Fomos nos aproximando.
Sorrateiros.
Cada passo feito com cautela extrema, o mato baixo abafando o som dos nossos pés, o vento ajudando a disfarçar qualquer ruído que escapasse. Ninguém falava. Nem precisava — bastava um olhar entre nós três pra saber quando parar, quando seguir, quando esperar mais um segundo antes de avançar de novo, em direção de onde os humanos e o Rei Orc se encontravam.
Mantivemos distância, suficiente para não sermos percebidos de imediato, porém perto o bastante para analisar o campo de batalha e a luta que estava prestes a acontecer.
O local era perfeito. Estávamos escondidos atrás de uma formação de pedras e raízes grossas que quebravam nossa silhueta contra o resto do terreno. Kai ficou mais baixo do que eu esperava, quase deitado no chão pra reduzir o perfil. Ayla nem precisou de instrução — já estava posicionada antes de eu terminar de pensar onde seria o melhor lugar.
Ser descoberto ali...
Se tornaria um perigo e uma situação urgente, não só por estarmos em menor número, mas pelo fato de que, se a gente morresse ali, o garoto não estaria seguro.
Com aquele número de inimigos, a única chance seria correr, mas a floresta é vasta, e o boss fica marcado, dificultando ainda mais se esconder perto dele numa perseguição.
O terreno ali abaixava em direção a uma espécie de clareira, e era ali, no centro dela, que o Rei Orc esperava — imenso, os músculos tensos, a arma dele apoiada no chão como se soubesse que aquele confronto não seria fácil. Pela primeira vez desde que eu tinha sido jogado no meio daquele caos, senti quase pena de um monstro.
Quase.
Agora, observando melhor—
Dava pra reparar em detalhes que de longe passariam despercebidos.
As armas deles...
Eram boas.
Melhores do que eu esperava. Não era o tipo de equipamento improvisado que a gente via em bandidos de vila ou saqueadores de estrada. Cada peça parecia ter sido escolhida, cuidada, mantida.
A adaga do líder—
Refletia um brilho fosco, o tipo de acabamento que só uma lâmina de qualidade tem, sem imperfeições visíveis na borda, o cabo enrolado com algo que parecia couro tratado. Nada de ferrugem. Nada de desgaste malcuidado. Era o tipo de arma que alguém carrega quando pode escolher, e não o que sobrou depois de pegar o que dava.
"...talvez seja melhor que a Lâmina do Luar do Kai."
Aquilo me incomodou. Kai tinha lutado feito um monstro pra conseguir aquela espada, enfrentado risco de verdade, gastado energia e sangue com ela. E ali estava um desconhecido, parado como se nada daquilo importasse, carregando algo que talvez superasse ela sem nem parecer se esforçar pra manter em bom estado.
Olhei pros outros do grupo. O padrão se repetia. Nenhuma arma ali parecia ter sido pega de um cadáver, pelo menos não da maneira convencional, ou comprada de qualquer jeito — tudo combinava, tudo servia a um propósito específico. Não era sorte. Era equipamento pensado.
Continuamos observando.
Esperando.
O tempo ali parecia esticar, cada segundo de silêncio pesando mais do que deveria enquanto o grupo se posicionava, ajustava distâncias, trocava sinais que eu não conseguia decifrar de onde estava.
Até que—
Eles avançaram.
O confronto começou.
Eles tinham número.
E organização.
Duas coisas que, juntas, já bastavam pra virar qualquer luta contra quase qualquer coisa que eu já tinha visto até então.
As chances de matarem o boss—
Eram altas. Alta o bastante pra eu sentir um aperto no estômago só de pensar nas possibilidades depois da morte do boss, tentando entender se aquilo mudava em alguma coisa o nosso plano, ou se só confirmava que estávamos certos em manter distância.
"Vejam... eles começaram."
Kai e Ayla não responderam.
Só focaram totalmente na luta.
E então—
Ficou claro.
A forma como se moviam.
A distribuição dos ataques, quando alternavam, os curandeiros deles.
E isso me fez pensar em algo: que tipo de contratantes aqueles curandeiros possuíam? Como funcionavam as habilidades deles, de fato?
Naquele momento eu não tinha tempo pra essas análises. Agora o foco era entender o ritmo deles, e como cada um se movia.
Extremamente organizado — essa era a palavra pra aqueles caras. Não era um bando correndo pra cima do Rei Orc tentando arrancar o máximo de dano antes de morrer. Era outra coisa.
Um cobria o outro.
Sem falhas.
Sem hesitação.
Cada vez que um deles avançava, havia sempre outro posicionado no ângulo certo pra cobrir o espaço que ficava aberto, como se aquilo tivesse sido ensaiado dezenas de vezes antes daquele dia. Quando um recuava ferido, ou só pra recuperar o fôlego, outro já estava tomando o lugar dele antes mesmo do Rei Orc perceber a troca.
Não parecia um grupo improvisado.
Parecia...
Treinado.
Como se lutassem juntos há anos.
"Isso não é normal..."
Eu já tinha visto grupos de jogadores, antes do Apocalipse, brigando com monstros em parties. Já tinha visto gente boa em combate, gente com talento de sobra pra liderar num RPG. Mas aquilo era diferente — não era talento individual brilhando por cima da bagunça. Além disso, eram habilidades reais, não as de um jogo onde bastava se adaptar a um boss e superá-lo, ou chamar amigos pra ajudar. Cada um sabia exatamente o papel que tinha que cumprir.
