# 2000 D.ES
Dois mil anos após a Era Sombria, os homens passaram a conviver com o divino ao seu lado sem jamais compreendê-lo por completo. Ainda assim, usavam esse poder para o mal — para alimentar guerras, ambições e coroas manchadas de sangue.
Foi nesse mundo corrompido que surgiu um rei com o poder dos dragões, cuja ambição assustava até os mortos: Arthur Black, o Imperador dos Negros, soberano absoluto de Talda.
Agora, seus olhos voltavam-se para Maryd, o continente vizinho.
Um a um, os reis caíram.
Cidades arderam.
Juramentos foram quebrados.
A única nação que ainda permanecia de pé era Florth.
Mas, em um mundo apodrecido, o mal maior sempre encontra seu caminho.
# O Pântano da Morte fervilhava.
Espadas se chocavam entre árvores antigas, cujas raízes emergiam da lama como ossos expostos. A água escura estava pesada de sangue, e o cheiro de cadáveres misturado a fezes tornava o ar quase irrespirável.
Soldados afundavam a cada passo, suas armaduras pesadas sendo engolidas pelo pântano como se a própria terra quisesse devorá-los.
No centro do caos, Torki Slove, irmão do rei, lutava como um homem que se recusava a cair.
Velho em idade, mas não em espírito, ainda era capaz de enfrentar dez hongs sozinho. Seus cabelos grisalhos estavam tingidos de vermelho, e sua pele branca e enrugada denunciava o cansaço acumulado por décadas de guerra.
Mesmo assim, sua armadura branca refletia a pouca luz que atravessava a copa das árvores, um contraste cruel com a escuridão do pântano.
— Edi! — gritou Torki. — Não vamos conseguir vencer essa batalha!
Edi Slove, jovem, de cabelos loiros e olhos verdes, mal conseguia se manter em pé. Seu corpo magro tremia, e o cansaço estava escancarado em seu rosto. Cada respiração parecia queimar seus pulmões.
— Se perdermos aqui… — respondeu, ofegante — perdemos a guerra. A capital está muito próxima.
Uma sombra se moveu na lama.
Uma lança veio direto em sua direção, apontada para seu olho.
O impacto nunca aconteceu.
Num lampejo, Trinity surgiu ao lado de Edi. Seu machado destruiu a lança inimiga, e no mesmo movimento ele girou o corpo, golpeando de baixo para cima o queixo do hong. O som seco do osso se partindo ecoou quando a cabeça do inimigo se abriu ao meio.
Trinity arrancou o elmo branco e o jogou na lama. Sua pele parda brilhava de suor, os cabelos negros grudados à testa, e seus olhos castanhos ardiam de exaustão. Robusto, mas ainda magro, respirava pesado.
— Essa armadura tá me cozinhando vivo — resmungou.
— Não há tempo pra reclamar — respondeu Torki. — Eles nos cercaram.
Edi e Trinity olharam ao redor.
Hongs surgiam por todos os lados, suas armaduras de aço negro absorvendo a pouca luz, fazendo-os parecer sombras vivas. O cerco se fechava lentamente.
— Torki… qual é o plano? — perguntou Edi, os olhos arregalados.
O velho general apertou o cabo de seu machado de prata.
Sem dizer uma palavra, ergueu a arma acima da cabeça e golpeou o chão com toda a força que lhe restava.
O impacto fez a terra tremer.
O solo se rompeu, formando crateras, e a água do pântano foi sugada para baixo com violência. Hongs, lama, sangue — tudo foi arremessado pelos ares.
Edi e Trinity rolaram pelo chão, mas reagiram rápido.
Edi usava o próprio ambiente como arma, atirando lama nos elmos dos inimigos, cegando-os antes de atacar. Trinity se movia com agilidade absurda, desviando e golpeando sempre no pescoço, onde a armadura falhava.
Torki avançava como um julgamento antigo.
Cada golpe de seu machado de prata despedaçava corpos, deixando apenas carcaças retorcidas.
Quando o último inimigo caiu, o pântano ficou em silêncio.
Por um breve momento, eles apenas respiraram.
Tentavam recuperar o fôlego.
Então, uma voz ecoou pelo pântano, carregada de desprezo:
— Então era esse o valor que o rei Slove disse que nos mostraria? Patético.
Todos se viraram.
Sobre uma grande pedra coberta de musgo estava um homem vestindo armadura negra, manchada de lama e sangue seco. Em sua mão direita, ele segurava algo pelos cabelos. Aquele era Galios Black.
Uma cabeça coroada.
O rosto estava inchado, pálido, os olhos ainda abertos, congelados no instante da morte. A barba curta misturava-se ao sangue já escurecido, e a coroa dourada, torta sobre o crânio, parecia pesada demais para aquele resto humano.
Era Tolty Slove, o rei de Florth.
Galios soltou a cabeça.
Ela caiu na lama com um som surdo e rolou lentamente pelo campo de batalha, desviando de raízes e corpos, até parar aos pés de Torki.
