Onze meses haviam se passado, e a cada dia Elize crescia; sua fome tornava-se mais voraz. As aves marinhas e os pequenos animais que Darius caçava nas ruínas e nas fronteiras já não eram mais suficientes; serviam apenas como petiscos que deixavam a jovem dragão ainda mais impaciente. Ele precisou partir logo dali.
Forçado pela necessidade, buscou uma nova fonte de informação. Por isso, ao entardecer, aproximou-se de um dos pequenos acampamentos de refugiados que libertara semanas antes, movendo-se pelas sombras. Ele não foi para pedir, mas para ouvir. Naquele mundo destruído, os sobreviventes, sempre atentos e acuados pelo medo, haviam se tornado os melhores batedores. Eles sabiam onde as criaturas se moviam e, com sorte, onde um rebanho perdido de cabras selvagens poderia aparecer.
Ele se escondeu nas sombras de uma capela em ruínas, enquanto o vento trazia fragmentos de conversas aterrorizadas. Não falavam de comida ou de reconstrução. Falavam de medo.
— Levaram mais cinco ontem à noite — sussurrou uma mulher, com a voz embargada.
— Príncipe de merda — cuspiu um homem. — Vão sacrificá-los na Floresta das Sombras.
Darius não esperou para ouvir mais. A menção à floresta foi o suficiente. Ele deu as costas ao acampamento, com a raiva em seu peito, e mergulhou na escuridão. O ar na Floresta das Sombras era gelado, antinatural, e as árvores se contorciam em formas grotescas, com seus galhos como ossos quebrados apontando para um céu sem estrelas. Ele se moveu sem som, um fantasma em sua própria casa amaldiçoada, seguindo o rastro de poder sombrio que pulsava adiante.
Um cântico baixo e gutural o guiou até uma clareira profana. Ali, sob a luz doentia de tochas improvisadas, ele encontrou a cena. Um círculo de homens encapuzados, seguidores do Falso Príncipe, balançava em transe. No centro, as crianças choravam, amarradas. E diante delas, uma criatura que pareceu ter rastejado para fora de um pesadelo. Era alta, esguia, envolta em uma mortalha de sombras esfarrapadas, mas o que fez o sangue de Darius gelar foram as mãos do monstro. Os dedos eram longos, finos como agulhas, e terminavam em garras de obsidiana com mais de trinta centímetros que brilhavam com uma luz maligna.
Era o Ceifador de Almas. Nível 1
A criatura agarrou a última das crianças; seus movimentos eram desprovidos de fúria, marcados por um propósito frio e metódico. Ela ergueu uma de suas garras e, com uma precisão cirúrgica, perfurou o peito do menino. A ferida não jorrou sangue. Em vez disso, uma fumaça negra, densa como tinta na água, começou a fluir da garra para dentro do corpo da criança. O menino parou de gritar. Seu corpo ficou mole e, quando o Ceifador o soltou, ele permaneceu de pé. Os olhos, antes cheios de terror, estavam agora abertos e completamente brancos.
Vazios. Uma casca.
A luta acabou antes de começar, e o silêncio que se seguiu foi mais aterrorizante que qualquer grito. Darius assistiu, paralisado, enquanto ele era feito com as outras crianças. Os movimentos delas tornaram-se espasmódicos, antinaturais, como os de marionetes com as cordas arrebentadas. E os olhos brancos o encaravam sem ver, uma acusação mais profunda que qualquer palavra. Ele viu o rosto de Amelia, agora uma máscara de cera sem expressão.
Uma onda de náusea o atingiu com força, a bile ácida subiu por sua garganta. Não era apenas nojo. Era o veneno de sua própria falha que agora corria em suas veias. Ele, o príncipe. O protetor letal. O vingador. E ali estava o resultado de seu poder: cinco almas roubadas que ele não conseguiu salvar.
Darius viu sua irmã, Anya, no rosto de Amelia. Viu Lior no lugar do menino marcado, Léo. Viu cada criança inocente que morreu em Nerevia. Eram fantasmas que ele colecionava, fracassos que usava como armadura. Ele preparou-se para matar monstros, soldados e até mesmo reis. Mas nunca, em seus piores pesadelos, imaginou que mataria crianças.
