#Durante a Era Sombria
As ruínas do Castelo Vermelho erguiam-se como uma ferida aberta no mundo.
Suas muralhas, outrora majestosas, estavam agora pintadas de sangue seco e trevas vivas. O chão apodrecido cedia sob ossos quebrados e crânios partidos, enterrados na lama negra como sementes de morte. O céu acima não era mais céu, uma sombra espessa o cobria por completo, não apenas sobre aquele reino, mas sobre todo o mundo.
Não havia luz. Não havia esperança.
Dentro do castelo, as paredes eram decoradas com corpos vivos, presos por correntes enferrujadas. Homens e mulheres ainda respiravam, ainda gritavam, ainda imploravam. Seus gemidos formavam um lamento contínuo, como um coro de almas condenadas.
No centro do salão, erguia-se o trono.
Não era feito apenas de ouro, mas de carne.
Pessoas vivas sustentavam sua base, ajoelhadas, com as costas arqueadas, os corpos rasgados pelo peso. Sangue escorria de seus ombros e bocas, misturando-se ao chão imundo.
Sentado ali estava Blasfêmo.
Sua armadura dourada ainda reluzia, mas não escondia a verdade por baixo: a carne em decomposição, os vermes que se moviam entre as fissuras, os ossos expostos que atravessavam sua pele como lanças. Suas unhas cresciam incessantemente, retorcidas, afiadas. Onde deveriam existir olhos, havia apenas escuridão sem pupilas, sem reflexo, sem alma.
Diante dele, ajoelhavam-se vários homens.
Tinham cabelos vermelhos como sangue recém-derramado. Linhas escarlates percorriam seus corpos, dos rostos até as pernas, marcando-os como algo além do humano. Vestiam armaduras negras, todas adornadas com o símbolo de uma lua minguante pintada de vermelho.
Eram os Hor, seres de sangue puro, nascidos apenas sob luas vermelhas.
À frente deles, ajoelhada, estava uma mulher de aparência jovem. Sua pele era pálida como marfim, seus cabelos vermelhos desciam em ondas suaves. As marcas de sua raça também estavam ali, mas seus olhos… seus olhos eram diferentes.
Vermelhos.
Dentro das pupilas, uma estrela negra girava lentamente.
Ela vestia um longo vestido negro de nobreza antiga.
Seu nome era Amélia, a Rainha do Sangue.
Seus lábios tremiam.
— Levantem-se — ordenou Blasfêmo.
Sua voz era grossa, profunda, e não ecoava apenas no salão… ecoava na alma de quem a ouvia.
Os Hor se levantaram, trêmulos.
— Senhor da Carnificina… — Amélia começou, a voz quase falhando. — Eu suplico… liberte o meu povo.
Blasfêmo levou a mão ao rosto.
Removeu a máscara feita de ossos humanos.
Por baixo, seu rosto estava completamente queimado, a carne aberta, infestada de vermes. Sua boca se estendia até as orelhas, com fios de carne ainda presos, formando um sorriso grotesco.
— Você sabe o quão valiosos vocês são para mim, Amélia… — disse ele, com falsa doçura.
A Rainha do Sangue tremia. Suas mãos não paravam de se mover.
Blasfêmo se levantou do trono.
Ergueu a mão em direção aos Hor.
As unhas cresceram num instante.
Sem tempo para reação, elas atravessaram o corpo de um dos Hor, perfurando carne, ossos e coração. Um som seco ecoou pelo salão.
Blasfêmo puxou o corpo para perto.
Amélia e os outros permaneceram imóveis. Sabiam: qualquer reação seria morte.
— O sangue de vocês… — continuou Blasfêmo — …é precioso demais.
Ele forçou o Hor ferido a se ajoelhar.
Das unhas de Blasfêmo, o sangue começou a escorrer, não para fora, mas para dentro do corpo do Hor.
O homem começou a estremecer.
Quando Blasfêmo retirou as unhas, a transformação começou.
Os cabelos caíram em tufos. A pele tornou-se ainda mais pálida. Os dentes saltaram da boca — alguns quebraram, outros foram engolidos em gritos sufocados. Os ossos se partiram, estalando, e se rearranjaram. O corpo se curvou, tornando-se quadrúpede, emagrecendo de forma grotesca.
As unhas cresceram, alongadas como garras.
O Hor ainda mantinha a consciência.
Seus gritos ecoaram pelo salão:
— Me matem… por favor… me matem…
Então, a consciência se perdeu.
O ser agora era apenas um sanguessuga.
Num salto violento, a criatura avançou sobre uma das pessoas presas à parede, rasgando carne e devorando-a viva, enquanto o sangue escorria pelo chão.
Blasfêmo observava, satisfeito.
Então voltou o olhar para Amélia.
— Entende agora, Rainha? — disse, sorrindo. — Seu povo… agora servirá ao meu.
#Tempos Atuais
Quintos caminhava à frente de um grupo armado, todos vestindo a armadura negra de Marvet. As placas escuras absorviam a luz do dia como se a própria cidade as recusasse. Eles avançavam pela zona comercial de Diviza, uma cidade inquieta, viva, construída no ponto exato onde Marvet se encontrava com BARZEL CHAZAK e os Livres, uma fronteira onde o mundo nunca dormia.
