Bem distante daquela região, nas proximidades do Reino de Higdra, uma pequena ilha ao sul da capital abrigava uma caverna imensa no litoral. Três elfos adentravam o local, em busca de um antigo templo submerso conhecido como o Jardim de Niff.
No passado, o templo exercia grande influência religiosa. Contudo, após incontáveis guerras, Higdra e seus santuários perderam prestígio. Ainda assim, a fé sobrevivia — os reinos continuavam a erguer templos majestosos no coração de suas capitais, depositando ali suas riquezas e preces.
Embora as tradições variassem de um território a outro, havia uma crença unânime entre todas as raças: a existência dos Três Criadores, também conhecidos como A trindade divina.
Niff, a deusa deslumbrante da natureza, das águas e das terras férteis;
Thuagan, o senhor do fogo, das tempestades e da morte — adorado sobretudo pelos orcsil;
e Zélios, o deus da luz, do tempo e da vida — venerado acima de todos pelos homens.
De volta à caverna, o templo de Niff — construído pelos próprios elfos — erguia-se com torres ornamentadas em ouro. O acesso, porém, era traiçoeiro: apenas quem dominava o fôlego e a velocidade aquática poderia alcançá-lo. O mergulho até o interior durava trinta minutos — impossível para humanos ou anões, mas não para os filhos das florestas.
— Capitã Ridell, houve um momento em que achei que ia me afogar — disse Erigar, um elfo de armadura vermelha e espada curta, recuperando o ar.
— Se você, que é o mais rápido de nós, sentiu isso... imagine eu! — respondeu Ridell, alta, de cabelos prata curtos e olhos cor de mel, usando uma armadura branca adornada em dourado.
— Capitã — acrescentou Girrer, o terceiro da tropa, empunhando uma lâmina longa —, mesmo com essa dificuldade para chegar aqui, não vejo guardas nem sentinelas. Este templo já foi mais bem protegido pelos nossos.
— Isso é passado, Girrer. — Ridell manteve o tom firme. — As leis do nosso líder, Fangnar, são claras: nenhum elfo deve viver nas terras dos homens.
— Mas este lugar era nosso… — murmurou Girrer.
— Era. — A capitã se virou, a luz azulada do templo refletindo em sua armadura. — E, como Fangnar sempre diz, nosso lar é entre os elfos — não entre pedras e ouro.
Por um dia inteiro, aquele pequeno grupo explorou o Jardim de Niff, procurando a mais sagrada relíquia que o templo guardava. Mas, quando enfim partiram, não traziam boas notícias para seu líder.
A Caminho de Cronnar
Voltando ao território de Rorion, exatamente como Morin havia me informado, foram duas horas de viagem até chegar ao acampamento dos anões. O cenário era curioso: estavam acampados diante de uma montanha, cercados por pequenas carroças, tendas improvisadas e montarias baixas, mas perfeitamente adequadas ao tamanho deles. Todos pareciam atarefados — tanto que alguns nem notaram minha presença quando passei.
No meio daquela movimentação, surgiu uma pequena figura franzina, de cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo alto. Tinha olhos amendoados e negros, e gesticulava com impaciência enquanto vinha em minha direção.
— Ei! Você deve ser o humano que trabalha para o meu pai. Venha logo, temos muito o que fazer! — disse ela, sem nem perguntar meu nome.
— Calma... meu nome é Epion, e a senhorita deve ser Mei. Seu pai me pediu para encontrá-la e ajudar a abastecer a carroça.
— É exatamente o que pretendo, se você não atrasar mais! — retrucou ela, impaciente.
Desisti das apresentações e apenas a segui até uma das tendas. Começamos a carregar metais e minérios, colocando tudo na carroça. Reconheci de imediato o brilho característico das pedras de Swan — e não pude evitar a pergunta:
— A senhorita esteve em Swan?
— Comprei a maior parte no mercado de Azhes — respondeu ela rapidamente, sem parar o trabalho. — Aqueles sem honra aumentaram todos os preços!
—Era estranho ver algo da minha terra tão longe de casa — como se Swan estivesse tentando me lembrar de quem eu sou. Pensei enquanto a observava.
Diante do tom irritado dela, decidi não mencionar minhas origens vulcânicas. Logo terminamos o carregamento e partimos de volta para Rorion.
Assim que chegamos, Morin já nos aguardava à entrada da cidade.
— Mei, finalmente! — exclamou ele, aliviado.
— Desculpe o atraso, pai, mas a caravana não pôde entrar. Tive que esperar no acampamento.
— Deve ter sido ordem de Desparion! — resmungou Morin. — Com as tropas dele aqui, poucos podem entrar ou sair.
Em seguida, ele se voltou para mim:
— Epion, leve esses materiais para minha loja.
Fiz o que me foi pedido. Carreguei tudo sozinho e, ao terminar, já me preparava para ir ao encontro de Rhan-ses, quando Morin me chamou novamente:
— Epion, tenho outro trabalho para você. Para continuar minhas criações, preciso de linhas de couro extraídas de uma criatura chamada Hanamute. E, já que quer se tornar um guerreiro, essa missão servirá bem como treinamento.
— Eu não preciso da ajuda dele, pai! — protestou Mei. — Posso coletar o couro sozinha!
— Não dessa vez, filha — respondeu Morin, firme. — Os Hanamutes mais próximos estão em uma região perigosa, bem diferente das nossas terras em Midril. Vocês seguirão para o noroeste; logo encontrarão as pedreiras de Cronnar.
— Eu aceito o trabalho, Morin — respondi. — Mas, senhorita, me espere vinte minutos. Preciso avisar a um amigo que não poderei encontrá-lo hoje.
