Passaram-se alguns dias após a conversa de Yanaho e seu tio Kenichi. Em resultado o que se viu foi um comprometimento nunca antes visto por Yoroho por parte de seu filho, que apoiava seu pai em todas as atividades na fazenda.
Do trato aos animais ao cultivo da terra, o jovem seguia os conselhos do seu tio. Yanaho sempre estava de pé antes do sol raiar, e trabalhava até o mesmo se despedir do céu, onde o garoto diariamente acompanhava a entardecer carmesim no qual seu pai lhe mostrou naquele dia.
Em mais um dia de trabalho, o dia já estavam em sua metade quando Yanaho afiava uma foice cega quando seu pai o abordou com um sorriso no rosto:
— Como está o meu pequeno ajudante?
— Pronto pra próxima — apontou a foice, com a ponta brilhante.
— É assim que se fala — colocou a mão em sua cabeça, — hoje é o dia dos impostos, quero que me ajude em um serviço fora para complementar a renda da fazenda.
— Depois de tanto trabalho, ainda falta dinheiro? — questionou Yanaho.
— Foi um pedido do Senhor Akemi — Yoroho tomou uma caixa de ferramentas, — venha comigo.
Passando pela saída, os dois acenaram ao dono da fazenda que permitia a ida de seus servos. Os dois passearam pelas ruas da Vila da Providência, atravessando o centro local, onde ficavam os comércios ao redor de uma praça.
Foi entre as muitas pessoas que Yanaho reconhecia um sujeito que vinha em sua direção. Sua barba bem feita e semblante de liderança não passaram despercebidos ao garoto. Desviando o olhar, o jovem dava um passo para o lado nas costas de seu pai com a intenção de se esconder, pensando:
“Acho que ele não me viu”.
— Algum problema, Yanaho? — Yoroho se virou para o filho.
O garoto aproveitou para praticamente virar-se de costas, mas nada ao redor escapava dos olhos daquele que estava agora frente a frente com o pai e filho:
— Ora, o que temos aqui. Se não é o moleque que apunhalou um dos meus homens pelas costas.
Tanto Yanaho quanto Yoroho se espantaram, suor desceu pelas tetas dos dois. O garoto se virou novamente para contemplar a face do comandante dos cobradores que o prenderam.
— E-eu sinto muito pelo o que meu filho fez — curvou a cabeça o pai.
— Erga a cabeça, estou sozinho hoje — suspirou fundo, — sou Yuri Goto, é um prazer.
— Eu sou Yoroho, pai de Yanah…
— Ele era o comandante que me prendeu — se colocou entre o pai e o homem, interrompendo — por favor, deixa meu pai fora disso.
Yuri estava prestes a estender a mão para cumprimentar o adulto, mas com o gesto do jovem não segurou sua risada amistosa antes de sugerir:
— Senhor Yoroho, será que poderia me emprestar o seu filho? Tenho coisas a resolver com ele ainda.
Yuri cruzava os braços, Yanaho se espantava com o pedido receoso. Yoroho se encontrava perplexo com o pedido, mas o sorriso confiante de Yuri o fez colocar as mãos nos ombros de seu filho. Com a expressão de satisfação acenou positivamente tanto ao garoto como ao comandante.
Apesar de perplexo por outra condução como a de semanas atrás, Yanaho evitou resistir mesmo não entendendo a atitude. Os dois caminhavam com o jovem permanecendo seguindo o sujeito em silêncio.
— Parece que você foi bem adestrado — reparou Yuri, — Naquele dia, por que estava com uma espada de madeira?
— Utilizava para treinos — balbuciou Yanaho.
— Quer ser militar, por acaso? Foi você quem fez?
— Meu pai me deu de aniversário. Ele disse para eu tomar cuidado.
— Devia ter escutado ele. Sabe que é errado um camponês como você ter qualquer arma sem nossa supervisão.
— Era pra ser apenas um brinquedo, mesmo assim eu peço desculpas por isso.
— Mas não é só um brinquedo, principalmente pelo o que você fez — engrossou a voz, Yuri, — por isso estou te conduzindo novamente.
— Mas o que? Eu já paguei por tudo o que aconteceu, é injusto…
— Pagou é? — o questionamento do Comandante fez Yanaho abaixar a cabeça — Foi o que pensei.
Yanaho percebia que o trajeto era semelhante ao de quando havia sido preso. Por outro lado, o responsável pela sua captura ignorava-o por todo o trajeto desde que o diálogo entre os dois se encerrou. O caminho acabou na base militar mais da vila, diferente dos presídios como anteriormente.
— Espera, é aqui onde os cobradores se juntam, não é? — questionou Yanaho.
— Sim, e é por isso que está aqui.
— Senhor Yuri, por favor eu não fiz…
— Calado. Não saia daqui até eu voltar! — interrompe a última súplica do garoto.
