Ele percorria a floresta fronteiriça com velocidade. Era um lugar hostil, habitado por predadores selvagens e répteis venenosos. Quanto mais se aprofundava, mais percebia que a natureza, quando não esmagada pelo concreto da civilização, podia ser extremamente criativa na arte da morte.
“A quietude deste lugar me faz perceber o porquê de ser inabitado. É provável que essa região só seja importante por suas fronteiras… mas então, o que aconteceu para perdermos esse território?”, pensou, usando sua arma para abrir caminho entre o matagal.
A luz do Sol penetrava com sutileza por entre as copas das árvores. Ainda assim, a escuridão predominante fazia com que qualquer som se tornasse suspeito. Essas circunstâncias traziam à mente os anos de estudo.
Desde muito cedo, grandes botânicos e zoólogos do Império haviam sido convidados para ensiná-lo sobre florestas e sobrevivência.
“Mantenha-se nas árvores. Predadores terrestres se camuflam e saem das sombras apenas para o golpe final. Armadilhas de caçadores também são difíceis de distinguir na escuridão. Nas alturas, você pode se tornar alvo de serpentes. Precisa tomar cuidado para não ser uma presa fácil…”
Enquanto avançava, acabou pisando em falso e furou levemente a perna em um espinho oculto no chão. Ele franziu o cenho, mas continuou.
“Em hipótese alguma, coma vegetais que você não tenha cultivado por conta própria. Tente se manter alimentado por animais caçados. A primeira coisa que deve fazer é procurar água na região…”, lembrava-se do conselho do botânico.
Pouco mais de uma hora se passou. Ainda assim, o jovem vagava pelo verde como se estivesse andando em círculos. Lutando a partir de então para encontrar um ponto de referência. Foi então que distinguiu um som diferente — o fluxo constante de água correndo por perto.
Ele se esgueirou na direção do som, aproximando-se com cautela. Ao encontrar o rio, molhou o rosto, bebeu alguns goles e guardou o restante em um cantil que trouxera consigo. O alívio de encontrar algo novo fazia o jovem se animar com a conquista, mas sua empolgação foi cortada por um rosnado.
Nas margens do rio, uma fera se alimentava. Um urso enorme, de garras imensas, arrancava peixes da corrente com brutalidade. Suzaki ficou imóvel, assustado com o tamanho do predador.
Mesmo assim, começou a se mover lentamente na direção de sua arma, que repousava no chão ao lado da bolsa. Sem desviar o olhar da criatura por um único segundo, medindo cada passo.
Frente ao perigo, lembrou-se de uma das últimas orientações recebidas.
“A vida selvagem não é algo exatamente almejado pelas pessoas. Portanto, todos evitam estradas e caminhos por regiões mais hostis. Não espere ajuda. Você está lá para aprender na prática, não para fazer amigos.”
Com a arma ao alcance, Suzaki a ergueu do chão. O som metálico ecoou pela margem. O urso reagiu imediatamente, erguendo o corpo e rugindo para intimidá-lo.
“Não houve um oponente que enfrentei que não fosse maior do que eu… Mas ainda assim, nunca um tão grande quanto esse.”
A fera avançou. As mãos de Suzaki tremeram na empunhadura da espada, e então, uma lembrança veio como um estalo:
“Corra, corra muito.”
A voz de seu irmão deu o comando, ele deu as costas ao animal e disparou em direção às árvores.
Apesar de grande e pesado, o predador era rápido. A pata gigantesca rasgou o ar — as garras passaram a um fio de cabelo do jovem, arrancando lascas do tronco de uma árvore próxima.
Em meio à floresta, Suzaki mudava de direção constantemente, obrigando aquela massa corpulenta a manobrar entre obstáculos.No momento exato em que o urso desacelerou para ajustar a trajetória — Suzaki brilhou em azul.
Com um giro rápido, abriu um corte profundo na barriga da fera. O animal rugiu e tentou alcançá-lo novamente com as garras, mas o ferimento o deixou vulnerável.
Suzaki recuou estrategicamente, conduzindo-o até próximo de uma árvore robusta.
“Venha mais um pouco…”
O urso avançou.
— Agora!
Ele escalou a árvore atrás de si com agilidade e, no impulso do salto, desceu com um golpe fatal. A lâmina atravessou o pescoço da criatura, com o corpo colossal tombou pesadamente sobre a terra úmida.
O silêncio voltou a dominar o lugar. Suzaki respirava com dificuldade, desativando sua aura.
— Desculpe, irmão… mas não posso fracassar — disse para si mesmo. — Mesmo assim, correr não foi a melhor das ideias. Na verdade, tenho a impressão de que só agravou as coisas.