Eles não eram bandidos comuns.
Eram—
Guerreiros.
Altamente treinados.
Dava pra ver na forma como recuavam sem quebrar a formação, na maneira como trocavam de posição no meio da confusão sem esbarrar uns nos outros, no jeito calculado com que cada golpe era desferido — nada de força bruta desperdiçada, nada de movimento em excesso. Cada passo tinha função. Cada avanço abria espaço pro próximo golpe de outro membro do grupo, como uma engrenagem funcionando sem atrito.
Eles começaram a focar no Rei Orc.
Cortes precisos.
Tendão de Aquiles.
Movimentos sendo limitados a cada golpe certeiro, o Rei Orc perdendo velocidade, perdendo terreno, sem conseguir fechar distância contra nenhum deles. Cada vez que ele tentava avançar contra um dos guerreiros, outro já estava cortando por trás, forçando ele a mudar de direção no meio do movimento.
Cada golpe era pensado, cada ataque possuía um propósito, mirando pontos estratégicos que destruíam a mobilidade do boss e controlavam a luta.
Não estavam tentando matar rápido. Estavam desmontando o Rei Orc parte por parte, tirando dele qualquer chance de reagir antes mesmo de pensar em finalizar. Um membro poderoso de cada vez, uma direção de fuga de cada vez, até que não sobrasse nada pra ele fazer além de ficar parado, cercado, esperando o próximo corte decidir por ele.
Era quase como se todos fossem uma pessoa só, de tão bem executado. Se eu não soubesse o que aquele padrão de ferimento significava, talvez até admirasse.
O Rei Orc rugiu, um som que sacudiu as árvores ao redor, e tentou concentrar toda a força que sobrava num único golpe capaz de varrer metade do grupo. Mas antes que o braço dele completasse o arco, dois deles já tinham se afastado, enquanto um terceiro aproveitava a abertura pra cravar a lâmina bem fundo na parte de trás do joelho. O rugido virou um grunhido de dor, mais baixo, mais cansado. Aquilo não era mais uma luta — era uma sentença sendo executada aos poucos, com paciência.
E aquilo me irritava cada vez mais. Não por eles estarem massacrando um monstro, e sim porque o jeito como estavam fazendo aquilo era um padrão que eu já conhecia.
"O estilo de ataque..."
"...os ferimentos..."
"...é o mesmo padrão das pessoas nas jaulas."
Minha voz saiu baixa, mas firme, os olhos fixos naquela luta.
Acompanhando cada movimento, cada corte, cada posição de ataque que se repetia, gravando aquilo na memória como se fosse importante guardar exatamente como cada um deles se portava em combate. Quem golpeava primeiro. Quem cobria. Quem ficava atrás, observando, quase como se estivesse comandando os outros sem precisar levantar a voz.
Olhei de rabo de olho pro Kai. A mão dele estava fechada com tanta força no punho da espada que os nós dos dedos tinham ficado brancos. Ele não falava nada, mas dava pra sentir a tensão saindo dele em ondas, o mesmo tipo de raiva contida que eu sentia crescer no meu próprio peito.
Ayla estava diferente. Mais parada. Mais analítica. Mas os olhos dela também não saíam do grupo por um segundo sequer.
Kai e Ayla também perceberam.
Não era coincidência.
Era método.
O mesmo cuidado em não matar de imediato. O mesmo foco nos pontos que imobilizam sem destruir. A mesma frieza calculada que eu tinha visto nos corpos espalhados pelo chão, só que dessa vez aplicada contra um monstro, e não contra gente indefesa.
A diferença era só o alvo. A lógica por trás de cada corte continuava exatamente igual.
Mesmo com toda aquela técnica, com toda aquela precisão, tinha algo que me incomodava mais naquelas pessoas.
Era o sadismo.
Porque alguém com esse nível de treino, essa disciplina, essa capacidade de trabalhar em equipe sem falhar uma única vez...
Usaria isso — essas técnicas — pra caçar pessoas? Bom, talvez a resposta fosse óbvia, né? Dinheiro. Matar seres humanos é mais fácil do que matar monstros, e ainda rende dinheiro e itens, de forma mais aleatória — o suficiente pra atrair quem fosse psicopata a ponto de matar mais de um.
Tanto talento, tanto tempo de treino, tanta disciplina — jogado fora pra caçar gente indefesa e prendê-la em jaulas feito gado esperando o abate. Guerreiros daquele nível poderiam estar em qualquer lugar, fazendo qualquer outra coisa, e escolheram justamente aquilo.
Fiquei ali, olhando o Rei Orc sendo reduzido pouco a pouco, sentindo a raiva subir de um jeito que não tinha subido nem quando encontramos os corpos na floresta. Lá, era dor. Ali, olhando aquela precisão toda sendo usada com tamanha frieza, era outra coisa.
Mas também já não importava mais.
O porquê deixava de fazer diferença no momento em que eu decidia o que fazer a respeito.
Dessa vez eu tinha apenas dois objetivos em mente: a morte do Rei e a morte do grupo. Como eu ia realizar isso, eu não sabia — mas eu ia dar um jeito.
Fiquei ali mais um instante, olhando aquele grupo terminar o que tinha começado, guardando cada detalhe do jeito como se moviam. Ia precisar disso. Todos os pontos fracos que eu conseguisse enxergar agora seriam a diferença entre acertar o momento certo depois, ou desperdiçar a única chance que a gente teria.