A viagem do viajante trilhou o restante da noite, que esfriava como se o inverno estivesse se aproximando. Suzaki se aproximava das vilas desérticas, mas a quietude que havia encontrado na manhã daquele dia, agora era tomada pelo som de tambores e instrumentos.
Notava as pessoas dançando e festejando ainda nas ruas, enquanto uma enorme carruagem parecia medir a animação conforme sua passagem. Observando na entrada, o príncipe cavalgou devagar, notando uma menina de baixa estatura com a cabeça coberta acenando para os moradores que festejavam.
Mesmo curioso prosseguiu sem ir em direção ao veículo, seguindo pela trilha onde se lembrava uma lápide no topo de uma pequena duna, no qual na base existia uma modesta casa.
— É você? — uma voz feminina surgiu de trás — o menino de mais cedo.
Suzaki se virava encontrando a esposa do homem que o resgatou, com seu filho no colo. Prontamente ele desceu do cavalo trazendo o animal consigo, estendendo sua mão com a ocarina em mãos ofereceu:
— Aqui, você quer? Eu posso te ensinar.
O menino abriu um sorriso, mas ao mesmo tempo se segurou para aceitar o convite. Sua indecisão foi resolvida com uma voz vinda da janela:
— Pegue meu filho, não tenha medo.
O menino pegava o instrumento, associando seus pequenos dedos aos furos do instrumento de sopro, Suzaki o auxiliou para que encaixasse nos certos, para então soprar levemente.
— O meu nome é Rie, muito obrigada por isso — dizia a mulher. — Akio quase não tem amigos por aqui.
— Sou Suzaki — respondeu o príncipe bagunçando o cabelo da criança. — Se me permite, gostaria de saber o que está acontecendo na vila.
— Ah deve estar falando do festival promovido pela Princesa Hoshizora — respondeu Rie, — estava voltando de lá agora com Akio.
— Festival?
— Sim, ela distribui cosméticos, alimentos e — tirava bolas de gude do bolso, — alguns brinquedos para o povo das vilas. Mesmo sendo uma região deslocada e distante da capital, por algum motivo ela se importa conosco… pelos visto você também.
— Só vim agradecer, do jeito certo — sorriu, se levantando.
O sopro de Akio já ficava mais alto chamando atenção de um homem que saia da casa, andando até eles:
— Que bom que pudemos nos encontrar de uma forma mais amigável.
— Okada, já estávamos para entrar — brincou Rie.
— É um prazer revê-lo — estendeu a mão Suzaki — Okada.
Os quatro adentraram a casa ficando pequena entre eles, não contando com paredes fortes, o frio e a areia invadiam o local. O grupo dividiu uma mesa juntos, de lá mesmo através da telha partida, era possível ver a lápide no alto, no qual Suzaki não tirava.
— Algum problema, meu jovem? Parece preocupado — perguntou a mulher.
— Não, nada. É só que... Minha viagem à capital não foi como esperava.
— Aquela gente é muito paranoica. Ao primeiro sinal de problema já saem levando Kishis para lá e pra cá sem motivo — disse Okada, usando mais força que o normal cortando legumes na mesa.
— Pelo menos aqui no interior não precisamos se preocupar com isso — dizia Rie, dando de comer a Akio — Mesmo humildes temos a leveza do deserto, além do que, essa é a região menos militarizada do território.
— Militares, militares, só querem saber em crescer e servir a família real. Ocupados demais para cuidar das vilas desérticas. Me pergunto até quando isso vai durar.
— Senhor, desculpe a curiosidade, mas isso tem algo a ver com aquela lápide? — após o questionamento de Suzaki, Okada paralisava.
— Akio, você já comeu bastante, pode ir para o seu quarto, amor — disse Rie ao seu filho que obedeceu de imediato.
Um silêncio tomou a sala de jantar. Okada levou as mãos à cabeça, sua esposa o abraçou por uns instantes.
— Desculpe, eu disse algo errado?
— Menino, é que…
— Não — retomou a compostura Okada. — Deixe-me falar com ele.
— Eu vou ficar com Akio — se retirou Rie.
