nunca foi assim. Será que está tentando namorar?"
Enquanto Alexandre se enxugava rapidamente no banheiro, Sanstone levantou-se e caminhou em direção à porta de madeira.
— Obrigada por me ouvir, Alê. Eu queria poder te compensar de algum jeito. Sabe, eu conversei com a Laura e ela me deu uma dica que talvez você goste…
O coração de Alexandre parou.
- "De todas as pessoas do mundo, você foi pedir conselho amoroso para a Laura, Sans?! Você tem noção do que se passa na cabeça daquela garota?!"
— A Laura me disse que os homens gostam quando as garotas são mais audaciosas — continuou Sanstone, a voz trêmula de vergonha. — Então, eu pensei em... entrar no banheiro com você.
Debaixo da cama, a mandíbula de Valentina caiu.
- "Minha prima?! Submissa a um homem desse jeito?! A poderosa Sans?! Droga, estou percebendo que o Mestre Alexandre não sabe lidar com isso. Preciso salvá-lo."
Rapidamente, Valentina saiu de debaixo da cama, abriu a janela do quarto e, com um golpe devastador da espada, rachou as pedras do beco do lado de fora. O estrondo foi colossal.
Em seguida, ela ficou invisível e correu para longe.
Na sala, o instinto militar de Sanstone assumiu o controle instantaneamente. O romantismo sumiu, dando lugar à General implacável.
— Alê, fique aí! Eu cuido de qualquer intruso! Guardas! Façam um perímetro!
Soldados que faziam a ronda noturna correram para a área do barulho e ouviram as ordens da general. Sanstone vasculhou o beco, notou a marca de corte na pedra e franziu a sobrancelha ao perceber que o corte era familiar.
- "Esse corte... Valentina."
Ela voltou para dentro da casa. Alexandre já havia saído do banheiro, vestido e com cara de tacho.
— Alê, talvez as suas investigações noturnas tenham irritado outro reino — disse Sanstone, séria.
— C-Como assim?
— Eles mandaram um assassino profissional para te matar. Conhecendo bem a marca daquela lâmina, com toda certeza é a minha prima, a Las Platas. Daqui pra frente, eu farei guarda no seu quarto.
Alexandre piscou, juntando as peças. Valentina tinha feito o barulho de propósito para salvá-lo da situação constrangedora.
- "Coitada da Valentina. Acabou virando a vilã da história só pra me tirar de uma saia justa."
Ele suspirou.
— Sans, não precisa me dar escolta. Se eu derrotei o Ceifador, consigo lidar com a Las Platas.
— O mínimo que posso fazer, Comandante, é proteger você, para compensar minha insolência de mais cedo. É uma questão de honra do Clã.
Sem ter como recusar a teimosia dela, ele cedeu.
— Tudo bem, Sans. Agradeço a proteção. Mas poderia me deixar dormir? Estou exausto.
— Claro. Pode dormir.
Ela o acompanhou até o quarto e postou-se ao lado da cama, de braços cruzados e olhos arregalados para a janela. Alexandre olhou para ela, incrédulo.
— Sans, o que você está fazendo?
— Assegurando sua segurança. Finja que não estou aqui.
Alexandre se perguntou quantos conselhos terríveis Laura havia dado a ela. Com um empurrãozinho gentil e cômico, ele a colocou para fora do quarto.
— Boa noite, Sans. Do lado de fora, por favor.
Ao fechar a porta, ele sentou na beira da cama.
- "Valentina queria falar comigo e nem conseguimos conversar direito."
Foi então que notou um pequeno pergaminho repousando sobre a escrivaninha.
-"Boa, Valentina. Você é rápida."
Ele desenrolou o papel e começou a ler. No segundo seguinte, a cor sumiu de seu rosto. Seus olhos se arregalaram em puro choque.
— Meu Deus... isso não é possível. Se for verdade...