Após alguns instantes, limpou a lâmina e ameaçou retomar o caminho. Porém atrasou sua passada lembrando-se uma última vez de outro conselho:
“Se camufle, é importante que não só esteja na selva, seja ela! Isso não é só sobre a floresta em si. Quanto mais exposto estiver, mais problema terá.”
Foi a partir da dica de um dos professores que o príncipe prendia seu nariz, usando de sua própria lâmina para dissecar aos poucos a pelagem robusta do cadáver do predador diante dele.
Revestido de uma camada de pelagem, Suzaki seguiu floresta adentro. O dia aos poucos foi perdendo a claridade. o garoto utilizava uma tocha improvisada para continuar sua viagem. Com o auxílio de uma bússola, calculava no mapa o quanto ainda faltava para alcançar o próximo território.
Foi então que uma chuva começou. A água caiu com força crescente, obrigando-o a se abrigar entre as árvores, longe de qualquer fonte de luz.
Esperando pacientemente aquecido por sua nova pele de urso. A chuva enfraqueceu em algumas horas, Suzaki reuniu um pouco de madeira — galhos e gravetos que havia mantido consigo.
Em seguida, fincou sua lâmina de duas pontas, que brilhava em azul, no amontoado. A energia liberada pela arma gerou calor suficiente para iniciar uma pequena fogueira.
A chama simples foi o bastante. Naquela noite fria, o menino finalmente conseguiu descansar. Para em mais um alvorecer, despertar para seguir em frente, sem perder tempo.
O príncipe estava determinado a alcançar algum local habitado o quanto antes. Na metade do dia, porém, algo chamou sua atenção.
Vindo do norte, um odor forte. A cada passo que se aproximava o cheiro ficava mais intenso. Movido pela curiosidade — ou talvez por instinto — continuou na direção do cheiro.
Ao erguer o olhar, notou aves de rapina e abutres circulando no céu. Suzaki seguiu o movimento das aves, encontrando o que temia: Cinco cadáveres humanos expostos tampados em um buraco improvisado.
O estado dos corpos era suficiente para provocar ânsia, mesmo com o nariz coberto. Alguns metros adiante, ele avistou uma cerca que separava a mata de uma espécie de subúrbio.
“É… acho que cheguei.”
Atravessou a cerca. Bastaram poucos metros para encontrar pessoas circulando em um dia aparentemente comum. O que mais lhe chamava atenção era a igualdade cromática entre a mata verde e as vestes dos habitantes. As roupas pareciam extensões naturais da floresta.
“Então esse é o território dos Midori.”, concluiu seu pensamento.
Próximo à cerca, um homem observava o jovem recém-chegado. Mesmo com a pelagem ao redor de todo seu torso, o guarda nunca havia visto ninguém daquela estatura atravessar a floresta hercínia.
Bastou ligar os pontos entre a pelagem do animal, o caminho de onde veio e a enorme por debaixo das vestes para concluir com outro companheiro:
— Com certeza é ele! Acabou que o conteúdo da carta era sério, esses Azuis fazem tudo por dinheiro.
— A cúpula vai adorar essa visitinha — ria o outro coçando a barba — vão avisar a gangue depressa, é o herdeiro do trono que foi avisado que viria.

Suzaki circulava pelo local mantendo distância das ruas mais movimentadas. Seguiu por vielas estreitas até alcançar uma feira. Porém, ao colocar o pé para fora do beco em que estava, esbarrou em um homem que imediatamente encarou seus olhos azuis.
— Tá ficando maluco!? Seu imundo! — exclamou o sujeito.
O garoto não protestou. Seguiu adiante em silêncio, ainda ouvindo o mesmo homem comentar com os demais:
— Esses azuis não cansam de invadir nossos espaços. Deviam olhar ao redor e ver que não tem mais nada pra pegar!
As palavras ficaram ecoando. Sem querer chamar atenção, o garoto avistou uma saída em direção ao matagal. Despistando pelo caminho, limpou uma gota de suor que escorria pela testa.
“Me avisaram que os Azuis não seriam bem-vindos aqui… mas é pior do que imaginei. Fui descuidado. Não posso me tornar refém da percepção das pessoas dos outros reinos. Realmente… as pessoas levam isso muito a sério, tia Rhea.”
Tomou um pouco d’água e se reergueu. Depois de se acalmar, voltou para a cidade. Dessa vez, subindo pelos telhados. Acima da multidão, à procura de algo para se alimentar.
Observava a humildade do local — refletida até mesmo nos alimentos expostos nas barracas. Algo que era novidade em sua vida, todo o ambiente parecia uma extensão da floresta que havia atravessado, só que com humanos.
Porém sua barriga roncava o suficiente para ele arriscar. Descendo silenciosamente até uma das barracas, retirando moedas da bolsa para oferecer ao vendedor, menos confrontativo possível: Uma senhoria de rugas e cabelos grisalhos.
