*De volta ao presente *
Vestígios da batalha ainda flutuavam no ar, pairando sobre as águas do mar como uma névoa espessa e amarga. A espuma escura se espalhava, teimando em não se dissipar. Do alto da colina onde um dia se ergueu o grande salão de treinamento, Darius observou o que restou de Vórtex. A destruição foi quase absoluta. Mais da metade da montanha havia se transformado em esqueletos de pedra, e a enseada, antes de um azul vibrante, agora jazia coberta por uma baba negra e oleosa que se agarrava às rochas.
A vista que ele tanto amava, as falésias que um dia admirou em silêncio, já não existiam. E, se continuasse assim, nada mais existiria. Nem mesmo um lar para onde as pessoas pudessem voltar. “Tudo na vida dele, no fim, se tornava cinzas.”
Ao seu lado, Elize repousou o corpo maciço e imponente, com o brilho das escamas suavizado pela poeira. Ela soltou um som baixo, um murmúrio grave, como se sentisse o peso que habitava nos pensamentos de Darius. Ele passou a mão pelo pescoço do dragão, sentindo o calor e a textura das escamas, suaves e firmes como rocha viva.
— Vá — sussurrou, com a voz rouca. — Voe um pouco. Eu te chamo quando precisarmos partir.
Elize ergueu a cabeça e o fitou com os imensos olhos dourados, relutante. Ele sorriu, um gesto cansado, e encostou a testa na dela. Foi um toque silencioso, uma conversa feita de emoções, sem palavras. “Eu preciso de um momento. Ficarei bem.” Ela respondeu com um leve roçar contra o peito dele antes de se afastar, abrindo as asas que cortaram o vento com imponência. Num bater de asas, ela sumiu entre as nuvens cinzentas.
Darius voltou o olhar para a devastação. Sentiu uma presença se aproximar com passos firmes sobre as pedras soltas.
— Minha visão mostrou um fim diferente para hoje — disse Gust, parando ao seu lado. Seu único olho varreu o horizonte destruído antes de se fixar em Darius. — Zambo foi ferido mortalmente, levaram a chave... e ainda assim, estamos todos vivos.
Darius não disse nada; continuou olhando para o mar. Gust suspirou, um som quase inaudível contra o vento que passava forte por eles.
— Não aconteceu ainda, mas eu vi a morte dele. O destino escreveu uma sentença, e você chegou e a rasurou. Isto te diz alguma coisa?
Darius desviou o olhar por um instante, chutando uma pequena pedra da beirada do penhasco.
— Mais ou menos — morreu ali sua resposta.
— O futuro não é uma linha reta — insistiu Gust, voltando a olhar para o horizonte. — É uma escolha. Cada passo, cada decisão muda tudo. Então... o que você vai fazer, Darius?
Um meio sorriso amargo tocou os lábios de Darius.
— Mesmo se eu te contasse, minha decisão não mudaria. — Ele ergueu o queixo, o olhar encontrando o de seu mestre. — Como alguém irritante me disse uma vez... eu só preciso agir, não choramingar.
A provocação pairou no ar por um momento. Então, a leveza sumiu do rosto de Darius, substituída por um peso que pareceu envelhecê-lo. A voz dele saiu quase como um sussurro.
— Mestre... você sempre soube quem eu era?
Gust não respondeu de imediato. Apenas o observou e, então, assentiu lentamente. Foi tudo o que Darius precisou. Pela primeira vez desde que deixou Nerevia aos dez anos, ele sentiu que alguém poderia compreender o abismo que tinha se aberto dentro dele.
Ele contou. Contou sobre a viagem a Nerevia, sobre o usurpador e as crianças. Sobre o bunker, sobre os diários de seu pai, o Rei Alaric. Falou da fraqueza de um homem, do desejo por um herdeiro e do pacto profano. Contou da troca: a Primeira Chave por um filho que carregaria o sangue de um demônio. Gust ouviu tudo em silêncio; seu único olho nunca se desviou de Darius, absorveu cada palavra, cada tremor na voz do rapaz.
— ...e eu sou o pagamento — concluiu Darius, com a voz finalmente quebrando. — Eu sou a marca do pacto. É por isso que os entendo. É por isso que o Arauto me chamou de Mestre. A escuridão não está só ao redor. Ela está em mim.
Um longo silêncio se instalou entre os dois, quebrado apenas pelo vento.
— Eu consigo ver muitos destinos..., mas você, Darius, sempre foi um borrão em minhas visões — disse Gust, com um leve sorriso triste nos lábios. — Agora entendo o porquê.
Ele se aproximou e pousou a mão pesada sobre o ombro do rapaz, um gesto de quem deposita o peso do futuro ali.
— Não olhe demais para o abismo... ou o abismo acabará olhando de volta para você. As coisas podem ter um sentido diferente, depende da perspectiva que é vista.
