ARCO 2 - CIDADELA RESTRITA.
O dia começava no Reino Aka. Suas florestas avermelhadas davam ao território uma impressão de fúria e desordem pela coloração intensa, mas isso não poderia estar mais distante da realidade.
Pelos terrenos das vilas e cidades, construções de madeira com poucos cômodos eram o padrão na maior parte do reino, com exceção de sua capital charmosa. Naquele horário, os moradores seguiam suas rotinas: carpinteiros, lenhadores, ferreiros, vendedores e tantos outros.
Todas essas atividades existiam sob a ordem do rei, que coordenava uma junta militar fortemente hierarquizada por meio de seu exército. Eles eram conhecidos como Senshi. A influência militar e cidadã deles alcançava todos os cantos do território, ocupando posições de empregadores, servos ou donos de terras.
Distante da capital, no interior do reino ao sudeste, em uma vila humilde, um simples camponês girava um mecanismo para moer grãos para seu dono.
Era um homem alto, de cabelos curtos e escuros, barba falhada nas laterais, pele morena e olhos vermelhos. Vestia roupas sujas de tom amarronzado, usava um capuz que caía até os ombros e, abaixo, uma espécie de macacão preso por uma corda na cintura, que se estendia até botas pontudas nos pés.
Ao retornar para seu pequeno dormitório, encontrou um garoto ainda deitado sobre o piso de madeira.
— Yanaho! — cutucou-o com o cabo de uma pá que segurava.
— Ei, pai! Calma aí… — respondeu, tentando voltar a dormir.
— Melhor se levantar, filho — disse, sentando-se em um banco ao lado e suspirando. — Preciso que vá buscar mercadorias na Chika. Vamos precisar almoçar logo.
O menino levantou-se emburrado e calçou suas botas amarronzadas. Usava uma blusa vermelha imunda, de gola simples, e uma calça básica da mesma cor do calçado. Seu cabelo, num mullet que passava dos ombros, tinha um tom ligeiramente mais escuro que sua pele, combinando com seus grandes olhos vermelhos.
— Akemi não vai nos oferecer nenhuma migalha dessa vez? — perguntou, ainda se espreguiçando.
— Senhor Akemi — corrigiu o pai. — A passagem do inverno não foi boa para os negócios dele. Você sabe que nessa época temos que nos virar — disse, colocando a mão sobre o ombro do filho, que tinha estatura média.
— Eu acho que — pegou uma bolsa vazia e seguiu até a porta do dormitório — sempre temos que nos virar.
Com permissão para sair das terras do fazendeiro, Yanaho seguiu pelas ruas de barro, achatadas pelo movimento dos comércios que avançavam sobre a mata. As lojas vendiam apenas o necessário para os trabalhadores.
O garoto era observado pelas pessoas ao redor. Alguns apontavam, outros cochichavam. Pais puxavam suas crianças para longe enquanto Yanaho continuava o trajeto. Sua expressão mudou, assumindo um olhar triste.
“Até quando as coisas vão continuar assim?”, pensou, notando os olhares de suspeita.
“Como posso justificar tudo o que aconteceu? Como posso fazer valer a minha vida?”
Ao ver duas crianças brincando juntas, a rusga em seu nariz e a sobrancelha franzida acompanharam sua corrida apressada rumo ao destino. Alguns metros adiante, chegou a um balcão de madeira montado ao ar livre. Aproximou-se com as mãos apoiadas nos joelhos, sendo notado por uma das responsáveis pelo local.
Era uma mulher da idade de seu pai, com um pano na cabeça e roupas simples, um pouco mais rechonchuda que o normal.
— Ora, ora… imaginei que viesse mais cedo, Yanaho. Como vai Yoroho?
— Como sempre, estressado — respondeu, entregando uma lista. — Ele também precisa das mesmas mercadorias.
Enquanto ela analisava o pedido e conferia o estoque, Yanaho observava um dono de terras passar, seguido por seus servos. Aquilo reacendeu seus pensamentos.
“Os que têm poder são aqueles que são seguidos? Só por causa do que aconteceu, eu mereço não ser reconhecido? Mãe…?”, refletiu, distraído, olhando para o céu.
— Ei, garoto, está me ouvindo? — chamou a comerciante.
— Opa! Desculpa, Chika. Pode falar.
— Você chegou tarde. O que ele pediu acabou, só tenho algumas frutas. A boa notícia é que os legumes vão chegar em breve.
— Só espero que não demore — disse, pegando a lista e dando passagem ao próximo da fila.
Próximo dali, havia mesas onde os moradores conversavam e faziam suas refeições diárias. Yanaho, porém, preferiu sentar-se no chão, perto da loja de Chika. Sentou-se de pernas cruzadas, apoiando o rosto na mão.
Uma presença inesperada chamou a atenção de todos ali. Abriam passagem para os homens do rei, no qual Yanaho observava o respeito concedido pelos moradores. Assim que os militares se aproximaram das mesas, as risadas cessaram. O clima agradável do dia transformou-se em tensão diante dos homens da lei.
