O alvoroço da plateia ainda era evidente naquela manhã. Suzaki pendurava sua espada de duas pontas sobre o torso, carregando-a nas costas enquanto era conduzido ao lado de seu pai, o Imperador Koji, e dos homens mais poderosos do povo azul.
O dia, apesar de carregar um marco histórico para os Azuis, logo retornava ao cotidiano dos nobres envolvidos. Ao descerem do veículo as portas do palácio, pai e filho eram recebidos em festa. Porém a indiferença do mais novo Heishi era tamanha que ele se afastou do prestígio de todos. O gesto não passou despercebido pelo Imperador.
Aproveitando uma breve oportunidade, o menino recolheu-se em solidão em seu quarto e preparava-se para deitar e descansar. Seu sossego, porém, foi interrompido pelo som da porta se abrindo sem qualquer aviso prévio.
— Parabéns. Tenho certeza de que sua mãe estaria orgulhosa de você.
— Obrigado, pai.
— Filho, eu sei que pode ser estressante viver tudo isso tão rápido — disse, cruzando os braços. — Não peço que goste de todas essas lutas, nem mesmo de mim. Porém, você tem responsabilidades para com as tradições.
— Eu sei — respondeu, encolhendo-se, juntando as mãos entre os joelhos e inclinando a cabeça para baixo.
O Imperador observou-o por alguns instantes antes de continuar.
— Olhe como os outros o enxergam. Eles me tratam como o pai de uma aberração. Claro, vibram com suas vitórias… mas e nos corredores? E quando você não está se exibindo? Como espera liderar um império que o vê assim?
Suzaki apertou as mãos, revirando os olhos para o chão, respondendo com a voz baixa:
— Eu gosto de você, sim, pai. Eu só tenho medo do que há lá fora. Medo de sair daqui.
— Como você, depois de tudo o que aprendeu e viu, ainda tem tanto medo? Eles é que deveriam ter medo de você! — apontou para o rosto do filho. — Eu preciso que você… quer dizer, você precisa crescer para herdar o que abandonarei. Quer que eu seja conhecido como aquele que não deixou herdeiros aptos? Quer que eu passe pela mesma vergonha que tive com seu irmão, Satoru? Você deve mudar tudo isso, Suzaki. É o meu… e o seu destino!
— Eu… — gaguejou, sem encontrar palavras.
— Se você gosta e valoriza tudo o que faço por você, vai dar um jeito em sua reputação. Vai sair daqui e cumprir seu Rito de Passagem. Nem mesmo seu irmão se acovardou. Ele entendeu os sacrifícios que fiz por ele. E você?
Houve silêncio.
Então Suzaki se curvou diante do pai.
— Tudo bem, eu farei!
— Você partirá amanhã mesmo — abriu a porta para a saída — Espero que não me desaponte.
O Imperador deixou o filho sozinho. O quarto pareceu maior e mais frio. O príncipe deitava com os olhos focados no teto.
“Eu preciso melhorar”, pensou Suzaki, pressionado.
Não demorou nem um minuto para buscar algum alívio, com seus olhos encontrando ele na ocarina pendurada junto à sua arma.
Distante dali, debaixo do colosso imperial, um sujeito encapuzado corria em desespero nas ruas humildes, onde a luz do palácio não alcançava. A cada passo, sua raiva crescia ao lembrar das palavras do discurso:
“...Eu, o Imperador Koji Sora, declaro que sua formação militar está completa, tornando-se o mais jovem de toda a história, superando até mesmo seu irmão!”
A humilhação causada por aquelas palavras era tamanha que, usando sua única mão, rasgou as próprias vestes em um berro de fúria.
Puxando com toda a força a manga do braço direito, o jovem revelou o membro decepado acima do que antes fora um cotovelo. Logo retomou a sanidade, olhando de um lado para o outro antes de esconder novamente a cicatriz que mudará sua vida.
O misterioso encapuzado seguiu caminho para além dos limites da capital, esgueirando-se como um rato pelo esgoto do bairro pobre onde se encontrava. Diferente do centro imperial, nada ali era perfumado, brilhante ou colorido.
Ao adentrar uma espécie de bar no subúrbio, encontrou a primeira coisa de prata no local: homens de armadura que reprimiam as pessoas a bel-prazer. Eram facilmente reconhecidos por quem sabia procurá-los.
O encapuzado se aproximou.
— Sei que não são soldados comuns. Contrabandistas.
Um deles avançou.
— E quem você pensa que é, cotoco? — aproximou-se com desprezo. — Você fede. Saia daqui. — Empurrou-o.
O jovem permaneceu firme.
— Não importa quem eu sou — estendeu uma carta ao sujeito. — O que importa é o que tenho. E espero que vendam caro essa informação aos Midori.
Assim que o capanga de aço abriu o documento, um sorriso se formou em seu rosto. Ao ler o conteúdo, ligou os pontos, descobrindo quem era o remetente da mensagem.
