Darius permaneceu imóvel, respirando fundo. O medo, a dor e a fúria misturaram-se no seu peito, forjando algo novo e terrível. Ele olhou para o corpo de Lior, depois para a criatura, e tudo se conectou.
— É por sua causa... — a sua voz ecoou, rouca e feroz, não apenas para o Arauto, mas para o mundo inteiro. — Por causa de criaturas como você, por causa da escuridão que vocês representam, que o meu reino foi destruído. Por causa do medo que vocês espalham, que os reis se tornam tiranos e os heróis se tornam genocidas.
Ele ergueu o queixo, as lágrimas secarem no seu rosto, substituídas por uma determinação gélida.
— Vocês... o mundo... tiraram tudo de mim. O meu lar. A minha família. E agora, o meu irmão. — Ele apontou um dedo trémulo para o Arauto. — Você não é o meu verdadeiro inimigo. Mas você será o primeiro a pagar. Eu juro que vou fazer cada um de vocês pagar por toda a dor que me causaram.
Ele fechou os olhos por um instante, respirou fundo e sentiu a força do ódio e da determinação crescerem como um rugido interno.
— Para sobreviver, não basta carregar um trauma... é preciso viver como se o mundo inteiro já tivesse acabado. Prepare-se, criatura... porque eu vou te despedaçar.
A Garganta mergulhou em silêncio profundo, rompido apenas pelo grito.
— Agora... vamos acabar com isso.
O Arauto não respondeu. Apenas sorriu, um sorriso deformado, sem lábios, desprovido de alegria, marcado pela confiança fria de quem já se via vencedor. O vento rugiu, levantando poeira e cacos de cristais quebrados. Os cabelos loiros de Darius escaparam do grampo, esvoaçando como se refletissem a luz que ainda restava nos cristais. O mundo inteiro parecia inclinar-se para assistir ao confronto.
Darius foi o primeiro a avançar. Ergueu as mãos, e a água que condensara do oxigênio, unida ao fio do riacho, respondeu ao seu chamado. Correntes sinuosas líquidas se contorceram, chicoteando em ondas sucessivas contra o adversário, cada uma mais violenta que a anterior.
O Arauto ergueu uma única mão. O ar se distorceu em volta dele, sombras negras formando redemoinhos invisíveis dissipavam a água antes mesmo de tocá-lo.
— Patético — murmurou, reverberando sem esforço algum.
Darius rugiu, erguendo uma massa inteira de água, tão densa que parecia um paredão prestes a esmagar tudo em seu caminho. Lançou-a com toda a força do desespero.
O Arauto apenas girou o punho. Uma rajada de sombras, cortante como lâmina, atravessou o ataque. O paredão explodiu em milhares de gotas, que caíram ao redor deles como uma chuva fria e cruel.
Ele estava perdendo terreno.
Criou muralhas de água. Foram despedaçadas.
Lançou lâminas de vento cortante. Completamente ignoradas.
Tentou envolver o Arauto em um redemoinho de vento, mas os tentáculos negros dissiparam tudo.
Forçou o gelo a se expandir pelo chão, mas o calor sob a terra derreteu em segundos.
Cada ataque desmoronava diante da presença implacável do inimigo. Todo esforço parecia inútil, e o peso da impotência esmagava seus ossos.
Sem pensar, renunciou aos poderes. O instinto falou mais alto.
Avançou no punho puro, um grito rasgando sua garganta.
O primeiro soco encontrou apenas o vazio; o segundo roçou o ombro pegajoso do Arauto, que não recuou nem um passo.
A resposta veio rápida.
Um chute certeiro no abdômen o lançou contra as paredes de cristal. Darius caiu de joelhos, tossindo, o gosto metálico do sangue e da saliva preenchendo sua boca. Ainda assim, se ergueu.
Avançou de novo. Um soco. Depois outro. E mais outro. Mesmo sendo repelido, mesmo com os músculos gritando, o rosto ardendo e o corpo implorando por descanso, ele não parou.
O Arauto bloqueava e devolvia os golpes com precisão fria, sem pressa, como se fosse apenas um teste. Até que, em meio à troca de socos, sua voz ecoou como trovão:
— Mostre-me sua verdadeira natureza, Mestre.
Darius arfava, com sangue escorrendo pelo canto da boca, cabelos grudados à pele pelo suor. Mas seus olhos azuis queimavam como brasas acesas na escuridão.
— Que fracote... como nosso senhor pôde confiar em um ser tão fraco? — a voz do Arauto reverberou pelas paredes de cristal. Darius conseguia entender bem os sons distorcidos, como se viessem de um da sua própria espécie.
Darius avançou com tudo, desferindo socos e chutes, mesmo sendo atingido a cada passo. Ele usou a água para endurecer os músculos, fortalecendo os punhos o suficiente para destruir uma parede inteira de cristais. Mas a armadura líquida temporária não serviu de nada quando os tentáculos sombrios o atingiram, esmagando sua defesa.
Tentou o vento, impulsionando os golpes para ganhar velocidade, mas nada funcionava. O Arauto permanecia implacável.
— Sua força vem do ódio... — a voz sombria soou como lâmina. — Então vou alimentá-lo.
