Fui despertado por um grito.
Um grito humano.
— Esse som… alguém precisa de ajuda! — exclamei, pulando da árvore com a espada em punho.
Corri para o norte, de onde parecia vir o grito. No caminho, percebi vários corpos mutilados daquelas criaturas — abatidos por algo ou alguém. Segui o rastro até encontrar uma cena tão incomum que por um momento duvidei do que via.
Era um ser alto, de pele verde-musgo, cabelos vermelhos trançados e corpo musculoso. Usava vestes gastas e estava preso por raízes violetas que saíam do chão, prendendo-lhe os braços e uma das pernas. A outra perna o mantinha equilibrado, evitando que fosse tragado pela terra.
Quando notou minha presença, lançou-me um olhar aflito — um pedido de socorro silencioso.
Sem pensar em quem ou o que ele era, decidi ajudá-lo. Corri até as raízes e golpeei uma delas com a espada. Cortei uma, depois outra, mas uma terceira me atingiu, lançando-me a vários metros de distância. Tentei me levantar, atordoado, quando ouvi a criatura gritar:
— Alcance o meu báculo!
Procurei ao redor e vi, a poucos passos de onde eu caíra, algo parecido com uma bengala de madeira. Peguei e corri até ele. As raízes voltaram a atacar, e eu mal consegui me defender. Arremessei o báculo em sua direção, e ele o agarrou com firmeza.
Foi então que percebi que aquele ser verde era um mago.
Com o báculo em mãos, canalizou a energia da natureza e invocou pedras afiadas que perfuraram as raízes. A terra tremeu, as vinhas recuaram e, por um instante, tudo ficou em silêncio.
O estranho se aproximou de mim. Eu não assumi postura de combate, tentando não parecer ameaçador.
— Não baixe sua guarda ainda — alertou-me com uma voz profunda e grave.
— Mas… eu não sou uma ameaça a você.
— De fato — respondeu ele. — Mas nosso inimigo ainda não se revelou.
— Quem és? — perguntei.
— A pergunta correta é o que eu sou. Vejo em seus olhos que nunca encontrou um Orcsil antes.
Pensei por um instante. Se não fosse pela cor da pele e a força física evidente, ele não seria tão diferente de mim.
Nossa conversa foi interrompida por uma respiração profunda e pesada. O chão vibrou sob nossos pés. O som que eu ouvira durante a noite ecoou outra vez — agora, bem diante de nós.
— O que é isso? O que vamos enfrentar? — perguntei.
— Um Castigado — respondeu o Orcsil.
Diante de nós, ergueu-se um ser humanoide coberto por raízes e tentáculos que se moviam como serpentes. Seu corpo lembrava uma árvore viva, os olhos eram chamas ardentes, e, embora não tivesse boca, emitia gritos ensurdecedores.
— Como vamos enfrentá-lo? — perguntei, trêmulo.
— Proteja-se, humano. Deixe que eu liberte esse castigado.
— De forma alguma! Você não vai lutar sozinho!
Não tivemos tempo para planejar. O monstro atacou. Tentáculos se estenderam em todas as direções, chicoteando o ar.
— Proteja-se! — gritou o Orcsil.
Desviei como pude. Um golpe me atingiu no ombro e quase me derrubou. O inimigo tinha força descomunal — bloquear com a espada seria suicídio.
— Precisamos nos aproximar! — gritei.
— Negativo! — retrucou o mago. — O Castigado libera pólen para consumir as almas!
— Sem me aproximar, não posso atingi-lo!
Meu aliado parecia conhecer outro caminho. Com gestos rápidos, ergueu uma prisão de rochas ao redor do monstro, deixando apenas o topo aberto. Mas, em resposta, um tentáculo agarrou-o pela cintura e o ergueu no ar.
Corri para ajudá-lo.
— Segure a respiração! — gritou o Orcsil. — Ele vai usar o pólen!
De repente, uma poeira dourada se espalhou ao nosso redor. Prendi o fôlego, agarrei firme minha espada e cortei o tentáculo que o prendia. Ele caiu no chão, livre — mas outro tentáculo me envolveu pelo pescoço.
Fui puxado para perto da criatura, o ar me faltando. O monstro emitiu um grito ensurdecedor e me lançou contra as pedras. Caí de bruços, sufocado, os tentáculos se enrolando no meu corpo.
Quando achei que seria o fim, o Orcsil se ergueu, empunhando minha espada. Murmurando palavras em uma língua antiga, invocou uma lâmina de pedra que brotou do solo, cortando as raízes que me prendiam.
Com um golpe certeiro, ele abriu uma brecha entre as rochas da prisão e avançou. A criatura reagiu, cruzando os tentáculos para bloquear o ataque. As rochas ruíram, e o Castigado se libertou, golpeando o mago com um tronco maciço.
O Orcsil, em defesa, envolveu-se numa redoma de pedra, mas o monstro continuou a esmagá-lo.