Casas de madeira se alinhavam pelas ruas estreitas, intercaladas por barracas de comerciantes. O ar carregava o cheiro de ferro, vinho e fumaça. Ao fundo, dominando a paisagem, erguia-se o castelo negro de Diviza, coroado por uma enorme bandeira: **uma caveira escura com uma flor brotando de sua boca**, o símbolo eterno de Marvet.
— Vou me encontrar com Aleksandr nos Muros da Sombra — disse Quintos, sem reduzir o passo.
— Senhor… quem ficará responsável por Diviza? — perguntou um dos soldados.
— Já mandei avisar a jovem Alby. Ela cuidará da cidade por enquanto.
— Entendido.
O grupo seguiu até passar por uma grande estátua entalhada em madeira roxa e escura, envolta por um manto negro. O odor da madeira lembrava vinho antigo. Suas mãos erguidas pareciam pedir mais almas ao céu — ou arrastá-las para baixo. Era Morby, o deus ancestral da família real.
Os soldados ajoelharam-se em reverência. Quintos permaneceu de pé.
Quando o grupo concluiu o gesto, ele seguiu sozinho.
Os Muros da Sombra
Ao oeste, próximo à divisa com BARZEL CHAZAK, erguiam-se as árvores colossais conhecidas como Muros da Sombra. Troncos roxos e negros, retorcidos como ossos antigos, exalando constantemente o aroma de vinho. Eram tão altas que os bardos diziam que **tocavam o céu**. Aquelas árvores protegiam Marvet tanto dos vivos quanto dos mortos.
Aleksandr estava ali, parado diante delas, olhando para o alto, como se medisse algo invisível.
Quintos se aproximou.
— Fez o que eu te falei? — perguntou Aleksandr, sem virar o rosto.
— Claro que fiz. Da próxima vez, tenta não me deixar com todo o trabalho sujo — respondeu Quintos.
Ele lançou um saco pesado aos pés de Aleksandr. Dentro, estavam as cabeças dos homens que o acompanhavam.
— Com isso, meu irmão não saberá de nada do que acontece em Diviza.
Aleksandr observou o saco por um instante.
— Deu trabalho descobrir cada um deles. Poderíamos ao menos tê-los interrogado.— Disse Quintos.
— Não daria certo — disse Aleksandr. — Você conhece meu irmão.
Aleksandr voltou o olhar para os Muros da Sombra.
— Diga que eu saí para caçar Ambi — falou enfim. — Que fui atrás dele… e não voltei.
Quintos estreitou os olhos.
— Então é isso. Vai caçar Ambi no território errado.
— Ambi sabe demais — respondeu Aleksandr. — E enquanto todos acharem que eu desapareci, poderei agir sem que Eduart perceba meus passos.
Houve um breve silêncio.
— Muito bem — disse Quintos por fim. — Direi que Aleksandr desapareceu. Nenhum rastro, nenhuma explicação. Seu irmão odeia o desconhecido… isso vai atraí-lo como sangue fresco.
Aleksandr sorriu de canto.
— Exatamente.
Ele ajoelhou-se, tocou a terra com a mão e, num instante, uma taça de madeira surgiu em sua palma, cheia de vinho escuro.
Quintos suspirou, divertido.
— Do jeito que você quer, não vai funcionar.
Aleksandr bebeu antes de responder:
— Que jeito?
— Você quer enganar Eduart. Mas quem realmente o conhece sabe que isso é suicídio. Ele é um desgraçado… mas um desgraçado cheio de conhecimento.
— É arriscado — admitiu Aleksandr —, mas é a única chance.
— Essa é a questão — disse Quintos. — Você é um desgraçado, Aleksandr. Mas não tem o conhecimento. Não como Eduart.
Aleksandr largou a taça, sacou a espada e a apontou para Quintos, sorrindo.
— Você quer a cabeça de Eduart… ou não?
Quintos abriu um sorriso enorme e caiu na gargalhada.
— Claro que quero. Vivi mais de dois mil anos e nunca encontrei um humano tão maldito quanto Eduart. Mas até eu tomaria cuidado.
Aleksandr abaixou a espada e a guardou.
— Quintos… você é realmente muito velho.
Ele então ergueu a mão.
— Tome cuidado com aquele Joran. Ele é uma peça fundamental.
Ao fechar o punho, um imenso tronco roxo, idêntico aos Muros da Sombra, emergiu do solo como um pilar vivo. Aleksandr foi erguido até o alto, ultrapassando os muros.
— No final das contas… eles não tocam os céus — murmurou.
Criando novos troncos sob os pés, avançou em direção a BARZEL CHAZAK, desaparecendo além da fronteira.
Quintos observou em silêncio. Quando se virou para ir embora, sentiu o pé preso. Uma raiz havia se enrolado em seu tornozelo, claramente de propósito.
Ele suspirou.
— Filho da mãe…
