A noite chegou, mas não trouxe escuridão. O céu de Ignel estava tingido de um laranja doentio, iluminado por duas fontes de luz: o brilho eterno do vulcão e as chamas altas da grande pira funerária. A madeira estalava, consumindo os corpos dos amigos e colegas que não retornaram; o calor que emanava do fogo não aquecia, apenas lembrava a todos da fúria que os havia levado. O ambiente era um necrotério a céu aberto, com dezenas de corpos alinhados, esperando as chamas.
Darius estava ajoelhado na terra batida, um pouco afastado da multidão. O mundo ao redor não existia. Ele não sentia o cheiro da fumaça ou o calor em seu rosto. Seu corpo estava um caco, cada fibra muscular gritava em agonia e os ferimentos abertos latejavam contra a roupa suja, mas ele não se importava. A dor física era um alívio comparada ao buraco que se abrira em seu peito.
De repente, a força em suas pernas cedeu. Ele deitou o tronco sobre os próprios joelhos, encostando a testa no chão pedregoso. Suas mãos fecharam-se em punhos e ele começou a bater contra a terra, uma, duas, várias vezes, como se quisesse abrir um buraco para se esconder ali com Lior.
— Desculpa... me desculpa... me desculpa... — as palavras escapavam em soluços violentos.
Ele começou a bater a cabeça levemente contra o chão, num gesto de puro desespero, os gritos antes contidos agora rasgando sua garganta em um uivo de alma despedaçada. Ele pedia perdão ao ar, às cinzas, ao amigo que nunca mais o ouviria.
Sentiu um arrepio gélido percorrer sua pele suada quando uma presença se aproximou. Sem dizer uma única palavra, Marsalla parou atrás dele. Seus olhos estavam vermelhos e inchados, as lágrimas lavando a fuligem de seu rosto. Com uma delicadeza infinita, ela estendeu uma capa pesada e a colocou sobre os ombros trêmulos de Darius. Ela não o abraçou, não disse que ficaria tudo bem; apenas se inclinou e encostou o rosto por um breve segundo no tecido da capa, deixando que ele sentisse que não estava sozinho naquele inferno.
Ao lado deles, Leonar aproximou-se de Ignes. A princesa estava de pé, rígida, com os punhos cerrados e o olhar fixo no fogo, recusando-se a deixar uma única lágrima cair na frente dos soldados. Leonar, com o rosto marcado pela exaustão, estendeu um lenço limpo na direção dela.
— Por que está me dando isso? — ela disparou, a voz ríspida, sem olhá-lo. — Eu não estou chorando.
— Eu sei que não está — respondeu Leonar, com uma calma paciente. — Mas, se precisar... está aqui.
Ignes finalmente o encarou, os olhos brilhando com uma dor que ela se negava a admitir.
— Você é um idiota intrometido, Leonar — murmurou ela, mas pegou o lenço, apertando-o com força contra a palma da mão.
Leonar apenas assentiu e se afastou silenciosamente, indo até Darius. Ele se ajoelhou no chão sujo ao lado do amigo e colocou uma das mãos firmes em suas costas, dando-lhe um aperto silencioso. Mikkel e o irmão, mesmo feridos, aproximaram-se também, ajoelhando-se ao redor de Darius. Em pouco tempo, o grupo formava um círculo apertado de apoio, um abraço coletivo no chão, onde a dor de um era dividida por todos. O peso das mãos dos amigos sobre Darius era a única coisa que o mantinha ancorado à realidade.
Mais afastado, envolto pela penumbra e pelo fumo, Rhazer observava tudo com os braços cruzados sobre o peito. Sua postura era rígida, a máscara de futuro imperador ainda no lugar, mas seus olhos verdes refletiam as chamas da pira com uma intensidade sombria. Ele não se aproximou, não ofereceu lenços ou abraços, mas seu olhar não saía do círculo formado ao redor de Darius. Ele analisava cada grama de dor do seu rival, respeitando o luto daquele que, por um breve momento na caverna, provou ser o único capaz de lutar ao seu nível.
O silêncio era pesado, quebrado apenas pelo crepitar das chamas que levavam embora o que restava de Lior e de tantos outros, deixando apenas o gosto amargo da cinza e a certeza de que nada jamais seria o mesmo.
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O clamor da cerimônia foi breve. Palavras de gratidão aos heróis, explicações vagas sobre o desequilíbrio do mundo. Ninguém precisava de detalhes. A verdade estava ali, queimando diante de seus olhos. Zayan, um dos mestres responsáveis pelo treinamento, ergueu a voz:
— Sobreviventes — começou ele, o tom grave e respeitoso. — Vocês não apenas enfrentaram o vulcão; enfrentaram seus próprios limites. Nossos esforços salvaram vidas, mas também despertaram horrores que ainda virão. É por isso que precisamos resistir. Lutando com bravura e coração, nós sobreviveremos.
O rei se aproximou, ao lado de Luciel, líder dos quatro exércitos. A espada de Luciel brilhou sob a luz do fim de tarde.
— Pela coragem, apresento as promoções de classe — anunciou.
