O olhar dos dois se cruzou: havia rivalidade, mas também uma cumplicidade silenciosa. Ambos se voltaram para o monstro. O Arauto se contorcia, murmurando grotescamente:
— ...Ratul iav ertsem ueM. (Meu mestre vai lutar... meu mestre vai lutar...)
A criatura gemia num ronco gutural. Rhazer parecia não compreender, mas Darius captava cada nuance.
Ele avançou, moldando o ar em lâminas cortantes e a água em correntes afiadas. Jatos atingiam paredes e pedras, desviando fluxos de lava e abrindo passagem. Ao lado, Rhazer fez o chão estremecer: pilares de terra ergueram-se como estacas improvisadas, rasgando o solo. O Arauto era acertado, danificado, mas não derrotado.
Os dois tinham algo em comum: elemento vento. Ao combinarem forças, criaram um superataque. Correntes aéreas giraram em um redemoinho colossal, arrancando pedras soltas e arrastando o Arauto. A criatura precisou cravar tentáculos nos cristais do teto e no chão para se sustentar.
— Mais! — rugiu a criatura, zombando. — Lutem mais, meu mestre!
Darius bambeou os joelhos arfando, mas não cedeu. Com um gesto firme, ergueu uma muralha de água, tentando conter a aproximação da criatura. Recuperando o fôlego, girou o corpo em um movimento rápido, mudando de posição. Então avançou: socos imbuídos de vento cortante, chutes que erguiam pedras do chão e jatos d’água que se chocavam contra os tentáculos do Arauto, mantendo-o à distância.
Rhazer concentrou a terra sob os pés e ergueu várias estacas gigantescas, afiadas como espadas, as lançando contra o Arauto, que urrou e gritou. Um calor começou a emanar de seus punhos, quase queimando sua própria pele, até que rajadas de fogo surgiram ao redor delas, intensificando o ataque.
Sem trocar uma única palavra, Rhazer preparou um ataque pela direita, enquanto o vento de Darius já estava a girar pela esquerda. Eles criaram um redemoinho colossal de fogo e ar, arrancando pedras soltas, e o Arauto rugiu no meio do colapso. Tentáculos multiplicaram-se, sombras se torcendo e fundindo-se à lava incandescente. Cristais voavam como projéteis, labaredas escapavam das fissuras, e a caverna inteira parecia conspirar em favor da criatura.
A luta tornou-se um borrão de movimentos sincronizados. Rhazer empunhou a Stoneword, a espada cinzenta que cintilava em seu punho. Cada golpe da lâmina não apenas rasgava os tentáculos de sombra, como também deixava atrás de si um rastro de luz azulada que cauterizava as feridas, impedindo que elas se regenerassem. Dessa vez, o rugido do Arauto foi de dor.
Percebendo o perigo, a criatura concentrou sua fúria. Um tentáculo veloz atingiu o torso de Rhazer; ele ergueu a espada a tempo de evitar ser atravessado, mas a força brutal o lançou para trás. Cambaleante, seus dedos perderam firmeza, e a lâmina sagrada escapou de sua mão, tilintando contra as pedras. O Arauto não hesitou: com outro movimento, arremessou a espada para longe, como se quisesse bani-la da luta.
Durante o embate, uma verdade tornou-se inescapável: a criatura só seria derrotada se a lâmina fosse cravada em seu corpo. Não era uma espada qualquer, era a lendária matadora de demônios, forjada no fogo primordial e carregada de séculos de sangue. Um legado passado desde o primeiro herói de Stoneval, destinada apenas à linhagem Drymorth, guardiões da realeza.
Sem a espada, Darius e Rhazer reuniram forças mais uma vez. Eles se sincronizaram: um atacava, o outro já sabia o que fazer, alternando socos, chutes e joelhadas como se compartilhassem o mesmo instinto.
— Vou transformar esse monstro em suco de carne morta! — rugiu Darius.
— Não. Eu é que vou triturá-lo! — retrucou Rhazer, investindo junto.
O Arauto, porém, parecia se divertir. Seu corpo grotesco se recompunha a cada golpe, rindo de forma dissonante, alimentando-se da própria batalha. Ainda assim, os dois avançaram. O ar vibrava ao redor, suas energias ressoando em uníssono. Eles não queriam apenas feri-lo, tentavam abrir caminho até a espada caída. O Arauto bloqueava cada aproximação, mas Rhazer insistiu: emendou outro chute, agora imbuído de energia. O estalo foi seco e o fez recuar, mas não o suficiente.
Um murro certeiro de Darius rachou o piso. Rhazer aproveitou, saltou em uma voadora dupla e lançou a criatura contra a parede. Mas o Arauto se ergueu, rindo mais grave, como se se alimentasse do confronto.
O ritmo aumentava. Darius cintilava em linhas azuladas; cada soco aos poucos passou a faiscar eletricidade, rasgando o ar. Rhazer emanava calor intenso: músculos rubros, golpes carregados de fogo, vento e terra. Não lutavam apenas com músculos, mas com algo além do humano. Cada colisão gerava clarões, faíscas e ondas de calor, iluminando a caverna como se fosse dia. O chão tremia; a poeira subia em nuvens densas e ainda assim o Arauto resistia, derretendo e recompondo-se como uma massa viva e implacável.
