O Deserto das Cinzas
Katsu caiu com força em um chão de concreto rachado. O ar era denso, quente e tinha gosto de cinzas e enxofre.
Ele se levantou, tossindo e limpando os olhos. O céu acima era de um vermelho-sangue doentio, coberto por nuvens grossas de fumaça preta que bloqueavam qualquer luz. Ao redor dele, ruínas e destroços se estendiam por toda a paisagem apocalíptica.
Um lugar irreconhecível, em que havia apenas silêncio e destruição.
— Onde eu estou...? — sussurrou ele, tateando a cintura. A corda translúcida ainda estava ali, esticada e tênue.
Ele começou a caminhar pelos escombros, o coração apertado.
À sombra de uma parede parcialmente destruída, ele viu uma figura sentada.
Era uma mulher. Ela usava um moletom e calças jeans familiares, mas as roupas estavam esfarrapadas, cobertas de poeira e manchas escuras de sangue antigo. O que mais chamou a atenção de Katsu, no entanto, foi a manga esquerda do moletom: estava rasgada pela metade, pendurada frouxa. O braço não estava lá.
Na mão direita, descansando sobre o joelho, ela segurava a Espada Cósmica. A lâmina negra absorvia a pouca luz do ambiente, pulsando levemente.
Katsu se aproximou, hesitante.
— Kira?
A mulher levantou a cabeça. Ela aparentava estar na casa dos trinta anos, o rosto marcado por cicatrizes finas e uma dureza que Katsu nunca tinha visto. Seus olhos, antes cheios de dúvidas, agora eram poços de uma melancolia profunda e cansada.
Ela o encarou por um longo segundo. O choque em seu rosto rapidamente deu lugar a uma dor insuportável.
— Katsu...? — A voz dela era rouca, áspera pelo desuso.
Ela tentou se levantar, usando a espada como apoio, mas cambaleou. Katsu correu instintivamente e a amparou.
— Sou eu. O que aconteceu com você? Onde estamos?
Kira tocou o rosto dele com a mão calejada, os dedos tremendo. Não havia lágrimas em seus olhos; ela parecia ter chorado tudo o que tinha anos atrás.
— Você voltou... — sussurrou ela. A voz falhou, e uma mistura de remorso e raiva contida vazou. — Por que você me abandonou naquele deserto, Katsu? Eu esperei. Eu lutei. Eu quase enlouqueci sozinha neste inferno.
Katsu sentiu como se tivesse levado um soco.
— Eu... eu não te abandonei! Eu fui puxado... a corda...
— Eu sei — cortou ela, amarga, desviando o olhar para as ruínas. — O tempo te levou. E me deixou aqui para ver o fim de tudo.
Antes que Katsu pudesse se desculpar por algo que não havia feito, o céu estalou.
Uma risada estrondosa e distorcida ecoou pelas ruínas, fazendo o chão tremer.
As nuvens de fumaça se abriram, e Kirai desceu flutuando.
Ela estava aterradora. Muito mais poderosa do que antes, sua aura era uma tempestade de sombras. Os olhos queimavam com uma fúria triunfante.
Ao pousar e ver Katsu, Kirai ergueu uma sobrancelha, genuinamente surpresa.
— Ora, ora... o rato voltou. — Ela sorriu com crueldade. — O covarde veio ver a obra de arte que deixou para trás?
Sem aviso, Kirai ergueu a mão e disparou uma lança de energia negra condensada direto contra a Kira.
Katsu reagiu por reflexo. Ele se jogou na frente dela, ativando a Pulseira de Energia no último segundo. O escudo azul hexagonal se formou.
KRAAASH!
O impacto foi devastador. O escudo segurou, mas Katsu foi atirado para trás, caindo de joelhos, o braço dormente.
— Você ainda usa esses truques baratos? — zombou Kirai, os dedos faiscando com mais energia. — Vocês já perderam. E desta vez, vou garantir que não sobrem nem lembranças.
Ela preparou um ataque ainda maior, a escuridão sugando a luz ao redor.
Kira se endireitou. A fraqueza desapareceu de seu rosto, substituída pela frieza de uma guerreira que já não tinha nada a perder. Ela retirou do bolso um objeto que brilhava intensamente.
O último fragmento da Estrela.
Ela o entregou a Katsu.
— Eu me lembrei — disse ela, a voz firme. — O fragmento estava no futuro. Nesse futuro que nunca deveria existir. Você foi puxado para cá porque precisava buscá-lo.
Katsu segurou a pedra, a mente girando.
Kirai lançou o ataque duplo.
Kira girou a Espada Cósmica em um arco perfeito. Uma rajada de força invisível e esmagadora chocou-se contra a magia de Kirai, repelindo as sombras para o céu com uma explosão ensurdecedora.
Na cintura de Katsu, a corda translúcida brilhou de repente. O portal de areia rasgou o ar atrás dele, e as vozes da Kira do Presente e da Lira ecoaram, abafadas pela batalha:
— Katsu! Puxa, Lira!
A corda se esticou, pronta para puxá-lo.
Kirai viu o feixe de luz. Com um rosnado, ela disparou um chicote de sombras contra a corda.
O ataque rasgou a luz. A corda se rompeu com um estalo seco.
O brilho dourado sumiu. A ponta cortada na cintura de Katsu caiu inerte e opaca no chão de concreto.
Katsu arregalou os olhos.
— Não...
