Presentes Valiosos
Katsu permanecia sentado no sofá, o olhar fixo no vazio estrelado além da janela. A sensação de estar à deriva no cosmos era, ao mesmo tempo, fascinante e aterrorizante. Ele se virou para Kira, que organizava alguns objetos sobre a mesa de centro, parecendo perdida em pensamentos.
— Então... este é o seu mundo... — começou ele, tentando processar tudo. — Mas como existe dia e noite sem um sol lá fora? Quer dizer, como você vive aqui?
Kira parou por um instante, um sorriso leve curvando seus lábios.
— É complicado — respondeu, enquanto dispunha os itens cuidadosamente sobre a superfície de madeira. — Cada mundo tem suas próprias regras. Alguns são regidos por magia, outros por tecnologia avançada... e tem aqueles que nem eu entendo direito.
Katsu apontou para a coleção de objetos estranhos.
— Para que esses itens?
Kira ergueu o olhar, séria.
— Para sair. Não podemos ficar aqui esperando a Kirai voltar. Precisamos estar preparados.
Ela pegou um cristal que emitia uma tênue luz azulada, pulsando suavemente e colocando na bolsa.
— Tome, coloque isso, meio que combina com você.
Katsu pegou o objeto que parece um relógio futurista e o ajustou no pulso, sentindo o metal frio contra a pele e observando o visor luminoso, informando que a bateria estava em 85%.
— O que ele faz?
— Não sei ao certo, K1-R4 só me disse que era para proteção .
— K1-R4? Isso é um código?
— Mais ou menos, ela é um robô altamente avançado, e muito inteligente.
Por último ela guardou um objeto parecido com uma bússola, mas que tinha o ponteiro apontado para ela.
— Agora vamos. Temos que encontrar Kirana.
— Mas e aquele monstro lá fora?
Kira aproximou-se da porta de entrada do apartamento e tocou a maçaneta, fechando os olhos em concentração.
— Não se preocupe, eu só preciso pensar no mundo dela e... — A maçaneta emitiu um brilho dourado suave, pulsando sob os dedos dela.
Ao girar e abrir a porta, a visão familiar do corredor do apartamento desapareceu. Diante deles, estendia-se um labirinto de pedras antigas, coberto de musgo úmido e raízes, com paredes que pareciam se multiplicar infinitamente na penumbra.
— Este é o corredor para o mundo dela — avisou Kira, entrando com um passo firme. — Não se perca.
O Labirinto de Pedra
Enquanto percorriam o labirinto, o ar tornou-se denso e úmido. Katsu sentia um peso invisível sobre os ombros, como se as próprias paredes de pedra antiga os observassem.
— Você sente isso? — sussurrou ele, olhando desconfiado para as sombras nos cantos.
— Sim — respondeu Kira, em voz baixa. — O corredor é traiçoeiro aqui. A lógica não funciona muito bem; seguir o instinto é a única maneira de encontrar o caminho.
Depois de mais curvas do que Katsu poderia contar, Kira parou repentinamente. Ao longe, uma porta adornada com runas brilhantes destacava-se na escuridão como um farol.
— Ali está! — exclamou ela, sorrindo pela primeira vez em horas. — Encontramos!
Eles apressaram o passo, mas a euforia durou pouco. O chão tremeu violentamente e uma pedra gigantesca despencou do teto, bloqueando parcialmente a passagem. Do meio da poeira e das sombras à direita, um golem feito de lama e rocha se ergueu, os olhos brilhando com uma luz amarelada e hostil.
Com um rugido profundo que fez os ossos de Katsu vibrarem, a criatura levantou uma segunda pedra e a arremessou.
— Abaixe-se! — gritou Kira.
Katsu agiu por instinto. Levantou os braços e a pulseira de energia ativou-se. Uma barreira azul de hexágonos holográficos sólidos surgiu num piscar de olhos. A rocha colidiu com o escudo num estrondo ensurdecedor. A proteção aguentou, mas o display no pulso dele piscou em vermelho, indicando que a energia caiu para 30%, nível crítico.
— Katsu! — alertou Kira, vendo o aviso luminoso. — A pulseira não vai aguentar outro impacto direto!
Katsu olhou para o golem, que bloqueava o único caminho até a porta rúnica.
— Então só temos uma opção — disse ele, a voz trêmula mas firme. — Precisamos passar por ele.
Kira abriu a bolsa num movimento rápido e retirou o cristal azul que pulsava com uma luz fraca.
— Eu já sei o que fazer — declarou. — Mas temos que ser rápidos. Segure minha mão e não solte por nada!
Sem hesitar, Katsu agarrou a mão dela. O cristal brilhou como uma pequena estrela e o som ambiente foi sugado pelo vácuo: o tempo parou.
O golem congelou no meio de um movimento de ataque; partículas de lama e poeira ficaram suspensas no ar, imóveis como uma pintura tridimensional.
Eles correram, mas era como correr no fundo de uma piscina, o ar estava frio e denso.
Desviaram das pernas maciças da criatura. Mas, antes que pudessem alcançar a porta, o brilho do cristal falhou e se apagou por completo.
O fluxo do tempo retornou.
O golem completou o movimento, virando-se para eles com um rugido de frustração. Agora estava perto demais. O chão tremia a cada passo pesado.
Katsu soltou a mão de Kira e se colocou na frente, ativando o escudo com a última reserva de energia.
— Katsu, não! — gritou Kira.
O punho do monstro veio como um martelo. O escudo absorveu parte do impacto, estilhaçando-se em mil faíscas hexagonais, mas a força cinética foi brutal. Katsu foi arremessado para trás, batendo com violência contra a parede de pedra ao lado da porta.
— Katsu! — A voz de Kira quebrou.
Ele deslizou até o chão, a visão escurecendo. O golem já se preparava para o golpe final, sua sombra gigantesca engolindo os dois.
— Katsu, acorde! Por favor, acorde! — implorou ela, sacudindo-o desesperadamente.
A criatura ergueu os braços unidos, pronta para esmagá-los.
De repente, a porta rúnica se abriu com um ranger que ecoou pelo labirinto. De dentro dela, a ponta de um cajado com uma esfera incandescente emergiu. Um arco de eletricidade pura rasgou o ar, atingindo o golem no peito. A criatura soltou um último rugido antes de perder a forma e desmoronar em uma poça de lama inerte.
Katsu abriu os olhos devagar, a visão turva. Ainda atordoado, ouviu uma voz feminina, calma, familiar e imponente vinda da luz da porta.
— Entrem.
Kira suspirou de alívio, as mãos trêmulas, e ajudou Katsu a se levantar. Apoiando-o pelo braço, eles atravessaram o portal, deixando para trás o labirinto e os restos da criatura para entrarem em um novo mundo.