Vestiam mantos longos vermelhos que cobriam a armadura no torso. Vasculharam a área com expressões de autoridade, até que um deles arremessou um homem contra a mesa, jogando-o ao chão.
— O que é isso!? — exclamou uma senhora, assustada com o barulho.
O sujeito tentou se levantar, mas um dos militares pisou em suas costas, enquanto os outros o cercavam.
— Está tudo sob controle! Somos os Cobradores da região! — anunciou um deles, enquanto outro amarrava o homem pelas costas. — Este indivíduo é procurado por furtos de mercadorias e vendas ilegais a cambistas da área.
Yanaho assistia à cena à distância, sem compreender totalmente o que era dito. Ainda assim, a curiosidade o fez se aproximar.
Percebendo o medo das pessoas diante da conduta dos Senshi, o homem rendido se aproveitou:
— Me ajudem! Eu sou inocente! Esses militares só abusam do poder mais uma vez!
— Cale a boca! — gritou um deles, socando o homem. — Você não está em posição de falar.
O pelotão começou a erguer o prisioneiro. Yanaho, já próximo, viu o desespero no olhar do homem sendo levado. Foi então que tomou as dores da situação.
— Ei! Que que tá acontecendo? — perguntou.
O silêncio foi imediato, seguido por algumas risadas ao fundo.
— Por que tão levando esse cara assim? Ele tava aqui sem arrumar problema e…
— Melhor ficar na sua, moleque. Quem é você pra pedir explicações? É só uma criança — interrompeu um dos militares.
— Sou Yanaho Aka, uma pessoa como todos aqui! — respondeu, irritado. — E você, quem é pra ficar nos perturbando dia e noite atrás de impostos? Não vê que mal conseguimos nos sustentar?
— Olha só… se não é o sobrinho do Kenichi, filho do aproveitador barato — zombaram os Cobradores.
— Não falem de quem vocês não conhecem! — disse, encarando o chão.
— Você se orgulha de não ter sobrenome? Yanaho Aka! — riram, deixando o garoto sem palavras.
As provocações continuaram até que o primeiro a abordá-lo tomou a frente.
— Sou Yuri Goto, comandante deste pelotão. Estou cumprindo meu dever. Não atrapalhe e nada pior acontecerá com você.
Percebendo que seus protestos não surtiram efeito, Yanaho cerrou os punhos — até sentir uma mão segurar seu antebraço. Chika surgia atrás dele, impedindo-o de agir por impulso. Os dois se afastaram de volta ao comércio.
— O que você estava pensando? Achei que estivesse com pressa! — repreendeu.
— Desculpa… eu só me distraí de novo.
Enquanto isso, o comandante fez um gesto discreto para um de seus homens, que passou a seguir o garoto quando ele retornou ao balcão.
Sem perceber, uma sombra caiu sobre Yanaho. O cobrador era alto o suficiente para encobri-lo.
— Olá, senhora. Sou cobrador da região e preciso verificar essa mercadoria dada ao menino — disse, com um sorriso cínico.
— Qual o problema agora? Já não causou confusão suficiente? — reagiu Yanaho.
— Essa mercadoria não vai para o garoto. Ele me tratou com rebeldia, então será confiscada.
— Você tá louco!? Eu não fiz nada! — levantou a voz, chamando atenção ao redor.
— Yanaho, deixe o senhor cumprir o dever dele — disse Chika, saindo da barraca e segurando o garoto.
— Obrigado, moça. Tenha uma ótima tarde — respondeu o cobrador, sem sequer olhar para o menino.
— Eu não vou deixar.. — garoto se soltou dos braços da mercanti e avançou.
— Yanaho!
O grito desesperado chamou a atenção de todos, inclusive dos militares que retornavam. A sacola de suprimentos foi disputada enquanto Yanaho tentava arrancá-la à força.
— Solta isso, moleque! Quer ser preso nessa idade? — gritou o homem.
— Isso é meu! É injusto — respondeu Yanaho.
O cobrador perdeu a paciência. Puxou a sacola com força suficiente para fazer o garoto cair de cara no chão.
— Chega. Vai pra casa! — ordenou, enquanto seus companheiros se aproximavam rindo.
— Algum problema, Naoki? — perguntou o comandante.
— Nada. Só aquele “zé ninguém” de novo.
As palavras ecoaram na mente de Yanaho. Ele se levantou, limpando o rosto com arranhões, sacando sua espada. Num movimento rápido, correu por trás do cobrador e atacou.
O som oco da lâmina batendo contra o torso do Senshi ecoou pelo local, deixando todos em choque. O homem virou-se furioso — apenas para perceber que fora atingido por uma espada de madeira.
— Seu maldito! — gritou, enquanto os outros o imobilizavam no chão. — Levem ele junto com o delinquente!

Não demorou para que a falta do garoto levasse Yoroho a se mover. Após mais um dia de trabalho, visitou o mesmo lugar do comércio no qual seu filho foi detido, e seguiu caminho às pressas para os presídios a partir do relato de Chika.