O Fio Partido
No Deserto do Tempo, a tensão nos braços de Kira desapareceu subitamente.
Ela caiu para trás na areia. A corda de luz que ela segurava com tanto desespero havia perdido o brilho e estava frouxa.
Kira puxou a corda freneticamente. Os metros de luz opaca vieram facilmente, acumulando-se a seus pés. A ponta estava desfiada, cortada.
O portal do futuro, que girava furiosamente, parou e se desfez em pó, engolido pelo deserto.
Kira olhou para a ponta cortada em suas mãos.
— Não. Não. Não. — A respiração dela acelerou, transformando-se em soluços incontroláveis. — KATSU!
Ela gritou o nome dele, arranhando a garganta, as lágrimas caindo e manchando a areia dourada. A dor era física, um buraco abrindo-se em seu peito. Ela havia falhado. O tempo o havia levado para sempre.
Lira caiu de joelhos ao lado dela, em choque absoluto. Ela abraçou a amiga, chorando junto, sem saber o que dizer. O vazio do deserto parecia esmagá-las.
A Promessa
No futuro em ruínas, Katsu olhou para a corda cortada, o desespero tomando conta.
— Como eu vou voltar? — perguntou ele, a voz embargada. — A âncora quebrou!
O riso de Kirai ecoava pela paisagem.
Kira levantou a espada em direção a ela, acumulando energia cósmica em sua ponta, que disparou, acertando Kirai em cheio e fazendo-a se dissipar em fumaça..
— Ela não foi derrotada, mas ganhamos algum tempo.
Kira não hesitou. Ela cravou o olhar no espaço vazio onde o portal estava.
— A corda não é a âncora — disse ela. — Eu sou a âncora. O vínculo transcende o espaço e tempo.
Ela ergueu a Espada Cósmica, apontando-a diretamente para o pedaço de corda opaca amarrado à cintura de Katsu. Ela fechou os olhos e se concentrou.
O ar tremeu. A gravidade ao redor dela começou a dobrar o próprio tecido do espaço-tempo.
O pedaço de corda na cintura de Katsu acendeu, brilhando com uma luz ofuscante. A espada negra na mão da Kira do Futuro ressoou na mesma frequência.
O espaço à frente deles rasgou-se novamente. O portal de areia se abriu, rodopiando com fúria.
— Eu encontrei o vínculo temporal — disse ela, ofegante pelo esforço massivo. — Vá, Katsu!
Katsu olhou para ela, hesitando em deixá-la ali com Kirai.
— Vá! — gritou a Kira. — O seu lugar é lá! Mas, por favor... me prometa. Nunca me abandone de novo.
— Eu prometo — disse Katsu, segurando o fragmento com força e pulando no portal.
Enquanto era sugado pelo turbilhão de areia e luz, a última coisa que Katsu viu foi a Kira virando-se para enfrentar a Kirai gigante. Mas, num lapso aterrorizante antes do portal se fechar, ele viu uma lança de energia sombria atravessar as costas dela.
— Kira! — gritou ele, mas o som foi engolido pelo tempo.
O Retorno
No presente, o Deserto do Tempo chorava com Kira.
A areia e o vento ao redor dela e de Lira pareciam uivar, misturando-se aos soluços da garota.
— Eu o perdi, Lira... — chorava Kira, enterrando o rosto no ombro da amiga.
De repente, a poucos metros delas, a areia explodiu quando o vórtice do portal se rasgou novamente, girando violentamente.
Lira arregalou os olhos.
— Kira... olha!
Antes que Kira pudesse levantar a cabeça, uma figura foi cuspida do portal, aterrissando diretamente sobre as duas, fazendo todos rolarem na areia.
Katsu tossiu, o rosto afundado no ombro de Kira.
O silêncio reinou por um segundo.
Kira piscou, sentindo o peso familiar sobre ela. Ela olhou para baixo.
Ao ver Katsu ali, vivo, sujo de poeira e cinzas do futuro, os olhos dela brilharam. A tempestade de areia ao redor pareceu responder a esse sentimento e recuou instantaneamente, acalmando-se como um mar dócil.
Ela o abraçou. Não um abraço cuidadoso, mas um abraço desesperado, cravando os dedos nas costas dele, escondendo o rosto no pescoço dele.
— Nunca mais — soluçou ela, a voz embargada, mas forte. — Nunca mais me abandone, ouviu?
Katsu se endireitou um pouco, mas não a soltou. Ele a segurou pelos ombros, afastando-a o suficiente para olhar diretamente naqueles olhos vermelhos e cheios de lágrimas. A imagem da Kira do futuro, solitária e ferida, ainda queimava em sua mente. Ele sabia o que a ausência dele faria com ela.
— Eu não vou — disse ele, a voz firme e carregada de certeza. — Eu vou ficar com você. Para sempre.
A respiração de Kira falhou. O tempo pareceu parar de verdade, desta vez sem a ajuda de espadas ou portais.
Eles se aproximaram. O medo, o alívio, e tudo o que estava guardado desde o primeiro dia no apartamento culminaram naquele instante. Katsu fechou a distância, e os lábios deles se tocaram em um beijo cheio de lágrimas e promessas absolutas.
A poucos passos dali, Lira estava caída de costas na areia. Ela assistia à cena com as mãos cobrindo a boca, o rosto vermelho como um tomate, mal conseguindo conter um gritinho abafado de pura felicidade.