Um dia antes desses acontecimentos, muito além das Terras de Ninguém, dentro da desprotegida e desorganizada cidade de Dunnas, um rastreador élfico caminhava pelas ruas estreitas, coberto por um longo manto marrom com capuz. Queria passar despercebido entre os bandidos e toda espécie de degredados que infestavam aquela região.
Seguiu até um ponto isolado, longe da hostilidade da população, onde outro elfo, também encapuzado, o aguardava — este trajava um manto branco.
— Eu sei exatamente onde estão Síron e os Renegados — disse o elfo de manto marrom, em voz baixa. — Entretanto, Black não passou por esta região. Se ela está com o báculo, ainda não fez a entrega. Informe ao nosso líder que podemos cercar Síron e atacá-lo enquanto estiver abrigado em sua toca.
— Levarei sua mensagem — respondeu o mensageiro de branco. — Mas também trago uma para o senhor, Rastreador.
O elfo de marrom ergueu o olhar atento.
— As ordens do senhor Fangnar são claras: evitar o confronto com Síron e os Renegados e aguardar que eles ajam fora deste território — informou o mensageiro, com voz firme.
— Então vim até aqui apenas para descobrir o paradeiro deles e… nada iremos fazer? Mais uma vez, mensageiro Guirrer? — retrucou o rastreador, com leve tom de insatisfação.
— Eu sou apenas o portador da mensagem, senhor Rions.
Rions cerrou os olhos, visivelmente contrariado.
— Continuo sem entender. Atacar Síron não seria uma quebra de acordo com os Sombrios — já que ele e seus seguidores foram expulsos e se tornaram renegados? Todos sabemos que os atos deles são condenados pela própria espécie! — argumentou, num tom mais incisivo.
Guirrer baixou o olhar.
— Eu entendo, senhor. Mas, com todo respeito, pelo que percebi, nosso líder não deseja movimentar nossas tropas. Está claro que a intenção dele é manter o povo seguro sob a proteção da vila. Apenas o senhor, Rastreador Rions, tem deixado nossas fronteiras com frequência.
Rions suspirou, afastando o capuz.
— Não pense que fico fora dos muros por privilégio de ser filho de Fangnar — disse, firme. — Acredito que nosso povo pode — e deve — fazer muito mais do que tem feito. Por isso, decidi ser os olhos da vila no mundo… mesmo contrariando as ordens do nosso líder.
De volta àquela madrugada em Neflan, eu conduzia minha carroça pelo caminho que subia ao nordeste, rumo à cidade. Levava comigo uma carta endereçada ao rei daquela região — Dóren, o mais antigo dos reis humanos ainda em seu trono.
O mais irônico era que a carta vinha dos anões, justamente aqueles que, segundo a história, já haviam tentado tomar o reino de Dóren no passado.
De repente, a carroça deu um tranco — os cavalos frearam bruscamente. Fiquei atordoado pelos solavancos e, assim que recobrei os sentidos, percebi o motivo da parada: havia rastros de sangue à nossa frente.
Continuei devagar pela estrada, temeroso. Não queria encontrar o que quer que tivesse deixado aquele rastro recente.
Lembrei-me de que o capitão Naru havia dito que aquela rota estava segura. Pensei em retornar, mas então ouvi sussurros adiante, uma conversa em tom baixo.
Desci da carroça, segurei as rédeas dos cavalos e os puxei com cuidado, sem fazer barulho. Cruzei alguns rochedos e alcancei um terreno mais alto. Dali, pude ver — e ouvir — claramente o que acontecia.
— Quem mais está fornecendo armas para Síron? — perguntou uma voz grave, fria como aço.
— Eu… eu não sei nada sobre os negócios de Desparion! — respondeu um anão ferido, a voz fraca e ofegante.
O interrogador era um elfo sombrio. Reconheci-o de imediato — não por já ter visto um antes, mas porque tinha as mesmas feições élficas, com uma diferença marcante: pele azulada, quase cinza-escura, o rosto afilado, cabelos pretos curtos e uma armadura negra com detalhes em vermelho.
