Enquanto isso, o relógio da prova avançava implacável. Dez horas haviam se passado desde o início, e os números frios dos sensores revelavam a verdade cruel: dos cinquenta e seis enviados, vinte já haviam perecido.
Na sala de observação, o Rei, Zayan e Luciel acompanhavam cada atualização que piscava incessantemente. Cada uniforme trazia sensores conectados às terminações nervosas dos participantes, registrando dor, veneno, temperatura corporal e até a causa exata da morte. Nenhum dos jovens sabia disso; talvez fosse melhor assim. Eram apenas peças em um tabuleiro, testadas até o limite. O futuro do reino estava em jogo, mas o futuro sempre cobrava sangue.
Zayan foi o primeiro a quebrar o silêncio:
— O que está acontecendo? Achei que teríamos perdas, mas não nesse nível… — Sua voz saiu pesada, o cenho franzido, como se tentasse decifrar o impossível. — Essas criaturas… são muito mais letais do que deveriam ser.
O Rei não desviou os olhos do painel, frio e concentrado:
— Não importa. Isso só prova quem realmente merece subir. Sobreviver não basta… eles precisam se superar.
Luciel, até então em silêncio, apertou o punho contra a mesa, a expressão carregada de tensão:
— Com todo respeito, Majestade… há algo errado aqui. Muito errado. — Seus olhos se fixaram nos registros dos mortos, cada detalhe mórbido piscando no visor. — As mortes não seguem um padrão natural. Há interferência.
O Rei estreitou os olhos, mas sua voz manteve firmeza:
— Chame Lions. Quero que ele investigue os dados de cada aprendiz morto. Se for como você diz… se alguém ousou interferir nesta prova, eu mesmo vou resolver. Nem que eu precise despertar este vulcão e transformar esta garganta em uma fornalha.
O calor sufocava, os ventos carregavam cinzas como lâminas, e o rugido do vulcão era um lembrete cruel: vencer não era apenas força bruta; era preciso inteligência, resistência… e coragem para enfrentar a morte de frente. Mas, se o Terrível tivesse despertado, nada seria suficiente. Só lhes restaria intervir.
Um silêncio sombrio tomou conta da sala. Até o rugido distante do vulcão, captado pelos sensores ambientais, parecia mais grave, carregado de mal presságio.
Do outro lado da Garganta, a equipe de Rhazer avançava como se fosse feita para aquilo. Ele liderava com naturalidade, cada gesto calculado, cada comando preciso. Avançava com a confiança de quem enxergava os obstáculos apenas como mais um teste. Nenhum arranhão, nenhuma falha.
Ao seu lado, ele traçava caminhos com olhar atento, neutralizando armadilhas e inimigos com precisão quase cirúrgica. Marsalla manipulava pequenas gotículas de água que umedeciam o ar, equilibrando o Yin do grupo. Seu domínio havia crescido muito nos últimos meses. Rhazer não a escolheu apenas para provocar Darius; sabia o quanto ela era talentosa.
Marcel e Leonar, como muralhas, abriam passagens sobre rochas incandescentes, erguendo barreiras de terra e pedra sempre que necessário.
— Aqui! — ordenou Rhazer, desviando de uma serpente que saltava entre as pedras. — Marcel, bloqueia à esquerda. Leonar, segura à direita. Avançar!
O grupo se movia como uma engrenagem perfeita. Cada ataque era previsto, cada defesa executada sem falhas. Havia arrogância em Rhazer, sim, mas não era vazia; sua liderança inspirava confiança absoluta. Até árvores vivas e insetos hesitavam em enfrentá-los, talvez sentindo o poder pulsando naquela formação.
Marsalla, observando-o, murmurou, mais para si mesma do que para ele:
— Impressionante… quando você está no comando, parece que nada dá errado.
Rhazer não deu o seu sorriso convencido habitual. Por um instante, o peso do mundo pareceu assentar nos seus ombros. — Não é que não dê errado, Marsalla. É que não pode dar.
Ela, curiosa, insistiu: — Como você consegue? Nenhum erro, nada te afeta…
Ele desviou o olhar para as chamas distantes, e a sua voz saiu mais baixa, sem a armadura da arrogância. — Porque o meu papel nunca foi apenas liderar. Foi sobreviver por todos os que não conseguiram. — Ele respirou fundo, como se as palavras fossem pesadas. — O meu irmão mais velho nasceu doente. Ele nunca sairá do castelo, nunca empunhará uma espada. E eu tinha outro irmão... um gémeo.
