Enquanto meu destino ainda era moldado na poeira dos caminhos, forças muito mais antigas se moviam nas profundezas da floresta de Vilnor. Um elfo de armadura dourada entrava em um salão antigo, oculto por magia ancestral. Diante dele, um velho de cabelos brancos e manto reluzente o aguardava.
Seu nome era Fangnar — o lendário líder dos elfos da floresta e antigo rei de Azhes, há tanto tempo vivo que até os homens esqueceram sua origem.
— Deseja falar comigo, Zelator? — perguntou Fangnar, com voz grave.
— Sim, meu senhor. Lamento trazer más notícias: perdemos o rastro de Síron, nas proximidades de Dunnas.
Fangnar franziu o cenho.
— Devemos deixá-lo. Os renegados são problema dos sombrios. Que cuidem de sua própria espécie.
— Meu senhor, eles estão fortemente armados. Nenhuma tropa sombria os persegue. Temo que se aproximem de nossas fronteiras.
— Estranho… — desconfiou o velho elfo. — Minha filha voltou recentemente da vila de Swan, e não há comércio de minérios com os sombrios. De onde vêm essas armas, então?
— Não sei, milorde. Mas sugiro enviar um rastreador. O elfo Rions pode encontrá-los.
— Não. — respondeu Fangnar, após um instante. — Não posso aproximar meu filho de Síron agora, não depois das batalhas pessoais que tem travado com o filho de Thugard Wionêr, o falecido líder dos sombrios.
Zelator arregalou os olhos.
— Rions está em guerra com o rei de Gorad?
— Não. — suspirou Fangnar. — Com o irmão mais novo dele. Apenas uma disputa de força… por enquanto.
— Entendo, meu senhor. — Zelator hesitou. — Também recebi notícias de Ridell. Ela acredita ter visto a elfa sombria Black no reino de Higdra. Parece que planejava roubar o Báculo Asterion, do Templo do Mar.
Fangnar levantou-se, alarmado.
— Isso é grave. O báculo pertenceu a um sacerdote puro. É poder demais para cair nas mãos dos renegados — mesmo que não saibam usá-lo. Envie um mensageiro. Ridell deve verificar se a relíquia ainda está segura.
— Nenhuma sombra anda sem lançar outra maior. Refletiu o velho elfo.
Enquanto essas ordens ecoavam entre as árvores sagradas, eu — Epion Darvo — seguia sem saber o peso das forças que começavam a se mover pelo mundo.
Foram quatro dias de caminhada até Rorion, e cada passo parecia pesar mais do que o anterior. O vento frio das montanhas trazia consigo o cheiro de pedra, ferro e fumaça — o prenúncio de uma cidade forjada para resistir a guerras.
Quando finalmente cheguei ao topo da colina e vi Rorion pela primeira vez, compreendi o motivo de sua fama: a capital era completamente cercada por muralhas colossais, feitas de rocha maciça, com antigas catapultas posicionadas no alto — vestígios de um passado de batalhas e resistência.
O castelo erguia-se ao fundo, majestoso, protegido por templos e torres de vigília. Nas ruas, soldados marchavam disciplinados, com armaduras reluzentes marcadas pelo brasão do reino. A atmosfera era de ordem e poder.
Vi também anões — muitos deles. Alguns negociavam armas e metais nas praças; outros empurravam carrinhos cheios de minério. Fazia anos que eu não via um de perto. Eles costumavam visitar minha vila em busca de recursos, mas, nos últimos tempos, haviam desaparecido quase por completo. Agora eu entendia: grande parte deles trabalhava aqui, lado a lado com os humanos, sustentando a glória de Rorion.
O reino é governado por Magno, irmão mais velho do rei Vaakum, soberano de Azhes. Era um homem conhecido tanto por sua inteligência quanto por sua dureza.
Ainda maravilhado com o tamanho da cidade, decidi aproveitar a presença dos anões e procurar um ferreiro para restaurar minha espada, que sofrera com tantas batalhas.
Encontrei uma forja simples, mas bem equipada, de onde saía o barulho ensurdecedor das marteladas ritmadas sobre o aço. À frente da loja, um anão de barba castanha longa limpava o suor da testa com o antebraço. O calor do fogo iluminava seu rosto robusto.
— Perdão, senhor. É possível consertar esta espada? — perguntei, entregando-lhe a lâmina.
O anão a pegou, analisando-a com olhar crítico.
— Nossa, meu jovem! — resmungou. — O que fez com ela? Bateu contra uma pedra?
Sorri sem graça.
— Quase isso. Sou Epion, guerreiro em treinamento de Azhes.
Ele passou o polegar pelo fio quebrado e assentiu.
— Posso dar um jeito, sim… Todavia, não será de graça.
Abri minha bolsa e mostrei alguns minérios brutos que trazia comigo.
— Tenho alguns minerais valiosos. Talvez interessem ao senhor.
O anão coçou a barba.
— Hum… não estou precisando de minério, mas de ajuda. Se fizer um pequeno serviço para mim, consertarei sua espada e, de brinde, posso lhe forjar protetores de peito, ombros e pernas. — disse com um sorriso astuto.
— E que tipo de serviço seria esse? — perguntei, curioso.
— Meu nome é Morin, — respondeu, com um leve bater de martelo na bigorna. — Tem uma tropa de guerreiros anões chegando em breve. Suas armaduras e armas precisarão de reparos, mas minha filha foi às minas buscar ferramentas. Estou sem ajudante.
— Confesso que não entendo nada de armas e armaduras — admiti —, mas se me ensinar, posso passar alguns dias ajudando.
