Alheios a toda confusão entre elfos e sombrios, estávamos eu, Mei e Rhan-ses diante das pedreiras de Cronnar — um lugar úmido, pantanoso e, o mais estranho de tudo, repleto de rochedos suspensos no ar, envoltos por uma energia vermelha.
Mas não estávamos sozinhos. Havia grupos de guerreiros acampados — humanos e anões — separados, desconfiados e mal-humorados.
— Por onde começamos, Epion? — perguntou Rhan-ses, animado.
— Acho melhor perguntarmos a alguém daqui onde podemos encontrar o tal Hanamute — respondi.
— Perguntar a esse bando de mal-encarados? Até os anões parecem estranhos pra mim! E, além disso, Hanamutes não costumam aparecer em lugares tão movimentados — retrucou Mei.
— Então o que viemos fazer aqui? — comentou Rhan-ses.
—Meu pai não nos mandaria aqui em vão. Vamos perguntar.
— Que seja! Guria, pergunta pra um desses... teus amigos aí! — disse Rhan-ses, provocando.
— Você me chamou de quê?!
— Outra vez não... — interrompi antes que começassem outra briga, como vinham fazendo desde o caminho. — Deixem que eu pergunto.
Aproximei-me de um grupo de anões. Falei, mas fui completamente ignorado. Tentei outro grupo, e o mesmo aconteceu. Rhan-ses tentou falar com dois soldados humanos, mas eles continuaram comendo um pedaço de carne podre, sem nem olhá-lo.
Então foi a vez de Mei abordar uma guerreira sozinha, desmontando sua tenda.
— Senhorita. Nunca vim a este lugar e preciso de algumas informações.
A mulher respondeu sem virar o rosto:
— Se não conhece este local, é melhor voltar para onde veio.
— Eu não posso. Tenho uma tarefa a realizar aqui.
A guerreira, então, virou-se — e se surpreendeu ao ver uma anão fêmea diante dela.
— Nossa, você é tão pequena!
A resposta irritou Mei.
— Também sou uma guerreira!
— Eu não duvido. Mas, apesar de sua força e desse enorme machado nas costas, não vai conseguir nada aqui sozinha.
— Eu não estou sozinha! — respondeu Mei, enquanto eu e Rhan-ses nos aproximávamos.
E fiquei feliz ao reconhecê-la: era Nepher, a guerreira que conheci na Vila Atormentada.
— Epion! O seu treinamento já o trouxe até aqui? — disse ela, surpresa.
— Que bom revê-la, Nepher. Na verdade, não vim treinar — estamos em busca de couro de Hanamute para a forja de armaduras.
— Entendi... então por isso uma anã — comentou ela, com leve ironia.
— Nossa, você conhece essa guerreira, Epion? Ela é bonita —Comentou Rhan-ses.
— Deixe-me apresentá-los — disse eu. — Nepher, este é Rhan-ses, um amigo de infância. E esta é Mei, filha do meu patrão.
— Com um grupo assim, talvez seja possível caçar aqui — respondeu Nepher, pensativa.
— De que está falando? Você não está sozinha? — perguntou Rhan-ses.
— Estou agora. Vim com meu tutor, mas ele foi chamado para uma missão.
— O seu tutor... Rions? — perguntei.
— Sim. — Ela suspirou. — Ele raramente deixa o treinamento pela metade. Deve ser algo importante.
— Que pena! Gostaria de tê-lo encontrado.
— Mas que bom que vocês vieram. Como diz o meu tutor: tudo tem um motivo. Agora não preciso mais ir embora. Caçarei com vocês.
— E o que há de tão perigoso neste lugar? — perguntou Mei. — Viemos caçar Hanamutes, e eles nem são agressivos assim.
— Lizards — respondeu Nepher. — Se avistarem um, podem ter certeza de que virão outros. Vamos montar a tenda e descansar. Amanhã começaremos a caçada.
Logo ao amanhecer, partimos. Havia muitos guerreiros naquela região, mas cada grupo seguia seu próprio caminho. A presença de uma anã em nossa equipe atraía olhares de reprovação — até mesmo de outros anões.
