#Em tempos desconhecidos
O deserto ardente ainda não era chamado de Areias de Sangue.
Naquele tempo remoto, a areia permanecia amarela, quase dourada, e o ar embora pesado, ainda era puro. Sob o sol impiedoso, uma enorme locomotiva avançava lentamente, arrastando carroças, cavalos e dezenas de soldados exaustos. No centro da formação erguia-se uma tenda colossal, feita para resistir ao calor e às tempestades de areia.
Dentro dela, o calor era sufocante.
— Este deserto é um inferno… — resmungou uma voz, abafada pelo tecido da tenda.
Quintos estava sentado à mesa, o corpo coberto de suor. Parecia mais jovem do que nos tempos atuais; seus olhos amarelos ardiam como chamas vivas. Estava sem camisa, tentando, em vão, aliviar o calor.
— Por que nosso pai quis vir pra cá? — perguntou seu irmão, sentado à frente.
Ele era semelhante a Quintos no rosto e na estatura, mas completamente careca. A pele, castigada pelo sol, estava queimada e áspera. Seus olhos amarelos carregavam impaciência. Apesar da aparência madura, ainda era jovem.
Aquele era Guerra.
— Quando o resto da família chega? — reclamou Quintos. — Eu não aguento mais esse calor.
Antes que o irmão respondesse, o chão tremeu.
Levemente no início… depois com força suficiente para fazer a tenda estremecer.
Os dois se entreolharam.
Do lado de fora, uma sombra colossal começava a se projetar contra o tecido da tenda, crescendo a cada passo.
— Quem… é esse? — murmurou Quintos, sentindo a mão tremer.
No instante seguinte, a tenda foi rasgada.
Uma figura envolta em armadura dourada atravessou o tecido como se fosse papel. A máscara feita de ossos humanos e a coroa de rubis reluziam sob a luz do sol.
Blasfêmo havia chegado.
— Ah, pelo amor… — reclamou Quintos, tapando o nariz. — Blasfêmo, tira essa armadura! Você está fedendo!
— É sério — completou Guerra. — Blasfêmo tá fedendo. Vai tomar banho!
Blasfêmo suspirou, então retirou o elmo e a máscara de ossos, revelando um rosto jovem, de pele branca como neve, cabelos brancos e olhos azul-marinho. Cheirou o próprio braço, pensativo.
— Eu já tomei banho — disse, com naturalidade. — E não estou fedendo tanto assim.
O irmão careca se levantou, irritado.
— Que maldição… — resmungou. — Dos seis filhos, só eu não tenho cabelo!
— Você devia virar monge — provocou Quintos.
Quintos e Blasfêmo caíram na risada.
— Não tem graça! — protestou Guerra. — Vocês não sabem a dor de ser careca, seus malditos!
Blasfêmo sorriu, então falou com uma confiança estranha demais para o momento:
— Temos pouca água. E alguém destinado jamais deixaria seus súditos sofrerem por isso.
Quintos franziu a testa e se aproximou do irmão, cochichando:
— Ei, Guerra… por que o Blasfêmo tá falando assim?
Guerra estreitou os olhos.
— Não sei. Esse mentiroso tá querendo alguma coisa.
Blasfêmo cruzou os braços.
— Meus irmãos… como irmão mais velho, peço que falem alto.
Quintos e Guerra o encararam por alguns segundos, em silêncio absoluto. O desconforto era palpável.
— Acho que o calor subiu à cabeça dele — murmurou Guerra. — Você segura, eu jogo água.
Eles se viraram ao mesmo tempo.
— Por que estão me encarando assim? — perguntou Blasfêmo, desconfiado.
Quintos saltou sobre ele, segurando-o com força.
— Quintos, me solta, seu idiota! — gritou Blasfêmo. — Eu sou seu irmão mais velho!
— O Blasfêmo que eu conheço nunca se importou com esse papo de “irmão mais velho” — retrucou Quintos.
Guerra surgiu correndo com um balde e despejou a água sobre a cabeça de Blasfêmo.
— Pronto! — disse, satisfeito.
Blasfêmo rugiu de raiva, livrou-se de Quintos e deu um tapa forte em Guerra, que caiu no chão.
— Seus idiotas! — gritou, encharcado. — Vocês não ouviram nosso pai?!
Quintos congelou.
— Nosso pai…?
