#Ano 0 durante a Era Sombria
Em meio à grande batalha nas Terras Ardentes, quando o céu ardia em vermelho e o chão tremia sob o peso dos exércitos, ele surgiu.
Um ser coberto por ouro profano, vestindo uma máscara feita de crânios humanos, da qual apenas o vazio observava o mundo. Sobre sua cabeça repousava uma coroa cravejada de rubis, ainda manchada de sangue seco. Sua pele, mal definida, parecia em constante decomposição — vermes rastejavam por sua carne queimada e ferida, enquanto ossos cresciam para fora do corpo, projetando-se como lanças vivas. Suas unhas eram longas, curvas, afiadas como adagas forjadas no inferno.
Blasfemo caminhava.
À sua frente estava um homem que não recuou.
O rei Vlade Marvet, envolto em um manto negro como a noite sem estrelas, trazia sobre a cabeça uma coroa escura, símbolo de um reino forjado na guerra. Seus cabelos negros e olhos castanhos impunham respeito absoluto. Com a espada em mãos, ele encarou a criatura sem desviar o olhar.
— Quem diria que a própria blasfêmia pisaria em um campo de batalha — disse Vlade, erguendo a lâmina contra o deus da carnificina.
Antes que o silêncio fosse quebrado, outra presença se impôs.
O rei Abdar Lahab surgiu como uma chama viva. De pele morena, cabelos ardentes como o fogo do deserto e olhar claro e firme, ele vestia apenas uma túnica de lã simples, como se o luxo fosse indigno diante daquela afronta.
— Você vem à minha casa, Blasfemo, ataca meu povo… — sua voz ecoou entre as chamas — e acredita que sairá impune?
No mesmo instante, os dois reis avançaram.
Espadas erguidas, corações decididos, ambos correram contra Blasfemo com a intenção clara de matá-lo — não como deuses, mas como homens desafiando o inevitável.
Em outro ponto do campo de batalha, os temíveis Barzel Chazak, os gigantes de ferro, brandiam suas espadas colossais, partindo demônios ao meio como se fossem feitos de barro. Cada golpe fazia a terra estremecer.
Então… tudo parou.
O campo silenciou quando Blasfemo apareceu diante deles.
Em suas mãos, pendiam duas cabeças ensanguentadas.
O rei Lahab. O rei Marvet.
Quando os crânios tocaram o chão, rolando entre cinzas e sangue, até os Barzel Chazak recuaram, tomados por um medo que jamais haviam conhecido.
Blasfemo ergueu a mão ao alto.
E a fechou.
No mesmo instante, a terra se partiu ao meio. Fendas gigantescas se abriram, engolindo soldados, máquinas de guerra e exércitos inteiros. Gritos ecoaram das profundezas enquanto os corpos despencavam no abismo sem fim.
Da escuridão abaixo, algo respondeu.
Gritos inumanos. Rugidos antigos.
Seres emergiram das profundezas, escalando as paredes do mundo partido, reunindo-se ao redor daquele que todos passaram a temer.
O Senhor da Carnificina havia reclamado o campo de batalha.
E o mundo, mais uma vez, sangrava em seu nome.
#Tempos Atuais
A figura misteriosa concluiu a história com a voz baixa, quase cansada.
— Estava tudo indo bem… — disse ele. — As Correntes de Leviatã finalmente haviam ficado para trás. Mas estávamos à deriva no mar, sem rumo.
Ele respirou fundo antes de continuar.
— Foi então que Loran nos contou sobre sua mãe. Uma mulher vinda do mar… que se casou com um nobre em Maryd. Ela dizia ter vindo de uma terra amaldiçoada. Antes de morrer, entregou a ele um brasão. Disse que bastava mostrá-lo a alguém daquele lugar… e seríamos ajudados.
Aleksand permanecia imóvel, os olhos vermelhos fixos no narrador.
— Torki acreditou — continuou a figura. — E veio até aqui. E foi assim que… nós nos conhecemos.
Quando o relato chegou ao fim, o homem soltou um suspiro pesado. O silêncio tomou a sala por alguns instantes, quebrado apenas pelo estalar da vela.
Aleksand inclinou levemente a cabeça.
— Esse brasão… você o tem consigo?
Sem dizer nada, a figura levou a mão ao manto e retirou um objeto antigo. Ao entregá-lo, a chama da vela revelou uma árvore verde diante de um sol dourado.
Por um instante, Aleksand perdeu a compostura.
Seus olhos tremeram.
Aquele era o brasão da Casa de Verdevalia — um dos reinos mais ricos em agricultura de toda Aldernys.
— Acho que você sabe o que isso significa — disse Aleksand, devolvendo o brasão lentamente.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, refletindo, antes de erguer novamente o olhar.
— Continue a história. — Sua voz endureceu. — Quero saber… como você os enganou.
#Nove Dias Antes
Os navios se aproximavam cada vez mais da terra firme.
Torki observava o horizonte em silêncio, lembrando-se das palavras de Loran naquela noite.
"As histórias que minha mãe me contava ainda me causam medo."
Para um homem como Loran — alguém que já enfrentara a Serpente do Mar — admitir medo significava apenas uma coisa: talvez estivessem navegando direto para os portões do inferno.
Meses haviam se passado desde que rumaram para o norte. Agora, temiam morrer em terras desconhecidas.
— Estamos chegando — disse Loran, aproximando-se.
Torki assentiu lentamente.
— Viemos até aqui sem escolha. Espero que sobrevivamos.
Loran concordou em silêncio, mas logo desviou o olhar para outro navio. Lá estava Augusto, imóvel, encarando o mar.