Marsalla prendeu a respiração, o seu olhar fixo nele.
— Ele morreu — continuou Rhazer, a sua voz um sussurro amargo, o olhar cabisbaixo.
— Sinto muito — disse Marsalla, a sua reação um pouco desajeitada diante daquela súbita vulnerabilidade.
— Tudo bem — ele deu um sorriso triste. — Ele nasceu fraco, doente. Morreu com três anos. Eu quase não tenho lembranças dele. Só sei que não éramos idênticos. Dizem que seríamos o oposto um do outro.
O silêncio na gruta era quebrado apenas pelo crepitar distante da lava. Rhazer sacudiu a cabeça, como se afastasse o fantasma daquela memória, e a sua máscara de comandante voltou ao lugar.
— Vamos. Não podemos ficar parados. — Ele abria caminho, desviava das brasas que explodiam quando Marcel ou Leonar exageravam na força. Usava rajadas de vento para proteger Marsalla, embora preferisse a terra. “Eu não vou perder para aquele fracassado.”
Leonar comentou, orgulhoso:
— Ele é um prodígio. Dizem que é o filho mais talentoso que o rei poderia ter. Rhazer sorriu de canto, com modéstia: — Minha mãe quase perdeu a vida para me colocar no mundo. Desde os quatro anos estudo e treino sem descanso. Aos 18, cumprirei meu papel. Sou o futuro da minha família. Não existe espaço para medo ou dúvida. Sou o futuro da minha família. Não existe espaço para medo ou dúvida.
Marsalla permaneceu em silêncio, absorvendo o peso daquelas words. Era impossível não sentir a pressão que ele carregava, mas o modo como falava, natural, quase arrogante, fazia parecer fácil.
Ela arriscou, delicadamente:
— E sobre Darius… por que você se importa tanto com ele?
Rhazer respirou fundo, desviou de uma árvore carnívora e lançou uma rajada de vento que afastou o ataque antes que atingisse Marsalla. Só então respondeu:
— Não é implicância. Ele tem potencial. Muito mais do que imagina. Só não quero perder para ele. Mestre Gust me disse que nosso destino estava ligado. — Olhando nos olhos dela, continuou: —Todo mundo precisa de um rival. Não existe um melhor do que eu. — Ele fez uma pausa, o tom mudando. — Então… e você?... é apaixonada por ele?
O riso seco que escapou de Rhazer a deixou corada. Ela tentou esconder o rosto:
— N-não! Não é isso… Ele só… me salvou. Me deu esperança... Só isso. Más isso não quer dizer que eu… que eu não admire a força dele.— respondeu timidamente enquanto mexia nos fios do seu cabelo.
— Sei, sei… — Leonar riu malicioso, piscando. — Aonde eu venho, isso tem outro nome: amor.
Ela quase explodiu, batendo o pé:
— Não é! Quer dizer… talvez… só um pouco… eu acho… é, eu acho… não sei. — Riu sem graça.
Os rapazes riram juntos, deixando-a ainda mais vermelha.
— Também acho que ele se importa com você — provocou Marcel. — Hoje ele montou a equipe com os mais novos. Se não fosse por ele, você que iria com os gêmeos. A equipe dele acabou sendo a mais fraca.
— Não é bem assim! — rebateu Marsalla, nervosa. —Mas um dia… ele vai ter que me reconhecer. E quando isso acontecer, terá que retirar o que disse de mim. Por isso vamos vencer juntos.
Os rapazes se entreolharam, rindo novamente. Talvez, por serem homens, todos haviam entendido antes dela mesma.
Rhazer, percebendo o embaraço da companheira, mudou de assunto ao notar um brilho azulado à distância.
— Olhem. — Ele apontou para uma brecha no chão que refletia luz azul.
“Vou pegar um cristal e depois disso, vou esmagar aquele otário.”
— O que será que tem aí? — perguntou Marcel, cauteloso. — Cabe uma pessoa ali dentro?
— Acho que cabe mais de uma… talvez algum animal tenha feito para se proteger do calor — respondeu Marsalla, preocupada.