O garoto foi deixado nas portas da base vigiado por guardas. Em poucos minutos, Yuri retornava, frente a frente ao jovem apreensivo ele estendeu a mão em posse da espada de madeira de Yanaho:
— Tome, isso é seu.
— Mas… espera, eu não entendi — dizia Yanaho, verificando o objeto.
— Seu tio me contou da conversa que tiveram e sobre seu progresso. Eu falei sério, mesmo sendo de madeira, isso não é um brinquedo. Se você carrega algo assim, tomei liberdade de saber se o que fez foi por justiça mesmo, ou por pirraça.
— Senhor Yuri, eu nem sei como agradecer.
— Quando eu tinha sua idade, sempre quis ser um grande Senshi no futuro, pelo poder e regalias. Mas agora que sou, eu entendo que algo mais importante: Lutar pelo bem das pessoas. Isso é o que somos, e por isso me preocupei com o caminho que você iria tomar depois do que aconteceu.
— Não vai acontecer novamente, eu juro! — dizia Yanaho, guardando a espada.
— Não te entregaria isso se não soubesse — ajoelhou na altura do garoto, — as pessoas costumam se incomodar conosco nessa vila. Mas o que queremos é a segurança de todos. Então se quer seguir o caminho de seu tio, por mais injusta que seja a situação que te coloquem, garoto, erga essa cabeça e lute pelo bem das pessoas ao redor.
— Sim, sim senhor — balançava a cabeça positivamente.
Os dois se cumprimentavam com um aperto de mão, quando os guardas de trás deles batiam continência para chegada de uma das autoridades da região:
— Espero não atrapalhar os senhores.
— Tio Kenichi? — se virou Yanaho.
— Eu que deveria estar surpreso — cruzou os braços, — esse é meu lugar de trabalho. Mas e você o que faz aqui?
— Foi meu pedido — levantou Yuri, — tinha algo a devolver para o garoto.
— Não faz mal, me poupou o trabalho de ir até a fazenda — colocou a mão sob o ombro de Yanaho. — Eu tenho algo a dizer para meu sobrinho.
Após a conversa, os dois seguiram para dentro da fortaleza. Subindo as escadas entraram na de Kenichi, no qual antes de sentar em sua mesa se dirigiu até a janela dando uma boa olhada.
— Algum problema? — perguntou o menino.
— Não, meu sobrinho — fechou a janela, — quero terminar nossos assuntos. Fiquei sabendo que está realmente progredindo — sentou em sua mesa.
— É-é acho que sim — curvou a cabeça.
— Até se curva diante mim agora? — Kenichi riu — Quando algo está em jogo as coisas são diferentes né?
— Estou me esforçando como um cidadão como você aconselhou — estendeu o punho.
— Muito bem, então acho que está pronto — tirava um mapa de uma gaveta, — para saber sobre a Cidadela Restrita.
Os olhos de Yanaho saltaram, o mapa tinha uma cor reluzente dourada, tendo linhas de rotas traçadas. Passando alguns minutos dentro da sala, o garoto saiu com o pergaminho e uma bolsa dada por seu tio que o acompanhava.
Kenichi o encaminhou até a saída, onde ele correu em direção a sua fazenda com pressa naquela tarde. O tio do garoto observava a partida, quando foi abordado por Yuri percebendo:
— Ele parece animado.
— É bom ver que aquilo que aconteceu foi só um susto — suspirou Kenichi. — Devolveu a espada de madeira a ele, né?
— Eu confio no garoto, ele me lembra meu filho.
— Estou dando um voto de confiança nele com a informação que lhe forneci. Talvez seja a oportunidade que ele tanto queria se meu plano der certo.

O sol já se aproximava do horizonte quando Yanaho retornou a fazenda. Seu pai notou a inquietude do menino espantado:
— Por que a pressa? Conseguiu a espada de volta, que bom!
— Eu falei com meu tio, pai, ele me disse algo importante. Preciso ir — disse Yanaho, abrindo o mapa uma última vez.
— Ir para onde? Espera!
— Depois eu explico, prometo que volto antes do fim do dia — saiu de casa carregando o mesmo saco com utensílios.
Yanaho seguiu para os limites de sua vila. Já isolado de casas e comércios, notava na trilha à frente somente vegetação. Observando o mapa da região dado por seu tio e começou a recordar das informações fornecidas:
— O Reino Shiro era um reino próspero, foram como espelho para o Reino Aka ser o que é hoje. Eles acabaram sendo extintos por algo que ninguém consegue explicar até hoje, alguns acreditam se tratar de uma catástrofe natural ou algo do tipo. O território abandonado ficou sob nossa vigilância, assim como a Cidadela Restrita.
— Não há perigo nessas áreas?
