Tarde da noite, Suzaki continuava sua fuga por uma floresta desconhecida. Árvores ainda maiores camuflavam o solo em uma escuridão inacabada. O jovem expandia sua aura ouvindo uma pista depois de muitos passos, o som de uma cachoeira estava distante.
Repousando naquele breu, não demorou muito para notar mais uma vez a sensação de não estar sozinho. Entre as matas algo se esgueirava como um predador, mas parecia descuidado demais para uma caça.
Logo foi surpreendido pelo arremesso da lâmina de duas pontas do príncipe, que o obrigou a pular para trás.
— O que você quer? — o príncipe crescia sua aura.
— Calma, calma — esticou as mãos, rendido.
— Onde estão seus aliados?!
— Só eu estou aqui. Na real, eu sempre venho aqui!
— Você — percebeu os olhos verdes, e a camisa de botão desbotada. — É aquele garoto do grupo que me enganou.
— Isso sou eu, o Mitensai — se curvou, implorando pela vida. — Olha eu posso te ajudar a sair daqui.
— E por que seria diferente de mais cedo?
— Por que só estamos nós dois aqui — ameaçou se levantar.
Suzaki semicerrava os olhos, recuando sua lâmina ao tempo que Mitensai conseguia ficar de pé continuando seu relato:
— Os guardas da Gangue devem estar cercando a floresta e, nesse momento, devem ter oferecido uma recompensa por você nas cidades. Eles sabem que você fugiu para cá, mas não exatamente onde, muito menos qual é o seu destino.
— Onde estamos? — olhou ao redor.
— Se chama Floresta Negra, é chamada assim porque de dia parece noite. Eles conhecem ela melhor do que você, então pela manhã com certeza vão…
— Duas perguntas — voltou a apontar a lâmina. — Como me encontrou aqui? E como vai me ajudar a escapar?
— E-eu já disse — se assustou novamente. — É algo pessoal, mas sempre passo as noites aqui. E… por isso conheço bem esse lugar, o suficiente para te ajudar a chegar do outro lado da floresta por um lugar que a gangue não terá como cobrir!
— Estou ouvindo.
— Tem uma parte fácil e outra complicada do plano. Existe um rio no norte dessa floresta — apontou para o norte. — Ele leva para a região próxima da fronteira com os amarelos. Pode usar isso para contornar as tropas da gangue. Claro, vai depender do quanto você aguenta a correnteza.
— E o que garante que os Midori não vão me encurralar no final do rio?
— A região no final dele foi tomada por outra equipe de marginais, e eu não sei de onde vieram.
— Sendo de cores diferentes, duvido que será fácil.
— Eu disse que tinha a parte complicada — jogou os braços pra cima. — mas te garanto que não são daqui.
— Última pergunta. Você me rodeou por tempo suficiente para eu perceber que não era um animal, podia ter fugido e denunciado minha posição para os seus — recuou completamente a arma. — Por que está me ajudando?
— Ainda há quem prefira confiar na pessoa por trás da cor — Mitensai piscou um olho. — Eu te vi com aquele morador de rua mais cedo, nada mal.
— Está me ajudando, porque ajudei ele?
— Acho que ali percebi que você era só um garoto, assim como eu — coçou a cabeça. — Se quisesse algum mal, teria matado os homens na torre ao em vez de deixar apenas alguns olhos roxos.
Suzaki arqueou as sobrancelhas e ergueu levemente os lábios em um sorriso discreto. Enquanto guardava sua arma, decidiu estender a mão para sua companhia:
— Acho que você pode me ajudar ainda mais. Preciso sair daqui com algumas respostas. Suponho que seu conhecimento será o bastante para minhas dúvidas.
Após o aperto de mão, os dois seguiram iluminados pela aura de Suzaki. Entre perguntas e respostas, o príncipe anotava alguns relatos, até encontrarem o rio, percebendo a correnteza seguindo ao norte, prosseguindo às margens.
— A disputa territorial de que você fala deve ter acontecido antes da guerra civil que ocorreu aqui. O que sei é que, após a guerra, as facções se uniram sob um nome maior, que denominam como “Chefão”.
