Darius entrou no que restava dos aposentos reais sem ser anunciado. O ar cheirava a poeira, ozônio e à fumaça que ainda subia das ruínas de Vórtex. Luciel, de pé ao lado da Rainha Diana, enrijeceu, com a mão instintivamente no punho da espada. Gust já o esperava, uma silhueta imóvel encostada em uma parede sombria. No canto, Zambo estava deitado, com o rosto pálido, enquanto o jovem curandeiro, Alexander, trocava suas bandagens. Os olhos de Zambo, no entanto, estavam abertos e se fixaram em Darius, dando um aceno de cabeça para o antigo aluno.
— A gente precisa conversar — disse Darius. Não foi como um pedido; foi como uma ordem. Seu olhar passou por Luciel e pousou na rainha. — A Terceira Chave foi roubada.
Diana, com os olhos fundos e o corpo coberto por bandagens, mantinha a postura real intacta e assentiu para um Luciel visivelmente tenso. Com a voz fraca, ela relembrou a história junto com Darius e Gust: a Lâmina do Equilíbrio, a divisão das Quatro Chaves para selar o Rei Demônio e o juramento de cada reino. Luciel passou a mão pelo rosto; algumas verdades ele não tinha conhecimento, afinal não era da família real, mas acompanhou em silêncio junto com Zambo, sem protelar.
— Onde houver ego e a sede por poder, sempre haverá a semente do fracasso humano — afirmou Gust, sua voz grave cortando o silêncio. — A disputa por domínio é uma rachadura na alma do mundo.
— Desculpem, Zambo e Luciel — disse a princesa, percebendo a confusão dos colegas. — Só queríamos manter a paz — afirmou, sentando-se na poltrona.
— A paz? — Darius interveio, a voz carregada de um escárnio gélido. — Vocês chamam de paz o ato de trancar o povo em uma gaiola? Eu li os diários, Diana. Eu sei sobre a névoa. Sei que vocês e os outros Reis diminuíram o mapa e esconderam o resto do mundo para vigiar uma tumba. Até quando pretendiam mentir?
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Diana desviou o olhar, incapaz de sustentar o confronto.
— E o placar não está a nosso favor — completou Darius, voltando à realidade brutal. — A Primeira, em Nerevia, foi a que abriu o portal. A Segunda, em Ignel, se corrompeu. E agora, levaram a Terceira. — Ele fez uma pausa, com o olhar varrendo cada rosto. — Só resta a de Stoneval.
A rainha o encarou, com a voz trêmula.
— E você... como sabe de tudo isso?
Darius sorriu, um gesto sem humor, frio como as cinzas lá fora.
— Eu não sou ninguém. Sou só a sombra que limpa a sujeira que os reis fazem.
— Chega — disse Luciel, dando um passo à frente. — Chega de segredos. Está na hora de pôr todas as cartas na mesa. — Ele olhou para a rainha e depois se virou para Darius. — Nós, grão-mestres, sabemos quem você é, Eryons Draven. Sempre soubemos. Diana não participa dos treinamentos e nem do conselho, por isso não tinha conhecimento.
O ar na sala ficou pesado, elétrico. Darius arqueou a sobrancelha, confuso. Alexander congelou, com a mão pairando sobre o ferimento de Zambo, com os olhos saltando de Luciel para Darius.
— É procedimento padrão mapear a energia de toda criança nobre ao nascer — explicou Luciel. — Mas você foi a exceção. A história oficial era que você era uma criança frágil, mantida em segredo, que só foi apresentada ao reino aos três anos. Foi aí que mapeamos você pela primeira vez. Então, quando chegou em Vórtex, sabíamos que o príncipe havia sobrevivido. Decidimos não intervir, para ver o homem em que você se tornaria. Nosso objetivo sempre foi alcançar a paz.
— A paz? — riu sarcástico, apesar de não duvidar da seriedade. — Vocês nos mantiveram cegos para os outros continentes e agora se surpreendem que o Caos encontrou uma fresta?
— Pode não acreditar. Eu e Rhanzur, quando pedimos desculpas no passado, falamos sério.
— Vocês mataram meus pais, destruíram meu reino, devastaram a minha vila e profanaram até o nome "Nerevia".
Luciel olhou pela janela quebrada para a destruição e soltou um longo suspiro em sinal de resposta.