Diante dele, um tentáculo negro se ergueu. Envolveu o corpo inerte de Lior. E, sem piedade, o lançou contra a parede.
Uma vez.
Duas.
Três.
Quatro vezes.
O som seco dos ossos quebrando reverberou pela caverna.
— NÃÃÃÃO! — o grito de Darius rasgou o ar.
Faíscas azuis explodiram ao redor dele, serpenteando como cobras elétricas. A luz cresceu, cegando o Arauto por um instante, enquanto o som agudo dos relâmpagos encheu a Garganta.
Quando o Arauto recuperou os sentidos, Darius já segurava o corpo de Lior, lágrimas se misturando ao sangue e suor.
Suas mãos ardiam, e delas explodiam raios instáveis, faiscando no chão, rasgando o ar.
— Chega!
O poder rugiu. O solo tremeu como se o vulcão despertasse, colunas de vapor e fagulhas explodindo ao redor como rios de lava em erupção. O coração de Darius disparava: não de medo, mas de força absoluta. Pela primeira vez, ele se sentia inteiro.
Naquele instante, não havia fronteira entre medo, raiva ou perda; tudo se fundia em pura potência. E então, um arrepio gélido rasgou a espinha daquele que, ironicamente, era chamado de monstro. O Arauto recuou, instintivamente.
— Mestre… o que foi esse sentimento? — sussurraram as próprias sombras, estremecendo como se reconhecessem em Darius não apenas um inimigo, mas algo mais terrível que a Criatura.
Darius abriu um sorriso feroz, com os cabelos erguidos pela eletricidade estática em um tom mais branco que o normal. Descargas elétricas chicoteavam o chão da caverna, soando como o cantar de cem mil pássaros em fúria.
— Deixa eu contar para você… até um demônio de alta classe sente medo!
O Arauto avançou, sombra condensada em terror. Mas Darius não recuou.
Desviou com reflexos sobre-humanos, colocando Lior um pouco adiante. Seus movimentos eram instintivos, ferozes. Cada soco vinha acompanhado por faíscas que queimavam as sombras. Cada chute fazia o chão estremecer, trovões ecoando sob seus pés.
— Todos sempre destroem tudo que eu amo! — rugiu — Mas agora... agora sou eu quem vai fazer o mundo sentir a mesma dor!
Quanto mais avançava, mais o Arauto parecia sentir medo, mas ao mesmo tempo se divertindo, desviando e bloqueando, como se testasse os limites do seu oponente.
Darius cuspiu sangue, cambaleou, mas se ergueu.
— Não importa quantas vezes eu caia... — sua voz tremeu, mas não cedeu. — Mesmo se meu coração parar de bater, eu vou continuar avançando. Fiz uma promessa... e não posso morrer aqui.
O Arauto não parava de atacar. O corpo de Darius ruía em dor e cansaço.
E, por um instante, em meio ao brilho dos raios e ao caos da batalha, o sorriso de Marsalla surgiu em sua mente: um lembrete do porquê ele lutava. Os joelhos rangiam sob a dor, mas o olhar fixo, com as íris elétricas, era de uma fera indomável.
As faíscas azuis explodiram como lanças, rasgando o ar. O poder corria descontrolado, mas pela primeira vez Darius não o temeu.
Ele avançou.
O vulcão explodia junto, como se a natureza inteira tivesse escolhido seu guerreiro.
Darius juntou água, vento e eletricidade em uma única investida.
O punho dele brilhou azulado, e quando o golpe acertou, uma explosão elétrica sacudiu a caverna inteira. Cristais estouraram, o chão tremeu, as sombras foram rasgadas como véu em tempestade.
O vulcão respondeu à luta. Fissuras se abriram, gases escaparam, a lava borbulhava, rugindo pelas paredes ao fundo de onde o Arauto estava. O calor invadiu a caverna, um poder que superava até mesmo os magos que mantinham o vulcão sob controle.
Mas o corpo de Darius estava exausto. Cada músculo ardia, e ele mal conseguia se manter em pé após o último ataque.
O Arauto se desfez num amontoado de carne escura e gosmenta, mas ia se refazendo devagar, enquanto Darius lutava para manter a consciência.
— É... impressionante — disse ele. — Você é forte, mas não... é... esse o seu limite. Você ainda pode ser muito mais. Desculpe, Mestre, mas preciso testar sua resistência.
Sem esperar resposta, o Arauto atacou com precisão mortal. Um golpe devastador que poderia acabar com qualquer ser vivo naquele instante. Darius tentou reagir, mas a única coisa que conseguiu foi desviar. Começou a rastejar, para junto do corpo de Lior para o canto da parede. Abraçou o amigo frio.
— É só isso? — a voz cruel do Arauto cortou o ar como lâminas afiadas. — Depois de tudo que você disse, depois de toda essa fúria... é só isso que consegue? Não consegue fazer mais nada?
Darius deixou Lior no canto e se lançou contra as pernas do monstro, tentando empurrá-lo, em vão. Então o mordeu. O gosto de carne podre invadiu sua boca.
Com um chute, o Arauto o jogou contra a parede. Preparava-se para o golpe final.
Darius fechou os olhos.
E esperou.
Mas o golpe não chegou...