Blasfêmo abriu um sorriso lento. Um sorriso que, mesmo jovem, já carregava algo inquietante.
— Ele disse que um de nós deve se tornar o líder da Ordem.
O silêncio caiu sobre a tenda.
Quintos e Guerra se levantaram lentamente, surpresos, pensativos.
E, naquele instante, sem que percebessem, o destino de todos já havia começado a ser escrito.
Tempos Atuais
O fogo crepitava baixo, lançando sombras irregulares sobre os troncos das árvores. Quintos segurava o cordão com cuidado incomum. Seus dedos antigos abriram o pequeno medalhão em forma de caixão.
Alby se aproximou.
Dentro dele havia uma pintura antiga, desgastada pelo tempo. A tinta estava tão gasta que os rostos já não podiam ser vistos, apenas silhuetas. Seis crianças, nem tão pequenas, nem tão crescidas, alinhadas lado a lado. Atrás delas, o pintor havia feito apenas uma sombra alta, indistinta. Ao lado dessa sombra, a silhueta de uma mulher.
O silêncio pesou.
— Essa… é a minha família — disse Quintos, por fim.
A voz dele não carregava orgulho. Nem dor. Apenas algo cansado… antigo demais para ser chamado de tristeza.
Alby engoliu em seco.
— Por que Blasfêmo estava com isso? — perguntou, em voz baixa.
Quintos ergueu o dedo e apontou para a figura mais à esquerda.
— Essa aqui é minha irmã. Invy… aquela que representa a inveja.
O nome ecoou na mente de Alby.
Invy.
Mais de mil e duzentos anos atrás, uma seita havia surgido em Aldernys. Sua líder carregava esse nome. Fora morta por Antony Stan, já em idade avançada.
Quintos continuou, apontando para a próxima silhueta.
— Ao lado dela está Genos… o genocídio.
O coração de Alby acelerou.
Há quinhentos anos, um homem com esse nome havia promovido um massacre em escala continental. Milhares mortos. Aldernys manchada de sangue. Genos fora abatido apenas quando os Exilados encontraram seu esconderijo.
O dedo de Quintos seguiu adiante.
— Dominós… aquele que domina.
Alby sentiu um arrepio.
Após o fim da Era Sombria, Dominós havia atacado Marvet e reinado ali por mais de mil anos. Seu domínio só terminara com a ascensão de Vlade XI, descendente direto de Marvet.
Quintos apontou para a figura seguinte.
— Guerra… aquele que criou a glória.
O nome também não era desconhecido.
Guerra fora associado a um antigo ser que incitou os Trones a se matarem entre si. Um conflito tão vasto que quase apagou civilizações inteiras. Ele fora morto… pelo próprio Quintos, durante a Era Sombria.
O dedo de Quintos tremeu levemente ao continuar.
— Ao lado dele… estou eu.
E então, por fim, apontou para a última silhueta.
— E aqui… está meu irmão mais velho. Blasfêmo.
O fogo estalou mais alto.
— Aquele que marchou contra os Trones — completou.
As mãos de Alby começaram a tremer. Sua respiração ficou curta, irregular. O mundo parecia pesado demais ao redor dela.
— Então… — a voz falhou — você é filho do Deus Ego… irmão do Senhor da Carnificina…
Quintos balançou a cabeça lentamente.
— Não. Pelo que descobri, minha mãe se envolveu com outro humano… e me teve meses depois. — Ele soltou um breve suspiro. — Por isso meu nome não carrega nenhum conceito do egoísmo.
Por um instante, Alby ficou em silêncio.
Então… ela começou a rir.
Primeiro baixo. Depois mais alto. Uma risada nervosa, quase incrédula. Ela levou a mão ao rosto, tentando se conter, mas falhou.
— Eu achei que já sabia toda a história do mundo… — disse, entre risos, com um sorriso nos lábios. — Pelo visto, ainda tenho muito a estudar.
Quintos a observou, surpreso.
— Eu… esperava outra reação.
Alby respirou fundo, se acalmando pouco a pouco.
— Não posso te julgar — disse ela, mais séria agora. — Como você mesmo disse, Quintos… toda família tem seu lado obscuro.
O fogo continuou a queimar.
E, naquela noite, entre sombras e memórias, Alby percebeu que não estava diante de um simples aliado.
Mas de algo muito mais antigo e muito mais perigoso do que qualquer lenda que já tivesse estudado.