Havia esperado para saber o que aconteceria, acreditando que precisava identificar o responsável para que aquilo não voltasse a ocorrer. Mas ao se dar conta e lembrar que dissera para aquelas crianças que elas estariam seguras, a verdade o esmagou. Não estavam! Jaziam mortas em sua frente, e ele não fez nada.
Darius ergueu sua espada, e a lâmina pareceu pesar uma tonelada, pesada como a lápide de sua própria alma. Seu rosto não era uma máscara de dor; era a própria dor esculpida em carne e osso. Ele veio para salvá-las, mas, naquele mundo cruel, às vezes a única salvação que se pode oferecer é a morte.
As lágrimas que escorreram por seu rosto não foram silenciosas. Foram quentes e ácidas, queimaram sua pele como o ferro que marcou aquelas crianças. Cada passo à frente foi uma agonia, como caminhar sobre vidro quebrado, rasgando seus pés e sua alma. Ele não avançou como um salvador, mas como um carrasco, arrastando-se para seu dever mais abominável.
Ele tentou não olhar para os rostos, mas foi inútil. Imagens de como elas poderiam estar vivas — rindo, correndo, chorando — explodiram em sua mente a cada batida de seu coração.
Primeiro, ele matou os seis soldados que as levaram até ali. Depois, eliminou a criatura, rápido como um relâmpago. Na vez das crianças, precisou matar seus próprios sentimentos. O primeiro golpe foi o mais difícil. O som do aço foi abafado, quase irreal. Depois veio o segundo. O terceiro. Ele estava libertando-as da única maneira que ainda podia. Um ato final de misericórdia tão terrível que ele sentiu os últimos resquícios de sua humanidade se estilhaçarem.
A quarta criança pendeu. Quando a última casca vazia caiu, ele ficou parado, sozinho em meio aos pequenos corpos. O silêncio retornou, absoluto e esmagador. Darius caiu de joelhos na terra ensanguentada, o corpo tremendo em espasmos incontroláveis. Abaixou a cabeça e o som que saiu de sua garganta não foi um soluço; foi o uivo quebrado de uma alma se partindo.
Ele ergueu o rosto para o céu escuro de Nerevia, as lágrimas ácidas ainda traçando caminhos em sua face suja pelo sangue que ele mesmo causou. A voz dele foi um sussurro, um juramento feito aos fantasmas que o assombrariam para sempre:
— Eu juro. Eu juro. Juro de verdade pela minha alma que vou vingar vocês.
A noite e a tempestade chegaram juntas. Para Darius, eram aliadas. O tempo dele havia chegado.
Ele se moveu pelos corredores escuros do castelo como se fosse parte da própria escuridão, uma lâmina silenciosa para cada guarda que cruzou seu caminho. Um corte rápido aqui, uma adaga arremessada ali. Nenhum alarme soou. Nenhum grito ecoou. Era a morte chegando na ponta dos pés, deixando um rastro de corpos ainda quentes para trás.
Ele escalou a torre até a janela dos aposentos reais. O vento uivou, tentando arrancar sua capa, mas ele se moveu com a agilidade de uma aranha, entrando no quarto como um sussurro de mau agouro. O homem de cabelos ruivos, o "Falso Príncipe", dormia em uma cama que um dia pertenceu ao pai de Darius. O quarto cheirava a vinho barato e arrogância.
Darius parou no meio do cômodo, uma silhueta negra contra os relâmpagos que cortaram o céu. Sua capa preta, encharcada de água e sangue, pingou pesadamente no tapete real. Um trovão iluminou seu rosto, revelando o brilho gélido de seus olhos azuis e os fios de cabelo loiro colados à testa.
O usurpador acordou com um sobressalto. Sentou-se na cama, embriagado, demorando segundos preciosos para entender que a morte o encarava. Darius ficou parado, apreciando a cena, imaginando como estraçalharia aquela carne podre. “Se eu não amasse a Elize, talvez a deixasse comer”, pensou com desprezo. Mas descartou a ideia; aquele homem era tão fétido que causaria um estômago ruim até em uma criatura criada pelo caos.