Presenciamos batalhas brutais contra insetos gigantes, mas seguimos as orientações de Nepher: não interferir. Até que, após horas de caminhada, avistamos um Lizard solitário entre os rochedos.
— Podemos evitá-lo, nosso alvo são os Hanamutes — sugeri.
— Tarde demais — disse Nepher. — Ele já sentiu nosso cheiro.
Ele tinha pele verde-escura e brilhante, como escamas; mais de dois metros de altura, ereto, empunhando um bastão de madeira. Vestia um tecido marrom, o que indicava alguma racionalidade. Mas o rosto... o rosto era de um réptil — olhos frios, dentes serrilhados.
Rhan-ses deu um passo à frente, e o Lizard reagiu num salto violento. Outros três surgiram à nossa volta.
— Hora da batalha! — gritou Rhan-ses.
O confronto começou. A pele das criaturas era quase impenetrável. Nepher foi a primeira a atingir o inimigo — um golpe direto no peito — mas a adaga ricocheteou.
— O que é isso? Uma armadura?! — exclamou ela.
—CUIDADO! — Gritei, tentei alertar Nepher que quase seria atingida, mas ela conseguiu desviar do potente golpe de seu adversário.
— A pele dessa criatura é muito dura! — Avisou Rhan-ses que atacava com uma lança e conseguia manter a criatura a certa distância. O meu primeiro grande erro. Me preocupei com Nepher e meu adversário estava concentrado em mim e fui acertado bem na cabeça, O mundo girou. O som da batalha virou um zumbido distante. A visão escureceu antes mesmo de eu tocar o chão.
Lembro-me de sentir a dor que logo foi substituída por uma escuridão profunda e só acordei horas depois com a Mei me fazendo um curativo.
— Ainda dói, estamos de volta a nossa tenda? venceram eles? —Perguntei ainda um tanto confuso.
— Na verdade não! —Respondeu Mei.
— Nos preocupamos com você e todos nós corremos em sua direção para ajudá-lo, então os Lizards cessaram o combate e ficaram observando —Explicou ela.
— Não entendo, por que eles cessariam o ataque? —Perguntei pensativo então Nepher foi entrando na tenda trazendo água e falou:
— Epion, enfim você acordou.
— Como está meu, amigo guerreiro? — perguntou Rhan-ses, em tom irônico, enquanto ele e Nepher se aproximavam da tenda.
— Não se preocupe — respondi, ajeitando o curativo no ombro. — Ainda não irei desistir. Amanhã estarei melhor, e tentaremos passar por eles.
Aquela noite foi longa. Conversamos junto ao fogo, tentando compreender por que aqueles seres tão agressivos, pararam o confronto e nos deixaram recuar. Pareciam nos testar .No dia seguinte, partimos novamente pelo mesmo caminho. O vento frio cortava o rosto, e o som metálico das armas soava como um prenúncio. Quando chegamos ao local da batalha anterior, lá estavam — os quatro Lizards, imóveis, esperando.
Eles avançaram em perfeita sincronia. A luta foi feroz; consegui acertar alguns golpes, e percebi o quão dura era a pele daquelas criaturas. Rhan-ses, porém, foi atingido no peito e lançado ao chão. Mesmo consciente, não conseguia se levantar. Outra vez, os Lizards baixaram as armas.
— O que está acontecendo, Nepher? — perguntei, ofegante.
— Eu não sei, Epion. Não entendo o que eles querem… Ajudem Rhan-ses, vamos recuar novamente. — respondeu ela.
Voltamos à tenda. O frio era intenso, e acendemos uma fogueira como as muitas que tremulavam ao redor dos outros grupos acampados.
— Como está, Rhan-ses? — perguntei.
— Já estou novo em folha — respondeu ele, mastigando um pedaço de carne. — Só precisava comer. Como uma criatura daquele tamanho pode ser tão ágil? Tentei um ataque frontal, e ele girou o corpo, reduziu a distância e me acertou antes que eu percebesse.
— Nós vimos — comentei. — Achei que você estivesse morto.