— Agora faz sentido. O filho mais velho do imperador: Satoru Sora. — O sorriso se alargou. — Isso aqui vai render uma graninha naquele submundo… mas e você? O que quer em troca? Um abraço?
Os outros capangas riram descontroladamente da piada. Satoru não demonstrou reação.
— Entregue isso, e eu já terei o que quero — Sem dizer mais nada, retirou-se do local.
Mais um amanhecer iluminava o cordioso castelo do Império Ao. O príncipe Suzaki despertava para sua partida.
À medida que separava seus pertences para a viagem, sentiu as mãos tremerem. Ele as segurou com força para se controlar quando ouviu a porta de seu quarto se abrir. Imediatamente, virou-se, colocando os braços para trás.
— Algum problema, alteza? O Imperador protesta contra sua demora — disse Masao, espiando pela porta.
— Não, nada. Eu já estou indo — respondeu Suzaki, aproximando-se para fechá-la.
Após a visita inesperada, Suzaki voltou-se para o espelho ao lado da porta e fitou o próprio reflexo por alguns segundos. Puxou o colarinho da roupa para baixo, revelando o tecido que escondia uma cicatriz logo abaixo do ombro.
“Não posso ficar nervoso dessa vez. O que há de errado comigo? Sabe o que vai acontecer se falhar. Você não pode ser um fracasso.”, refletiu.
Soltou o colarinho, pegou suas coisas e desceu até o saguão principal do castelo. Enquanto descia as escadas, em meio aos gritos que vinham do lado de fora, Suzaki avistou uma mulher com rugas, tendo os mesmos olhos de seu pai atravessando a linha de guardas para cumprimentá-lo.
— Toda essa demora para levar só isso? — reparou na bolsa carregada pelo menino.
— Não se preocupe, tia Rhea. Estarei bem — explicou, enquanto continuava andando. — Sinto muito, estou com pressa.
— Fugindo de mim? Mas sou eu quem vai te acompanhar, garoto. Vamos, está dispensado, Masao — disse ela, puxando o garoto para perto de si.
— É isso mesmo? — perguntou Suzaki, ao mesmo tempo em que o mordomo fazia um aceno positivo com a cabeça.
— Vou te levar para sua apresentação antes da partida. Você esqueceu?
— É que o senhor Masao costuma me acompanhar em minhas tarefas.
— Pois bem, mas isso é uma missão, não uma tarefa qualquer. Fui eu quem planejou sua rota pelo continente, então você é meu por agora.
Os dois caminharam por alguns metros. A curiosidade do garoto o levou a questionar o que sua tia havia planejado para sua jornada.
— E então, para onde devo ir primeiro?
— Pois bem, aposto que já viu um destes… — ela apresentou um pergaminho.
— São os registros das regiões, entre as seis cores e as cinco nações?
— É um mapa do continente, um dos nossos antigos. Apesar de você ter conhecimento apenas do próprio território, nós, do Império, temos noção sobre outra área que faz fronteira com três territórios distintos.
— Que área é essa?
— É a Floresta Hercínia. Ela fazia parte do nosso território, mas, por disputas territoriais, digamos que agora está sob vigilância dos Midori. Mas, claro, ainda é nossa por direito. Tornou-se inabitada devido ao perigo que apresenta. Se conseguir atravessá-la, poderá se infiltrar facilmente no território vizinho — claro, se tomar cuidado.
— Certo. Seguirei seu conselho. Agradeço pela assistência, tia.
Ela sorriu de leve.
— Que engraçado… Quando seu irmão partiu, anos atrás, dei a mesma dica a ele. A diferença foi a resposta que recebi. “Não preciso que ninguém me diga o que fazer.” O resultado foi um braço destroçado por um urso.
— Ele devia ter algum motivo para lhe dar essa resposta.
— Seu irmão é egocêntrico demais. Cá entre nós… se existe um nome ruim para herdar o trono de seu pai, esse é Satoru Sora. Mas você é diferente. Sua resposta prova isso. Por isso tem minha confiança, Suzaki.
O príncipe assentiu lentamente.
Enquanto seguiam pelo corredor, continuaram conversando e estabelecendo possíveis estratégias no caminho até o local de apresentação. Não demorou muito para os dois chegarem na mesma arena na qual o príncipe lutou há um dia.
Suzaki reparou na quantidade ainda maior de pessoas reunidas. Olhou para as janelas transbordando de cabeças, para as bandeiras das três famílias estendidas pelas sacadas, e para as inúmeras vozes que gritavam seu nome — rostos que ele já não via há muito tempo. O pátio estava tão cheio que o garoto precisou de escolta para chegar até seu pai.