Foi então que Darius viu a espada. Sem pensar, correu até ela. Era a única arma que realmente feria o monstro. Cambaleando, agarrou o cabo da lâmina amaldiçoada.
E o inferno entrou em sua mente.
A espada era mais pesada que qualquer metal comum, sugava sua energia e até sua alma. Ainda assim, algo profundo despertou dentro dele. Uma força instintiva e sombria percorreu seu corpo.
Rhazer, ao vê-lo empunhar a espada, arregalou os olhos. Reconheceu a vibração daquela arma proibida e o fato de que Darius conseguia segurá-la o deixou atônito.
“Impossível... Uma arma que só ressoa com o sangue Drymorth. Como...?”
Mas não havia tempo para respostas. Os olhos de Darius brilhavam com uma luz azul e sombria quando ergueu a lâmina.
Uma descarga elétrica explodiu do corpo de Darius, percorrendo os músculos como serpentes azuis até convergir na ponta da espada e dispersar. A lâmina amaldiçoada não apenas convergiu o poder, ela o multiplicou. Raios escuros se expandiram, reverberando pela caverna em ondas violentas que empurraram o Arauto alguns passos para trás.
Rhazer ergueu o braço. Entre seus punhos cerrados, uma esfera de fogo azul nasceu, sugando o oxigênio e tornando o ar em volta inflamável, prestes a explodir.
Eles se olharam por um instante. Os emaranhados de poder se fundiram em uma erupção brutal. O chão tremeu, cristais se estilhaçaram, e o calor atingiu níveis insuportáveis. A caverna inteira parecia prestes a ruir sob o impacto colossal.
Darius ergueu a mão esquerda, a livre, moldando água que se entrelaçou com as sombras que giravam ao redor de seu corpo e se fundiam à energia já condensada.
— Juntos — disse Rhazer.
— Até o fim — respondeu Darius.
Uma lança primordial nasceu, condensando vento, água, terra, fogo, eletricidade e trevas numa essência devastadora.
O impacto rasgou o ar como um trovão divino. Cristais estouraram, faíscas dançaram, e a caverna inteira prendeu a respiração diante da fúria concentrada. O ataque atravessou o corpo do Arauto em cheio; a criatura rugiu, fragmentando-se em pedaços que se fundiram à lava.
Mas o preço foi terrível. O vulcão despertou por completo. O chão vibrou em ondas sísmicas, e rochas incandescentes disparavam como projéteis e o teto começou a desmoronar. A energia acumulada ainda pulsava ao redor deles, queimando pele, músculos e até os ossos.
Rhazer ergueu uma barreira de terra circular, tentando protegê-los da pressão da erupção, mas não havia escudo capaz de conter tamanho poder. O magma borbulhava nas fissuras, labaredas subiam pelo teto, e o cheiro acre de enxofre queimava as narinas. A barreira se desfez sozinha, impotente diante da força da natureza.
Ajoelhados, buscavam ar com dificuldade. Cada músculo queimava; cada respiração parecia puxar brasas para os pulmões. Poeira, cinzas e fagulhas rodopiavam. O monstro havia desaparecido, mas uma voz ecoou, distante e sombria na mente de Darius:
— Mestre... outros virão... você precisa... ficar mais forte... controlar... o poder das sombras... outros... virão...
A voz desapareceu junto com a presença sombria. A lava avançava a cerca de dois metros.
— Quando te vi, pensei que fosse só um fracassado, mas até que você não é tão ruim — Rhazer disse ofegante.
— Você também não é tão ruim. Realeza.
— Não tão ruim? Tá maluco? — gargalhou sem timidez.
— Talvez eu nunca admita de novo, mas você é forte... até mais que eu. Mas vou te superar em um instante.
— Se continuar desse jeito vai levar uns mil anos.— Rhazer sorriu cansado.
— Isso é se a gente não virar torresmo — e Darius não mentiu vendo a lava se aproximar.
O riso ecoou tenso. O coração da montanha explodiu. Lava jorrou pelas encostas; colunas de fogo e fumaça tomaram o céu. O mundo ao redor simplesmente se desfez.
Então, uma luz dourada rasgou a escuridão. Luciel desceu como um raio, abrindo caminho na lava incandescente, como se o próprio vulcão se curvasse à sua presença.
— Vocês estão bem? — perguntou com um sorriso que fez o tempo parecer desacelerar. — Lutaram bem.
Sem esforço, pegou-os como quem carrega sacos de farinha, um em cada braço, e alçou voo em meio às colunas flamejantes.
Darius ainda murmurou um fraco “é” antes de desmaiar. Rhazer, sentindo o corpo ceder, resmungou:
— Já apagou… que fracassado.
E apagou em seguida. Luciel soltou uma risada curta e divertida:
— Tinham que ser da mesma família… Já não se fazem príncipes como antigamente.