— Nem a guarda de Rorion conseguiria passar por aquelas lagartixas. O que vamos fazer agora? — reclamou Rhan-ses.
— Talvez seja melhor voltarmos. — disse Mei, desanimada. — Não vale a pena arriscar a vida de vocês por causa desse couro de Hanamute.
Nepher levantou o olhar, firme como aço.
— Vocês não estão enxergando o que está diante de seus olhos? Aqueles quatro Lizards são um desafio! Como esperam se tornar guerreiros se recuam diante da provação?
— Mas eles são estranhos! — retrucou Rhan-ses. — Sempre que caímos, param o ataque e ficam nos olhando com aqueles olhos de serpente… É um olhar que parece nos julgar! Já estou com vergonha!
Nepher cruzou os braços e respondeu com calma:
— O desafio está aí. A escolha é de vocês: seguir em frente ou voltar.
Na manhã seguinte, a decisão foi unânime. Enfrentaríamos os Lizards mais uma vez.E assim foi. A batalha recomeçou, e, como antes, o resultado não mudou. Lutamos bravamente, mas caí um instante antes de todos. A luta cessou. Contudo, minha recuperação foi rápida; levantamos, voltamos ao campo — e perdemos outra vez. Dessa vez, foi Mei quem caiu. As criaturas, fiéis ao seu estranho ritual, simplesmente pararam.
Mais uma vez nos reunimos em volta da fogueira. O silêncio era pesado.
— Acho que precisaríamos do Rions aqui — lamentou Nepher. — Não estamos em harmonia para este desafio.
— Isso não é possível! — respondeu Mei, em seguida. — Meu pai não nos enviaria para caçar o Hanamute se não fôssemos capazes.
— E se procurássemos outro caminho? — sugeriu Rhan-ses.
— De qualquer forma, teríamos falhado na missão — disse Nepher, fria.
— E se mudássemos de estratégia? — propus.
— Como assim, Epion? — perguntou Rhan-ses.
— Ficarmos juntos, atacarmos o mesmo inimigo. Concentrar todos os golpes em apenas um deles. Só depois passar para o próximo.
Eles me olharam em silêncio por um instante. Esperei a risada, a reprovação. Mas, ao contrário, Nepher sorriu.
— Você é bom, garoto — disse ela.
Novamente, refizemos o mesmo caminho — o solo já familiar, as marcas de nossas derrotas ainda gravadas na terra. Lá estavam novamente os quatro Lizards. Mas, dessa vez, algo mudou. Lutamos juntos, lado a lado, como um só corpo. Eles reagiram, agrupando-se. Seus golpes eram coordenados, precisos. Nós desviávamos com esforço, revidando apenas quando tínhamos uma brecha.
— Mesmo atacando o mesmo, a pele dele é impenetrável! — gritou Rhan-ses.
— Os ataques deles são coordenados… talvez nossa estratégia tenha falhado! — exclamou Nepher.
— Ao menos ainda estamos de pé! — respondi. — Juntos, não somos alvos fáceis!
A batalha se estendeu por mais tempo do que todas as anteriores. Nossos ataques não surtiam efeito, mas também não éramos atingidos. Rhan-ses por pouco não foi derrubado.
— Estamos cansados… não aguentaremos assim por muito tempo! — alertou Nepher.
— Eles devem ter algum ponto fraco! — gritou Mei.
— Já tentei todos os lugares! — respondeu Rhan-ses. — Eles não sentem nada!
"Todos os lugares?", pensei. “Não... sempre os enfrentamos de frente.”
Um estalo me atravessou a mente.
— Nepher! — gritei. — Use sua velocidade! Atraia-os e ataque por trás!
Ela apenas assentiu. O plano era arriscado, mas não tínhamos outra escolha.
Enquanto eu, Mei e Rhan-ses mantínhamos os Lizards ocupados, Nepher moveu-se com velocidade impressionante, quase desaparecendo do campo de visão. Cercamos as criaturas, e, no instante certo, ela surgiu por trás de um deles e desferiu um golpe poderoso. A lâmina encontrou resistência — a pele das costas era tão dura quanto o resto. Mas algo inesperado aconteceu: os quatro Lizards pararam. Baixaram as armas.