— Perigo? Eu não sei dizer, são áreas inabitadas, apenas conservadas por nosso povo. É recheada por energia Shiro, e é disso que você pode se aproveitar para ter algo de diferente talvez para ser um Senshi. Você seguirá para o sul de acordo com o mapa, assim que chegar nos cercos. É só atravessar e procurar pelas construções antigas.
“Entendo, vou estar invadindo a fronteira dos Aka com os Shiro, e vou seguir até achar algo além de mata”, pensava olhando para uma bússola que indicava o sul.
Atravessando os cercos, Yanaho penetrava cada vez mais na região. O céu já estava alaranjado comum naquela época do ano. O camponês atingiu uma espécie de santuário cercado por ruínas. Empolgado, ele contemplava as estruturas que restaram de pé:
“Eu cheguei… essa é a cidadela restrita!”, refletiu com um sorriso, olhando ao redor, antes de seguir para dentro do mausoléu.
Entrando percebeu como o salão era vasto, ocupado por grandes esculturas. Chegando mais perto das figuras, notou um barulho vindo dos andaimes no teto, mas quando olhou não encontrou nada. Yanaho assustado, caminhou para a sala seguinte com os olhos fixos nas estátuas da sala anterior, o que gerou um tropeço que o fez deslizar por uma rampa até o chão.
Ele subia os olhos para ver o que havia na sala e dessa vez não se tratava de um mostruário de estátuas. Aquela ala do santuário abandonado tinha um palco ao centro, erguido alguns metros acima do piso.
Na medida que Yanaho subia ao palco, ele era observado por alguém. O vigia seguia pelos andaimes e, assim que o garoto chegou ao topo, ele saltou sobre suas costas dizendo:
— Atrás de você.
Yanaho como em um reflexo, rolou para o lado, puxando sua espada de madeira. Sua arma durou pouco tempo apontada para a ameaça. Num movimento sutil como uma brisa e tão rápido quanto um piscar de olhos, o vigia partiu a madeira em dois.
— Ei, isso é meu! Espera! Quem é… — gritou se deparando com a figura encapuzada.
Seu oponente pulou na frente, colocando uma das mãos na boca dele, o rendeu segurando uma os braços de Yanaho por trás.
— Silêncio! Não quero machucá-lo, mas precisa me deixar ajudá-lo.
O jovem camponês relutou ao aviso, mas cedeu uma vez que percebeu o do desconhecido se afastar, deixando-o se levantar. Seu algoz tinha uma espada de duas pontas, coberto por uma lona desgastada enorme que escondia até mesmo seus olhos. De pé frente a frente os dois perguntaram em uníssono:
— Por que está aqui?
Os dois ficaram se encarando por alguns segundos, até que o estranho insistiu:
— Estou esperando que responda.
— Foi você quem me atacou — Yanaho rodeava o outro sujeito, que tentava se manter frente a frente com o garoto, — Está tentando esconder algo de mim?
— O meu nome é Suzaki, mas isso não importa. Sou apenas um viajante e acabei me perdendo por essa região. Isso é o máximo que vai tirar de mim, agora é sua vez.
— Eu sou filho de um importante membro da realeza Aka. Um guerreiro bem importante também. É melhor que não tenhamos mais problemas. Vim para a região verificar ameaças à segurança do território — disse Yanaho.
— Então era você que estava me observando?
— O que?
— Apesar de ser um viajante, reconheço um importante guerreiro quando encontro um — deu um passo adiante.
— Espera, melhor ficar bem aí se não…
— Se não? — O encapuzado em dois passos, aplicou uma rasteira que derrubou Yanaho antes de apontar sua arma — está mentindo pra mim.
— Ei! Com quem acha que está se metendo!?
— Quem você trouxe para me pegar?
— Eu estou sozinho!
— Tem alguém vindo de sua direção, pare de mentir e responda. Quem é você de verdade? — deixou sua lâmina se aproximar mais do pescoço do camponês.
— E-Eu sou Yanaho Aka!
O grito ecoou pelos corredores do mausoléu, quando um barulho pode vir dos do teto que já não estava em condições sendo partido por um sujeito que adentrava. O visitante mais alto e rechonchudo, juntava suas mãos, liberando um sopro que afastou o encapuzado para a outra ponta do palco.
O salvador de Yanaho tinha sua aura reluzindo em branco, se colocando a frente do garoto, revelava sua veste da mesma cor que se estendia até o chão.
— Isso é… — o garoto tentava completar a frase, contemplando — a capa branca?!
Suzaki se recompunha retirando seu capuz. Ao invocar sua aura azul, abrindo bem os olhos, processando a possibilidade de ter que enfrentar um Shiro que estava bem na sua frente.
— E-Ele é um azul? — percebeu Yanaho, assustado.
— Fique atrás de mim, rapaz. Vai ficar tudo bem. Nada de mal vai acontecer aqui — disse o salvador.