Sem pensar, pulei nas costas da criatura. Estava desarmado e sem plano algum — apenas agarrei-me firme. O monstro parou de atacar o mago e começou a se sacudir para me derrubar.
Essa foi a chance que o Orcsil esperava.
Ele empunhou minha espada novamente, ergueu-a alto e, com um grito de guerra, cravou a lâmina entre os olhos do monstro.
O Castigado estremeceu. As raízes se retraíram, o brilho de seus olhos apagou-se. Em poucos segundos, seu corpo secou, tornando-se madeira morta.
Ficamos cercados por um silêncio sepulcral.
Senti, entre minhas mãos, o corpo do inimigo endurecer e se desintegrar, como se toda a vida tivesse sido drenada dele.
— Acabou? — perguntei ainda pendurado sobre o corpo da criatura.
— Pode soltá-lo, humano. O castigado está livre — respondeu a voz grave.
— Ainda bem... já não aguentava mais segurar a respiração — falei, arfando.
— Eu também — respondeu ele, num tom seco.
Achei graça na resposta, mas o semblante do meu companheiro continuava sério. Ele me fitou por um instante e perguntou:
— Como se chama, humano?
— Epion Darvo, da vila de Swan, no reino de Azhes. E você?
— Sou Damian. Vim de Florence.
— Florence? Nunca ouvi falar... não há nenhum lugar com esse nome nos mapas.
— É natural. Florence é uma região habitada apenas pelos Orcsils. Poucos humanos a conhecem — disse, com uma frieza que quase cortava o ar.
— Seria como as terras dos Elfos? — arrisquei.
Ele franziu o cenho e respondeu de forma breve:
— Não temos nada parecido com Elfos.
O silêncio pairou entre nós por um momento. Então Damian retomou:
— O que faz aqui, tão longe de sua vila, Epion?
— Busco me tornar um guerreiro de Azhes. Fui enviado até esta região como parte do meu treinamento.
— Treinar aqui? — ele arqueou as sobrancelhas. — Escolha perigosa.
— Preciso encontrar uma pedra com inscrições antigas. Dizem que ela mostra o caminho que cada guerreiro deve trilhar.
— Conheço essa pedra — respondeu Damian, pensativo. — Já a encontrei.
— Ótimo! Então pode me dizer o que está escrito nela? — perguntei, esperançoso.
Ele negou com a cabeça.
— Não é tão simples. Essa pedra é um fragmento de um antigo pergaminho mágico da Torre dos Místicos. Ninguém sabe ao certo como veio parar aqui. As palavras gravadas nela mudam de acordo com aquele que a lê. O que está destinado a você, apenas você poderá ver.
— Pode me levar até ela?
— Sim — respondeu o Orcsil, ajustando o manto sobre os ombros. — Sigamos.
Caminhamos juntos por algum tempo. Tentei arrancar dele alguma palavra sobre os costumes dos Orcsils, mas Damian permaneceu reservado, respondendo apenas o essencial. Eu, por outro lado, falei longamente sobre minha vila, o vulcão adormecido, e a cidade de Azhes com suas muralhas douradas e o castelo do rei Vaakum.
Por fim, chegamos à pedra. Ela era menor do que eu imaginava, porém irradiava uma luz própria, suave e pulsante. A superfície era lisa, mas viva, como se respirasse. Aproximei-me lentamente, enquanto Damian se manteve a uma certa distância.
Quando toquei o pedestal, símbolos começaram a surgir na pedra, brilhando como fogo sob a água. Li as palavras que se formavam diante de mim:
“Estamos afastados, e tu virás para nos unir.
Não temas, pois todos precisarão de ti,
e serás capaz de ajudá-los.”
Afastei a mão e olhei para Damian.
— Que estranho... achei que ela mostraria um caminho, mas não sei para onde ir agora.
— Talvez você ainda não saiba — respondeu ele, enigmático.
— E você? Já leu o seu destino nessa pedra?
— Certamente.
— O que estava escrito para mim não faz sentido — continuei. — Eu nem sei como poderia ajudar alguém. E se essa pedra é tão valiosa, por que ninguém a leva consigo?
— Somente um sacerdote puro pode carregá-la. E creio que não exista mais nenhum entre nós. As palavras que ela lhe mostrou são apenas para o seu coração, não as revele a ninguém. — falou Damian, em tom solene.
— Bem... talvez o governador Cádmo possa me ajudar a decifrar isso. Acho que voltarei para minha vila.
— Então, jovem Epion — disse Damian —, aqui nossa jornada termina.
— Não se despeça assim, Damian. Podemos nos encontrar novamente. Eu gostaria disso.
O Orcsil ergueu o olhar para o horizonte e respondeu com um leve sorriso:
— Improvável. Tenho o meu caminho, assim como você tem o seu.
Fez uma pausa e completou:
— Ainda assim, confesso... nunca conversei com um humano como conversei com você. Admito que seria um bom Orcsil.
Fiquei surpreso com o elogio, e antes que pudesse responder, ele virou-se e partiu, desaparecendo na penumbra da vila.