Suzaki ficava sem palavras, vendo as mãos trêmulas do adulto em sua frente, que logo revelou:
— Aquilo é lápide de um militar, Hajime meu filho mais velho.
— E-eu… sinto muito — inclinou os olhos Suzaki. — Eu não queria…
— Hajime se tornou um Kishi para custear a família, mesmo contra minha vontade. Tinha acabado de se alistar para uma missão emergencial da Dinastia. Mesmo não desejando, eu o apoiei, pois era seu sonho. Alguns dias depois, só recebemos uma carta da sua morte. Tivemos que ir até a capital para pedir o corpo de volta e enterrá-lo. Foi a última vez que pisamos lá.
— Eu não sei bem como aconteceu, senhor. Mas posso imaginar a sua dor. Um pai não deveria sentir falta do filho. Na verdade, por tudo, eu julguei vocês mal.
— Só… ainda é difícil para mim falar disso — segurava o choro, tampando a boca.
— Sua família precisa de você, tem o dever de cuidar deles.
— Você é muito novo para dizer isso — percebeu Okada.
— Mas também tenho um pai que me apoia, e tenho o dever de cumprir com isso. Assim como seu filho cumpriu, Hajime agora iria querer que você seja forte, tenho certeza que ele fez tudo para te ver satisfeito.
Okada concordou com a cabeça, limpando uma lágrima tímida sorrindo logo depois:
— Gostaria de passar a noite aqui? Pode ficar o quanto quiser.
— É — deu mais uma olhada para lápide — acho que Akio ainda não aprendeu o bastante— brincou puxando a Ocarina.

A primeira pausa nas viagens de Suzaki durou não uma, mas duas noites. Aproveitando a hospedagem simples mais acolhedora de Okada e sua família. Foi pela manhã que o príncipe reuniu seus pertences, seguindo o pai da família para um último ato antes da viagem. Subindo a duna de trás da casa, pode presenciar de perto a lápide de Hajime.
— Já tentei deixar flores, mas aqui no deserto, o vento leva tudo — ajoelhou Okada — De vez em quando eu preciso voltar aqui para retocar as letras nela.
— Ele foi um Kishi. Devia ter tido o reconhecimento, Por que não teve um enterro digno?
— Hajime queria ser reconhecido, vivia dizendo que queria ser importante. Ele era pequeno demais para essa vila, é verdade — passou a mão na lápide. — Mas, para mim ele já era importante antes mesmo de nascer, porque ele era meu filho. Por isso resolvi enterrá-lo aqui.
— Então sua decisão foi mais que correta — colocou a mão no ombro de Okada.
— Mas e você, Suzaki. Para onde vai?
— Sou um viajante, não se preocupe — disse juntando sua espada, enrolou-a na lona e já se preparava para abrir a porta. — Sei bem para onde ir.
Eles desciam para dentro da casa, passando pela porta de entrada seguiram até um estábulo próximo onde o cavalo de Suzaki ali estava:
— Mamãe… ele vai voltar né? — dizia Akio derramando lágrimas.
— Não fique assim meu filho. Tio Suzaki pode voltar quando quiser — se despediu Rie.
— Obrigado por tudo — bagunçou novamente o cabelo da criança.
— Eu irei acompanhá-lo — beijou a cabeça da esposa — já volto.
Suzaki e Okada trilharam a vila por alguns metros, o pai da família buscava mercadorias quando o príncipe de cima do animal notava Kishis interrogando pessoas ao lado. Ele cobria seu rosto com sua enorme lona para não entregar sua identidade, mesmo evitando chamar atenção, os guardas da dinastia os abordaram:
— Bom dia, gostaria de fazer algumas perguntas para os dois.
— S-sim claro — desviava o olhar Okada.
Suzaki apenas se virava sem responder, enquanto um dos homens vasculhava ao redor, outro fazia anotações.
— O que sabem sobre os criminosos camuflados que têm atacado as vilas na madrugada?
— Sou morador daqui — dizia Okada, — mas tudo que sei é dos rumores que têm surgido sobre isso.
— Não foram vítimas de nenhum assalto? Nos relataram túnicas acinzentadas, se isso ajudar a lembrar de algo — completou anotando.