— Pobre Augusto… — murmurou Loran. — Nenhum homem deveria sobreviver aos próprios filhos.
— Taly e Joran também devem estar devastados pela perda de Trynity — respondeu Torki. — Eu daria tudo para estar com minha filha agora.
Foi então que Loran franziu o cenho.
Algo se movia na terra à frente.
Uma sensação estranha percorreu sua espinha.
— Você está vendo aquilo? — perguntou.
Torki olhou para a costa.
— Não há nada lá.
Quando Loran tentou olhar novamente… o que quer que fosse já havia desaparecido.
Ele suspirou, afastando o pensamento, e começou a se preparar para a atracação.
Ao longe, Aleksand observava os navios se aproximarem.
Ao seu redor, guerreiros vestiam peles de animais sobre armaduras escuras. Em seus peitos, um brasão inconfundível: um fundo negro, uma caveira prateada e, da boca dela, uma flor roxa em desabrochar.
O símbolo da morte.
O símbolo dos Marvet.
Aleksand sorriu discretamente.
Os navios haviam atracado, e por cinco dias o grupo montou acampamento próximo aos botes, ainda receosos de se afastar demais da costa. A terra era estranha, silenciosa demais, como se observasse cada movimento deles.
Enquanto alguns permaneciam no acampamento, um pequeno grupo avançava pela floresta.
As árvores eram altas e densas, seus galhos se entrelaçando de tal forma que quase nenhum raio de sol conseguia atravessar a copa. A luz que passava era fraca, esverdeada, dando à floresta um aspecto antigo e sufocante.
À frente do grupo caminhava Joran.
Era jovem, de cabelos verdes claros que contrastavam com a escuridão do ambiente. Seus olhos azuis, firmes e belos, permaneciam atentos a cada detalhe. A pele parda destacava-se sob a armadura leve, feita para movimento rápido, e em sua mão descansava uma espada de aço tão puro que refletia até mesmo o pouco de luz que escapava entre as folhas.
Joran franziu o cenho.
— Como nunca descobrimos esse lugar…? — murmurou para si mesmo.
O grupo continuou avançando até que, subitamente, todos pararam.
À frente deles havia algo que os fez duvidar dos próprios olhos.
As árvores daquela região eram enormes, muito maiores do que quaisquer outras que já tinham visto. Seus troncos eram negros e roxos, retorcidos, exalando um forte aroma de vinho, doce e enjoativo ao mesmo tempo. Não cresciam de forma natural — estavam alinhadas, lado a lado, formando algo semelhante a muros vivos.
Não era apenas uma floresta.
Era uma fronteira.
— Assustador… — murmurou um dos homens.
Joran respirou fundo, tentando manter a calma.
— É… — concordou. — E eu não faço a mínima ideia do que seja isso.
Um silêncio pesado se instalou entre eles.
No acampamento, à beira da pequena praia, Taly Slove permanecia imóvel, encarando o mar.
Seus cabelos castanhos claros balançavam suavemente com a brisa. Os olhos verdes, belos e cansados, refletiam a luz do sol poente. Sua pele pálida lembrava neve sob a luz dourada. Vestia uma calça simples, adequada para a vida improvisada do acampamento.
O mar estava calmo.
As areias claras se estendiam até onde a vista alcançava, refletindo o azul intenso da água. No ar, o mesmo aroma de vinho vindo da floresta misturava-se ao cheiro salgado do oceano.
— Olhando o mar?
A voz calma a fez se virar.
Era Edi.
Ele se aproximava lentamente.
— Resolveu sair da sua tenda? — perguntou Taly.
— Estar sozinho só me lembra da minha falha.
Taly cruzou os braços.
— Você falhou, Edi. Confiou em quem não devia… e no fim, Trinity se foi por causa desse erro.
Edi não desviou o olhar.
— Você pode me culpar. Está tudo bem. — Sua voz era baixa. — Mas acho melhor você conversar com Augusto. Ele está… destruído.
Taly soltou uma risada curta, sem humor.
— Augusto te odeia.
— Não queria que ele gostasse de mim.
Ela suspirou.
— Mesmo assim… às vezes é melhor ficar sozinho para lidar com isso.
Houve um breve silêncio.
— E como você está, Taly? — perguntou Edi.
Ele se aproximou e ficou ao lado dela, observando o mar.
— Não queria estar sozinha — respondeu ela, com sinceridade. — Fomos enganados… todos nós. Talvez nunca devêssemos ter atacado Talda.
Edi permaneceu em silêncio.
Aos poucos, percebeu algo estranho.
O céu estava escurecendo rápido demais.
— Que estranho… — murmurou. — Já está anoitecendo.
Antes que pudesse concluir o pensamento, sussurros surgiram da floresta.
Vários.
De todos os lados.
Edi sentiu a mão tremer.
— Edi… — Taly engoliu em seco. — Você está ouvindo isso?
Sem responder, Edi levou a mão à espada e a sacou lentamente. A noite avançava como uma sombra viva entre as árvores.
Então, uma voz ecoou.
Rouca.
Distante.
Próxima.
Como um sussurro… e um grito ao mesmo tempo.
— Edi Slove…
— Edi Slove…
— Edi Slove…
O nome se repetia.
Logo, os sussurros se transformaram em um coro.
Vozes infantis.
Crianças cantando uma canção de ninar distorcida, doce e perturbadora, ecoando da escuridão da floresta.
Edi sentiu um frio percorrer sua espinha.
— Que merda é essa…? — murmurou.
A floresta respondeu com silêncio.
E algo, nas sombras, parecia sorrir.
Quando a escuridão se completou, algo se formou à frente deles.
—Edi, corre! —gritou Taly, a voz carregada de urgência