Um por um, os jovens que se destacaram foram chamados; seus títulos de Aprendiz foram trocados pelo de Adepto. Marsalla, Leonar, Mikkel e os gêmeos receberam a honra em silêncio, o orgulho misturado à dor da perda.
— Ignes, princesa de Ignel. Pela sua ferocidade e controle sobre as chamas azuis, você é promovida à classe Nexus.
— Darius Kaelen. Pela bravura, pela capacidade de proteger e pelo poder demonstrado, você também é promovido à classe Nexus. — Darius já havia deposto no conselho, omitindo o poder do relâmpago e o poder negro. Ele deu um passo à frente, o corpo pesado pelo peso da culpa e das mentiras, o rosto ainda amarrotado pelas lágrimas, e apenas assentiu.
— Rhazer Drymorth — a voz de Luciel carregava um peso diferente. — Por sua liderança, poder e por enfrentar diretamente uma ameaça de nível superior, você é promovido à classe Mestre.
Rhazer cruzou os braços, um sorriso provocador surgindo nos lábios enquanto olhava para Darius.
— Eu ganhei.
Darius respirou fundo e se virou, percebendo a enorme distância que estava de seu rival. Depois das nomeações, todos se dirigiram para a tenda; se alimentaram em um banquete, embora a tristeza e o vazio superassem a fome. A entrada da tenda se abriu, e uma figura familiar fez todos se calarem. Gust entrou com sua aura de força contida. Darius e Rhazer se endireitaram.
— Vocês cresceram — disse ele, com a voz calma. Ele se aproximou e, num gesto inesperado, deu um peteleco na cabeça de cada um. — Tentem não morrer, moleques irritantes.
Rhazer não perdeu a chance.
— Culpa é dele. — Ele revirou os olhos. — E mestre, você mentiu, ele é fracassado e obviamente eu sou mais forte que ele.
Darius sorriu de lado.
— Pode até ser... mas eu vou te superar rapidinho. Fica só olhando.
— Dois idiotas! — Gust se afastou depois de parabenizá-los e se juntou com outros mestres.
A noite passou devagar, e os outros começaram a se dispersar. Darius estava no alto da colina onde ele e Lior costumavam fazer a vigília. O lugar onde, dias antes, eles haviam compartilhado o último pedaço de pão. Ele se sentou ali, abraçando os joelhos, o olhar perdido nas brasas da pira funerária que ainda queimavam ao longe.
O som das risadas e da celebração parecia vir de outro mundo. Dali dava para ver boa parte do reino de fogo; viu os moradores sorrindo, os colegas comendo. Marsalla estava tão linda aquela noite... Perto da saída do acampamento, na penumbra, estavam Gust e Rhazer. A conversa parecia séria. De repente, Darius viu Rhazer levar a mão à cabeça, um gesto de pura frustração ou desespero. O mestre disse algo mais, e o príncipe deixou os ombros caírem; a postura de imperador se desfez por um instante.
Um sorriso pequeno e maldoso surgiu nos lábios de Darius. “Ah, então até o grande herdeiro leva uma bronca”, pensou. A cena o alegrou de uma forma mesquinha, e ele decidiu que aquele era o momento perfeito para interromper. Ele se levantou desceu de onde estava e caminhou na direção deles fazendo barulho propositalmente ao pisar nas pedras soltas.
Gust o viu se aproximar e fez um sinal para Rhazer, encerrando a conversa. O príncipe se virou, e por um segundo, seus olhares se cruzaram. O rosto de Rhazer estava pálido, a expressão vazia, como se tivesse envelhecido dez anos naquele minuto.
— O que foi? Herdeiro levou uma bronca?
— Não viaja! — Ele passou por Darius sem dizer mais palavra.
Darius ficou olhando para as costas dele; sua provocação não havia funcionado.
— Nossa... — ele murmurou para si mesmo, confuso. — Ele gosta tanto de falar e nem me chamou de fracassado.
— Você precisa de alguma coisa, Darius? — a voz de Gust o tirou de seus pensamentos. O mestre o encarava, com o seu único olho parecendo enxergar através da sua alma.
O semblante de Darius ficou sério.
A brincadeira havia acabado. Era a sua vez.
— Mestre... preciso te perguntar. Eu... eu continuo tendo pesadelos. Sobre a queda... sobre o Arauto. Suas visões... — a voz de Darius era baixa, quase um apelo. — Você viu alguma coisa? Sobre mim? Sobre o meu futuro? Eu preciso saber de qualquer coisa.
Gust permaneceu em silêncio por um longo momento.
— Darius, tem coisas que não precisam ser ditas. Elas precisam ser vividas. Mostradas. — Ele pôs a mão firme no ombro do antigo aprendiz, o olhar mais intenso do que nunca. — Siga o conselho do seu velho mestre. O que você precisa agora não são respostas; é um caminho. Vou conseguir uma licença especial para você. Um tempo para se afastar de tudo isso. Volte para onde tudo começou.
— Nerevia? — Darius perguntou.
— Sim, vá para as ruínas. Volte para sua terra natal — Gust fez uma pausa — se é que aquele lugar é mesmo a sua terra natal.