37
Botas Verdes de Neon
No vazio do deserto de Korradia, a areia vermelha levantava com o vento que continuava soprando, já faziam dez, vinte, ou até triste minutos que tudo tinha acontecido mas Reni já nem fazia questão de entender o tempo, ela havia parado de chorar a algum tempo, e continuava andando pelo deserto enquanto cambaleava de um lado para o outro, seu rosto estava pálido pelo medo que ainda não havia passado, e a grande perda de sangue após o braço cortado, embora ela tenha tentado fazer um curativo como conseguia com as bandagens que tinha pego da nave quando ajudou o machucado em sua cabeça – A garota já não entendia se sua cabeça rodeava pela falta de água, pela fome, desespero, ou pelo medo de tudo que havia acontecido, ela esperava que alguém aparecesse para resgatar ela, ou que aquilo fosse somente um sonho ruim, que ela acordaria logo logo dentro de sua casa.
- E-Eu não aguento mais..
-
- Então, cê lembra daquela vez do Proteção Divina? Eu ri pra cacete depois!
- Qual das vezes? Eu acho que já enfrentamos ele umas doze.
- Aquele lá.. Como que era porra.. Que sequestraram a filha daquele banqueiro e ele tava envolvido no meio!
Bane e Dash estavam dentro da nave, cada um estava praticamente deitado na sua cadeira enquanto conversavam, já fazia um tempo que estavam relembrando missões passadas enchendo o pequeno local com uma nostalgia difícil de acompanhar – Zero que estava encarregado da nave, sobrevoava Korradia procurando algo ou alguém no meio da tempestade de areia.
- Ah! Sim, lembrei.. Pior que foi bom demais! Lembro que o Stile errou aquele tiro e a Veronika começou a xingar ele já que ele tinha tomado um porre quando a gente saiu antes!
- Isso aí, e depois o Mark foi se meter e tomou mó xingo dela também.
- Eu queria fazer mais uma missãozinha simples dessas viu? Enfrentar o Proteção Divina sempre criava uma pérolas legais de relembrar.
- Falando nele, eu sempre fiquei meio curioso como que funciona aquele escudo dele. Não importa o quão forte seja o Destruidor de Montanhas ele nunca fica nem arranhado.
- Acho que deve ser o poder, não tem muito o que fazer sobre.
Sem aviso algum, a nave aumenta a velocidade e começa a descer rapidamente, os dois se seguram nas cadeiras meio curiosos com o que havia acontecido e logo observam a tempestade de areia, parecia ter uma silhueta jogada no meio daquelas dunas, mas ninguém que eles pareciam conhecer a primeira vista.
- O que foi Zero?
- É uma pessoa ali, não é? Vamos lá ver.
Logo o Zero pousa no meio arenoso, sem deixar de controlar a nave, a abrindo a entrada da nave para que os dois saiam, a areia entra pro lá e o vento frio faz com que os dois tremam – Bane desce na frente tomando o lugar de Dash, que logo também desce junto.
- Não perde o foco, pode ser armadilha.
- Pode deixar, Dash tá cem por cento focada!
Dash se mantém observando todo arredor enquanto Bane se aproxima da silhueta, assim que ele realmente consegue ter completo discernimento de quem seria, seu corpo trava e seus olhos se arregalam, era como se seu sangue inteiro congelasse em um segundo – Era Reni, a garota estava totalmente abatida, claramente havia perdido sangue demais, seu braço esquerdo não estava ali, somente um tanto massivo de bandagens que claramente haviam sido colocados de forma desesperada para estancar o sangue, Reni não se movia.
- Pirralha? O q-que aconteceu?
- O que deu aí Bane?
Ele se abaixa no corpo da garota, analisando meio preocupado ainda sem conseguir entender tudo o que tinha acontecido muito bem – Ele coloca a mão no pescoço da garota, tentando procurar seus batimentos cardíacos, por alguns segundos ele procura, estavam fracos mais existiam.
- É a Reni.. Ela tá.. Eu não sei dizer.
- A Reni? Ah.. Não pera, tem alguém vindo.