— Gente da sua laia costuma ter bastante dinheiro mesmo, enquanto outros só mendigam — disse a Senhor, apontando para moradores de rua próximos dali. — Agora some daqui, peste!
Entregou os alimentos com brusquidão. Suzaki ficou perplexo ao errar o julgamento do que lhe parecia uma doce idosa. Voltando ao lugar de onde saiu, se alimentava de batatas olhando de um lado para o outro. Procurando pelo motivo da sensação que começava a sentir — de estar sendo observado.
Na busca, em uma viela abaixo notou um homem desnutrido, com o topo da cabeça tomado por seus cabelos que com certeza nunca viu uma tesoura antes. Nitidamente aquele pobre sujeito só tinha força para estender sua mão, para que alguém depositasse migalhas para sua sobrevivência.
A resiliência do sujeito lhe trouxe algumas batatas, além de uma bolsa pequena com algumas moedas. Ele subitamente veio as lágrimas diante do milagre, enquanto seu salvador observava a reação de trás de um tronco próximo, seguindo pela mata.
Porém logo depois, quatro encapuzados cercaram o mendigo que se espantava com o enquadro. Um dentre eles encarava o matagal pelo qual Suzaki seguiu, apontando para a direção:
— Vamos!
Atravessando pelos arbustos e árvores, Suzaki mudou sua estratégia, novamente voltou às ruas. Cuidando de seu disfarce, virava entre uma esquina e outra, para confirmar a suspeita que tinha.
Mediu sua desaceleração, deixando com que os perseguidores ficassem próximos o suficiente para reagirem a qualquer movimento. Dobrando mais uma esquina e desceu até outra viela.
Os encapuzados o seguiram, apenas para encontrarem um beco sem saída e vazio:
— O quê?! Pra onde ele foi?
— Licença, estão procurando alguma coisa? — A voz de Suzaki surgiu atrás deles.
— Mas como…? — perguntou um, enquanto os outros permaneciam paralisados.
Mesmo receoso, um deles se virou completamente — apenas para encontrar a mão estendida do príncipe.
— Estou só de passagem. Não conheço muito o território Midori.
— Eh… eh… bem, a gente só tava… — Engolia as próprias palavras.
— Só queríamos te conhecer. É que somos tímidos — disse um deles, revelando cabelo verde ao retirar o capuz. — Raito. É um prazer!
— Até onde eu sei, seguir uma pessoa em segredo não é a melhor forma de se apresentar a ela. — Apertavam as mãos.
— É mesmo? — o mais alto tomou a frente, retirando o capuz. — Sou Dai. Você disse que não conhece a região, né? Podemos conversar melhor enquanto nos conhecemos.
— E eu sou Mitensai. Desculpe pela má impressão. — Coçou a cabeça.
— E você? Quem é? — Apontou para a garota do fundo.
— Kin. É um enorme prazer conhecer alguém como você. — O analisava da cabeça aos pés.
— Tenho certeza de que vai nos conhecer melhor, com o tempo. Venha conosco — disse Dai, assumindo a dianteira e tentando segurá-lo pelos braços. — O que tanto olha aos arredores, garoto?
— Isso também é outra forma de me conhecer melhor?
— A gente só tá curioso, anda, fala! — insistiu Kin, dando-lhe um leve empurrão.
— São os mendigos? Aqui deve ser bem mais humilde do que você está acostumado no império, né? — indagou Raito.
— Depende de qual lugar estamos falando.
— Não parece ter vindo de um lugar humilde — disse Dai, tentando alcançar a lâmina de Suzaki.
O príncipe se afastou discretamente.
— O Império Ao é um lugar muito grande.
— Tudo bem, você é tímido — interrompeu Raito. — Então vou mudar de assunto. Pensou que éramos assaltantes, né? Para alguém que foge dos olhares dos outros, você também julga rápido demais.
— Não pode sair dizendo isso para ele assim — interveio Mitensai.
— Se estão desconfortáveis com a minha presença, posso tentar seguir meu próprio caminho.
— Meu amigo se expressou mal, esqueça isso. Você não disse que estava perdido? Estamos te levando até meu pai. Ele lida com órfãos. Tenho certeza de que saberá o que fazer contigo.
Dai tentou passar o braço pelo ombro do príncipe. Suzaki desviou novamente.
— Mas, bonitão… como veio parar aqui? — perguntou Kin, apoiando-se no ombro dele do outro lado.
— Venho de um lugar distante do império. Me perdi na floresta tentando fugir de lá.
— Vamos te ajudar a partir daqui. Não há nada com que se preocupar — disse Raito, apontando para frente.
— Tá… acho que tudo bem então.