Após alguns metros de caminhada, os garotos misteriosos trocavam olhares e sussurros a respeito do príncipe revestido de pelagem de urso. Kin a menina do grupo de repente alisou a pelagem obrigando Suzaki a se afastar, esbarrando por engano no garoto de olhos verdes claros, que saltou com o susto.
O mais velho dentre eles seguia na dianteira os passos apressados de seu amigo para alcançá-lo que indagou sussurrando:
— Ele caiu direitinho.
— Não o subestime como Mitensai e Kin, estão fazendo — respondeu o mais alto — sabe bem do que esses Heishis são capazes.
— Heishi? Dai, ele é mais novo que você, é só um baixinho — ameaçou uma risada.
— Não seja ingênuo Raito. “O plano era abordá-lo enquanto estava comendo. De repente, ele se levantou e se misturou à multidão. Além da rapidez dele no beco, ele poderia…
— Desculpe — a voz de Suzaki interrompia — eu acho que ouvi um de vocês falando sobre Heishis, o que tem eles.
— Estávamos falando das invasões dos militares do seu povo ao nosso território — Dai se virou para o príncipe — achamos que você poderia saber de algo.
— Invasões? Eu não sei de nada disso — estranhou Suzaki.
— Foi o que pensei — Dai afirmou batendo no ombro de Raito — Agora, vamos. Estamos quase lá.
Totalizando umas horas, Suzaki chegava acompanhado dos quatro garotos com olhos em uma torre alta erguida no meio da floresta, que tinha como alicerces troncos de grandes árvores que revestiam o local.
Mais adiante, acampamentos na saída de uma pequena gruta, onde crianças acenavam e estranharam a presença do sujeito de jaqueta azul que encarava os arredores.
— Quanta criança — percebia o Principe.
— Não é atoa que o Senhor Hideki tem o codinome de “Pai” — comentou Mitensai.
— Codinome?
— Sim, por aqui não temos nomes de famílias tradicionais e antigas como as suas — respondeu Raito — reconhecemos uns aos outros por sua popularidade.
— E é claro que eu acho isso uma grande baboseira — disse Kin, tentando dar as mãos a Suzaki — não é, bonitão?
— Na verdade eu gostei da ideia, diferente — ensaiou um sorriso.
Kin levou as mãos ao rosto, Raito e Mitensai riam baixo, ao tempo que a garota envergonhada respondia:
— Isso, isso, eu quis dizer que era uma coisa maneira.
— Chega — cortou Dai, se aproximando da porta da torre — esperem aqui, quietos!
Assim que fechou as portas atrás de si, homens sentados à mesa correram até ele. Levaram-no até uma escada giratória, logo no primeiro andar encontrava uma sala mais ampla no centro um homem de barba cheia de tom esverdeado tinha suas mãos para trás.
— Senhor Hideki, seu filho está aqui.
Observando o lado de fora pela janela, o sujeito mal via aproximação do seu filho, focado no príncipe bem diante de seus olhos:
— Bom trabalho Dai, sem dúvidas bate com os relatos do novo príncipe do Império. Ele não reagiu à abordagem?
— Sim e não — se juntava ao adulto — eu diria que ele que abordou a gente, mas ele aceitou vir conosco em troca de sua ajuda.
— Tão inocente — ameaçou um sorriso — mas até demais — virou-se de costas.
— Eu disse para não se meter nisso, pai — apontou o garoto — é muito estranho enviarem um garoto assim para atravessar a Floresta Hercínia sem preparo. Como arriscariam um candidato ao império dessa forma?
— E o que queria? Que ele caísse em mãos erradas? Um passo em falso e o que teríamos seriam mais e mais Heishis em nossas terras.
— Espera, pretende negociar com os Azuis?! Depois de tudo?! — questionou Dai, irado — acha mesmo que os militares do império vão embora usando ele como moeda de troca?
— Por enquanto prenda-o e eu irei pensar no que fazer — coçava a barba, sentando em uma cadeira — irei articular a recompensa com outros líderes de facção.
— Espero que saiba o que está fazendo, pai — ia até a saída — porque meu palpite é que isso se trata de algo bem maior.
Dai continuou seu caminho de volta aos amigos, dessa vez acompanhado de outros adultos. Convidando Suzaki a segui-lo, os dois partiram para a torre sendo apenas observados pelos outros três jovens.
Subindo as escadas giratórias, o príncipe notava o interior da construção cada vez mais escuro a cada andar. Apenas tochas guiavam seus pés, como se a tarde tivesse se tornado noite. Notando a circunstância da situação o membro da família real questionava os acompanhantes:
— Desculpa a pergunta, mas pra onde estão me levando?
— Vai querer um quarto para passar a noite. Estamos te levando até ele.
— E depois vou receber a ajuda que pedi, certo?
— Meu pai vai conversar com você assim que puder — Dai deixava com que um guarda escoltasse o garoto — Ele é um homem ocupado.
Eles então seguiram subindo as escadas até chegarem no andar almejado, mais a frente o guarda apresenta ao jovem o seu quarto.