Saí apressado da loja e encontrei Rhan-ses na trilha que levava ao majestoso castelo de Rorion.
— Epion! Chegou cedo, rapaz. Pronto outra noitada de bebidas? E dessa vez, sem os infelizes Julgadores!
— Não dessa vez, meu amigo — respondi, rindo. — Tenho que levar uma mocinha até uma pedreira chamada Cronnar e caçar uma criatura que eu nem sei o que é.
— Caçar uma criatura em território hostil? — disse Rhan-ses, já empolgado. — Coloque-me nessa lista, porque eu estou dentro! Pedreiras me lembram da minha infância. Quero ver se essa Cronnar presta.
— Quer mesmo vir conosco?
— Querer não... eu vou! E isso não é um pedido. Quando partimos?
— Agora!
O Báculo de Asterion e os Renegados
Longe da minha recém-formada equipe, na exuberante floresta de Vilnor, a elfa Ridell retornava de sua missão. Ao lado de seus dois acompanhantes, ela caminhava apressada pelos corredores até chegar ao Salão de Conferências, onde seu líder a aguardava.
— Senhor Fangnar, não obtivemos sucesso em nossa missão — anunciou Ridell, curvando-se levemente. — Seguimos todo o percurso que o senhor ordenou, mas não encontramos o Báculo de Asterion no Jardim de Niff.
— Então sua suspeita se confirmou — respondeu Fangnar, com o semblante grave. — A sombria Black, dos Renegados, invadiu o templo e furtou a relíquia.
Fangnar se levantou de seu trono de madeira enraizada, o dourado de sua vestimenta refletindo as luzes do salão.
— Essa é uma triste notícia, Ridell. Não consigo compreender como ela teve conhecimento do templo... e, sendo uma sombria, como conseguiu atravessar as barreiras de água.
— Será possível que ela tenha tido acesso aos nossos pergaminhos? — questionou Ridell. — E, afinal, qual é o verdadeiro valor desse báculo, meu senhor?
— Impossível — respondeu Fangnar, após uma breve pausa. — Todos os pergaminhos continuam intocados e escondidos em nossa vila. O báculo foi, no passado, a arma de um sacerdote puro e sua energia se extinguiu há séculos. Hoje, não passa de uma relíquia histórica — sem serventia alguma para os sombrios. — Ele franziu o cenho. — Ainda assim, não confiarei nas intenções de Siron e de seus Renegado. O báculo perdeu sua força, mas jamais seu simbolismo. E símbolos movem povos . Convoquem o rastreador.
— Rions não está na vila, senhor — avisou Girrer, que acompanhava Ridell e Erigar.
— Era de se esperar —irritou-se Fangnar. — Então façam a mensagem chegar até ele. Que pare o que estiver fazendo e parta imediatamente para Higdra. Quero que descubra se Black agiu sozinha... ou se teve ajuda. E, sobretudo, para onde levou o báculo.
— Eu entregarei a mensagem pessoalmente! — prontificou-se Girrer, batendo o punho sobre o peito.
Muito longe dali, além das florestas e dos reinos civilizados, nas profundezas de uma caverna escura e esquecida, ocorria uma reunião secreta entre os elfos sombrios.
— Por que Black ainda não retornou? — questionou uma voz fria e profunda. Seu dono era Siron, o fundador e líder dos Renegados — um grupo de elfos sombrios banidos de suas terras por crimes contra o próprio povo, e pelo já falecido Thugard, senhor dos sombrios.
À sua frente, um mensageiro magro e sem armadura se curvava diante dele.
— Senhor Siron, na última mensagem, Black informou que a elfa Ridell estava em Higdra. Para evitar que ela descobrisse nossos planos, seguiu para outra região antes de vir até nós.
Siron cruzou os braços, pensativo. A luz dourada de seus olhos refletia nas rochas úmidas ao redor, contrastando com o brilho prateado de seu cabelo curto e espetado.
— Ela nos enviou outra mensagem, senhor — continuou o mensageiro. — Disse que já podemos partir e encontrá-la na segunda fase da missão, na região de Azhes.
— Negativo — respondeu Siron, firme. — Não podemos deixar nosso esconderijo agora. Radan perseguiu os carregamentos de Desparion com nossos armamentos, nas terras de Dunnas, tentando me encontrar. Temo que ele ainda esteja na região.
— O filho de Thugard... —questionou o mensageiro hesitando. — O que ele deseja de vós?
— Vingança. — Siron esboçou um sorriso frio. — Mas não sabe ele que não é de nós que precisa se vingar.
Ele se aproximou lentamente, até a sombra cobrir metade de seu rosto. As chamas azuladas dançavam como se ouvissem cada palavra de Siron.
— Esqueça esse infeliz. Cuidarei dele no tempo certo. — Fez uma pausa, e sua voz se tornou um sussurro cortante. — Volte até Black. Diga-lhe que não pare. Que mude de lugar a cada três dias. Se possível, movimente-se por todo o território de Varcônia. Se Ridell desconfia de algo, é certo que os elfos da floresta enviarão o rastreador.
Enquanto o mensageiro partia, Siron permaneceu imóvel, o olhar perdido nas chamas azuladas que iluminavam o salão subterrâneo. Após um instante de silêncio, chamou outro subordinado.
— Mensageiro Crimério, vá até Gorahd. Informe ao nosso rei que o irmão dele, Radan, me persegue e interferiu no recebimento de nossos armamentos. Diga-lhe que preciso de auxílio... para afastá-lo.
Crimério apenas assentiu, pegou seu manto escuro e desapareceu na penumbra. O som de seus passos ecoou pela caverna até sumir, deixando Siron sozinho — e o mundo, um passo mais perto do caos.