Dash tenta olhar para Reni mas logo seu rosto foca em outra silhueta, andando no meio da tempestade de areia de forma ameaçadora, claramente era alguém que eles não haviam visto – Bane pega o corpo da garota com uma preocupação visível e leva até a nave, deixando lá dentro.
- Zero, fecha aí, e espera.
- É.. Bane?
Ele sai de dentro da nave, e logo coloca a sua luva, tenta pegar alguma espada mas parece que o estoque já havia acabado, então o mesmo pega um machado simples, como aqueles de bombeiros usados em incêndios, era o melhor que tinha para alguém que não conseguia pensar direito na hora.
- É um assassino Dash, é melhor tomar cuidado.
Dash olha de entreolhar para Bane, vendo uma gota de nervosismo cair no canto de seu rosto, descendo devagar, embora seja algo normal para qualquer um, vindo de Bane já dizia muita coisa.
- O que deu com a Reni?
- Ela.. Perdeu um braço.
- O que?
- Isso, mas agora o importante antes disso tudo, é saber onde tá a Veronika, e o Stile, e se esse cara fez algo com eles.
Alguns poucos segundos se passam, antes que os dois consigam finalmente ver a silhueta que não parecia ter medo ao vir até eles – O General Prata, as argolas douradas cintilavam em seus chifres, o machado era arrastado pelo deserto fazendo uma linha visível mas que logo era escondida pela areia, mas..
- O-olá.. Eu fico feliz de ter achado v-vocês..
Ele não tinha um dos braços, havia machucados diversos em sua barriga, e em seu capacete, sangue escorria do buraco de seu olho – Ele não parecia ter uma pose realmente má, talvez alguém a se acreditar.
- Quem é você? O que aconteceu aqui?
Dash dá um passo pra frente, mas Bane logo coloca o braço, trazendo ela para o seu lado antes que faça qualquer burrice, o aperto em seu machado aumenta.
- M-meu nome é General Prata.. Eu sou um K-korradiano que estava ajudando seus amigos.. F-fomos atacados por um dos dez assassinos..
- Sério? Mas por que a Reni tá assim? O que aconteceu contigo?
- Foi um ataque cordenado.. U-uma horda de inimigos atacou a gente e.. Perdemos..
- Não é possível..
Bane dá um passo a frente, dando uma risada alta e levantando o machado, um sorriso confiante aparece no seu rosto.
- Mentira tem perna curta, tava quase acreditando em você formigão.
- O que você tá dizendo Bane?
- O-oque foi? Eu não tô entendendo.. Eu não tô mentindo.
Bane aponta com o machado para o corpo do alienígena.
- Primeiro.. Sua pose mudou quando começou a nos ver direito.. Mas até aí tudo bem, outra coisa é que seu machado tá cheio de sangue, não duvidaria que tenham vindo do braço que você cortou da Reni e dos cortes que fez em si mesmo, e por último..
Ele puxa um revólver ensanguentado de seu bolso.
- A Reni tinha isso na mão dela.. E no seu peito, os únicos ferimentos que não são cortes, é um ferimento de bala, e eu não duvido que sejam de um revólver. Então pode revelar que você é um dos dez assassinos.
- ...
O General olha para baixo, claramente derrotado, e alguns segundos depois uma risada abafada começa a sair de dentro do seu capacete – Ele olha para os dois e finalmente levanta o machado.
- Eu tive todo o trabalho de me cortar, tirar um braço fora e andar por esse deserto todo atrás da menina Reni só para que me descobrissem tão rápido? Hilário, você é inteligente, não me contaram essa parte.
- Agora.. Me diga formigão, cadê a Veronika e o Stile?
- Mortos.
Bane solta um ar pelo nariz, uma risada baixa, ele não acreditaria naquilo, mas Dash olha para Bane de lado, ela já estava preocupada com a veracidade disso.
- Não fala besteira, cadê os dois vai? Você separou eles da Reni pra matar a mais fraca não foi?
- Os dois estão mortos, eu já disse, foram mortos. E a menina Reni teve a bela sorte de fugir.
Bane começa a tremer um pouco, ele segura o machado com mais força – Dash coloca a mão no ombro dele que rejeita, dando alguns passos para frente mais perto do assassino.
- Para de brincadeira, me diz, e eu te poupo, cadê a Veronika e o Stile?
