Darius a encostou contra a parede. O peito de Ignes subia e descia em respirações curtas e lentas; seu corpo ainda irradiava o calor das chamas que havia lançado para protegê-lo. Ele também sentia, em si, os efeitos da cura que recebeu dela. Trocaram um olhar rápido, uma confirmação silenciosa de que ela estava bem, antes que ele voltasse a se concentrar na Garganta em busca de qualquer sinal de saída, qualquer vestígio de ajuda. Enquanto avançava, sentia o corpo pesado, dolorido, os músculos trêmulos... tudo conspirava contra ele. Mas o medo de que o Arauto surgisse novamente o obrigava a seguir em frente.
Buscando o fluxo de Oryn ao redor, ele sentia a energia fria dos cristais, o calor residual da magia de Ignes, e um eco de vida, ténue, quase a apagar-se.
E então a viu: Nara. Caída, encolhida entre os cristais, quase sem forças, os olhos semicerrados, respirando com dificuldade. Darius se ajoelhou ao lado dela, sentindo o pulso fraco. Tocou-lhe o ombro com cuidado e murmurou:
— Ei, Nara... fica comigo. Você vai ficar bem.
Ela reagiu lentamente, piscando, recobrando a consciência, enquanto Darius a sustentava com gentileza.
— O que aconteceu? Cadê o Lior? — ele perguntou, com voz carregada de temor.
— Eu... eu não sei. Algo nos atacou... a floresta... parecia viva — lágrimas começaram a escorrer por seu rosto machucado. — Wagner acho que morreu, e se eu não tivesse caído aqui... teria morrido também. — Seus dedos se prenderam à manga da roupa de Darius, sua cabeça buscou apoio em seus ombros.
— Vai ficar tudo bem, vai ficar... — respondeu, levando-a para perto de Ignes, que ainda se recuperava da batalha. Sentaram-se juntos, e Darius respirou fundo, tentando encontrar alguma resposta para o caos ao redor.
Alguns minutos se arrastaram até que:
— Darius! Ele está aqui! — Ignes se ergueu, preparando-se para lutar, mas cambaleante caiu novamente sentada.
Nara, inconsciente, permanecia vulnerável. O peso da responsabilidade caiu sobre os ombros de Darius. Cerrando os dentes, punhos firmes, respirou fundo, olhando para as duas e se pós de pé. Sua capa estava em farrapos e sua roupa branca com detalhes de couro estava manchada de sangue por vários lugares, pois foi difícil chegar até ali. Mesmo diante das dificuldades, um pensamento único ecoou em sua mente:
"Eu vou protegê-las... custe o que custar."
E então o terror se materializou. Um vulto emergiu das sombras, carregando algo envolto em trevas.
— Ossi rop odnarucorp avatse rhones? — a voz cortante ecoou. (Senhor... você estava procurando por isso?)
Darius não conseguiu se mover quando o corpo foi lançado diante dele. O som seco ecoou como uma sentença. Seus olhos arregalaram, a respiração falhou.
Era Lior.
O rosto estava pálido, os lábios azulados, os olhos cerrados sem vida. A gargalhada que tantas vezes ecoava ao seu lado, a voz que sempre dizia “Obrigada por ter me salvado”, tinha sido silenciada para sempre.
Darius caiu de joelhos. O mundo sumiu ao redor. Sombras, calor, gritos: tudo se dissolveu. Só existia aquele corpo imóvel diante dele.
— Eu... eu sou um merda... um inútil — murmurou, soluçando enquanto se arrastava até o corpo a sua frente. — Eu devia ter ido com você...
A raiva, a culpa e o medo se misturavam em uma tempestade dentro dele. Outras sombras titânicas surgiram, avançando na direção das colegas. Nara foi erguida pelo pescoço, frágil, quase sem vida.
— Darius... faz alguma coisa! — a voz desesperada de Ignes ecoou. Ela tentou canalizar seu poder, mas o corpo falhou; a força ainda não tinha voltado completamente.
Com mãos trêmulas, Darius tocou o rosto do amigo. A pele já estava fria, como mármore . Passou os dedos pelos cabelos bagunçados, lembrando-se de quantas vezes Lior reclamava que não tinha tempo de cortar. Um soluço escapou, profundo, rasgando-lhe a garganta.
— Não... não pode ser... — murmurou. — Você não... você não pode...