— Eryons ou Darius, nada está acima dos reinos e da verdadeira paz — completou a Rainha Diana. — Rei Rhanzur sempre quis dizer a verdade, mas os líderes dos três reinos optaram por manter segredo; tínhamos medo de anarquistas. E sobre os mapas... foi um pacto de mil anos. Achamos que o esquecimento seria nossa melhor defesa. E quando recebemos a denúncia do Rei Alaric, foi um choque para nós; ele era um bom homem — ela terminou cabisbaixa.
— Sim, era um bom homem — Darius respondeu; a culpa o consumiu, mas não podia assumir a responsabilidade de tudo. Olhou para Gust, que acenou negativamente.
— Nossas ações para evitar a guerra podem ter sido exatamente o que nos trouxe até aqui — Gust completou, mudando o assunto.
Darius soltou uma risada seca e amarga.
— O Caos não é uma criatura que espera um convite. Ele é como fogo, e o Equilíbrio é uma floresta seca. Ele se alimenta das nossas falhas. A inveja e a fraqueza do meu pai... e eu? Fomos o que terminou de secar a madeira, a ambição dele foi a primeira faísca. O Caos não é o culpado. Ele é a consequência inevitável da nossa arrogância.
Ele fixou o olhar em Luciel, e havia um pingo de ironia cruel em seus olhos.
— E as suas ações para "impedir a guerra"? Sua decisão de me observar em segredo, de tentar controlar o jogo sem nunca intervir de verdade? Isso não foi sabedoria. Foi jogar óleo na floresta seca, garantindo que o fogo se espalhasse mais rápido.
— O Caos somos nós. O Lorde Demônio e seu exército é apenas o nome que damos, a desculpa que inventamos ao inferno que nós mesmos criamos — a rainha finalizou.
Da cama, a voz de Zambo soou rouca, mas com o peso de uma vida de batalhas.
— Precisamos criar um plano. Rei Rhanzur vai nos receber; a grande parte das pessoas de Ignel já evacuou para lá, faltamos nós.
— O que tinha que acontecer, aconteceu. Fizemos o que podíamos para adiar, não é? — afirmou Luciel.
Gust virou-se lentamente, observando todos, mas o olhar parou na irmã, com seu único olho suavizando por um instante.
— E eu usei cada vislumbre que tive para nos dar mais tempo. Não me arrependo de nada do que fiz. — Ele fez uma pausa, e o tom de voz tornou-se mais grave. — Todos aqui sabem do meu poder e das consequências de como ele foi conquistado, porém nem mesmo eu consigo ver tudo...
Luciel, impaciente com o tom fatalista, cruzou os braços. Seu instinto de general sentia que ainda havia peças faltando naquele quebra-cabeça. Ele fixou-se em Gust, cruzando os braços e arqueando as sobrancelhas.
— Gust, tem algo que você não está nos contando?
O mestre das visões sustentou o olhar do comandante, com o rosto sério e sem expressão.
— Não. Tudo o que vocês precisam saber para esta guerra, vocês já sabem.
Foi Zambo quem cortou a tensão entre os colegas; a voz soou dura e pragmática, como a de alguém que já aceitou a carnificina que estava por vir.
— Treinamos jovens, eles ficaram fortes, e agora está na hora do jogo. Confio em todos eles. E em você, Darius, podemos confiar?
Darius assentiu e encarou um por um, demonstrando sua confiança.
— Sim. Eu vou assumir a responsabilidade, afinal tenho sangue de um rei. E... se o mundo precisa culpar alguém, culpem a mim. Uma coisa vocês não sabem: os desaparecidos voltarão como cascas vazias, um exército de mortos controlados por criaturas que eu chamo de Ceifadores. E há mais Arautos.
— Como podemos lutar contra algo que mal conseguimos ferir? — perguntou Luciel, a pergunta prática do soldado.
— As criaturas do Vácuo têm fraquezas — respondeu Darius. Ele jogou uma bolsa de couro pesada sobre a mesa. Ela se abriu, revelando dezenas de escamas vermelhas que brilhavam como brasas. — Meus estudos em Nerevia provaram: eles são vulneráveis a relâmpago, fogo primordial e escamas de dragão.
Pegou a sua espada negra, tirou-a da bainha e mostrou-a para eles.
