A porta do quarto se abriu lentamente.
Miku apareceu usando roupas comuns pela primeira vez desde o acidente.
Sua mãe se levantou imediatamente e a abraçou.
— Filha...
Seu pai sorriu de leve.
— Então... vamos para casa.
Miku apenas fez um pequeno aceno com a cabeça.
---
Durante o caminho, ela permaneceu em silêncio.
Assim que percebeu o reflexo do retrovisor, virou o rosto para a janela.
Não queria se ver.
Seu pai dirigia em silêncio, até decidir perguntar:
— Como está se sentindo, filha?
Miku continuou olhando para baixo.
— Estou bem...
Mas sua voz dizia o contrário.
O pai apenas suspirou.
---
Pouco tempo depois, o carro parou.
— Chegamos.
Miku desceu devagar.
Ficou alguns segundos olhando para a casa.
Parecia tudo igual.
Mas, ao mesmo tempo, completamente diferente.
Sua mãe se aproximou.
— Filha, nas próximas semanas queremos que você fique em casa, tudo bem? O médico disse que ainda precisa descansar bastante.
— Tudo bem, mãe.
Ela entrou.
Seus olhos passearam lentamente pela sala.
Cada canto daquela casa parecia familiar.
Mesmo assim, algo dentro dela dizia que nunca mais seria como antes.
---
Ao subir para o quarto, encontrou tudo exatamente como havia deixado.
A cama.
A escrivaninha.
Os livros.
Ela caminhou até a mesa.
Começou a procurar alguma coisa.
— Mãe...
A porta se abriu.
— O que foi, filha?
— Cadê meu celular?
A mãe ficou alguns segundos em silêncio.
— O médico pediu para você ficar alguns dias sem usar o celular por causa da sua visão.
Miku abaixou a cabeça.
— Entendi...
— Também é melhor evitar televisão por enquanto.
Miku sorriu sem graça.
— Meu anime favorito estava quase acabando...
A mãe acariciou seus cabelos.
— Eu sei.
— Mas é só por alguns dias.
— Enquanto isso, podemos passar mais tempo juntos.
Depois de um pequeno sorriso, ela saiu do quarto.
Miku permaneceu sentada na cama.
Levantou lentamente a mão.
Tocou o lado esquerdo do rosto.
Não sentia absolutamente nada.
Respirou fundo.
Fechou os olhos.
Por pouco as lágrimas não caíram.
Ela conseguiu se controlar.
---
Decidiu abrir a janela para respirar um pouco.
Ao levantar, perdeu o equilíbrio.
Seu corpo ainda não estava acostumado com a nova visão.
Ela tropeçou e bateu o braço na quina da cama.
— Ai...
Quando olhou, viu o curativo manchado de sangue.
A dor fez seu corpo estremecer.
Mesmo assim, caminhou até a janela.
Abriu-a.
O vento frio tocou seu rosto.
Ela fechou os olhos.
As lágrimas começaram a cair lentamente.
Depois de alguns segundos, fechou a janela.
Trancou a porta do quarto.
Deitou na cama.
Puxou o cobertor até a cabeça.
---
Algum tempo depois...
Sua mãe abriu a porta devagar.
— Filha...
Ela percebeu que Miku estava completamente coberta.
Não insistiu.
Apenas deixou uma bandeja de comida sobre a mesa.
— Vou deixar aqui. Quando sentir fome, é só comer.
Então saiu em silêncio.
---
Já era noite.
Miku acordou sentindo o braço latejar.
Olhou para o curativo.
O sangue havia atravessado o tecido.
Ela respirou fundo.
Precisava trocá-lo.
Levantou da cama sem fazer barulho.
Caminhou lentamente até o banheiro.
Parou diante da porta.
Seu coração acelerou.
Ela nunca havia olhado para o espelho desde que acordou.
Respirou fundo.
Entrou.
Ergueu lentamente a cabeça.
Seu reflexo apareceu diante dela.
Curativos cobriam boa parte do rosto.
No lugar do olho esquerdo havia um tapa-olho branco.
Ela ficou imóvel.
Sem dizer uma palavra.
Então levou a mão ao olho direito.
Cobriu-o.
Tudo ficou completamente escuro.
Seu corpo começou a tremer.
As lágrimas desceram sem que ela percebesse.
— Meu... olho...
Sua voz falhou.
— Por quê...?
Ela caiu de joelhos.
— Mamãe...
— Papai...
O choro ecoou pela casa.
Os pais correram até o banheiro.
Ao entrarem, encontraram Miku ajoelhada diante do espelho, chorando desesperadamente.
A mãe a abraçou imediatamente.
O pai trouxe novos curativos para seu braço.
Os três permaneceram abraçados por um longo tempo.
Naquele momento...
Nenhum deles conseguiu dizer uma única palavra.