— Quarto andar. Mesmo nessa escuridão, aqui me parece mais seguro que lá fora. Meus agradecimentos — Suzaki curvou a cabeça.
— Espera aí mocinho, vai ter que me entregar essa arma antes de entrar.

Do lado de fora Dai se juntou a seus amigos que discutiam sobre o sequestro.
— Ele parece ser um cara bem legal, e bonito.
— Você não presta mesmo Kin.
— Acha que fizemos o certo, Dai? — questionou Mitensai.
— Devo confiar em meu pai, ele é um Ao e parece treinado. Com certeza vale a pena segurá-lo por aqui.
Após a breve conversa, cornetas foram ouvidas vindo dos arredores da torre. Trotes podiam ser ouvidos pelos garotos que percebiam do que poderia se tratar.
— Isso é...
— As outras facções vieram atrás dele — afirmou Raito.
— Vão para as cavernas, agora! — ordenou Dai, correndo para dentro da fortaleza.
Logo que entrou na fortaleza, já no térreo o filho de Hideki via seu pai reunindo seus homens:
— Pai, temos companhia. Eles descobriram sobre o garoto, as outras facções estão aqui!
— Reúna nossos homens para proteger as crianças se necessário. Isso não precisa ser assim!
Mais acima deles, alheio ao fuzue do lado de fora. No quarto andar da torre, Suzaki relutava a entregar sua lâmina. Estendendo a mão, mas deixando a arma cair no chão, estressando o guarda que avançou:
— Qual o problema? Me dê logo isso!
Assim que o homem abaixou para pegar, teve seu braço puxado, com seus pés se entrelaçando com a perna esticada do príncipe que em um piscar de olhos o rendia no chão. Bastou pegar na espada de duas pontas para começar seu interrogatório:
— Esse é o mais próximo que nós dois queremos da minha espada no seu pescoço. Eu apenas quero respostas. O que sabe da disputa das fronteiras entre os Midori e o Império Ao?
— O que tem para dizer? Você é um Azul, deveria saber mais disso que eu.
— Aquele guarda da fronteira sinalizou vocês. O que eram aqueles corpos na entrada do território? Quem comanda esse lugar?
O guarda começou a gargalhar das indagações do garoto.
— Para sua força, você é bem desinformado garotinho…
— Não me obrigue a feri-lo — Suzaki encosta seu metal na pele do guarda — Quem dá as leis por aqui?
— Aqui não há leis, criança. Essa cidade, como as outras, é comandada por facções — uma pedra atravessava a janela do quarto — Juntas, elas respondem a Gangue Midori.
Do lado de fora, dezenas de soldados cercaram a região naquele entardecer, os urros e berros deles já podiam ser ouvidos pelo interior da torre.
— Vamos pegar o garoto!
A maioria dos gritos entoaram isso, Hideki olhava pela fresta do portão principal da torre, tomando uma decisão frente a confusão:
— Quero que guardem essa torre com as suas vidas, ninguém sai, ninguém entra.
— Mas pai, e as crianças nas cavernas.
— Eles não querem elas, querem só o Príncipe do Império — coçou o cabelo — quero que fique bem aqui, eu irei barganhar.
O filho permaneceu no térreo, tomando o lugar do pai observando pela fresta da porta seu caminhar em direção aos outros líderes de facções. Escoltado pelos seus homens, Hideki percebia a pequena milícia conversando entre si.
— Parece que chegamos ao mesmo tempo, Natsu.
— Não vai ter acordo. O garoto é meu! — respondeu batendo o pé.
— Essas terras são minhas — Hideki tomava uma espada das mãos de um dos seus homens — Se tem algum problema com isso, resolvam com o cara lá de cima.
— Ele já deu o aval, Hideki. O garoto é de quem pegar.
— Esse garoto não é mais um carregamento que você pode colar uma etiqueta e vender na feira ali da esquina. Você tem noção de quem ele é? Do que pode causar? — questionou Hideki.
— Eu sei muito bem, e por isso sei o que ele pode me dar.
— Qual é Hideki — dizia o terceiro líder, erguendo os braços — podemos compartilhar a grana entre…
A fala era interrompida com um tremor acompanhado de um estrondo. Todos voltavam seus olhos para a direção do som, onde uma abertura surgia na metade da torre caindo destroços do concreto que segurava o que antes era uma janela.
Um guarda logo foi arremessado da abertura, sem revelar o autor da ação. Mas Hideki já sabia o prisioneiro alocado no quarto andar responsável pela ação. Bastou minutos para a porta da cela ser batida pelos homens que antes estavam no térreo da torre.
— Ei! Abra a porta, agora! — girava a maçaneta sem sucesso.
Tomaram distância para arrombarem, mas o mesmo aconteceu de dentro para fora. A bota de Suzaki empurrou a madeira com tudo nos primeiros que tentavam lhe cercar.
— Cui-da-do… — gaguejou o guarda ferido.
A atenção do grupo foi tomada por uma aura azul que inundou a escuridão. O clarão atropelava seus inimigos correndo à frente, notando mais deles subindo as escadas, o príncipe se encontrava cercado no andar por um momento.