— Quem é você? — gaguejou o homem, tateando a espada ao lado da cama. — Quem ousa...
— Você dorme no quarto do meu pai. Senta-se no trono dele. Usa o título dele — a voz de Darius foi baixa, calma e mais aterrorizante que qualquer grito. — E ainda pergunta quem eu sou?
O homem inflou o peito em um ato patético de coragem.
— Você não sabe com quem está falando! Saia daqui fantasma! Eu sou o príncipe deste reino!
Darius deu um passo à frente, saindo das sombras, e puxou o capuz para trás.
— Não, você não é o príncipe — disse ele. — Porque eu sou Eryons Draven.
O usurpador ficou branco, como se visse um espectro real. O nome o atingiu como um golpe físico.
— Eu prometi a mim mesmo que traria a paz de volta a este lugar — continuou Darius, aproximando-se lentamente, a voz um sussurro gélido que cortou o som da tempestade. — E por onze meses, eu cacei os monstros que você deixou correr soltos. Agora, só falta o maior deles.
O terror nos olhos do homem alimentou o desprezo no peito de Darius. “Eu não sou mais aquele menininho assustado que fugiu enquanto tudo queimava. Eu sou um vingador.”
— Eu estou a mando do Rei! Você não pode me tocar! — gritou o usurpador.
— Diante de mim, você não é nada! Eu sou o Desbravador de Mundos. E você... você é só uma pedra no meu caminho. A última que sobrou.
Ele parou ao lado da cama.
— E você sabe o que eu faço com uma pedra no caminho? — A espada de Darius deslizou da bainha; a lâmina negra absorveu a pouca luz do quarto. — Eu a esmago.
Um grito de pânico tentou escapar da garganta do usurpador, mas Darius foi mais rápido. Com uma velocidade antinatural, enfiou a ponta da espada na boca aberta do homem, pressionando a língua contra o fundo da garganta. O grito morreu em um som gutural e engasgado. Com um único e cruel movimento lateral, ele decepou a língua do homem.
O usurpador debateu-se, afogando-se no próprio sangue; o terror em seus olhos tornou-se absoluto, com veias saltadas e pupilas dilatadas. Em pânico, ele rolou para fora da cama, tentando arrastar-se pelo chão. Não foi longe. Darius surgiu atrás dele como um vulto. Com um corte preciso e desapaixonado, cortou o tendão de Aquiles do homem. Um estalo úmido e elástico ecoou no quarto. A perna cedeu, inútil. O homem desabou, mudo e aleijado, deixando um rastro rubro e viscoso enquanto tentava fugir.
Sua última esperança foi uma adaga sob a cama. Antes que seus dedos roçassem o cabo, a bota pesada de Darius desceu sobre sua mão. O som de ossos se partindo foi nauseante. O homem convulsionou. Sem hesitar, Darius ergueu a espada e perfurou a mão esmagada, pregando-a ao assoalho de madeira com um golpe seco.
Agora, ele era um animal preso, sangrando e esperando o abate. Darius ajoelhou-se ao seu lado, com o rosto impassível.
— Isto é pelas crianças que você marcou — sussurrou, desprovido de emoção. — Pelas almas que você roubou. Por cada pedaço de Nerevia que você profanou com sua existência patética.
Ele ergueu a espada. O usurpador fechou os olhos, as lágrimas misturando-se ao sangue no rosto.
— E isto... — continuou Darius. — É por se atrever a sentar no trono do meu pai.
A lâmina desceu em um arco violento.
Darius ficou de pé, olhando para a cabeça separada do corpo no chão. Olhou para as próprias mãos, cobertas pelo líquido vermelho que ele acabara de derramar com tamanha frieza. Não sentiu triunfo. Não sentiu alívio. Não sentiu nada. E essa ausência de sentimento foi a coisa mais aterrorizante de todas. Aquele ato não pareceu vingança; pareceu... natural.
Uma certeza venenosa formou-se no fundo de sua mente: ele não precisaria se tornar um demônio. Ele já era um, há muito tempo. Por causa dele e através dele, a desgraça ganhou vida. Então, ele traria o desfecho definitivo, mesmo que precisasse morrer para isso.