Mas o que mais me impressionou foram seus olhos prateados, brilhantes como se tivessem luz própria.
Ele segurava o anão pelos cabelos, erguendo-o do chão, enquanto a seus pés jaziam cinco anões mortos — alguns despedaçados. Mais à frente, outros seis corpos estavam dispostos como se tivessem morrido tentando proteger alguém entre eles — também morto.
Sem pensar, tomado pela raiva, gritei:
— Largue-o agora mesmo!
Saquei minha espada e me coloquei em posição de ataque.
O elfo sombrio virou-se lentamente, seus olhos cortando o escuro da noite.
— Está com eles? — perguntou, com um olhar lacerante.
— Que tipo de maldade é essa? — respondi, nervoso e com medo. — Por que fez isso com eles?
Ele não respondeu de imediato. Depois disse, frio:
— Então não está com eles. Deixe este lugar, humano inocente. E, se quiser, conte o que viu.
— Não importa quem você seja — repliquei —, não vou deixar você matar mais nenhum deles!
O sombrio abaixou o anão ferido e, por um instante, pensei que atenderia ao meu pedido. Mas então, com um movimento rápido, puxou uma adaga e ceifou a vida do anão, cortando-lhe o pescoço.
— O que mesmo você dizia que não ia permitir? — ironizou, com um sorriso cruel.
— NÃO! — gritei, avançando com a espada em punho.
Ataquei com toda a força que tinha. Mas, para minha surpresa, ele não desviou.
Minha lâmina atingiu seu ombro — apenas um arranhão na armadura.
Num piscar de olhos, senti o impacto de um soco violento no estômago. Dobrei-me de dor e, antes que pudesse reagir, ele me acertou uma joelhada no rosto.
Caí. Tudo o que vi foram estrelas dançando no céu escuro.
Ainda tonto, vi o sombrio se aproximar, imponente.
— Não se levante, humano. Não tenho motivos para matar você — disse, com voz gélida.
Ignorando a ordem, tentei me erguer, apoiando-me na espada.
— Você matou esses anões… e vai pagar por esse crime! — consegui dizer, entre dentes.
— Esses “julgadores” não merecem ser chamados de anões. A morte sempre chega para quem alimenta a traição — respondeu, sem emoção.
— Eles não fizeram nada contra você! Nem estão em guerra com o seu povo! — insisti, indignado.
Ele apenas sorriu, virando-se.
— Não morra por um contrabandista, humano. E o meu povo não precisa de outra espécie para estar em guerra.
Quando ele começou a se afastar, corri e tentei atacá-lo novamente.
Mas, dessa vez, o sombrio segurou a lâmina da minha espada com uma das mãos e, com a outra, ergueu-me pelo pescoço. Fiquei completamente indefeso.
— Você acaba de definir o seu destino — ameaçou. — Mas vai morrer sabendo que esses anões fornecem armas a Síron e seus Renegados, financiando uma guerra sem fim.
Tentei falar, mas não consegui.
Com um movimento brutal, ele me lançou contra a carroça — que estava a dez passos dali. A madeira se partiu sob meu corpo. O impacto libertou o cavalo, que, assustado, disparou de volta pelo caminho.
Fiquei deitado entre os destroços, vendo aquele assassino se aproximar lentamente.
Ele retirou um arco das costas e o apontou direto para minha cabeça. Eu não consegui me mover.
— Acredita nos deuses, jovem? — perguntou. — Então junte-se a eles nos confins deste mundo.
Ficou em silêncio por um momento, olhando fixamente em meus olhos.
— Como se chama? — perguntou, de súbito.
Atordoado, quase sem voz, respondi:
— E… Epion Darvo…
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Sou Radan.
Essas foram as últimas palavras que ouvi.
Antes de desmaiar, ainda consegui ver quando ele abaixou o arco… e observou, em silêncio, enquanto eu perdia a consciência.