Minha história começa em uma próspera vila de mineradores chamada Swan, erguida aos pés de um vulcão e pertencente ao Reino de Azhes.
Era governada por um antigo mago que, após abandonar a doutrina da magia, passou a viver recluso em um templo construído pelos próprios cidadãos.
Meu nome é Epion Darvo, filho de Hicell Darvo, minerador e comerciante.
Sou humano, tenho vinte anos e, assim como meu pai, sou minerador.
Minha mãe faleceu quando eu tinha apenas três anos; meu pai cuidou de mim até morrer, de causas naturais, quando eu estava prestes a completar dezesseis.
Por influência do meu melhor amigo, iniciei o treinamento para me tornar um dos guardas do castelo de Azhes.
— Humph... A caça está escassa. Se continuar assim, só encontrarei algo mais próximo da cidade de Azhes...
Falava sozinho enquanto caçava.
Costumava usar a caça como treino para minhas habilidades com o arco — que, diga-se de passagem, não eram das melhores.
Não percebi quando alguém se aproximou por trás, até ouvir uma voz familiar:
— Olá! Demorei muito?
Ao me virar, vi Lilith, uma elfa de longos cabelos dourados, olhos azuis como o céu e pele reluzente como cristal — dona dos meus melhores sentimentos.
Conheço-a desde os meus doze anos, graças a uma antiga ligação entre o governante de nossa vila e os elfos.
Apesar de serem raramente vistos, Lilith visitava Swan com frequência.
— Oh... não, claro que não — respondi, um pouco tímido.
— Você estava se exercitando? — perguntou ela, aproximando-se devagar.
— Não, senhorita Lilith, apenas caçando.
— Então, deixe-me ajudá-lo. Prepare o arco, segure firme a flecha...
Fiquei em posição de ataque, fechei um olho para mirar, quando ela se aproximou tanto que pude sentir o perfume de seus cabelos.
— Mantenha os dois olhos abertos e segure um pouco a respiração... Agora, dispare.
Obedeci, mas a flecha passou longe. Do arbusto saltou um coelho, ileso.
— Ih, errei... Um elfo não teria falhado.
— Não compare as particularidades de cada raça, Epion. Cada uma tem suas vantagens e desvantagens.
— Foi apenas um comentário bobo, Lilith. Nem acredito nessas diferenças.
— Você não muda, não é? Sempre achando que somos todos iguais... Caminha comigo um pouco?
— Claro, será um prazer.
A presença dela era sempre relaxante e agradável.
Ela precisava vir até minha vila para nos vermos — pois na cidade dos elfos, nenhum humano podia entrar.
— Epion, você realmente quer se tornar guarda do castelo de Azhes e deixar o lugar onde cresceu?
— Ainda não pensei muito nisso. Mas... se a senhorita me visitar onde quer que eu esteja, estarei feliz.
Ela sorriu, e naquele instante tive certeza de que o sentimento era mútuo.
Enquanto caminhávamos, Lilith avistou alguém à frente — era Zander Jorgan, meu amigo de infância e o responsável por me convencer a treinar.
— O que faz por aqui, Zander? — perguntei.
— Estou atrás da minha caça. Abati um alce, mas alguma coisa o arrastou para cá. — respondeu ele, observando rastros na relva.
— Deixe isso pra lá. O que quer que o tenha arrastado pode ser maior do que imaginamos.
— De jeito nenhum, Epion! Se queremos entrar para a guarda, temos de estar prontos para tudo!
Foi então que ele notou Lilith.
— Senhorita Lilith! Perdão, eu nem a vi! — disse, apressado.
— Zander, há muitos animais ferozes nesta região. Pode ser perigoso. — advertiu ela.
— Não se preocupe, milady. Nós a protegeremos! Vamos, Epion!
Corremos pela planície até encontrar um urso gigante.
E era enorme — debruçado sobre o alce, devorando-o com ferocidade.
— O que é aquilo? — perguntou Zander.
— Não sei, mas é melhor irmos embora — respondi.
— Tarde demais — disse Lilith —, ele já nos percebeu aqui.
Recuamos lentamente, mas a fera avançou com velocidade surpreendente e respiração pesada.
Zander tentou sacar a espada, mas foi arremessado longe.
Tentei me colocar diante de Lilith, mas ela me afastou com firmeza e olhou para trás.
Um zunido cortou o ar — uma flecha atravessou a criatura, cravando-se no corpo do alce adiante.
O urso tombou, sem vida, a poucos centímetros de nós.
— Que disparo impressionante, Epion! — exclamou Zander.
— Não fui eu.
— Helmut... — murmurou Lilith, vendo um elfo descer a planície.
Era Helmut, um elfo de pele morena, cabelos negros e olhos verdes — arrogante e sempre próximo demais de Lilith.
E, para meu infortúnio, não gostava nem um pouco de mim.
— O que faz aqui, Helmut? Já pedi que pare de me seguir! — disse Lilith.