— Já é um começo — Suzaki fechou seu caderno com as anotações.
— Esses grupos só se unem por uma coisa: forasteiros. Essa região vai ficar extremamente perigosa para você agora. É bom que não volte — inclinou os olhos. — aliás, posso saber o que veio fazer em um lugar como esse?
— Mitensai, eu agradeço por seu apoio, mas a única coisa que posso dizer é que sou um viajante. É o que precisa saber.
— Me pergunto se devo dizer bem-vindo ou adeus agora — Mitensai riu no momento em que os dois chegaram às margens da cachoeira que soava antes.
— Então é aqui.
— Como eu havia dito, a correnteza é bem forte.
— Uma pena. Daqui seria possível ver bem o amanhecer — lamentou o príncipe.
— É por isso que gosto de vir aqui.
— Como assim?
— Essa floresta é a Floresta Negra por um motivo. Ela também faz fronteira com o território dos Pretos, quase não é explorado pois foi alvo de muitos conflitos no passado. Mas para mim, esse ambiente é como uma luz em meio à escuridão. A recompensa para os corajosos.
Suzaki olhava para o horizonte como se esperasse o sol aparecer. Aqueles longos segundos se dissolveram na decepção de ter que partir ainda na madrugada fria.
— Se tiver coragem de pisar nos Midori de novo, pode me procurar por aqui. Tem um poço próximo à região onde nos encontramos. Costumo ficar por ali.
— Vou me lembrar disso. Meus agradecimentos, Mitensai.
— Foi um prazer.
Os dois se cumprimentaram em um aperto de mãos pouco antes do príncipe do império se lançar ao ar para a queda.

A correnteza castigava as rochas quando uma de suas vítimas foi retida por elas. Em algum lugar entre a sobriedade e a inconsciência, o garoto forçou os músculos, agarrando a pedra como um tesouro precioso enquanto a água tentava arrastá-lo.
Cerrou os dentes de dor. Algo estava preso à perna esquerda. Arrastou-se para fora do rio com a força que ainda possuía e olhou para a coxa. Um pedaço de madeira estava cravado próximo ao joelho. Suzaki fechou os olhos, envolveu o objeto com os dedos e puxou.
Após engatinhar por alguns minutos, ouviu gritos e passos velozes vindos da floresta, aproximando-se. O garoto enfrentava os protestos de seus músculos para dar alguns passos em terra firme, buscando esconderijo na escuridão entre as árvores, onde pôde ouvir:
— Anda, logo! Com o luar fraco assim, fica difícil voltar para o cativeiro. Esse lugar já é um breu em plena luz do dia.
— Tá com medo do escuro, é?
— Atrasem mais um minuto e vou mostrar algo que bota medo de verdade.
O príncipe contou uma dúzia de homens, todos armados, seja com espadas ou arcos. Eles coletavam água do rio em baldes que trouxeram.
— Floresta estúpida, tarefa estúpida — um deles chutou o balde no chão.
— Ei, não é para entornar a água. Enche de volta!
— Pra quê?
— A grana pelo serviço é boa. A gente só tem que esperar.
— Já chega, os dois! É para falar menos e trabalhar mais. Querem receber? Então tratem de ajudar na sobrevivência.
— Tudo isso para uma criança.
— Exceto que essa criança é da família real. Não espero que um cabeça oca como você entenda. Por isso está aqui pegando água.
Suzaki encolheu-se atrás da árvore e prendeu a respiração, refletindo:
“Outros atrás de mim? Os Midori cederam esse espaço para eles? Podem estar cooperando. Nesse ritmo o rito de passagem está em risco… qual será que é a cor deles?”
O jovem seguiu na direção oposta, porém sua busca por segurança não terminou com a distância imposta entre ele e os primeiros homens. O cansaço e a perna ferida fizeram-no tombar ao chão em busca de abrigo.
Podia ouvir relinchos anunciando a chegada de companhia. Ele rastejou para uma cobertura próxima, usando as folhagens como proteção.
— Anda, esse vagabundo não pode ter ido longe — disse um dos homens, montado a cavalo.
— Eu quero minha comida de volta! — gritou outro, passando logo atrás.
