#Na Floresta — Durante a noite
A noite caiu por completo.
Alby ainda recolhia lenha entre as árvores, os braços cheios de galhos secos, o humor cada vez pior. Murmurava sozinha, irritada, sem se preocupar em conter a voz.
— Esperar crescer… — resmungou, cerrando os dentes. — Idiota.
Num acesso de raiva, chutou o tronco de uma árvore próxima.
O impacto foi mais forte do que esperava. A árvore estalou, inclinou-se… e caiu com um estrondo seco, esmagando arbustos ao redor.
Alby suspirou, frustrada, e se virou para ir embora.
Então o ar mudou.
Um cheiro de decomposição tomou a floresta, pesado, sufocante, como carne antiga esquecida ao sol. Alby congelou. Antes que pudesse reagir, uma mão surgiu na escuridão e se fechou em torno de seu pescoço.
O mundo deixou o chão.
Ela foi erguida no ar com facilidade brutal. Tentou lutar, mas a força que a segurava era absoluta. Seus pés se debateram no vazio até que seus olhos encontraram a figura diante dela.
A armadura dourada.
A coroa de rubis.
Blasfêmo.
— Ele é mesmo um idiota — disse Blasfêmo, a voz rouca ecoando como algo arrancado da própria terra.
Alby tentou encarar seus olhos.
Não havia nada ali.
As pupilas haviam desaparecido havia muito tempo. Apenas escuridão — uma escuridão viva, que parecia se mover dentro das órbitas vazias. O aperto em seu pescoço afrouxou levemente, quase como um gesto calculado… mas o medo a dominou por completo.
As mãos dela tremiam. O corpo inteiro convulsionava. O ar mal entrava nos pulmões. Seus olhos começaram a se fechar, tentando fugir daquela presença.
— Você tem medo, garotinha? — continuou Blasfêmo.
Alby rosnou, num último esforço desesperado. Tentou chutar o rosto dele.
A dor explodiu em sua perna.
Antes que pudesse reagir, Blasfêmo a lançou contra uma árvore. O impacto arrancou-lhe o ar dos pulmões. Ela caiu no chão, ofegante, tentando se levantar — mas ele já estava à sua frente.
Parou.
Abaixou-se lentamente.
As unhas longas e deformadas ergueram-se diante de seus olhos, tão próximas que Alby sentia o frio que emanava delas. Então, com a outra mão, Blasfêmo abriu parte da armadura e retirou algo de dentro.
Um cordão antigo, feito de madeira escura.
Preso a ele, um medalhão em forma de pequeno caixão, que se abria ao meio.
Blasfêmo jogou o objeto na mão de Alby.
— Entregue para Quintos — ordenou.
E então, como se nunca tivesse estado ali, desapareceu na escuridão.
Quintos corria pela floresta.
O som da árvore caindo havia cortado o silêncio da noite, e o instinto o puxara na direção errada antes que pudesse pensar. Chamava por Alby, o coração pesado.
Encontrou-a mancando entre as árvores, o corpo ferido, o rosto pálido.
— Alby! — chamou.
Ela ergueu os olhos para ele… e caiu desacordada.
Quando despertou, estava novamente no campo aberto.
A fogueira crepitava ao centro, lançando luz quente contra a grama e as rosas noturnas. Quintos estava do outro lado do fogo, de pé, segurando o cordão de madeira.
— Você está melhor? — perguntou ele.
Alby sentou-se com dificuldade. O corpo ainda doía, mas o pior era a lembrança. O olhar vazio de Blasfêmo voltou com força, fazendo-a tremer.
— Alby… — disse Quintos, em tom baixo. — Eu não queria ter te envolvido nisso.
Ela apontou para o cordão em suas mãos, a voz quebrada, ofegante.
— O que tem nesse cordão, Quintos?!
Ele não respondeu de imediato. Ergueu o olhar para as estrelas, respirou fundo.
— Você quase morreu por isso — disse por fim. — Então merece saber.
Quintos deu alguns passos em sua direção.
— Tudo o que eu disse sobre o tempo que vivo… é mentira.
Alby franziu o cenho.
— O quê?
— Eu existo antes mesmo de vocês descobrirem o que era guerra — continuou ele. — Antes de genocídio. Antes do instinto de dominar.
Fez uma pausa.
— Eu existo antes até da própria blasfêmia.
O fogo estalou entre eles.
E a noite pareceu escutar.