Na direção da estrada que percorria para resgatar seu filho, uma figura bem conhecida assistia sua corrida. Escorado em uma árvore, o sujeito vestia roupas nobres junto a uma saia de guerra com acabamentos em vermelho.
Yoroho passava com tanta pressa que não percebeu a presença do homem com a espada na cintura, que ainda assim chamou sua atenção no instante em que ele passava correndo:
— Está com pressa?
— Kenichi, meu irmão — espantou-se, correndo em sua direção. — Yanaho, ele…
— Eu já sei — evitou os braços do camponês, seguindo em frente. — Vai ficar me devendo mais essa.
Os dois continuaram a trilha com o pai de Yanaho dessa vez seguindo os passos pacientes de seu irmão mais velho. Até chegarem em um prédio de pedra bruta, baixo e úmido, erguido à margem da vila.
O tio do garoto foi o único que adentrou até as celas, onde menino se encontrava em um ambiente fechado, escuro e frio.
A cela foi aberta, chamando a atenção do garoto. A luz invadiu o espaço, cegando-o por instantes, até que reconheceu seu familiar, que segurava duas chaves nas mãos.
— Você não tem jeito mesmo — retrucou Kenichi.
O olhar de decepção de seu tio o acompanhou durante todo o cumprimento dos procedimentos, depois pelos corredores e, finalmente, até a saída. Liberado, Yanaho mal foi capaz de encarar o rosto de seu pai, inclinando a cabeça assim que notou sua presença:
— Pai, eu…
— Yanaho! — disse, abraçando-o com força. — Me prometa… que nunca mais vai fazer isso.
— Eu… eu prometo — respondeu, percebendo o alívio em seus olhos.
Os dois foram encaminhados por Kenichi para além do presídio. O tio do garoto encarava a partida deles naquele entardecer.
Seguiam em direção à fazenda onde trabalhavam, local em que ficava sua casa. O silêncio de Yanaho durante toda a viagem acabou por incomodar seu pai, que indagou, bem abatido:
— Que cara é essa? Estamos indo para casa, fique tranquilo.
— Eu fui humilhado de todas as formas possíveis. Meu problema nem são os militares, eu só queria que as coisas fossem mais justas para mim. Ter que me desculpar com todos… tudo o que aconteceu poderia ter sido evitado… — de repente, notou seu pai desabando ao seu lado e o segurou a tempo. — Pai?! O que houve?!
— Não se preocupe… devo estar fraco por causa de todo o susto e, sabe, ainda não comi hoje. A gente precisa de um descanso.
Os dois se acomodaram em uma colina que oferecia uma bela vista do céu alaranjado.
“Se eu pelo menos pudesse ser melhor… se ao menos fosse reconhecido, se conseguisse fazer a justiça valer… você não teria que passar por isso”, refletiu, olhando para Yoroho, que suspirava fundo enquanto limpava o suor.
— Pai, me desculpe por tudo… eu tenho sido apenas um qualquer, inútil. Mal tenho conseguido ser alguma coisa para você, quem dirá para os outros. Então me perdoe por não ser o que minha mãe pretendia que eu fosse — disse, levantando-se do chão.
Percebendo a mudança em seu filho, o homem sorriu enquanto contemplava a vista e questionou:
— Meu filho, olhe bem para o horizonte… o que você vê?
— Está anoitecendo.
— Olhe com atenção.
— O pôr do sol?
— Exato! A energia iro nos pertence e envolve cada ser existente. Na verdade, acredito que ela esteja em qualquer coisa criada neste mundo. Tudo pode se conectar, independentemente de sua cor. Mas nenhuma cor se sobrepõe à outra. Assim são as estações e até mesmo as pessoas. Todas têm o seu momento, de acordo com um equilíbrio.
— Como assim?
— Simples. Durante a chuva os Ao são privilegiados. Com o sol escaldante, os Kiiro se aproveitam de sua potência. Já à noite, os Kuro têm vantagem. Porém, quando se aproxima a temporada do inverno, é o momento dos Shiro. E então há o pôr do sol… é o momento de nossa ascensão com a energia celeste! — apontou em direção à paisagem. — Em todos os casos há uma variável. Não é sempre que uma cor está sendo privilegiada ou prejudicada. O que há sempre são momentos.
O garoto se distraiu com a paisagem à sua frente, obrigando Yoroho a segurá-lo pelo ombro para concluir sua fala:
— Meu filho, dê tempo ao tempo. Você não nasceu para ser um qualquer. Veio para este mundo para obter sua ascensão. Como o pôr do sol, você será a evidência para as pessoas. Então, se quiser ser reconhecido, mude! Mude você, mude as pessoas, mude o mundo! Faça o bem… só assim poderá ditar sua própria justiça. E sempre… sempre acredite em si, como eu e sua mãe acreditamos!
Quando terminou de ouvir seu pai, Yanaho voltou a olhar para o sol que se punha. Então, estendeu a mão em direção ao horizonte e disse:
— Eu acredito! — finalizou, fechando o punho.