- Eu tô sendo sincero.. Os dois lutaram contra um dos outros assassinos presentes nesse planeta, confiando em mim totalmente, mas eu nem precisei interferir já que o garoto Stile surtou por completo e fez o favor de machucar a garota Veronika antes que os dois morressem.. Foi uma desavença bem brutal entre dois colegas, ótimo de assistir no mínimo viu? Se te consola.
- ...
- Bane?.. Não escuta ele, ele deve estar mentindo.
- Eu não vou me dar ao trabalho de lutar com vocês dois, já tenho meu trabalho feito, e trabalhador que é trabalhador, só vai até onde consegue né? Eu até mataria a menina Reni, mas me impossibilitaram então..
Ele se vira, mas assim que vira totalmente as costas.
- VOLTA AQUI!
- ...
- VEM CÁ SEU MERDA!
Bane começa a andar em direção dele, pronto para correr, mas logo, seus joelhos falham e finalmente o próprio cai na real, vendo que o combate naquele momento não seria nem um pouco bom para a situação que estavam se fosse verdade – Ele solta o próprio machado, e se ajoelha na areia.
- M-me diz pelo menos.. Onde estão os corpos..
O assassino vira o rosto, dando uma risada baixa mas respeituosa.
- Estão a oeste daqui.. Se despeça de seus companheiros como quiser, os corpos estão assim como deixei. Ah, e se for ajudar a menina Reni de alguma forma, eu ia guardar isso pra mim, mas..
Ele joga uma sacola cheia na frente de bane.
- Ela é uma menina ambiciosa no fim, não desistiu nem por um segundo.
Ele finalmente se vira e desaparece em meio a areia vermelha, deixando Bane de joelhos no chão ali – Dash olha por alguns segundos, ela não sabia o que fazer, mas vai até Bane andando.
- Vamos pelo menos conferir os corpos.. Ainda não dá de chorar sem ter certeza!
- É.. Eu acho que sim, p-precisamos cuidar da Reni também..
Ele levanta e vai até a sacola, indo de cabeça baixa para a nave e de um jeito silencioso, Dash o acompanha nervosa e preocupada – Ela chega até Zero e sussurra o caminho que o assassino havia falado.
- Vê se avisa se ver algo certo?
A heroína também entra na nave, se agachando para ajudar Reni – Bane entrega a sacola para Dash e se senta na cadeira da nave.
- Consegue cuidar dela pra mim?.. Eu acho que não tô no momento por enquanto.. E nem sei muito o que fazer.
- Sim, pode deixar comigo Bane.
Dash pega uma garrafa d’água que tinha dentro da sacola e dá para a garota, esperando que pelo menos não se desidrate por ter andado tanto no deserto, ela fica cuidando de Reni por um tempo, enquanto sentado na cadeira está Bane, ele segurava as próprias mãos pensativo e olhando para baixo.
-
Zero finalmente desce a nave, com um pouco mais de cuidado agora, provavelmente pela dona machucada que estava ali dentro, logo, abre a saída para os dois, no meio da areia era visível algumas silhuetas e o que parecia ser uma grande porta para a entrada de uma caverna ou coisa assim – Bane levanta sem falar tanto, e Dash coloca Reni deitada do jeito mais confortável que conseguia antes de também sair junto com ela.
- Será que?..
- Eu espero que não.
Bane se aproxima apertando o passo para ver, mas assim que chega próximo ele trava, caindo de joelhos novamente, e Dash também vai logo atrás, mas assim que chega, ela tira o capacete, jogando no chão rapidamente e colocando a mão na própria boca – Era uma cena assustadora, o corpo de Veronika estava por baixo do corpo de Stile, ela tinha alguns buracos de tiro que estavam cheios de areia, seu crânio estava cortado ao meio como o próprio assassino disse, e em seu rosto metade de um sorriso que agora se tornava macabro. A parte de baixo do corpo de Stile estava por cima, além de tripas provavelmente vindas diretas de seu corpo cortado, sua panturrilha estava destruída e ele tinha vários cortes e machucados claramente vindos dos ataques de Veronika, a parte de cima do seu corpo estava jogada ao lado em cima de vários papéis, seu rosto era confuso e sem vida. Era uma verdadeira cena de carnificina.