Ficaram imóveis por um instante, então voltaram seus olhos para mim — olhos de serpente, mas agora, havia algo diferente neles. Em seguida, moveram-se lentamente, abrindo passagem.
— O que está acontecendo? — perguntou Mei, confusa.
— Eu não sei! — respondeu Nepher, ainda atônita.
— Vencemos? — perguntou Rhan-ses, animado.
— Acho que sim... — respondi, observando com cautela. — Parece que estão nos dando passagem.
As criaturas continuaram imóveis, acompanhando nossos passos com um olhar profundo e enigmático. Era como se, em silêncio, nos dissessem que estavam satisfeitas com a batalha — e com o que havíamos aprendido.
Poucos metros adiante, encontramos o que buscávamos: os Hanamutes. Eram colossais, semelhantes a mamutes, com a pele espessa e marrom, e corpos enormes e pesados. Tudo o que precisávamos fazer era imobilizá-los e retirar o couro sem matá-los, pois, como nos instruíra Mei, aquele tecido se regenerava naturalmente com o tempo.
Com a tarefa cumprida, regressamos à cidade de Rorion. Nepher e Rhan-ses seguiram para o castelo — ela, para rever nobres conhecidos de sua terra natal; ele, para prestar contas a seu capitão por ter se ausentado tantos dias do posto de guarda.
Quanto a mim, retornei com Mei à oficina de Morin, levando três volumosas peças de couro de Hanamute. Assim que chegamos, ele nos recebeu com o habitual ar sereno. Tomou as tiras das nossas mãos e as depositou em um cesto de palha já repleto do mesmo material.
— Pai — exclamou Mei, indignada —, se o senhor já tinha tanto couro para fabricar as armaduras, por que nos mandou buscar mais naquele lugar horrendo e perigoso?
Morin sorriu, o olhar firme de quem ensina, não de quem repreende.
— Nunca é o bastante, minha filha. E, de qualquer forma, com o que tinha aqui, já forjei todas as armaduras que o senhor Desparion me encomendou.
— Então o senhor nos mandou lá... para nada? — perguntei, irritado. — Colocou nossas vidas em risco à toa?
— Para nada, jovem? — replicou Morin, com calma quase paternal. — Considere isso um presente. Dei a vocês uma das experiências mais valiosas que um guerreiro pode ter. E, acredite, Vocês se machucaram, sim — mas nunca correram risco de morte.
— Como não, pai? — rebateu Mei. — Aqueles Lizards brutos nos atacavam com uma força descomunal!
Morin soltou uma risada curta.
— Não seja ingênua, minha filha. Os Lizards não são assassinos. As armas deles possuem uma magia que apenas nocauteia o adversário — e, ao mesmo tempo, protege aquele que é atingido. Um breve descanso é o suficiente para a recuperação.
Ele se aproximou da forja, pegou um fragmento de metal e o ergueu diante do fogo, como se o próprio brilho reforçasse suas palavras.
— Os Lizards são criaturas fascinantes, muito mais do que vocês imaginam. Há décadas, os anões escavaram tão fundo suas minas que acabaram encontrando aquela espécie. E, quando emergiram à superfície, eles nos consideraram seus libertadores — gratos por poderem viver sob a luz do nosso mundo.
Morin fez uma pausa, e sua voz assumiu um tom solene.
— Como forma de gratidão, deixaram a nós, e a todas as raças, um ensinamento: o verdadeiro poder está no trabalho em equipe. Foi isso que vocês foram aprender lá.
— É realmente incrível... — murmurei, impressionado. — Mas como podem ser tão inteligentes se nem sequer falam?
— Eles não precisam, Epion — respondeu Morin, com um leve sorriso. — Comunicam-se pelos olhos, compreendem uns aos outros com uma profundidade que nenhuma palavra poderia alcançar.
Fiquei em silêncio, maravilhado. Pensei em quantas criaturas fantásticas existiam neste mundo e em como a maioria de nós sequer as conhece.