O velho general não se moveu.
Seu rosto permaneceu fechado. Não houve grito, nem lágrimas — apenas um olhar duro, vazio de qualquer luto visível.
— Essa é a reação ao ver a cabeça de um irmão? — provocou Galios.
Torki permaneceu em silêncio, respirando pesado, os olhos fixos no inimigo.
Galios então virou-se para Edi.
— Olha pra você… acabou de perder um pai e não demonstra nada.
Edi ergueu o olhar devagar.
— Um pai? — disse, a voz firme apesar do cansaço. — Ele me disse uma vez: “você nunca será meu filho”. Não tenho motivos pra chorar por alguém que não é digno das minhas lágrimas.
Por um instante, o pântano pareceu calar.
Então Galios riu.
Uma gargalhada sincera, rouca, quebrada pela exaustão. Ele quase caiu, apoiando-se na espada.
— Hahaha… interessante, príncipe.
Galios puxou o elmo negro e o jogou de lado, tentando puxar mais ar. Seu rosto surgiu à luz fraca: oval, queixo pontudo, pele pálida coberta de suor. Os olhos azuis brilhavam enquanto ele passava a mão pelos cabelos negros, ainda jovem, ainda belo ainda mortal.
— Deixe meu sobrinho ir, ele não precisa morrer aqui!— Falou Torki.
Torki não respondeu, apenas ajustou a pegada no machado.
— A glória exige sacrifícios — murmurou Galios. — Não me peça para poupar aquilo que você não consegue proteger.
— Que seja.— rosnou Torki.
Galios sorriu.
— Você tenta parecer durão, mas mal consegue se manter em pé.
— E você também — rebateu Torki com um riso curto. — Todo esse discurso é só porque tá cansado demais pra lutar.
Eles se encararam.
— Então façamos assim — disse Galios. — Quem recuperar o fôlego primeiro vence essa batalha.
Torki fechou os olhos por um instante. Sabia que estava velho. Galios se recuperaria antes.
Mas não estava sozinho.
Galios, por sua vez, analisou Edi e Trinity. Decidiu atacar o elo mais fraco.
Edi.
Num instante, suas forças retornaram e ele avançou.
Edi se abaixou por reflexo. Torki tentou ajudar, mas seus golpes erraram. Galios girou e chutou o peito de Torki, lançando-o para trás.
— TRINITY! — gritou Torki. — CORRA ATÉ A CIDADE! MANDE A FAMÍLIA REAL FUGIR PARA O NAVIO!
— O senhor tem certeza?! — gritou Trinity.
— CORRA, SEU IDIOTA! VOCÊ É O MAIS RÁPIDO!
Trinity hesitou, olhou para Edi.
Edi assentiu.
Ele correu pela lama ensanguentada, arrancando partes da armadura para ganhar velocidade. Cada peça afundava no pântano, levando consigo o brasão da ave dourada de asas abertas, símbolo da Casa Slove.
Enquanto isso, Edi pegou um capacete no chão e o usou como escudo, bloqueando a espada de Galios. No mesmo instante, começou a golpear sua cabeça com o metal.
O capacete se deformou, manchado de sangue.
Galios segurou o braço de Edi e deu-lhe uma cabeçada brutal. O som do nariz quebrando ecoou. Com força descomunal, ele arremessou Edi contra Torki.
Então parou.
Respirou.
O cansaço o alcançou.
Um estalo seco cortou o ar — como uma árvore se partindo.
Galios virou-se a tempo de ver uma árvore inteira despencar sobre ele.
— Você está mal, Torki — disse uma voz rouca.
Era Augusto.
Um homem velho, de pele negra, sem cabelos. Seu olho direito era apenas um buraco sangrento, mas o esquerdo, castanho, permanecia atento.
— Nunca pensei que ficaria feliz em te ver — murmurou Edi.
— Você é o único feliz aqui, príncipe — respondeu Augusto.
— Onde está meu filho? — perguntou ele.
— Mandei ele correr até a cidade — disse Torki. — Para evacuar a família real.
— E Art… e Vick? — perguntou Edi.
Augusto o encarou.
— Meus filhos morreram pela sua guerra, príncipe. E no fim… foi em vão.
Ele conteve as lágrimas. Guardou apenas ódio.
— Que bonito… — ironizou Galios, preso sob a árvore. — Darei terras a quem fez isso.
— Ignore ele — disse Edi.
Augusto olhou para o horizonte.
— Há um exército de Hongs vindo. Liderados pela Dragoa de Sangue.
O medo atravessou todos.
— Temos que sair daqui — gritou Torki.
Eles correram em direção a Varys, a capital de Florth.
Augusto lançou um último olhar para Galios antes de partir.
Sozinho, preso, Galios tentou levantar a árvore. Falhou.
— Mary… Huan… vocês estão aí? — gritou.
A escuridão o tomou.
Antes de desmaiar, ouviu o som de uma grande marcha.