Naquela noite, ao repousar em minha tenda, pensei em Damian, nos Elfos, nos Anões — e em quantos povos e mistérios ainda se escondiam sob o céu de Varcônia. Pela primeira vez, senti o peso do mundo... e o chamado do destino.
O dia seguinte marcaria o fim do meu treinamento na Vila do Tormento. Planejava partir ao amanhecer, mas o cansaço venceu. Acordei apenas quando o som de uma batalha rompeu o silêncio pesado da manhã.
“Mais alguém precisando de ajuda?” — pensei, enquanto o eco metálico de lâminas se aproximava.
A pedra mágica havia dito que eu seria capaz de ajudar, então agarrei minha espada e corri na direção do combate. O som das armas ficou mais nítido a cada passo, até que, ao romper a névoa, reconheci um dos lutadores: Damian.
O Orcsil usava seu cajado mágico para conter os ataques de uma mulher de movimentos rápidos e precisos. Ela trajava uma armadura leve — feita de couro, tecido e placas metálicas que cobriam os ombros, a cintura e as pernas até os joelhos. Não usava elmo, e seu olhar feroz refletia determinação.
Mesmo vendo que Damian se defendia bem, decidi intervir.
— Pare! — gritei, erguendo a espada entre eles. — Por que está atacando Damian?
A guerreira cessou o ataque, mas manteve a postura firme.
— Quem é você, e por que defende esse monstro? — perguntou, irritada.
— Ele não é um monstro — respondi, sentindo o sangue ferver. — Damian é meu amigo… e é um Orcsil.
Damian lançou-me um olhar frio.
— Saia da frente, humano. Não preciso da sua ajuda para derrotar essa mulher.
A guerreira, surpresa, arqueou as sobrancelhas.
— Ele fala?! Um Orcsil… de Florence?
— Exatamente — confirmei. — E fala melhor do que muitos humanos.
Ela abaixou a espada lentamente.
— Eu achei que ele fosse Dhor o castigado desta região…
Damian sorriu de canto.
— Do castigado eu já cuidei. Mas, se quiser continuar a luta, confesso que estava me divertindo.
— Não, Orcsil. Peço perdão. Fui enviada para derrotar o castigado, não um guerreiro inocente. respondeu ela, agora em tom respeitoso.
A tensão se desfez. Respirei fundo e disse:
— Então estamos todos do mesmo lado. Eu sou Epion, e este é Damian. Lutamos contra o castigado ontem. E você, como se chama?
— Nepher, da cidade de Rorion. Estou em treinamento de sobrevivência.
— Sou de Swan, uma vila do reino de Azhes — respondi, orgulhoso.
Damian se afastou em silêncio, ajustando o cajado nas costas.
— Já que vocês humanos se entenderam, minha missão terminou. Voltarei para minha terra.
— Espere, Damian! Podemos seguir juntos — pedi.
— Impossível, humano. — foram suas últimas palavras antes de desaparecer na neblina.
Nepher me observou com curiosidade.
— Epion, por que se uniu a um Orcsil?
— As circunstâncias nos aproximaram. Ele me ajudou a encontrar a pedra mágica — expliquei.
Ela arregalou os olhos.
— Então você leu o Pergaminho dos Sacerdotes!
— Sim, mas não entendi muito bem o que ele queria dizer…
— De qualquer forma, minha missão também acabou. Preciso voltar ao meu tutor.
— Então irei com você. Preciso sair deste lugar e seguir para Rorion antes de retornar a Azhes. concordei.
Caminhamos lado a lado até os limites da vila. A névoa parecia menos densa, e, curiosamente, nenhuma criatura cruzou nosso caminho. Antes de partir, olhei para trás — aquele lugar inóspito havia se tornado parte de mim.
Foi então que uma voz fria e elegante rompeu o ar:
— Você falhou, Nepher. A missão era de combate, não de amizade.
Virei-me instintivamente. Um elfo estava parado a poucos passos de nós — alto, cabelos longos e dourados como os da Lilith, pele clara e olhos cinzentos que pareciam atravessar a alma. Eu nem percebera sua aproximação.
— Um elfo! — exclamei, surpreso e feliz.
Nepher assentiu.
— Este é Rions, meu tutor e guia.
— Um elfo... então não sou o único a ter amigos do seu povo — comentei.
Ela sorriu.
— Você conhece elfos também? Amigo de elfos e de Orcsils… você é realmente diferente, Epion.
Rions, porém, permanecia impassível. Seus olhos voltaram-se para Nepher.
— Já que Dhor, o castigado, foi derrotado, você deveria enfrentar aquele que o venceu. Mas escolheu evitar o confronto por causa do humano.
— Eu não vi motivos para lutar — respondeu ela com firmeza.
— Ficar forte é o motivo. — replicou o elfo, frio.
Dei um passo à frente.
— Espere, senhor Rions! Eu também lutei contra o castigado. E não enfrentaria Nepher, mesmo que ela quisesse.
Ele apenas me fitou — um olhar enigmático, profundo — e fez um leve aceno com a cabeça.
— Despeça-se do seu amigo, Nepher. Nosso caminho é longo.
Nepher segurou minha mão.
— Foi um prazer conhecê-lo, Epion. Admiro sua coragem. Siga o seu caminho — e alcance o que busca.
E assim, mais uma vez, fiquei só.
Quis perguntar a Rions sobre Lilith, mas a coragem me faltou. Em silêncio, segui viagem para Rorion, sem imaginar que, longe dali forças antigas já se moviam — e meu destino seria arrastado junto.