Passeando pelas ruas, diferente do território anterior, notava um comércio mais robusto e organizado, com menos indigentes ao redor. A militarização mais fortificada pelos chamados Kishi da Dinastia, fazia Suzaki se esgueirar pelos becos para não chamar atenção, evitando muros com arqueiros em vigilância.
“Tenho só um objetivo na capital: o índice. Longe da morada do governante, abaixo de um edifício no coração de Oásis. Meu pai recomendou pessoalmente que eu chegasse lá, pois esconde segredos políticos da dinastia… não vou desapontá-lo!”
No caminho encontrou protestos inusitados, exigindo atitude do Patriarca que governa o território. Alguns chamavam os vermelhos do Reino Aka de ladrões soberbos.
“Diferente de minha casa e o Reino Aka, os amarelos são comandados por uma família real, regida pelo Patriarca. Se ele estivesse incomodado com isso, já teria reprimido e tomado os cartazes. Seja lá o que ele quer, vou encontrar isso no índice.”
A caminhada de Suzaki teve o seu destino nos arredores do edifício. Ele circundava a construção aos poucos e notou as sacadas vazias. Sem arqueiros, mais desprotegida que as muralhas que havia passado mais cedo.
Em um comércio de tecidos, comprava um tapete no qual estendeu do lado dos muros, se cobrindo com sua lona, se deitava com seus olhos na direção da entrada cobertos o suficiente para parecerem fechados.
“Provavelmente os guardas vão trocar de turno na chegada da noite, só preciso ser paciente”, pensou deitado como um andarilho em descanso.
Após o escurecer, reparou num Kiishi saindo de um beco próximo, com uma chave pendurada na cintura. Ele encontrou um dos homens guardando a porta, trocando de posições, além de entregá-lo a chave.
Depois de conversarem, o guarda do turno da noite estava prestes a entrar quando um sujeito coberto pela lona desgastada correu em sua direção, empurrando-o para trás:
— Me dá um dinheiro, preciso comer.
— Sai para lá! Ficou maluco moleque? — o guarda protestou desferindo uma bofetada no encapuzado.
O garoto caia para trás, fingindo nocaute, mas suas mãos deslizaram rapidamente para baixo da lona que cobria seu corpo, escondendo a chave em sua posse. O guarda ignorou sua vítima no chão, virando-se para porta procurou as chaves no seu bolso.
Sendo surpreendido pelas costas por Suzaki que puxou sua lâmina contra o pescoço do guarda, sufocando-o por trás, até desacordar.
“Era o único jeito”, refletiu arrastando o homem para a escuridão, escondendo-o com o auxílio do tapete.
O Heishi encontrava a passagem de onde vinha as trocas de turno: um túnel subterrâneo. Sem perder tempo, o príncipe entrou por ele. O túnel era quieto, mas com indicadores de direção, mapas desenhados nas paredes. Suzaki podia ver que havia uma saída de volta para a torre. Uma conexão entre os dois complexos.
A biblioteca que escondia o Índice estava próxima, mas protegida por guardas. Entretanto, uma conversa chegou aos ouvidos do príncipe, vinda do corredor.
— Já era para ele ter chegado!
— É o turno dele mesmo? — o Kishi se questionou em voz alta.
— Logo hoje… — socou a parede — Precisamos dar um jeito nisso, senão vai sobrar pra gente, daqui a pouco a carruagem vai chegar.
— Eu vou lá, então, se for para evitar problema — seguiu para procurar seu parceiro.
Suzaki, que escutava a conversa no corredor ao lado, testemunhou os dois se dividirem pela busca. O único guarda exposto era uma presa fácil.
Esperou os passos do que se separou se tornarem surdos aos seus ouvidos e nocauteou com um chute na cabeça. Sua pequena luta encerrava com a abertura da câmara ao seu lado, revelando a sala com prateleiras intermináveis de papéis e baús. O príncipe havia se infiltrado no índice.

Acima da sua busca, o edifício que antes era pouco militarizado recebia uma tropa de homens que seguiam uma grande carruagem. Descendo do veículo duas figuras que faziam todos se renderem apenas pela presença. Um homem imponente de pele escura tinha seu cabelo amarrado no topo como um coque e barba bem feita, segurando um cetro que reluzia em amarelo, com formato de estrela em sua ponta.
Ao lado dele, uma jovem moça morena de olhos amarelos reluzentes que combinavam com reflexo de luzes em seus cabelos lisos. Prestes a entrarem, foram abordados por guardas:
— Senhor, encontramos o guarda principal do turno desacordado agora mesmo, tudo indica que temos um intruso!
— Se ele fosse perigoso estaria morto — deu um passo à frente, — e se ele for bom mesmo, já invadiu o índice.
— O-o os olhos… — acordava a vítima do intruso — eram azuis.
Imediatamente o homem deu um sorriso de satisfação tomando à frente:
— Eu resolvo isso!
Suzaki por sua vez já consumia por um tempo os documentos secretos, reunindo alguns em seus bolsos, alcançou mais um livro em uma escrivaninha mais ao fundo da câmara, com auxílio de uma vela, lia:
“...a viagem de reconhecimento visa a Cidadela Restrita como o principal alvo, a expansão territorial se aproveitará da atual inexistência do povo Shiro. Um conflito com o Reino Aka será aberto para que se dispute…”
— Quem está aí! — A porta foi aberta sem aviso prévio.
O príncipe apagou a vela imediatamente, se esgueirando pelos cantos escuros. Notou a aura amarela reluzir sem esforço, do corpo de seu algoz. Revelando seus amuletos de ouro nos antebraços e vestes cerimoniais. O brilho era a única coisa que iluminava a grande sala, a cada passo abrindo mais espaço.