— Construí essa espada usando os cristais de Ignel, escamas da Elize, além de ela ser forjada com o próprio fogo primordial de Elize. Escrevi um encantamento; essa é a Matadora de Demônios e, se de nada adiantar, terei essa oportunidade para selar o Lorde Demônio. E eu não vou hesitar.
Luciel deu um passo à frente.
— Ótimo! Vamos levar para Stoneval. Os ferreiros de lá podem forjar armas com isso. É a nossa única vantagem real.
— Então está decidido — disse Zambo, com esforço, pondo-se de pé. Ele olhou para o jovem curandeiro. — Alexander, pode nos dar licença.
O rapaz assentiu rapidamente e saiu da sala, fechando a porta atrás de si, deixando os líderes sozinhos com o peso de uma guerra imprevisível. Zambo caminhou, ficando ao lado de Luciel e apoiando-se nele.
— Recuo total para Stoneval. Proteger a última Chave é a prioridade.
Todos assentiram.
— Vocês levarão a caravana pelo caminho seguro. Eu e Elize iremos pelos céus. Serei o batedor, limpando o caminho à frente e garantindo que nenhuma surpresa os encontre.
— Sei que deve ser sensível perguntar, mas o dragão é confiável? O Rei Ignel me disse que eles podem ser ferozes, e o Rei Rhanzur disse que precisa ser adestrada — a rainha perguntou, sem jeito.
— Eu acho que eles nunca tiveram um dragão; confio nela com minha vida. — Ele fez uma última varredura na sala, o olhar passando por cada um dos líderes. — Partimos em dois dias.
Sem esperar por uma aprovação, ele se virou e saiu da sala. Eryons Draven. O nome soava em sua mente como uma herança de cinzas e desgraça. Mas ele não era mais aquele príncipe. Ele havia sido forjado na dor, no exílio, na perda. Ele era a arma que se afiou sozinha no escuro. Ele era Darius Kaelen. E seria Darius Kaelen até o fim.
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À noite, em frente ao que restava do portão principal de Vórtex, os sobreviventes se reuniram. Zambo, apoiado em Luciel, subiu em uma plataforma improvisada de escombros. Sua voz, embora mais fraca, ainda carregava a autoridade de um Grão-Mestre.
— Sete anos atrás, muitos de vocês chegaram a nós como crianças assustadas — começou ele, o olhar passando por cada rosto cansado. — Hoje, são guerreiros fortes. A batalha por Vórtex acabou, mas a guerra está apenas começando. Nossa inteligência confirma: uma última Chave está em Stoneval. Partiremos ao amanhecer, depois de amanhã, para fazer nossa última frente de batalha. Essa jornada pode custar vidas, mas vocês treinaram para isso. Espero que estejam prontos.
Após o discurso, a multidão se dispersou em um murmúrio de preparativos. O grupo de amigos, no entanto, permaneceu, gravitando naturalmente em torno de Darius. Ryo foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Nossa, você ficou mais forte. Ouvi sobre o que você fez com aquele monstro... foi incrível, Darius.
Leonar, ao lado dele, cruzou os braços, com o rosto um pouco mais sério do que o habitual, tentando passar confiança.
— É, mas está mais sério do que antes — Darius comentou, percebendo que o amigo não diria nada.
— Sabe como é, né! Temos que matar o menino para virar um homem! — porém o sorriso torto surgiu nos lábios dele.
Um por um, Leonar, Ryo e Ryn tocaram o ombro de Darius, um gesto de apoio silencioso que dizia tudo o que as palavras não conseguiam: sobre a perda de Lior, sobre o ano que passou, sobre estarem juntos novamente.
Um som raro escapou dos lábios de Darius: uma risada curta e genuína enquanto olhava para os colegas.
— Olhem só para vocês. Cresceram. Fiquei sabendo o que fizeram na ponte. — Ele apertou os ombros dos gêmeos e olhou diretamente para Leonar. — Obrigado por cuidar deles todo esse tempo. Continua firme como uma rocha.
— Uma montanha! — corrigiu ele, cruzando os braços. — Somos uma equipe — ele completou.
— Mas não estamos todos aqui. Maya, Stella e Alexander estão exaustos na enfermaria; Nike, a prima de Leonar, está louca organizando as defesas da caravana. Ignes e Mikkel haviam voltado para Ignel; acredito que já devem estar em Stoneval esperando por nós. — Ryn se aproximou de Darius e colocou as duas mãos sobre seus ombros. — E agora que você voltou, estamos completos.
Stoneval.
