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Espaço
- Então! Essa é minha nave!.. Não minha, na verdade é da Associação, mas enfim! Sintam-se em casa, querem um tour?
Reni dá pulinhos enquanto fala sorrindo, tentando ser o mais convidativa possível, embora a maioria esteja com certo olhar incrédulo, ainda sem assimilar a situação direito, um silêncio constrangedor começa a se instaurar antes que ela fale mais.
- A gente ainda não partiu de qualquer forma, então seria legal um pequeno tourzinho não acham?
- Como quiser senhorita.. Piloto.
Dash fala, percebendo a estranheza e tomando frente, Reni solta um suspiro aliviado antes de começar a voltar pelo corredor de entrada, o resto, somente segue, ainda sem falar muita coisa.
- Certo, primeiro, aqui logo na entrada, a gente tem tanto a cozinha, que é relativamente pequena, ali são os banheiros, e láááá no fundo! Uma pequena enfermaria. Vale dizer que tem banheiro feminino e masculino!
- Ouviu Mark? Homem e mulher tá separado.
- Eu escutei, mas não há interesse em diferenciar ambos os gêneros afinal eu não tenho gênero definido.
Bane segura com força no ombro de Mark que pairava a centímetros do chão atrás dele.
- Não fode, a gente já conversou disso.
- Eu deixei claro que-
- Sua especificação em mulheres com seios avantajados já me deixou claro muita coisa também.
- ....
Os dois continuam seguindo o grupo após Mark se sentir levemente derrotado e ficar somente olhando para baixo ao invés de encarar qualquer pessoa a sua frente – talvez no fim, ele tenha que frequentar o banheiro masculino realmente.
- Como vocês podem ter percebido, tudo é mais.. Pequeno aqui, por que né?.. É uma nave pequena, então tem só o essencial!
- O essencial? E se sei lá, acabar?
Veronika passa por Dash ficando ao lado de Remi, enquanto uns passos para trás, os outros três homens estão conversando sobre algo não tão interessante – Eu acho.
- Se acabar.. A gente compra no planeta alienígena eu acho, acho que não pensaram nisso.
- Inacreditável a Associação não é? Me sinto até.. Não sei, uma pessoa que trabalha em um cafézinho!
- Eu não entendi.
- Eu não sei dar exemplos melhores.
- Eu acho que você só não sabe dar exemplos mesmo.
- Talvez seja isso.
As três chegam na enfermaria no fim do corredor, um local realmente pequeno, com somente duas macas separadas por uma cortina azul, em um canto, um armário longo com três gavetas e quatro portas, em cima, uma pasta em branco, algumas canetas e algumas caixas de remédio, além de uma maleta de primeiros socorros bem simples.
- Aqui dá de tratar você se der alguma coisa ruim! Eu sei um pouquinho de medicina!
Reni entra na sala, passando a mão pelas macas, ela parece ansiosa, Bane logo passa pelas outras duas garotas e toma frente, chegando na estante e olhando os remédios por cima, como se quisesse inspecionar.
- Eu e o Stile aprendemos primeiros socorros na época que éramos militares, então a gente se vira também.
- Que ótimo!
Reni levanta novamente, e começa e voltar pelo corredor.
- Essa era a parte mais importante tá? Agora tem só os quartos!
Os outros continuam seguindo a menina, que parecia um pouco mais apressada que antes.
Eles voltam no corredor, e chegam em uma sala com área um pouco mais aberta, tem um grande sofá que cobre a parede toda, e alguns itens de academia jogados no chão, como se tivessem sido esquecidos, ao lado, abre mais uma grande sala um degrau acima, o cockpit da nave, coberto por um grande painel cheio de botões e alavancas que ninguém na nave entenderia, a não ser a Reni a primeiro momento. Uma cadeira acolchoada estava no centro, apropriada para o capitão da nave, mas bem maior que a garota, além de outras duas cadeiras mais simples. No chão, um grande símbolo da Associação de Heróis cravado em um carpete luxuoso, o símbolo do infinito cortado na parte de cima em cores amarela e vermelha.
