#No acampamento
Loran permanecia sentado dentro da tenda, alheio ao caos que se formava do lado de fora.
Em suas mãos, repousava um livro antigo. Na capa, escrito em letras gastas pelo tempo:
“Diário de Jane”
O diário de sua mãe.
Loran passou os dedos pela capa antes de abri-lo. Folheou página após página, até parar em uma ilustração perturbadora: um homem amarrado a uma estaca, sob uma figueira retorcida. Ao redor dele, sombras dançavam como se estivessem vivas, contorcidas, observando sua dor.
Um grito ecoou do lado de fora.
Loran se levantou num sobressalto, largando o diário, e correu para fora da tenda.
As pessoas se afastavam da mata, confusas, aterrorizadas.
— O que está acontecendo?! — gritou, correndo em direção a elas.
— Tem alguma coisa no mar… — respondeu alguém, com a voz trêmula.
Loran mal teve tempo de se virar.
A criatura surgiu diante dele.
Tinha os mesmos traços da aberração anterior, mas era diferente: mais baixa, mais magra. A carne apodrecida ainda conservava vestígios humanos no rosto. Vermes se moviam sob a pele, e um capuz encobria parte de seu corpo deformado.
Loran congelou.
As palavras de sua mãe ecoaram em sua mente:
"Nada que se mexe naquele lugar é bom."
Num impulso, ele avançou, sacando a espada e golpeando em direção ao peito da criatura.
Ela ergueu a mão.
As unhas imensas tocaram o ar — e o chão se rachou.
Algo grunhiu sob a terra.
Loran recuou instintivamente. Do pequeno abismo que se abriu, uma mão pálida, de unhas negras, começou a escalar para fora. Logo, uma cabeça surgiu: um ser humanoide, completamente branco, sem pelos, andando de forma animal.
Um Sangue-Suga.
Então outro.
E mais um.
Os três avançaram contra Loran.
Ele se esquivava por instinto, sentindo o vento das unhas passando a poucos centímetros de seu rosto. Num movimento desesperado, conseguiu atravessar o peito de um deles com a espada.
O sangue jorrou — vermelho, quente, humano.
Os outros dois se jogaram sobre o companheiro ferido.
Começaram a despedaçá-lo.
Arrancavam a carne.
Bebiam o sangue.
Loran sentiu o estômago revirar. O horror paralisou seu corpo por um segundo — tempo suficiente para agir.
Com a adaga presa ao antebraço, atravessou o crânio de um dos Sangue-Suga distraídos.
Antes que pudesse reagir ao último, algo se moveu atrás dele.
Quando se virou, viu apenas as unhas da criatura descendo.
Um impacto seco.
Tudo escureceu.
A última coisa que Loran viu foi o sorriso aberto no rosto do demônio.
— Veja só… — disse a criatura, com desdém. — Então esse era o melhor de vocês?
Diante do povo de Florth, ela cravou as unhas no próprio rosto.
Arrancou a pele ainda humana.
Vermes emergiram, subindo pela carne exposta. A boca se alargou de forma impossível. Os dentes caíram, substituídos por presas animalescas.
Alguns tentaram fugir.
O último Sangue-Suga saltou sobre eles, matando-os um a um.
O desespero tomou o lugar.
Então, um homem avançou.
Cabeça raspada. Pele branca. Um dos olhos cego — e ainda assim, parecia enxergar melhor do que todos ali.
Seu manto estava manchado de sangue.
Ele retirou de dentro do tecido uma pequena estátua de mármore: uma mulher segurando uma harpa.
A Senhora das Bênçãos.
— Ó Senhora que abençoa… — começou, com a voz trêmula. — Ouça-me… Senhora que protege…
Outros começaram a orar junto.
— Cuida de mim, pois estou a ser—
Foram interrompidos.
A voz rouca da criatura ecoou.
— Eu estou a ser atormentado pela peste, fome, guerra e demônios… — disse ela, em tom solene. — Venha ao meu clamor e me abençoe.
A estátua começou a sangrar pelos olhos.
— Acho que eu também sou um devoto — disse a criatura, sorrindo.
O Cardia deixou a estátua cair. Suas mãos tremiam.
— Ouçam todos — declarou o demônio. — Eu agora sou o seu Deus.
O medo se espalhou como fogo.
— Ouçam, povo de Florth. Adorem o seu Deus.
— Se não orarem a mim… — continuou, aproximando-se — matarei um por um.
Entre gritos e choro, ordenou:
— Cardia. Faça uma oração. Uma oração própria a mim. Ao deus Gdor.
O homem engoliu em seco.
— Gdor… deus da—
— Deus da glória — corrigiu a criatura.
— Gdor, deus da glória… ouça a minha oração e me atenda…
O cheiro da criatura era insuportável.
Então—
Das sombras da floresta, uma lâmina começou a arder.
Uma espada em chamas surgiu.
O Sangue-Suga gritou.
Em menos de um segundo, tudo acabou.
A cabeça do demônio rolou pelo chão.
O corpo caiu de joelhos.
Uma mão atravessou seu peito e arrancou algo de dentro: um rubi negro, pulsante.
A Relíquia do Mal.
A fonte de vida dos demônios.
A criatura viu quem a havia decapitado.
Aleksand.
Ele se abaixou, exibindo o rubi ao demônio agonizante, que mordia o ar inutilmente.
Aleksand fechou a mão.
O rubi se desfez em pó.
A carne da criatura começou a derreter, escorrendo até restarem apenas ossos.
O silêncio caiu sobre Florth.
E a noite, mais uma vez, reclamou seu tributo.
Aleksand começou a aplaudir lentamente.
O som seco das palmas ecoou pela sala silenciosa, quebrando o peso da história recém-contada.
— Você é um grande mentiroso — disse ele, por fim, interrompendo o relato.
A figura à sua frente permaneceu imóvel por um instante. Então, deu alguns passos à frente, aproximando-se da vela. A chama tremulou, projetando sombras distorcidas pelas paredes.
A luz revelou seu rosto.
Era Joran.
— O que está dizendo? — perguntou ele, com a voz calma demais para quem acabara de ser acusado.
Aleksand manteve o olhar fixo nele.
— Estamos sozinhos — respondeu, em tom baixo. — Não há necessidade de continuar com mentiras. Pode falar a verdade.
Por um breve momento, o silêncio dominou o ambiente.
Então, Joran sorriu.
Não foi um sorriso de humor. Nem de alívio.
Era frio. Controlado. Perigoso.
— Eu disse a verdade — afirmou. — Ele já estava morto quando eu o encontrei.
Aleksand fechou os olhos por um instante e soltou um suspiro pesado, como alguém cansado de ouvir versões incompletas da mesma história.
— Continue — ordenou.
Joran inclinou levemente a cabeça, em um gesto quase respeitoso.
— Se é isso que você quer… — disse ele, erguendo o olhar lentamente — então vou lhe contar como eu matei o príncipe Slove.
O fogo da vela estalou.
E, por um instante, pareceu diminuir.