O nome ecoou na mente de Darius, com gosto de pedra, ferro e uma arrogância familiar. O nome do lar de Rhazer.
— Stoneval... Por que será que esse nome me irrita? — perguntou retoricamente e soltou um suspiro, com um meio sorriso amargo surgindo em seus lábios. — Ignes e Mikkel me ajudaram há alguns meses em Nerevia e os vi; estão bem fortes.
Eles conversaram, trocaram experiências; principalmente os gêmeos tinham muito a falar.
Um tempo depois.
— Falando nisso... — disse Darius, capturando a atenção de todos. — Há alguém que eu preciso que vocês conheçam.
Ele ergueu o rosto para o céu cinzento e assobiou. O som agudo vibrou no ar. Por um instante, nada aconteceu. Então, surgiu um som distante, como um furacão contido, que crescia a cada segundo. Uma sombra gigantesca cobriu o acampamento e, do meio das nuvens, ela desceu.
Elize não pousou de forma ameaçadora. Suas asas imponentes bateram uma última vez, levantando uma lufada de ar quente, e ela tocou o chão com uma graça que contradizia seu tamanho colossal. Suas escamas vermelhas brilhavam como brasas vivas, e os olhos dourados, inteligentes e ancestrais, varreram o grupo. Leonar e os gêmeos recuaram um passo, com uma mistura de terror e fascinação em seus rostos.
Nesse momento, como um ponto de luz branca em meio às cinzas e à poeira do acampamento, Marsalla se aproximou. Seu braço estava imobilizado, mas ela vestia um vestido simples de tecido claro, e os cabelos ruivos e molhados denunciavam um banho recente. Ela parou, com os olhos verdes arregalados e a respiração presa na garganta diante da criatura mítica.
Quando o primeiro instinto dela foi recuar, Darius se moveu até encontrá-la e pousou as mãos suavemente sobre os ombros dela, um gesto firme e tranquilizador.
“Quem é esse tomate?”, a voz infantil e curiosa de Elize soou dentro da cabeça de Darius, fazendo-o soltar um risinho baixo e genuíno que surpreendeu a todos.
— Dragões não confiam de forma tão fácil — explicou Darius, com o sorriso ainda nos lábios, o olhar passando por cada um de seus amigos. — Deixem que ela sinta o cheiro de vocês. Não tenham medo.
Ele segurou a mão de Marsalla com delicadeza e a guiou, lentamente, até a ponta do focinho de Elize. A dragoa, imensa e poderosa, baixou a cabeça devagar. Marsalla prendeu a respiração quando as narinas de Elize a tocaram. E então, a dragoa soltou um ronronar baixo e profundo, uma vibração que percorreu a mente de Darius.
“Cheiro bom. Cheiro doce”, confirmou, observando as duas. “Cheirava a flores e a recomeços. Um cheiro de paz, em um mundo que ele só conhecia pela guerra. Um cheiro perigoso.”
Depois, foi a vez de Leonar. O guerreiro de Stoneval se aproximou com um respeito cauteloso, com a mão estendida. Elize o cheirou demoradamente antes de soltar um bufo de fumaça morna, um sinal de aceitação que fez o guerreiro sorrir. Os gêmeos foram os próximos, a hesitação inicial dando lugar a uma curiosidade infantil que os fez tocar as escamas com uma admiração pura, com os olhos brilhando.
Enquanto isso, o acampamento inteiro havia parado. As pessoas observavam de longe, em um silêncio reverente. Soldados que antes limpavam suas armas agora estavam imóveis. Refugiados que cozinhavam em fogueiras improvisadas se levantaram. Crianças apontavam, não com medo, mas com um fascínio que beirava a adoração. Todos já haviam ouvido falar sobre o dragão milagroso que aniquilou o Abissal, mas vê-lo de perto, dócil e majestoso, era uma mistura avassaladora de esperança e assombro.
Com os amigos agora mais relaxados, rindo e admirando a majestade de Elize, Darius se aproximou dela e encostou a testa na dela. O mundo ao redor, com seus sussurros e olhares, pareceu desaparecer. Em silêncio, ele projetou seu pensamento, um juramento gravado com a força de sua alma na mente dela, para que ela nunca se esquecesse:
“Meus amigos. Eu me importo mais com eles do que com qualquer outra coisa. Se um dia eu não estiver mais aqui... quero que você os proteja.”