- Aqui fica uma salinha, pra convivência acho? Enfim, e ali, é minha sala!
Ela vai andando e apontando, mas passando reto pela sala entrando no corredor do outro lado, nesse corredor, em vez de pequenas salas, ele tem seis portas, três na direita e uma na esquerda.
- Aqui tem os quartos, vocês podem ficar livres pra escolher, é tudo igual! Mas, eu tô com esse daqui.
Ela dá três tapinhas na primeira porta da direita, reforçando oque ela mesma acabava de dizer, antes de dar meia volta, e passar no meio deles novamente, um vai e volta que começava a ficar meio chato.
- Certo, então é só isso, são dois corredores, uma salinha, e o cockpit claro!
- É aqui que a gente vai ficar pelos próximos.. O quê? Cinco dias?
Bane senta no sofá ali no meio, afundando com seu peso, que parece ser um pouco mais confortável do que ele achava.
O resto do grupo, acaba ficando meio deslocado, se sentindo levemente desconfortáveis no local novo – Mas fazer oque? Casa nova! Eles olham para Reni que continua sorrindo para cada um, um sorriso até estranho demais, mas, infantil o bastante para que fosse aceitável.
- Eu vou, dormir.. Quando a gente chegar em algum lugar, vê se me chama.
Stile dá as costas, dando um suspiro cansado, e anda para o corredor dos quartos.
- E-eu vou preparar as coisas, e já já estamos decolando tá bem?
Reni corre para o cockpit, meio nervosa ainda.
Veronika olha isso, e seus ombros descem com um suspiro mais relaxado, ela não estava desconfortável pela nave, mas por Stile em si, ela se senta no sofá no canto contrário de Bane, se jogando e sendo praticamente engolida pelo sofá que tomava todo o seu corpo.
- Que bom! Amei esse sofá viu, vou procurar um pra associação depois!
Dash logo se joga no sofá, tentando entrar na conversa da amiga.
- Verdade, nossa, muito bom.. Imagina assistir uma série deitada nisso aqui?
- Né? Ahh.. Não quero um quarto, quero isso daqui
A conversa era estranha, talvez casual demais para o momento, mas, as duas percebiam que não tinham muito oque conversar, todos estavam nervosos mesmo que a maioria não transparecesse – Menos Bane eu acho.. Ele já estava dormindo no sofá.
Com um tremor rápido, as duas sentem um frio na barriga, mas antes que percebam, o barulho dos motores da nave já haviam ligado, e sem aviso algum, elas são pressionadas contra o sofá, entrando mais pra dentro no local acolchado, seus olhos arregalando, e antes que elas percebessem, em poucos segundos, tudo já parece mais quieto novamente e o tremor para, elas já estavam no espaço antes que sequer percebessem.
Enquanto o sofá volta ao normal, se moldando mais levemente com elas, Dash começa a encarar as paredes, olhando de um lado para o outro, ela aperta a almofada do sofá com força, seus dedos entrando para dentro dele.
- Dash? Tudo bem?
Ela para por um segundo, seus sentidos voltando com uma respiração profunda, as duas se olham.
- T-tudo.. Tudo bem..
Ela disfarça, colocando as mãos entre as coxas, apertando elas com bastante força, a mulher olha para baixo, ainda meio nervosa.
- E-eu queria te perguntar uma coisa também.. O que deu com você e o Stile?..
- Stile?..
Veronika agora se sente meio nervosa ao ouvir, ela havia conseguido mentir para o Mark, que não era muito desconfiado, mas mentiria para alguém como ela?
- Não aconteceu nada! Não é Mark?
Ela olha para o homem que pairava como um manequim no canto da sala, difícil saber se existia um espírito no corpo, ela procurava ajuda nas palavras dele.