Leonar examinou o chão e apontou para uma capa caída, com o nome Wagner na etiqueta. —Será que ele está bem? Ou já era? — murmurou.
— Vamos ter que pagar pra ver — respondeu Marcel.
— Certo. Fiquem juntos e não se separem. — Rhazer tomou a dianteira, fitando Marsalla. — Fique perto de mim. Não importa o que aconteça, vou proteger você. Não quero que aquele fracassado tente arrancar minha cabeça.
Ao entrarem, sentiram uma presença avassaladora que os fez encolher. Um arrepio gélido percorreu Marsalla. Rhazer puxou Marsalla para trás de si, protegendo-a; ela estava tão próxima que sua respiração, curta e trêmula de medo, roçava as costas dele.
— Atentos, pessoal. Há algo muito perigoso aqui!
Próximo ali, Darius respirava com dificuldade. O calor sufocante da Garganta misturava-se ao cheiro cortante de enxofre, queimando seus pulmões a cada inspiração. O terreno era traiçoeiro: árvores carnívoras agitavam-se como se tivessem vida própria, serpentes de escamas negras rastejavam entre pedras incandescentes, e insetos venenosos saltavam de rocha em rocha, prontos para perfurar qualquer distraído.
Ele já carregava um ferimento recente. Tentando proteger Ryn de um enxame de insetos, sua roupa acabou sendo danificada e a pele exposta ardia constantemente. Com esforço, mantinha o Yin tentando controlar os danos e usava o Yang para sondar as criaturas ao redor. Cada passo era guiado por um único pensamento: manter os gêmeos vivos.
À frente, avançava a Princesa Esquentadinha, abrindo caminho com a autoridade de uma guarda pessoal improvável. Aquilo o irritava profundamente. “Ser protegido por ela… ridículo.” Mas, no fim, era a forma mais segura de manter Ryn e Ryo longe do perigo.
O silêncio da Garganta foi rompido. Uma árvore viva ergueu-se com violência, e uma raiz afiada disparou na direção de Ryo.
— Cuidado! — gritou Darius, lançando-se à frente.
Conseguiu empurrar o garoto, mas não sem custo. A raiz cortou seu ombro, rasgando a lateral da roupa. A dor foi imediata, cortante, intensificada pelo calor sufocante. O sangue manchou o tecido enquanto ele cerrava os dentes, concentrando o Yin para transformar energia em oxigênio e improvisar uma camada de proteção.
— Droga... — murmurou, rangendo os dentes.
— Princeso, toma isso aqui! — a princesa atirou-lhe um pequeno frasco de cristal. Dentro dele, um líquido espesso e alaranjado pulsava com luz própria, como lava contida.
— Que trapaça, hein… — Darius resmungou, aceitando.
— É Essência de Salamandra. Mas, o que você esperava? Eu sou da realeza.
Darius revirou os olhos, pensando na injustiça. Todos se mantinham firmes na garra, enfrentando as dificuldades de peito aberto, enquanto ela e provavelmente o príncipe arrogante carregavam objetos que facilitavam a jornada.
— Não choraminga. Isso vai sarar sua feridinha. E depois, quando chegarmos, é só dormir — fez um biquinho, que logo se desfez em um riso malicioso.
O brilho alaranjado envolveu Darius, aliviando o ferimento quase instantaneamente. Ele ergueu os olhos e notou detalhes antes despercebidos: Pergaminhos enrolados com feitiços de emergência. Tudo meticulosamente preparado. Ela não era apenas uma princesa; era um arsenal ambulante. E ele? O que é que ele tinha? A roupa rasgada e um ódio que mal conseguia controlar. A diferença entre eles era um abismo.
Um sentimento raro se insinuou: a saudade de ser cuidado, de descansar nos ombros de alguém, como nos dias de príncipe jovem. Respirou fundo, ajustando a postura. Agora estava em uma posição humilhante atrás da princesa, segurando os gêmeos junto a si.
Chegando a uma encruzilhada, Ignes balançou a cabeça impaciente:
— Aqui é perigoso. Vamos pela direita!
Darius rebateu imediatamente:
— Não, esquerda! Ali é mais seguro.