— O garoto está fugindo! — sinalizou um dos homens — Não deixem ele escapar!
Eles deixavam-o encurralado diminuindo os espaços aos poucos, quando o candidato a Heishi Celestial puxou sua lâmina e a usou como um cajado. Numa batida no chão, liberou uma descarga que partiu o andar que pisava.
O príncipe atravessou o prédio pousando no térreo, onde havia contado com precisão onde deveria parar. Imediatamente todos eram pegos pelos destroços que cairam junto com Suzaki, que rapidamente fitou seu olhar com o único sujeito entrer ele e a saída da torre.
Dai virava-se para Suzaki franzindo suas sobrancelhas:
— Você!
O filho de Hideki tentou uma investida, mas tudo que conseguiu foi um desvio seguido por um soco em seu rosto. A próxima visão que teve foi do príncipe arreganhando as portas da torre com um chute.
Sendo agora encarado pelas dezenas de homens que cercavam o edifício do lado de fora. Com um sorriso no canto da boca, os líderes de facções acenaram positivamente. Dezenas de guardas apontavam suas armas para Suzaki.
— Fique parado aí, Heishi! Não há para onde correr! — Hideki grita.
Os homens de Hideki tentavam cercar o garoto, enquanto Natsu berrava ordens aos seus subordinados.
— Ele é só um garoto! Do que vocês tem medo?!
Suzaki esperou a gangue se aproximar a dez passos dele antes de agir. Escolhendo um homem como alvo, passou sua espada pela madeira de seu escudo, partindo-a em dois. Tomou uma das partes e arremessou contra uma metade da multidão. Empurrou a outra contra a garganta do sujeito que desarmou e usou seu corpo desacordado como escudo.
Enquanto penetrava na multidão, que hesitou em acertá-lo por conta de seu refém, usou dos segundos para raciocinar.
“Não vou poder manter esse ritmo contra tantos homens sem derramar sangue, eles não parecem querer negociar mesmo. Tudo isso por causa de onde eu venho?”
Após muito excitarem os verdes ignoraram o aliado inconsciente coordenando um ataque com suas armas em todo o redor de Suzaki. Sem saída e com o refém em um braço, o príncipe saltou junto com o homem para o salvar, escapando do cerco pontiagudo.
Para a aterrissagem, arremessou o homem desacordado em um dos guardas que segurou o impacto do corpo do aliado, mas logo depois os dois receberam um chute de Suzaki.
Olhando ao redor, localizou um brilho verde surgindo de suas costas. Um soldado com sua aura verde, levou a mão ao solo, projetando uma elevação no chão onde o garoto recuperava a estabilidade, fazendo-o deslizar numa rampa. Outro usuário do poder esverdeado, se posicionou no fim da descida para render o príncipe.
Antecipando o final da descida, o Heishi usou da velocidade para se atirar em direção ao soldado, derrubando-o junto a ele.
— Te peguei! — disse segurando o garoto consigo.
Logo barreiras de barro brotam do solo ao lado dos dois, a fim de selar o garoto, enterrando os dois vivos.
— Conseguimos! — gritou, retirando as mãos do chão ofegante.
— Seu imbecil, não era para matá-lo — Natsu gritou com o homem.
— É só tirá-lo, mas primeiro, deixe-o ficar sem ar. Não vai demorar muito.
A maioria já desfazia suas posturas de batalha e suspiravam aliviados.
— Temos que tirar Mitsuki dali, não podemos deixar ele junto com essa aberração.
— Não, vamos tirar os dois juntos para ter certeza.
A vitória dos Midori é celebrada por pouco tempo, quando uma das pontas da arma de Suzaki brotou da superfície e fatiava uma abertura naquele casulo.
— Mas como?! Nenhuma espada é capaz de cortar essa técnica!
— Ele vai fugir! — Os soldados se aproximaram em prontidão.
— Ei! Não se aproximem! — gritava Hideki.
Antes de reagirem ao aviso do superior, o Heishi liberou sua energia, estourando pedaços de sua prisão de barro para os lados, ferindo os outros em volta e apagando tochas que iluminavam o local. O sol havia se despedido, portanto, sua aura azul era a única coisa que denunciava sua posição, antes de apagá-la por completo.
Parando no alto da rampa que havia sido formada antes, observava assim as dezenas de guardas ao redor de cima para baixo.
— Onde ele está!? — um homem tremia de medo.
Outros Midori acendiam suas auras, e outros chegavam com mais tochas, para confirmar a suspeita. O garoto havia fugido.
— Esse cheiro é de queimado — um dos membros da cúpula percebia — o que diabos usou para fugir?
— Mitsuki! — o homem era resgatado do casulo, desacordado.
— O corpo dele está quente, parece que foi… eletrocutado?
Os homens derrotados se reuniam, Dai socava o chão evidenciando um olho roxo ao tempo que era consolado pelo pai. Quem via tudo isso distante, se aproveitando da virada do dia para noite, foi um garoto de olhos verdes claros, que seguia entre os arbustos sem ser visto por ninguém.