Os olhos do anão brilharam.
— Excelente! É só o que preciso. E não se preocupe, o trabalho é mais simples do que parece.
Foi assim que consegui emprego e abrigo em Rorion.
Morin começou a me ensinar os fundamentos da forja: a importância do equilíbrio do metal, o ritmo dos martelos, o respeito pelo fogo. Eu estava proibido de tocar na fornalha, porém, podia cuidar das entregas, receber pagamentos e manter a loja organizada.
Os dias eram quentes e barulhentos e o aprendizado era fascinante. À noite, Morin me deixava livre, e eu usava esse tempo para conhecer melhor a cidade. Foi numa dessas caminhadas que ele me indicou uma taverna, dizendo:
— Vá até a Caneca Rachada. Lá você encontra boa bebida… e más companhias. Às vezes é disso que um guerreiro precisa pra crescer.
Naquela noite, decidi seguir seu conselho.
O lugar era tudo o que Morin havia prometido — e mais.
O salão estava lotado de anões, todos ruidosos, brutos e cheios de orgulho. O cheiro de cerveja forte e carne assada dominava o ar. No fundo, um grupo de bardos tentava tocar, mas era quase impossível competir com as vozes grossas e as risadas. Não eram os anões gentis que eu conhecia. Eram ríspidos, brutos, e exibiam um senso de superioridade que enchia o ar. Nenhum deles parecia disposto a fazer amigos. Vestiam-se de forma parecida, como uma tropa organizada. Logo entendi:
eram os Julgadores — um grupo de elite dos anões, famoso em todo o continente, liderados por Desparion, o mais renomado e temido vendedor de armas de todos os reinos.
Por sorte, naquela noite o próprio Desparion não estava presente.
E, ao fundo da taverna, entre os poucos humanos, reconheci um velho amigo.
— Fico feliz, mas não surpreso por reencontrá-lo em uma taverna, meu amigo Rhan-ses! — falei, aproximando-me da mesa.
Rhan-ses ergueu os olhos e arregalou-os num misto de espanto e ironia.
— Epion, das terras vulcânicas? Que diabos estais fazendo por aqui, pensei que havia sido pregado ao solo de Swan.
— Houve um tempo em que eu pensava o mesmo, — respondi sorrindo. — Mas aqui estou, na sua terra natal — o lugar que você tanto insistiu em me mostrar.
— E começou bem, meu amigo! — riu Rhan-ses. — Essa taverna é uma das melhores da região. Venha, senta aqui conosco. Estes dois imprestáveis são: Puger e Othel, e somos da guardas da cidade.
— Prazer em conhecê-los. Sou Epion.
Olhei em volta e perguntei. — Este lugar é sempre assim movimentado?
— Normalmente é bem melhor. — respondeu Puger, franzindo o cenho. — Esses malditos anões resolveram infestar o bar hoje.
Othel apenas acenou, bêbado demais para dizer qualquer coisa.
Rhan-ses se recostou na cadeira. —Diz aí, Epion: que demônio te fez abandonar aquelas terras vulcânicas?
— A morte do meu pai mudou muita coisa. — respondi. — Decidi me tornar guerreiro, para proteger minha vila.
Rhan-ses arqueou as sobrancelhas. — Não pode ser só isso. Você sempre planejou envelhecer em Swan, e nunca faltou riqueza à sua vila, seu burguês.
— Ah, então é isso! — riu Puger. — Rico, jovem e bonito querendo virar soldado? Aposto que tem saia nessa história.
— Quase isso. — admiti, sorrindo de canto.
Othel, de repente, ergueu a caneca e exclamou com voz pastosa:
— Escutem o que digo, meus amigos: são as mulheres que dominam o mundo!
Por um segundo, todos ficamos em silêncio. Depois, caímos na gargalhada.
Aquela noite custou caro.
Na manhã seguinte, acordei com a cabeça latejando e quase perdi a hora para chegar à forja.
— Logo hoje, Epion! — gritou Morin, assim que entrei. — Você se atrasa justo quando os Julgadores estão na cidade! Tenho montanhas de trabalho!
— Perdoe-me, senhor Morin. — pedi. Por que eles são tão importantes?
Morin bufou. — Você é mais ingênuo do que pensei. São a tropa de Desparion — o maior vendedor de armas do continente. Ele fornece armamentos a todos os reinos, e cinco por cento do que ele vende é obra minha. Já imaginou a responsabilidade?
Ele limpou as mãos sujas de fuligem e me olhou sério.
— Preciso que vá até o acampamento dos anões. Fica a duas horas a leste da cidade. Encontre minha filha, Mei, ajude-a a abastecer a carroça e tragam tudo de volta.
— Como vou reconhecê-la?
— Não tem erro: você será o único humano lá. Ela vai te achar.
Assenti. — Será feito. Mas me diga, senhor Morin… qual a diferença entre vocês, anões de Rorion, e esses Julgadores?
— Desparion e sua tropa vêm das cavernas — o berço da raça anã. Eu e os outros que vivem aqui somos de Midril, nas montanhas geladas. O povo de Midril não é guerreiro, rapaz.
Saí às pressas, ainda intrigado. Para mim, todos eram iguais— não importava onde tivessem nascido. Todos eram seres vivos, assim como eu… como Damian, e como minha querida Lilith.
Logo que deixei os portões de Rorion, vi um acampamento imenso — mas não o que eu procurava.
Eram os Julgadores.
Tantos, que boa parte deles dormiam fora das muralhas.
Passei entre eles em silêncio, sentindo os olhares pesados em minha direção, enquanto seguia adiante com a carroça vazia.