Darius enrijeceu, puxando-se de volta da vulnerabilidade para a realidade da guerra.
— A Chave foi levada. E há novas criaturas. Precisamos reunir o Conselho.
— Talvez a melhor arma para caçar um demônio... seja outro demônio — murmurou Gust, dando um passo para trás. — Vou indo na frente preparar o terreno. Te espero no que restou do palácio.
— Preciso passar em outro lugar antes.
— Eu sei. — Gust fez uma pausa. — E não tenho nada a ver com isso, mas... lembre-se que algumas batalhas não se vencem com espadas.
— Certo, mestre — disse Darius, com a voz apreensiva. Ele entendeu perfeitamente sobre quem ele estava falando.
— E, Darius... não é sua culpa. Você é apenas a consequência.
Gust virou-se, caminhando lentamente pela trilha devastada. Antes de desaparecer na névoa, parou e olhou por cima do ombro.
— E aliás, você ficou forte. Como seu mestre, estou orgulhoso.
Gust partiu, deixando Darius novamente sozinho com o peso de um mundo em seus ombros. Ele se virou e começou a caminhar na direção guiada pelo som de gemidos e pelo cheiro de ervas curativas.
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Ele quis ver seus amigos, mas um nó se formou em sua garganta. “Como os encararia agora que sabia o que era? Como reagiria ao calor da amizade deles, sabendo que era uma bomba-relógio?” Ele precisou matar esses sentimentos, um por um. Se o seu destino era a morte, se o seu sangue era a chave para fechar o inferno, então ele não podia se dar ao luxo de amar. Não podia arrastá-los para o luto de um fantasma.
Ele parou na entrada da tenda médica improvisada. O ar ali dentro era denso, uma mistura de suor, sangue e esperança. E em meio ao caos de macas e bandagens, ele a viu.
Marsalla.
Ela não estava deitada. Seu braço quebrado estava imobilizado em uma tala. Estava pálida e visivelmente exausta, mas estava de pé, com o rosto concentrado enquanto ensinava a jovem Maya a limpar um ferimento. Naquele gesto, naquela resiliência teimosa, Darius viu uma força que envergonharia exércitos inteiros. Um calor involuntário floresceu em seu peito, e um pequeno sorriso, quase imperceptível, tocou seus lábios antes que ele pudesse contê-lo.
Foi como se ela sentisse seu olhar. Marsalla se virou e, ao vê-lo ali, parado como um espectro, a tensão em seus ombros pareceu se dissipar por um instante.
— Darius... — Um sorriso cansado, mas genuíno, iluminou o rosto dela.
Ela se aproximou, e a armadura de gelo que ele construiu ao redor do próprio coração começou a rachar.
— Mas como já está de pé? Desmaiou em meus braços, pensei que dormiria por um tempo considerável.
— Eu estou bem — respondeu ela, com a voz suave. — Há outros piores do que eu. Preciso ajudar agora.
Ele ficou em silêncio por um momento, apenas olhando para ela, para a força que emanava de sua exaustão.
— Você ficou forte, Marsalla.
As bochechas dela coraram, um contraste vívido com a palidez de seu rosto. Ela desviou o olhar, afastando uma mecha de cabelo da testa, um gesto que ele achou adorável.
— Você também.
Um momento de silêncio se instalou entre eles, frágil e carregado de um ano de saudades. Ela ergueu o rosto novamente, com o olhar sério, expressando a decisão tomada em seus olhos verdes.
— Darius, eu... preciso te contar uma coisa — ela começou, com a voz um pouco trêmula.
“Não”, gritou uma parte dentro dele. “Não faça isso. Não me faça querer ficar.”
— Eu preciso ir — ele a cortou. A frieza em sua voz foi tão súbita e cortante que a fez recuar um passo, como se tivesse sido atingida. A luz nos olhos dela vacilou, e a dor e a confusão que surgiram ali foram um golpe físico para ele.
— Não, espera — insistiu ela, a voz agora um apelo. — Eu quero muito te falar uma coisa.
Ele não conseguia olhá-la nos olhos. Se fizesse, desmoronaria. Ele também a queria. Queria dizer a ela como se sentia, como a presença dela era a única luz naquele inferno, o único lar que ele queria estar era entre os braços dela. “Mas não seria justo.” Declarar seus sentimentos e depois abandoná-la para a morte que ele planejava para si mesmo era uma crueldade que ele não cometeria. Era melhor a dor de uma lâmina fria agora do que a agonia de uma ferida aberta para sempre.
— Depois — disse ele, com a voz dura como pedra. — Depois a gente conversa.
Ele se virou e se forçou a caminhar para longe; cada passo foi uma tortura. Deixou-a ali, parada no meio da tenda, com as palavras presas na garganta e o coração na mão. Foi a coisa mais difícil que já havia feito. E, em sua mente distorcida, o ato mais puro de bondade que ele ainda era capaz de oferecer a ela.