Depois de me acalmar, percebi que tudo estava um tanto estranho.
Era isso, na verdade: estava normal demais. E esse "normal" é que soava fora do lugar, depois de tudo que tínhamos acabado de ver.
Abri o sistema, e ali consegui ver uma das mudanças.
Todos os meus atributos—
Tinham aumentado em 1.
"...foi isso?"
Talvez.
Talvez tenha sido isso que aquela sensação agonizante deixou no meu ser. Mas caramba, toda aquela dor por apenas um ponto? Bom, melhor do que nada, ao menos — não posso ser ganancioso.
Fiquei olhando pro número por mais tempo do que deveria, tentando entender se aquilo era um efeito colateral do pesadelo ou algo separado. Não cheguei a lugar nenhum.
Foi quando, de repente, comecei a ouvir uns barulhos esquisitos.
"Ei, Kai... tá ouvindo isso?"
"É... não, senhor Ed... o que o senhor está ouvindo?"
Fiquei em silêncio, prestando atenção.
E então—
De novo.
Passos pesados. Metal. Um som de arrastar, baixo e constante, vindo de algum lugar lá fora — o tipo de barulho que só uma armadura pesada, ou uma arma grande demais pra ser carregada com conforto, produz.
"Barulho de metal... passos... metal pesado."
Nos levantamos devagar.
Fomos até as janelas da cabana sem fazer barulho. Com o chão da casa sendo de madeira, precisávamos do máximo de cuidado possível para não chamar atenção desnecessária.
Quando chegamos, olhamos pra fora.
E lá estavam.
Um grupo grande, se movendo em direção ao boss, numa formação que não parecia improvisada — como quem já tinha feito aquele caminho antes.
Meu corpo travou por um segundo.
"Ei, Kai... aquele grupo."
"O que tem esse grupo, senhor Ed?"
Franzi a sobrancelha. O olhar ficou mais pesado.
"Se eu não estiver enganado... tem uma chance muito alta de esses serem os malditos que fizeram aquilo com aquelas pessoas. Os que deixaram o Toshi daquele jeito."
Kai ficou em silêncio.
"Como o senhor tem certeza disso?"
"Como eu disse... é uma possibilidade."
Respirei fundo e continuei observando.
"As armas deles. Ao contrário dos goblins e orcs, são lâminas finas. Espadas, adagas..."
"Perfeitas pra ferir sem matar."
Olhei pra ele de lado.
"Você joga RPG, lê novel... devia saber disso."
Mas isso não era o pior.
"O pior são os itens."
"Um grupo grande daquele, bem equipado, logo depois do que a gente viu..."
"...não é coincidência."
Kai ficou em silêncio por um segundo.
"S-Senhor... isso..."
O olhar dele mudou.
Agora—
Era sério.
"O que faremos então, senhor Ed?"
A espada já estava na mão dele.
"Podemos matar eles agora."
"Não."
Minha resposta foi imediata.
"Não, garoto. Eles são muitos."
"E você—" olhei pra ele "—não pode gastar sua energia assim, não depois de ontem."
Silêncio.
"Vamos esperar. Observar. E escolher o momento certo."
Meu olhar voltou pro grupo, seguindo cada movimento deles até desaparecerem entre as árvores.
"...pra fazer todos eles pagarem."
Nos afastamos da janela e voltamos pra dentro da cabana.
Ayla e Toshi ainda descansavam, o som da respiração dos dois era a única coisa quebrando o silêncio do lugar.
Nos sentamos, pensando.
Dividir o grupo? Dois iriam, um ficava? Ou todos juntos?
Risco.
Tudo ali era risco — a única pergunta era qual risco valia a pena correr.
"Eu acho que deveríamos deixar ele aqui na cabana."
Kai me olhou com dúvida, e eu conseguia entender o porquê. Afinal, quem deixaria um garoto que mal sabe se defender sozinho numa cabana, num lugar repleto de monstros e de humanos que não se importam em matar a própria espécie?
"Mas senhor Ed... ele não pode se defender."
"Quando formos atacar o Rei, os monstros vão se reunir pra proteger o líder. E os jogadores também vão estar lá. Levar o garoto junto só faria com que corrêssemos riscos desnecessários."
Parei por um segundo, deixando o peso daquilo assentar.
"Levar ele é colocar ele bem no meio disso."
Essa era minha aposta.
[O Governante da Sabedoria admira a benevolência e o modo de pensar do jogador]
"Governante da Sabedoria?"
"Mas..." Kai hesitou, respirou fundo. "...certo. Vamos limpar isso o mais rápido possível."
"Sim."
Acordamos Ayla e expliquei a ela a situação e o plano, sem enrolar. Ela ouviu, pensou por um instante, e aceitou sem discutir.
Então—
Saímos da cabana e nos dirigimos para a caçada, prontos para o que viesse pela frente.