Ignes arqueou a sobrancelha, zombando:
— Como você sabe? Essa arapuca de cabelo agora tem sensor?
— Não, só tenho cérebro. — Retrucou seco.
— Só isso? — ela provocou. — Nada de charme, nada de carisma, só cérebro? Que pena…
Ryo suspirou alto:
— Desculpa interromper a disputa de egos, nada importante, mas precisamos decidir rápido! Já está de noite, e eu não quero ficar vagando até amanhecer.
— Não vamos por ali de jeito nenhum — disse Ryn, apontando para uma passagem estreita iluminada por uma estranha luz azul.
— Pode ser interessante! — Ignes cruzou os braços.
Darius estreitou os olhos.
— Essa luz azul só pode ser dos cristais. Precisamos deles.
— Precisamos é sobreviver! — resmungou Ryn.
Ignes lançou um olhar afiado:
— Quer entrar aí, Rei da Cabeleira? Se der errado, eu te protejo de novo. — A provocação era clara.
— Vamos. — O comentário atingiu o ego dele.
— Que droga… tanta discussão entre eles e, justamente agora, vão concordar logo na forma de morrer… — murmuraram Ryo e Ryn, revirando os olhos.
— Não vamos morrer! — disseram Darius e Ignes ao mesmo tempo, encarando-se com expressão irritada ao perceberem a coincidência.
Os gêmeos suspiraram novamente.
— Ah, pronto… — cochichou Ryn. — Só falta eles se matarem antes de a gente morrer lá dentro.
O grupo avançou pela passagem iluminada, mas o chão traiçoeiro pregou-lhes uma peça. Pedras cederam e caíram por uma fenda.
— Cuidado! — gritou Ignes, tentando segurar um dos gêmeos que escorregavam nas pedras úmidas.
Darius se moveu para ajudar, mas acabou esbarrando em uma pedra incandescente. Seu braço queimou no impacto. Prendeu o grito na garganta, concentrando todo o Yin para conter os danos e o Yang para detectar perigos.
A queda os levou a uma câmara escondida no centro da Garganta.
O ar ali era mais fresco, e um lago cristalino refletia a luz dos cristais vermelhos e azuis nas paredes, lembrando escamas de dragões antigos. A água cintilava em tons vivos, quase respirando.
Ignes bufou, apontando para o lago:
— Passe água! Talvez ajude a refrescar.
— Será que não é perigoso? — Ryn questionou, encarando a água.
— Não olhe para mim, não sei. — Ignes deu de ombros. — Se der ruim, quem morre é ele.
— Qual é, sua doida! Quer me matar? — explodiu Darius.
Ignes rolou os olhos e lançou:
— Calma, bebê. Tenho isso para te ajudar a curar! — O frasco de cristal piscou no ar.
— Bebê? — Darius arqueou uma sobrancelha. — “Agora além de ‘Rei da Cabeleira’, virei um bebê? Um insulto.”
— Até morrer e além! — respondeu Ignes, sorrindo.
Darius se sentou no chão, exausto, passando o líquido pelo braço, aliviando parcialmente a dor.
O chão tremeu com uma violência desconhecida. A água do lago se agitou com força sobrenatural, espirrando contra as paredes da caverna. Uma sombra emergiu das profundezas, maior e mais terrível do que tudo que Darius já tinha visto.
A criatura era colossal e antiga, uma distorção de carne e sombra, com garras capazes de arrancar qualquer cabeça do pescoço e uma aura de morte tão intensa que parecia sugar o ar da Garganta. Cada músculo de Darius se enrijeceu. Cada fibra do seu corpo implorava por fuga, mas não havia para onde correr.
O rugido gutural da besta ecoou como um trovão infernal, reverberando pelo chão e pelas paredes, fazendo cristais despencarem do teto. Um calor sufocante e o cheiro de enxofre e podridão tomaram a caverna inteira.
A criatura avançou devagar. Um suor frio escorreu pela nuca de Darius. O ar parecia ter se solidificado em seus pulmões. Um zumbido agudo preencheu seus ouvidos, alto e desesperado. Suas pernas tremeram, ameaçando ceder a qualquer instante. O medo era absoluto, primitivo, esmagador. Cada movimento em falso podia ser o último. Pela primeira vez, Darius sentiu: O verdadeiro medo.