Ao entrar no espaço aberto, ajoelhou-se perante o Imperador, que se levantava do trono diante dos subordinados que compartilhavam o governo. Indo adiante, Koji tomou fôlego para discursar ao seu povo:
— Eis que chegou o grande dia! Meu filho enfrentará o maior desafio que qualquer um de nossos Heishis já enfrentou. Talvez, qualquer militar deste mundo. Tenho convicção de que não falhará! Seu legado será selado eternamente após isso, recebendo a honra de ser o primeiro Heishi Celestial de nossa história e, futuramente, o primeiro herdeiro a suceder seu pai no trono do Império!
Diante das palavras, o povo gritava e festejava o grande momento.
Levantando-se e caminhando em direção à bancada, Suzaki precisava assinar um compromisso com o Império Ao, concordando com o plano estipulado para sua peregrinação. Enquanto encarava o contrato, recordava-se da última reunião que tivera com as autoridades, quando seu verdadeiro dever fora revelado:
“... a verdade é que você irá como um espião. O verdadeiro plano para o rito de passagem é: espionar e adquirir documentos e habilidades de todos os outros territórios, a fim de liderar o Império Ao no futuro e, quando chegar a hora, o continente inteiro...”
A lembrança vinha acompanhada do gesto de molhar o pincel na tinta azul.
“... conheça os pontos fracos, as aberturas. Relate tudo neste caderno de anotações. Não desvie seu olhar disso nem por um segundo. Ou, caso contrário, falhará em trazer os resultados que espero de você.”
As palavras de seu pai ecoaram na mente do garoto enquanto ele terminava de assinar o documento em azul. Ao erguê-lo para que todos vissem, foi ovacionado.
— Suzaki! Suzaki!
O povo gritava, para a surpresa do príncipe. Seu pai o abraçou com um sorriso de satisfação estampado no rosto. Ao final da cerimônia, todos se curvaram uma última vez. Após despedir-se dos entes próximos, Masao aproximou-se para cumprimentá-lo.
— Mestre Suzaki, cuide-se, viu? Estarei aguardando sua volta.
— Obrigado, senhor Masao. Sentirei sua falta.
— Que coisa, menino! — espantou-se o mordomo. — Não deve sentir falta de um servo como eu.
Suzaki virou as costas e começou a caminhar para fora da capital.
“Também sentirei sua falta… alteza”, pensou o criado, acenando discretamente.
Antes de seguir ao encontro das autoridades que o aguardavam, o príncipe percebeu um encapuzado observando-o próximo a uma árvore.
“Você é…”, pensou, notando a manga direita da veste folgada, como se faltasse um braço.
Suzaki passou a segui-lo. O encapuzado caminhava rápido em direção à capital. Ao se aproximar, tentou chamar sua atenção:
— Satoru, é você?!
O chamado fez o indivíduo parar, ainda de costas.
— O que é que você quer?
— Não o vejo há tanto tempo. Por onde esteve?
— Pelas ruas, como sempre. Agora me deixe em paz.
— Sei que deve ter seus motivos para ser assim.
— Pare de fingir que é bonzinho. Quer que eu te deseje sorte? — virou-se, os olhos brilhando em azul. — Espero mesmo é que você fracasse, assim como eu! Só assim vai sentir na pele e entender…
Interrompeu-se de repente.
— O que há de errado? — perguntou Suzaki.
— É que… você está indo para a Floresta Hercínia, correto? É perigoso. Se você morrer, nosso pai pode ficar inconsolável.
Satoru voltou-se ao irmão, com olhos arregalados.
— Pensei que quisesse meu fracasso.
— Veja bem, seu fracasso não pode significar sua morte. Eu ainda estou aqui, não estou? Quero seu bem, seu idiota! — virou-se novamente, preparando-se para partir. — Olha só, ursos e outros predadores são muito comuns por lá. Para evitá-los, corra. Corra muito. Seu maior erro será achar que pode vencê-los.
— Eu nunca pensei nessa possibilidade.
— Pois é. E é por isso que estou avisando. Agradeça quando nos vermos de novo. Espero que seja em breve.
Após aquelas palavras, Suzaki não soube como reagir. Apenas observou o irmão seguir em direção à capital, enquanto ele próprio tomava o caminho oposto.
Reunindo-se com as autoridades do Império Ao, o candidato a Heishi Celestial despediu-se dos generais que o haviam treinado até ali.
— Vá, meu filho — disse o Imperador, sendo o último a despedir-se, guiando-o adiante. — Espero que, depois desses anos, retorne como um homem de verdade. Eu sei que você vai conseguir, porque eu escolhi você.
O jovem finalmente iniciou sua jornada sozinho, rumo ao primeiro destino.
“Eu vou voltar. Estarei pronto para tudo o que colocarem em meu caminho. Por tudo que meu pai sacrificou por mim… Eu serei o Heishi Celestial.”
Com esse pensamento, acenou uma última vez para trás antes de desaparecer na estrada.