- Acredito que não, como você havia dito a mim.
- V-viu? Não deu nada.
Dash para por um segundo, mas por que não confiaria na amiga? – Né?
- Ah, então tudo bem, é que você tá meio estranha hoje, evitando ele.
- É.. Porque ele tá estranho também né? Ele voltou da cirurgia, é até meio assustador..
Ela dá uma risadinha nervosa, evitando olhar para o capacete da colega, evitando seu olhar.
- Entendo.. Ele tá mais quieto mesmo, dá de perceber.. Mas tá tudo bem tá bom? Já já ele volta a ser o mesmo de sempre.
- Sim sim, eu sei..
Veronika dá um sorrisinho, ela não queria falar do que havia visto, não queria ele descobrisse, não queria falar para ninguém, era vergonhoso, eles saberiam que ela teve medo, saberiam o que havia acontecido, e Stile poderia fazer algo.. A não ser que ela falasse para.. – Bane? Não.. Ele estava dormindo agora, ela teria que esperar, na nave não poderia acontecer nada, ela tem tempo, é só tudo continuar como está.
- Eu tô com um pouco de sono também, acho que vou dormir tá bom? Amanhã a gente conversa melhor!
Ela levanta, agora com um objetivo em mente, mas antes que ela pudesse ir até o corredor.
- Ah! Eu não falei né? Mas a gente vai demorar mais ou menos um dia e meio até Nublus!
Reni grita do cockpit, ela sequer aparecia enquanto estava coberta pela silhueta da grande cadeira de capitão.
- Um dia e meio? Tá bom.. Capitã!
Dash grita de volta, dando uma risadinha, antes de olhar para Veronika.
- Pode ir dormir amiga, descansa lá! Vou ver se fico aqui mais um pouco com a Reni e com o Mark.
Veronika dá um sorriso, antes de ir até o corredor dos quartos, ela olha por alguns segundos. – Qual quarto deveria escolher? O primeiro na direita era de Reni, e qual Stile teria escolhido será? Qual B-.. Dash escolheria?..
“Esquerda, o.. Uni, duni, tê, salame, minguê..”
Ela começa a apontar e cantar na própria cabeça, enquanto foca de forma séria em cada uma das portas.
- O es-co-lhi-do é vo-cê!
Ela para no primeiro, olha por alguns segundos, antes de abrir a porta confiante, revelando um quarto escuro.
Ela tateia a parede por alguns segundos até achar um interruptor, que aperta, e logo acende o cômodo. – Após alguns segundos olhando, ela percebe que era bem mais pequeno do que esperava, um cubículo de nem cinco metros de comprimento, com uma cama, uma mesa, e estranhamente, uma cômoda do lado da cama. Dois cobertores estavam dobrados em cima do colchão, e dois travesseiros já arrumados, ela olha para aquilo.
- Parece uma prisão..
Como se estivesse tomando cuidado, ela fecha a porta, tranca, e se aproxima da cama, tocando ela como se a qualquer momento pudesse tomar vida e a atacar, o colchão não era nem um pouco macio como o sofá, e os travesseiros.. Na verdade eram até bons, os dois cobertores pareciam bem apeluciados e confortáveis, pelo menos frio ela não passaria.
Ela pega a mala que estava carregando, e a solta em cima da mesa, um barulho alto do peso ressoa no quarto, abrindo com cuidado, o zíper quase explodindo de tantos itens.
Dentro, várias e várias roupas começam a cair, ela começa a tirar e ajeitar na mesa, pegando um pijama rapidamente, estava muito cansada para arrumar tudo aquilo que havia trazido.
Um pijama apeluciado, de manga longa rosa, com uma calça de moletom claramente maior que ela, a garota tira o uniforme de heroína, arrumando sua roupa mais casual que talvez a deixaria mais feliz. A roupa de um rosa forte era cheia de pelos, mas tinha um grande coração bordado no meio, seu moletom não era nada demais, e além disso, ela havia trazido pantufas, embora ainda duvidasse se realmente precisava.