— Perdoe-me, senhora. Cumpro ordens — respondeu ele friamente. — Talvez eu não seja mais necessário quando a senhorita parar de arriscar a própria vida.
Ela o ignorou e se voltou para nós:
— Vocês estão bem?
— Ótimos! — respondeu Zander, empolgado.
— Hilários... — zombou Helmut. — Mal conseguem se proteger. Não entendo por que perde tempo com esses humanos.
— Ignorem-no — pediu Lilith. — Vamos voltar. Não é normal um urso titã nesta região; eles vivem nas montanhas.
Voltamos em silêncio, desconfortáveis com a presença do elfo.
No vilarejo, fomos ao templo do governador Cádmo, onde Lilith relatou o ocorrido.
Nem ele soube explicar o que aquele animal fazia em nossas terras.
— Epion, por que colocou a vida da senhorita Lilith em perigo? — repreendeu-me o velho Cádmo.
— Não era minha intenção, senhor, mas eu daria minha vida para protegê-la.
— Só pode ser brincadeira. Nem vivo, nem morto, você seria capaz disso — disse Helmut, desdenhoso.
Lilith lançou lhe um olhar cortante e voltou-se a mim:
— Preciso retornar, Epion. Mas voltarei em breve para visitá-lo.
Ela partiu, seguida de Helmut.
Fiquei sozinho com Cádmo, que suspirou antes de dizer:
— O que vocês estão tentando fazer é impensável... e impossível.
— Senhor? — perguntei, confuso.
— Uma elfa e um homem... nada nas antigas escrituras menciona tal união. E, pior, ela é filha de Fangnar. Que destino difícil você escolheu, filho. Mas... devo admitir: você sonha alto.
— Pode me ajudar a realizar esse sonho?
— Duvido que alguém neste mundo possa. — respondeu.
— Então preciso me tornar forte. Forte o bastante para protegê-la.
— Esqueça o arco — aconselhou ele. — Você é minerador; talvez a espada lhe sirva melhor. Treine não apenas para lutar, mas para sobreviver — como se a vida dela dependesse da sua.
Ele me entregou um mapa e alguns pergaminhos, dizendo:
— Saiba empunhar e utilizar bem a espada em cada situação. E leve algumas porções consigo, caso se fira.
— Tudo isso, senhor? Muito obrigado!
— Ainda não acabei. Procure locomover-se apenas durante o dia e acampe em segurança. Isso é um treinamento de sobrevivência, Epion. Poucos guerreiros seguem esse caminho. A maioria das criaturas descritas nesse mapa, que orienta você a caçá-las, apenas se defende. Entretanto, outras atacarão de forma impiedosa. Ou você as mata, ou morrerá. — Alertou-me ele, entregando o mapa junto com os pergaminhos e as porções.
— Tenha muito cuidado, Epion. Você se parece muito com o seu pai — tão determinado quanto. Mas desconfio que ele não aprovaria o caminho que escolheu. Quando retornar, eu mesmo falarei aos elfos sobre sua conquista.
— Quanto tempo leva para caçar todas as criaturas listadas aqui? — perguntei.
— Isso vai depender de você.
Parti do meu vilarejo em direção a Azhes, a capital do nosso território. Lá, consegui uma caravana com quatro grandes carruagens de transporte para viajantes, seguindo para o sudoeste em direção a Rorion. Fizemos uma parada para descansar durante a noite.
Como eu estava sem sono, decidi analisar o mapa que o governador Cádmo me dera e caminhei até a fogueira do acampamento. Ali encontrei um senhor contando moedas.
— Com licença. Por acaso conhece a região do reino de Rorion? — perguntei.
— Em partes, meu jovem — respondeu o homem grisalho, enquanto eu lhe estendia o mapa, mostrando o local onde pretendia chegar.
— Sim, sim! Essa área fica próxima da fronteira, antes mesmo da capital de Rorion. É um lugar muito perigoso, jovem. Não aconselho ir lá sozinho.
— Entendo, mas faz parte do meu treinamento. Preciso atravessar essa região. — expliquei.
— Pelos comentários da caravana, soube que você é minerador… e tampouco parece um guerreiro. — comentou ele.
— Estou pretendendo mudar isso — respondi.
— Pois bem. Qual é o seu nome, rapaz?
—Epion.
— Eu sou Jacko, vendedor de joias para os nobres. Se deseja mesmo ir ao local indicado nesse mapa, saiba que ali já existiu uma vila devastada por guerras. Hoje é apenas o covil de criaturas agressivas que parecem mortas, mas estão vivas. E, para piorar, mal se distingue o dia da noite, pois toda a região é coberta por uma névoa de poeira constante.
— Obrigado pelas informações. É melhor dormirmos um pouco, pois partiremos assim que surgirem os primeiros raios de sol. Bom repouso, senhor Jacko.
— Disponha, jovem e corajoso Epion.