- Não.. Não pode..
Bane começa a balançar a cabeça, seu olhar era desesperançoso e incrédulo, enquanto isso lágrimas começam a cair do rosto de Lindsay, ela vira o rosto e começa a vomitar na areia, se ajoelhando no chão enquanto segurava a barriga.
- Veronika.. Stile.. O que fizeram com vocês? O que aconteceu?..
Ele tenta levantar, mas não consegue, não queria se aproximar disso, era assustador, quase como se seu coração e vários pensamentos e coisas fossem despedaçadas, como se suas memórias fossem quebradas uma a uma como um mural de vidro que parecia inquebrável, mas ele acabava de perceber que não, não era – O próprio começa a chorar, mas nenhum barulho sai de sua gargante, Bane somente continua olhando com a mesma expressão de incredulidade e falta de esperança enquanto lágrimas mornas caem pelos dos cantos de seus olhos.
A heroína para de vomitar finalmente, ela rasteja pela areia até Bane, e abraça o homem tentando consolar ele de alguma forma, mas sua expressão não mudava por nada, ela segura ele com força como se quisesse mantê-lo ancorado na realidade, como se qualquer falta de segurança pudesse fazer com que ele enlouquecesse – Lindsay não fala nada, não sussurra, não tenta verbalizar qualquer pensamento que tinha, ela não sabia como ajudar, mas tentava do jeito que acha que funcionaria.
-
Algum tempo se passa, alguns minutos para que os dois conseguissem compreender totalmente o que havia acontecido, acreditar nas palavras daquele assassino, e finalmente, tentar de alguma forma seguir em frente – Dash para de abraçar Bane assim que o homem se mexe, ela se afasta e olha para ele. Bane levanta e vai até os corpos.
- Precisamos pelo menos enterrar os dois.
- Sim.. Você tá certo.
Ele pega duas pás de dentro da própria luva, entrega uma para Dash, e uma para si.
- Você quer.. Faz a do Stile? Ou da Veronika Bane?..
- Eu.. Posso fazer a da Veronika?
- Claro, como quiser.
Bane aponta para umas pedras próximas, algumas maiores que bloqueariam a areia, os dois começam a cavar.
-
Bane pega o corpo de Veronika após a cova estar aberta, ele tira o que havia sobrado de Stile, e olha para a garota, embora a cena fosse assustadora, o próprio não tinha nojo, não tinha medo, ele olha para ela e sorri ao ver o sorriso que ela mantinha mesmo após a própria morte – Bane coloca o corpo dela dentro da cova, e coloca gentilmente o cajado ao lado da garota.
- Desculpa por não te proteger.. Eu prometi, mas não consegui. Você não precisava sorrir, eu falhei, me desculpa Veronika.. Eu queria estar do teu lado.
Enquanto isso, Dash termina de enterrar Stile, ela não tinha dito nada, e deixa Bane falar o quanto quiser, a própria se ajoelha próxima dele, observando as duas covas, com a de Veronika aberta.
- Eu disse, prometi, falei tanto sobre isso! Mas não consegui, eu não consegui fazer nada pra você!.. Eu faltei no momento que você mais precisou! Não foi nada mais do que uma promessa vazia.. Nada mais que isso..
Bane se ajoelha, começando a chorar novamente.
- Eu não vou mais te prometer nada.. Eu falhei.. Mas eu vou proteger quem tá aqui ainda, eu me orgulho de você.. Vou te mostrar que sou forte, e vou usar esse sorriso que você me deu, pra continuar olhando pra frente, mas sem te esquecer Veronika, nunca vou esquecer nenhum de vocês dois.
Bane finalmente se levanta, indo diretamente para a nave enquanto passa as costas da mão no rosto limpando as lágrimas, Dash olha confusa, e se levanta.
- Não vai se despedir do Stile?
- Eu já disse pra ele o que eu tinha que dizer, agora se ele leu ou não? É algo que eu não vou saber.
- T-tá bem..
Dash vai logo atrás, a porta da pequena nave se fecha, mas Zero continua parado esperando as ordens, o silêncio dentro da nave agora era amargo.