- Eu já tomei banho antes de vir, então agora é só.. Aahhh..
Ela deita na cama, um suspiro de decepção ao sentir o colchão fino, mesmo que tivesse analisado antes, esperava deitar em uma cama tão luxuosa quanto a sua própria. – Ela pega os cobertores e estende sobre si mesma, deitando na cama de uma forma tão confortável, que assim ela não ligaria para o quão bom era o colchão.
A garota estende a mão para o interruptor que não ficava tão longe, desligando a luz, por alguns segundos, somente sua respiração relaxada poderia ser escutada, ela fecha os olhos.
Seus olhos se abrem, vidrados, ela encarava o escuro, e o pequeno quarto a fazia sentir que aquele vazio a encarava de volta – Ela não tinha medo do escuro, mas a sensação que tudo aquilo passava, um lugar tão novo, era como se.. Como se voltasse para casa.
Ela se senta novamente na cama, reencostando seu corpo contra o canto da parede, Veronika abraça suas pernas instintivamente, trazendo o cobertor para quase cobrir seu rosto, ela olha para baixo, para si mesma, evitando olhar para o escuro que poderia a encarar devolta.
Por alguns segundos, no silêncio ela escuta os gritos de Stile, os gritos de raiva, seu sermão, que embora não fosse para ela, Veronika sentia na pele cada uma das frases altas e tão, mas tão violentas de alguém que ela conhecia.
Os gritos em poucos segundos são silenciados, e risadas começam a ser escutadas, além do zumbido da TV e a voz boba do Sr. Dino, sentia como se tivesse voltado, a memória calorosa era algo que ela amaria voltar, de pouco a pouco, as lágrimas caem, com pequenos e quase silenciosos soluços, mais uma noite que talvez não fosse passar tão rápido.
-
Horas depois, Bane abre os olhos, havia dormido bem embora sua posição fosse tão casual e nem um pouco própria para o momento, ele boceja, e logo se levanta, olhando em volta, não tinha ninguém naquela sala, e não conseguia ver Reni no cockpit, logo ele só vai até o corredor dos quartos, para poder se colocar realmente a dormir, mas avista alguém no fim do corredor – Stile estava de pé, seu rosto focado no chão como se tivesse algo o tirando do sério, mesmo no escuro, Bane conseguia ver os seus olhos vidrados, além de uma respiração bem mais pesada que o normal.
- Acordado? Você não tinha ido dormir Stile?
- Bane? Você não tá ouvindo?
Stile começa a se aproximar lentamente, sua mão procurando um apoio que não conseguiria achar além das paredes.
- Ouvindo o que?
- E-eu acordei, com esse tique-taque, e ele não tá parando, s-sabe um relógio? Tipo assim sabe?
Bane fica quieto por um segundo, o único som que ele escuta são dos passos desnorteados de Stile ficando mais próximos.
- Não tem relógio nenhum, você tá ficando doido, tá tomando algum remédio ou coisa assim?
- Não, eu não tô maluco! Eu tô ouvindo, eu tô ouvindo!
Ele chega perto, olhando, suas mãos quase desesperadas por um amparo, talvez ele esteja maluco mesmo, mas não gostaria de aceitar algo assim.
Bane toca no seu ombro, apertando, e chegando o rosto perto do colega.
- Vai dormir, você deve estar sonhando.
- Vo-você não entende..
Stile percebe que Bane não entenderia, então se vira e anda até seu quarto, o tique-taque que havia dito, tinha parado no mesmo momento, ele entra no quarto, fecha a porta trancando, e relaxa na cama.
- Eu não tô maluco..
Ele olha para suas próprias mãos – Talvez fosse algum efeito do remédio para dor, ou de queimaduras.. Falando nisso, ele havia trazido seus remédios?