As lágrimas caíam sem controlo, borrando sua visão. O seu peito queimava com uma dor física, como se uma mão invisível o estivesse o esmagando por dentro.
As lembranças invadiram-no, não como punhais, mas como fantasmas. O primeiro dia, naquela tenda, quando o Lior foi o primeiro a falar com ele, quando lhe ofereceu um pedaço de pão quando ele não era ninguém. A noite da vigília, sua voz dizendo: "você é o irmão que a vida me deu", palavras que o tinham feito sentir-se um traidor e, ao mesmo tempo, menos sozinho. Todas as provocações, os treinos, os sonhos que eles dividiram sob céus que não eram os deles.
E ele não esteve lá. Naquele último momento, ele não esteve lá.
E ele não estava lá para salvar seu melhor amigo.
Darius apertou as mãos de Lior contra a própria testa, soluçando como uma criança.
— Você não disse... que ia deixar um legado? Que ia matar o príncipe, me matar? Honrar seu irmão? Que ia ser um herói? Que ia vencer? — gritou, a voz rasgada. — Como você morre... sem cumprir sua promessa?
Sua garganta se fechou, secando, deixando apenas o gosto amargo . A dor era insuportável.
— Acorda, Lior... me mata, se for preciso, mas acorda! — implorou, o choro sufocando cada palavra. — Não pode acabar assim... não comigo do seu lado, não desse jeito...
O grito que saiu de Darius não foi humano; foi um uivo de alma despedaçada, ecoando pela Garganta como uma explosão de desespero. As sombras recuaram por um instante, como se até as trevas tivessem se calado diante daquela fúria.
A imagem do corpo de Lior não saía de sua mente. Cada decisão errada que tomou naquele dia repassava em sua cabeça, uma tortura sem fim. “Se ele tivesse ido com Lior... se não tivesse se deixado Rhazer o provocar...” O ar ficou pesado, e ele sentiu o próprio estômago revirar. “Se eu fosse um herói de verdade, você estaria aqui.” Mas não. A sua escolha estava ali, transformada em cadáver.
E a morte de Lior não era só perda. Era a sua condenação.
O Arauto grotesco avançava com passos frios e impassíveis. A Garganta ecoava gritos distantes, os cristais refletiam tons sangrentos e o chão tremia sob a presença das criaturas.
Mas algo começou a despertar dentro dele. A mistura de fúria, culpa e amor pelos amigos acendeu uma chama em seu peito. O corpo estava em frangalhos, o coração despedaçado, a mente em caos. Um poder que nunca havia sentido antes.
Darius olhou para as sombras que cercavam suas companheiras. A voz saiu firme, carregada de raiva:
— Solte a minha amiga agora! Ou eu juro que vou te destruir e esmagar você!
As sombras estremeceram diante da presença dele e recuaram, soltando Nara, que desabou no chão. Ignes correu até a amiga, dividida entre socorrê-la e guardar forças para lutar ao lado de Darius.
A tensão era sufocante. Pela primeira vez, Darius não lutava apenas por vingança; lutava por aqueles que amava. O mundo ao redor parecia cinza e sufocante, mas, no meio da dor, uma faísca de raiva e determinação se incendiou em seu peito. Ele passou a mão pelo rosto de Lior, como se dissesse silenciosamente: “Já volto... só me dá um segundo.”
O corpo mal respondia. Primeiro um joelho no chão, depois o outro, até que os pés se firmaram. Ele se ergueu.
Seu olhar se fixou nas sombras diante de si com a respiração pesada, os olhos firmes:
— Ignes, eu sei que você é teimosa, mas... saia daqui. — Ele não desviou o olhar da besta.
— Não vou! — ela respondeu, firme.
— Vaza daqui! Porque se o próximo corpo não for o de vocês, será o meu!
Ignes engoliu em seco.
— Não... você não vai morrer sem me agradecer por ter salvado a sua vida. Eu como princesa te proíbo.
Darius limpou o sangue no canto da boca e endireitou-se:
— Tá achando que eu sou quem? Estou logo atrás de você.
— Estou te esperando, Darius Kaelen — pela primeira vez o chamou pelo nome.
Ignes abaixou-se, pegou Nara, e a colocou enganchada no ombro. Juntas, desapareceram pela névoa da caverna.
................................... continua