— Não, graças ao Deus Sol, eu e minha família estamos ilesos — confirmava Okada.
— Só mais uma pergunta: Você identificou a presença de mestiços na região?
A pergunta fez Okada recuar, ameaçando se virar para Suzaki que ainda estava montado em seu cavalo, até que o parceiro do Kishi que anotava questionou:
— Vocês estão juntos?
— Então si…
— Não — disse Suzaki interrompendo, Okada tomando a frente — estou apenas na fila para mercadoria.
— Aprendeu a falar, e onde conseguiu esse cavalo? São nativos da capital.
Suzaki ficou em silêncio, todos ficavam tensos até que um dos guardas sugeriu:
— Desça do animal ago…
Antes que terminasse a fala, o estalar das rédeas foi tão forte que fez o cavalo erguer suas duas patas da frente, engatando uma arrancada em alta velocidade. Suzaki fugiu sem dar tempo de reação aos Kishis que notavam seu cabelo azul revelado pela queda do seu capuz no movimento.
— É um Ao!
Os dois Kishis correram em sua direção sem sucesso, enquanto Okada recebia suas mercadorias sorrindo, concluindo consigo mesmo:
“Ele pensou em tudo, obrigado Suzaki.”

O animal trotou em alta velocidade até que a areia se tornou terra, e clima árido deu lugar novamente ao típico da natureza. Com algumas pausas de descanso entre florestas que comportavam as fronteiras, Suzaki já havia iniciado sua pesquisa antes mesmo de chegar ao seu destino.
Foi apenas praticamente um dia depois que ele encontrou um cercado diferente, indicando a proximidade com o espaço inabitado. Já com os pés no chão ele carregou o animal até onde poderia amarrá-lo. Entre as muitas árvores baixas, notava casas vazias, do que antes era um pequeno vilarejo.
Algumas horas de procura, ele anotava possíveis locais para hospedar a caravana do Patriarca como ordenado, enquanto suspeitava olhando de um lado para o outro:
“Essa sensação… não, com certeza estou sendo observado.”
Ele continuou em frente, já havia encontrado prédios, igrejas mas sem dúvidas o que mais chamou sua atenção estava nos limites da Cidadela. Um santuário enorme no qual correu em direção.
Adentrando, percebeu o salão vasto, ocupado por grandes esculturas. Chegando mais perto das figuras, notou os andaimes no teto. Toda sua análise foi interrompida por um barulho do lado de fora.
Não bastou muito para o intruso dar as caras, ele olhava ao redor do enorme salão encantado com cada canto que observava, confuso o suficiente para tropeçar diante de uma rampa, deslizando sob ela até bater uma espécie de elevação.
Suzaki já estava sob os andaimes, percebendo a blusa vermelha imunda do visitante inofensivo e estabanado. Naquela região, o santuário estava com as telhas quebradas com a luz do sol invadindo, iluminando um palco no centro erguido a alguns metros do piso.
Na medida o garoto se levantou, começando a subir no palco, seu vigia resolveu saltar dos andaimes para suas costas já tendo pousado no palco:
— Atrás de você.
Em um reflexo, rolou para o lado, puxando sua espada de madeira. Sua arma durou pouco tempo apontada para a ameaça. Num movimento sutil como uma brisa e tão rápido quanto um piscar de olhos, o Suzaki partiu a madeira em dois.
— Ei, isso é meu! Espera! Quem é… — gritou se deparando com a figura encapuzada.
Seu oponente pulou na frente, colocando uma das mãos na boca dele, o rendeu segurando com uma os braços do intruso por trás.
— Silêncio! Não quero machucá-lo, mas precisa me deixar ajudá-lo.
O jovem camponês relutou ao aviso, mas cedeu uma vez que percebeu a relutância do desconhecido em usar sua arma. Era uma espada de duas pontas em formato de relâmpago, tão alta quanto seu portador. O encapuzado soltou Yanaho de seus braços e permitiu que o garoto visse seu rosto. Os dois trocaram olhares e perguntaram em uníssono.
— Por que está aqui?