“Esse cetro, não pode ser…”, pensou, reconhecendo-o.
— Não vai querer abrir conflito com o Patriarca Osíris e sua filha — percebia documentos na mesa — vamos, sei que está aí… afinal, foi seu pai quem te enviou?
A pergunta do governante fez Suzaki amolecer, se revelando por de trás de uma prateleira:
— Como você sa…
— Suzaki Sora! Como esperado — apontou com o cetro, — Seu pai sempre comentou sobre sua timidez e maestria. Mas não pensei que estaria nesse nível.
A garota passou a acender as velas da sala aos arredores, enquanto era apresentada:
— Yasukasa, tenha bons modos, cumprimente o filho legítimo de Koji Sora, o príncipe e herdeiro do Império Ao.
A garota estendeu a mão para ele, ao ameaçar apertar a mão ele dizia:
— Então você é a famosa princesa Yasukasa, é um praz…
— Me dê esses documentos — recusou o aperto, apontando para os papéis nas mãos do garoto.
Ele entregou formalmente ao tempo que ela entregava para seu pai, que averiguou sorrindo, abraçando Suzaki pelos ombros logo depois:
— Não ligue para minha filha, ela não é muito simpática. Mas vejo que já está pondo o plano em prática.
— Que plano? — estranhou o príncipe.
— Venha comigo — levava ele para fora do local, — talvez seu pai não tenha te dito tudo para testar suas capacidades, e devo admitir. Alguém de pouca idade invadir o índice assim, estou impressionado.
— Mas não bom o bastante — comentou Yasukasa, trancando o índice, — ainda assim pegamos ele.
— Eu estava a sua espera de qualquer forma — dizia Osíris enquanto voltavam para o térreo — e estava atrás desses mesmos documentos que você vasculhou, sabia? — mostrava os papéis.
— Q-que coincidência — deixava suor escapar pela testa.
— Não, na verdade tem um nome: Missão de reconhecimento na Cidadela Restrita. Seu pai nunca te contou nada sobre?
Suzaki apenas balançou a cabeça, o trio caminhava para fora do edifício, já com as estrelas tendo tomado o céu, Osíris continuou sua explicação:
— A cidadela restrita é uma região inabitada, antes pertencente ao Povo Shiro. Nós Kiiro estamos sofrendo em demasiado pela seca, o deserto mesmo sendo nosso aliado em poder, só avança limitando nossas terras. Por isso, é necessário que nosso povo reivindique terras. Mas a questão é que essas terras raras estão dominadas na mão de apenas uma cor.
— Está falando dos vermelhos? — questionou Suzaki.
— Exato! O Reino Aka tem dominado e tentado ainda mais expansões ao redor do mundo, nunca estão satisfeitos. Fato é que meu intuito é evitar um conflito, enviar uma tropa de reconhecimento a Cidadela, seria suficiente para ameaçar um, já que é uma cidade fronteiriça.
— Os Aka são tão irredutíveis assim?
— Você nem faz ideia — batia com o cetro no chão, — por isso articulei o seu pai um plano, e uma das coisas que ele sugeriu é que você: Suzaki Sora, seria responsável por essa missão de reconhecimento.
— Quer que eu vá para a Cidadela Restrita?
— Traçe a melhor rota para uma campanha de ocupação, verifique o ambiente para nos instalar uma base e por último, identifique a região de maior vulnerabilidade dos Aka. Recomendo uma região vizinha.
— Mas qual seria o intuito disso? — se colocou na frente de Osíris.
— O mesmo que você teve vindo aqui, negociar — colocou a mão no ombro do garoto. — Os guardas irão acompanhar você até a saída da capital e providenciar um cavalo. Quando terminar, pode voltar para cá novamente.
— Certo, mas…
A partir do gesto do governante da dinastia com as mãos, os guardas carregaram Suzaki bruscamente pelos ombros, enquanto ele ouvia conclusão do Patriarca Osíris:
— E não se preocupe com seu pai, como eu disse: Já alinhamos tudo isso antes.
Ele acenou com um sorriso de satisfação por alguns segundos mudando sua expressão bruscamente logo depois, suspirando fundo.
— Inventou todas essas mentiras e depois ainda deixou ele ir depois de ter invadido o índice — cruzou os braços Yasukasa. — Nunca vou entender o que é governar assim.
— Não menti, só contei meias verdades — ajustou sua gola — é só um garoto que faz tudo pelo pai. Vou usá-lo ao meu favor fazendo-o acreditar estar agradando o Koji, e negociar uma aliança com o império através disso.
O destino de Suzaki foi o mesmo portão ao sudeste no qual desembarcou a algumas horas, o pedido do Patriarca era correspondido pelos homens de armadura que entregavam um cavalo ao príncipe que amarrava o animal, se atentando ao mapa que tinha em mãos.
“Ele sabia que era eu mesmo antes de me revelar. Mesmo que meu pai esteja ciente, preciso admitir que tive mais sorte do que juízo, encontrar o Patriarca era o que menos esperava. Mas agora não tenho escolha senão seguir o combinado”.
Seu dedo deslizou pelas rotas possíveis ao sul, para atravessar o deserto rumo a Cidadela Restrita, porém a região das vilas desérticas chamou sua atenção. Levando a mão ao bolso trouxe para si sua ocarina, antes de encarar o horizonte no oeste.
O jovem montou o cavalo seguindo naquela direção, ignorando sua nova missão por enquanto.