Um calafrio percorreu a espinha de Suzaki quando um fio de luz da lâmpada da carruagem penetrou por entre as folhas. A urgência do grupo, porém, impediu-os de examinar melhor o esconderijo natural.
Para o príncipe, por outro lado, as luzeiras permitiram um novo olhar sobre os homens. As roupas vermelhas denunciavam sua origem.
“Os Aka… mas o que fariam por aqui? Teriam usado alguma rota que não percebi no mapa?”
Temporariamente livre dos perseguidores, ele olhou ao redor e percebeu que não estava em um simples arbusto. Os galhos eram maiores e conjugados de maneira ordeira. Alguns estavam amarrados por cordas. Aos pés, notou um laço abandonado.
Quando pegou a lâmina para cortar o laço, um projétil passou rente ao seu rosto, arrancando fios do seu cabelo antes de se prender na árvore à frente. Ao virar-se, foi atacado por um homem maior e mais forte.
De costas para o chão, a lâmina presa às costas não era uma alternativa.
Usou o pé que não estava ferido para chutá-lo no peito e se erguer. Sacava sua espada quando o oponente arremessou o que parecia uma lança. Sua arma de metal chocou-se com a madeira num golpe preciso no centro. O corte partiu a arma em duas.
— Quem… é… você? — perguntou o garoto, ofegante.
A dor aguda na perna o obrigou a mudar de estratégia. Apoiado na arma como muleta, recuou. O inimigo oculto reparou no ferimento do garoto, não apresentando mais resistência.
— Eu nunca vi ninguém como você na floresta — se levantou calmamente. — pensei que fosse um dos bandidos, mas é só um garoto.
— Pelo visto, você também não é um deles — o garoto ameaçou notando os cabelos verdes do indivíduo. — Trabalha para a gangue, né?
— Sou foragido assim como você pelo visto. Eles estavam atrás de mim e… — o barulho de cavalos interrompeu o sujeito. — Droga, atraímos eles!
— Venha! — o homem tomou o príncipe pelos ombros.
— Para onde vai me levar? — sussurrou Suzaki.
— Para o meu abrigo.
Eles terminaram a fuga em uma caverna. Uma fogueira apagada repousava no chão.
— Sou Munny — disse ele, criando fogo.
— Por que me ajudou, Munny?
— Teve a chance de me matar e não o fez. Já é um bom motivo.
— Me chamo Suzaki. Por que está aqui na floresta?
— Eu que deveria te perguntar isso. Quantos anos você tem?
— Preciso sair daqui. Desse jeito, não consigo chegar até Kiiro. Poderia me ajudar?
— Não sou guia turístico, garoto.
— Por favor, não posso esperar muito tempo — Suzaki retirou um saco de pano cheio de moedas. — Posso te compensar.
— Só pode estar tirando sarro de mim — Munny deu um tapa na bolsa. — O que eu iria querer com dinheiro? Eu moro nessas florestas.
Suzaki observou as paredes de pedra iluminadas pelo fogo. Peles e carnes separadas em um canto, lanças de madeira no outro.
— Então foi você quem roubou a comida dos bandidos! Aquela armadilha no arbusto era sua — o príncipe falava, e o homem permaneceu calado. — Você conhece essa floresta. Pode me ajudar.
— Conhecia. Depois que esses marginais chegaram, tomaram tudo para si. Esse não é mais meu lugar, pelo visto.
— Pelo o que ouvi esses homens querem a mim. Se conseguir me tirar com vida dessa floresta, podem ir embora depois de alguns dias. E você terá sua floresta de volta.
— Ou posso simplesmente te entregar para eles.
— Poderia. Mas então por que teria me ajudado?
— Odeio espertinhos. Sempre querem ter razão.
— E então, o que irá fazer? — Suzaki levou a mão à arma por precaução.
— Você só faz perguntas? — suspirou Munny. — Se eu te levar até a estrada que dá no deserto, não quero ver sua cara por aqui tão cedo.
— De acordo.
— Melhor ver essa perna. Se pensa que vou te carregar até a estrada, está enganado.
Munny se afastava do garoto, que encarou o homem misterioso que o ajudou.